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10 de janeiro de 2006

Mariana & Carolina

A gente rima. Uma rima implícita, claro. Não há estética a nossa semelhança. Mas a gente rima. Adoro quando você brinca... Adoro quando você é séria... Adoro o modo como você cumpre a penitência.

7 de janeiro de 2006

5 de janeiro de 2006

Marido

Esta palavra soa-me como um acontecimento frígido ao qual deram demasiada importância; soa-me pejorativa: ma-ri-do. Compromisso genital. Coincidências tamanhas que culminam em incesto. Despoesia. Alienação da volúpia. Canteiros de planos com vazio de espécies.

2 de janeiro de 2006

À espera de serviços públicos

Os pronunciamentos deste mundo de tijolos geralmente não me deixam elétrica. Ao contrário, bate-me uma tristeza... Uma ameaça de morte; de silêncio absoluto. Fico vendo os incumbidos da luta material à espera dos prolixos serviços públicos. O Serviço Público é sócio dos deuses do apodrecimento das vidas. Daqui a 10 dias voltarei para pegar novas safras de senhas. Onde será que ficam as hortas de tanta senha. Já era para ter se esgotado a matéria. E os 10 dias? 10 dias é muito. Em 10 dias o Tempo materializa nosso teto, tinge nosso teto, expõe joalherias no teto; transforma a juventude da cereja em velhice precoce; natureza viva, em dez dias, pode vir a ser natureza morta; um bebê - sujeito oculto- torna-se uma pronúncia de Deus; em dez dias, tudo que um dia foi a bengala de um lindo gerúndio se conclui no pretérito. Esperarei com calma, afinal a Vida que se materializou nesta moda não é nenhuma atleta; é um mísero artesanato de mãos antiqüíssimas e estrangeiras; um artesanato que não contemporiza; um artesanato nada camaleão; um artesanato absorto.
FIM

1 de janeiro de 2006

Inteligência

Dar palanque e microfone ao povoado da memória. Talvez sejam os músculos da memória os incumbidos da inteligência. É a esta conclusão que me induzem meus canteiros da razão. Mas acho que a inteligência transcende o bom desempenho dos gravadores... Inteligência é ser Deus; inaugurar-se em todas as artes, talvez.

31 de dezembro de 2005

Novo Tempo

Há mais uma porção latente de Tempo. Tanto sadismo vindo de longe. E eu tenho que desfazer a casa para ele se alojar.

28 de dezembro de 2005

Lavar roupas

Lavar roupas equivale a prazeres artificiais. Há total isenção da alma. E, quando as águas vão mal, não há melhor alopatia.

24 de dezembro de 2005

Natal

Natal: dia de comemorar o Mundo; todo o Panteísmo. Dia das oferendas infindáveis à alma, dia de música de vidro entre os povoados do cerne. Até dona Tristeza dá um jeito nas olheiras. Mas depois... Depois das comemorações canastras, bate-me uma frigidez colossal.

23 de dezembro de 2005

Chaplin

A parte elétrica da casa faz mímicas da libido. Uma energia abraça as áreas habitáveis. Como a eletricidade da volúpia se misturando à linfa. Mais uma vez a vida imitando a Vida.

21 de dezembro de 2005

Saudade

Saudade é prorrogar o velório. Adiar o enterro. Olhar para o defunto e lembrar-se somente das qualidades do passarinho que até então era gente.

19 de dezembro de 2005

Investimento

Quero-o para saciar minha libido
Quero-o para ser a nova poltrona da sala
Quero-o para saídas e leituras...
Para brigar e me fazer sofrer.
Porque terei certeza da eficácia da droga.
Ele será parte da dieta recomendada pela nutricionista.
Tá feita a encomenda.
Quanto lhe devo?

11 de dezembro de 2005

Status

Pretendo gozar do meu status como o passarinho faz. A tranqüilidade de um jardim me causa inveja. Mas sou este gerúndio... Este paradoxo à inércia. Quero saber ter orgasmos perante este movimento vivo.

Frigidez

Fico frígida perante elogios que fazem jus à gramática. Estética é coisa de esteta; de lingüista. Quero idéias maravilhosas materializadas em não sei o quê.

10 de dezembro de 2005

Trabalho Forçado

A matéria tem me dado trabalho. Dias de mal-estar. Dias de vontade de "dexistir"... Mas o valioso é escapar ilesa destes empecilhos.

8 de dezembro de 2005

7 de dezembro de 2005

Brinquedo

A boneca faz mímicas da Vida. E, à medida que o encantamento impúbere surge na criancinha, a boneca vai se fatigando e sucumbe. O homem tenta imitar o fôlego da Vida. Mas o mundo humano equivale a estátuas perfeitas, enormes, bem talhadas e paralíticas.

4 de dezembro de 2005

Ao Lindeza

Uma única receita rendeu duas porções: a minha alma e a alma do Lindeza se equivalem. A noite foi maravilhosa. A matéria e a música em uníssono. A presença aguda do Lindeza promovendo bônus às iguarias da Alma.

3 de dezembro de 2005

Pérolas do joalheiro

Da última vez em que deixei Maurício tomando conta da tartaruga, ela fugiu.

...

Empurrei a Kombi e ela não pegava. Depois, depois de ter dado uma volta no quarteirão, descobri que ela não tinha motor.

1 de dezembro de 2005

( i ) mundo

Enfim resolvi as pendências deste universo paralelo cujas pretensões são atingir a coerência. Mundo de tijolos; tão certo. Tão brega quando se junta à vida. Meia de bolas com camisa xadrez. Mundo da lógica que desmoraliza a truque da vida. Mas me livrei dele. Como um convencional que, subitamente, atenta-se à Vida. UFA!

30 de novembro de 2005

Insônia

Depois de uma noite à mercê; sem papel, entreguei-me às lágrimas. Não havia outra oportunidade. Tive que chorar para atenuar um pouco o câncer da alma; a isenção do corpo e a agudez da alma.
Desisti de lutar com todo músculo da alma em prol do sono; do "off". Escancarei a janela usando a mais alta potência do desespero. O desespero, quando materializado, repercute em estouro, erosão, poluição. Assim arranjo à alma um enfeite vindo do mundo.
Estou no colo do desespero. Minhas carícias saem de suas mãos, Oh!Desespero.
E, de repente, de olho ao infinito, vem vindo um ônibus. E o ônibus é quase um truque que equivale ao inexplicável. Ele vem a desfilar sua grande vitrine de terra chinesa, se inicia perante a inércia de uma das faces do mundo e depois apaga-se como a morte ocultada por manobras humanas diante do ritual do enterro.

26 de novembro de 2005

Esquizofrenia

Minha esquizofrenia não demanda combustível. E acho que a loucura como conseqüência de uma dose de qualquer coisa perde seu mérito. Gosto de ser - eu e meu copo d´água - este letreiro de esquizofrenia

22 de novembro de 2005

Grite, Hospital

O silêncio - uma idéia cimentada por hospitais - contradiz com qualquer tipo de enfermidade: esta sempre equivale a um berro da natureza. Uma manifestação que não se acaba antes de ser percebida. Portanto, a partir de agora, infrinja a placa e grite em hospital. Em respeito à Vida.

TeXtículos

Meus orgasmos são sempre curtíssimos. Mas agudos. Não consigo encher uma folha de pensamentos. Nunca fiz jus ao padrão. E minhas idéias têm a força que se incorpora em formiguinha.

15 de novembro de 2005

Velha Vida, Alma Nova

A vida é velha. Coisa que já ficou invisível, à mercê de teias de aranhas. Não enxergo nada... Fico sem saber qual é a do Mundo. Vidas são inauguradas amiúde. A mesma vidinha que se manobra em um pernilongo é a vidinha que me serve de bengala. Sem esta imposição clandestina, minha equação culmina no Nada. A vida é velha... a vovó já levava na cesta de frutos o mistério do mundo. A engrenagem, que é dona de tudo, não usa o verbo "esbanjar, não explora seu lado cabotino. A vida que me é inerente há vinte anos rompe o acordo com um velho de setenta e quatro (hoje li na "Tribuna de Minas" que um sr. foi assassinado). E por que a força vital é tão tênue? Por que uma contração humana consegue extirpar a dedicação tão obscura do Fado? Temos uma interseção com a miscelânea que se organiza em ovo. E por falar em ovo, lembrei-me da metafísica da Clarice. E lembrar da Clarice é atiçar novidade à alma... E atiçar novidade à alma é demandar atitudes da Velha Vida. Afinal, sou fantoche.

14 de novembro de 2005

Tijolos do Mundo

Não sei o que é que fica incumbido de manter o mundo em dia. Meu corpo demanda matéria para se manter ereto. As frutas estão chegando. Maioridades se fazendo. Bebê desvirginando a epiderme da mamãe. Vento ventando, chuva chovendo. Matérias, enfim, se inaugurando à Vida. O mundo é a conseqüência do que não se sabe.

12 de novembro de 2005

Inconsciência

Sou um pronunciamento de matérias cheias de formas, cores, texturas, espessuras. E assim é o mundo em sua íntegra. Somos a consciência da epiderme de tudo. Somos a conseqüência de um mundo a que não temos acesso. Assim como minha massa inaugura-se a esta existência, a forma inerente à formiguinha o faz. Tudo com que convivemos no ínterim da vida é um desconhecimento total. As vidas são estréias de matérias oriundas de um lugar revestido por um sigilo absoluto. A vida é uma orquestra acontecendo, um tricô autodidata se fazendo, um grande e enigmático instantâneo.
Somos coisas concluídas, ainda que em infindável mutação. Somos um universo dinâmico, rápido, forte e, no entanto, mudo, dissimuladíssimo. E ficamos à mercê. A ignorância já nos elegeu padrões. E assim a gente fica à espera das matérias que se agigantam ao longo da vida... E assim a gente associa as incertezas que constituem o âmago aos acontecimentos mundanos. É assustador ter a vida como a própria bengala e desconhecê-la por inteiro. Somos todos cegos que se conformam com matéria pronta.

9 de novembro de 2005

Sobrenatural

Tudo que fica na vigília da vida é sobrenatural. Bônus de matérias me seguem até o último grito de vida; a alma com sua versatilidade inerente é minha bengala. E dela (da alma)eu nada sei. A vida é utopia pura. Ela vai me seguindo à frente; jamais estou em dia com ela.

8 de novembro de 2005

Matéria Humana

A matéria humana é pretexto para o mundo se pronunciar. O mundo nítido a estes olhos órgãos estrangeiros e o mundo de que não se sabe nada.

6 de novembro de 2005

Flores gringas

Uma flor no ápice do vigor se elege a mim. Vem gringa a me pegar absorta. E, de repente, muda de textura, resseca e, ainda assim, insiste em, pelo menos, manter seu esqueleto ereto.

4 de novembro de 2005

Tudo é instantâneo

A vida é súbita. Não há prévios esqueletos e planos. Não há reserva ao futuro. Tudo é instantâneo. O futuro se resume a um instantâneo da Natureza se manifestando em cernes de gente, em cores de frutos, em confecção de passarinhos.
Enquanto a sociedade se preocupa em fluir de acordo com a bengala da lógica, a vida, a genuína vida - a qual esmagamos perante o dia-a-dia, tem como tônica a ilogicidade.

29 de outubro de 2005

Universo Paralelo

Sou o mundo. Mas o mundo duo. Enquanto meu materialismo coincide com o materialismo de formas, cores, texturas, espessuras, dinâmica, meu impalpável enxerga as abstrações do âmago. Olhos: tenho-os aos montes, em excesso. Olhos estrangeiros, que saem do mundo do Nada e desembocam no mundo do Tudo. "Olhos órgãos". Olhos virgens ao dia-a-dia. As minhas sensações trazem consigo olhos: alguns míopes, alguns hipermétropes, alguns puros e perfeitos.

23 de outubro de 2005

Mundana

Nesse fim de semana me esqueci de meus jardins intrínsecos. Abstive-me das flores de hesitação. Dediquei-me ao corpo. À diversão da carne. À dança mundana. Ao jogo de fêmea que demanda seduzir alguém apaixonante. Pus uma indumentária preta, uma nova epiderme a minha epiderme diária, horária, cansativa e fui à rua, ao som, a gentes de todo tipo. Diverti. Preenchi a plenitude dos solos mais superficiais da essência. E hoje estou mais alma. Estou mais Carolina. Ontem fui uma alegoria qualquer.

21 de outubro de 2005

Rapaz libidinoso

O jardim da saudade se sobrepõe ao jardim da libido. Esta sai do baú de tempos de fundo de caneca. Novas águas equivalem a novos tempos. Novos tempos me sopram a libido e as ervas da saudade entram em uma orquestra perfeita.
Aquele rapaz é libidinoso. E a libido faz bem a minhas terras murchas. A libido faz crescer flores raras, faz colorir meus céus, faz atrair pássaros inéditos.
A libido é matéria de que necessito. Mas depois que meus ventos intrínsecos erradicam o instantâneo da libido, ficam lacunas em minha vigília.
Libido e cerne nunca entram em um acordo.

16 de outubro de 2005

A mais fresca insegurança

Mudam-se as estéticas das flores. Mas a engrenagem que as faz é a mesma. Estou à mercê de uma insegurança. Estou perante um jardim versátil, moderno e, ao mesmo tempo, tradicional.

14 de outubro de 2005

Receita Errada

Há quem possua um ingrediente indevido. Às vezes sobressai o mal. Sobressai o monstro. Em todo resto há mesmas vidas sendo setas à nossa condição.

12 de outubro de 2005

Terreno Baldio

Abstenho-me de depilações amiúde. Detesto estabelecer cancelas à velocidade da Natureza. Estou com o terreno cujas gramas são orquestra em incessante atividade. Fiquei nua ao mistério, à estranha existência dos pêlos que não param de se proliferar. Não cansam de existir. Vêm do mundo do Nada e desembocam no mundo do tudo. Os pêlos são da religião das gramas.

Com licença

Meu corpo é um desrespeito. Vão acontecendo bônus de células sem minha permissão. As tristezas, à deriva, reúnem-se em sindicatos. A volúpia rompe águas de lagoa, delineia-se ao vento da vida e se faz inteligível a meu interruptor. Liga-se, enfim, radicando eletricidade ao asilo do corpo.

11 de outubro de 2005

À espera do livro

Estava ansiosa para que meu livro chegasse. Compararam tanto as minhas escritas com as da poeta da década de 70, que eu fiquei aflita, aflitíssima para conhecê-la, apalpá-la, estuprar a minha curiosidade. Demorou. Demorou muito. A avidez foi gritando a mim, expandiu-se, tornou-se uma árvore robusta com direito à mudança de cores e de espessuras. Minha árvore foi assassinada hoje, com a chegada de uma vida travestida de palavras a minha casa.

9 de outubro de 2005

Milagre

Consegui estar. E depois disso vivo um sexo infindável com o delineador dos dias. A vida coincidindo com asfalto, sinais, cimento, uniformes, roupas, maquiagens. Viver é a maior força da tapeação dos dias. E nem se dá importância à existência. Os nossos jardins começam a se manifestar de acordo com as circunstâncias banais do cotidiano.

8 de outubro de 2005

Orgasmos Múltiplos

Viver é estar à mercê das oscilantes intensidades que se inclinam a tudo que compõe a vida. Até a palma da minha mão atinge o clímax quando, entregue a um feixe de água, culmina no que há de mais agradável à pele. O ouvido chega ao ápice quando coincide com os fios sonoros criados por Bach. O paladar transcende quando cutuca a tônica do brigadeiro. Meu olfato vive sua multidão com os ares da cozinha logo cedo, habitada pelo café. A visão chega à plenitude no momento em que um pássaro preto e branco esbanja a vitrine exímia de uma vaidade da Natureza. Viver são orgasmos múltiplos oriundos da fluidez do Tempo.

Segredo

O segredo tem prazo curto. Curtíssimo. O segredo não vive. É segredo por não contribuir à engrenagem da existência. No entanto, no momento em que deixa de ser a inconsciência, ganha todo o palco da existência. A partir do "dessegredo" é que se tem acesso à vida.

7 de outubro de 2005

Uníssono

Por que nasci gente? Que estranha fatalidade da vida: incumbir minha existência da condição humana. Eu queria nascer pássaro, que vive em uníssono. Viver o duo de ser humano é mero martírio.

5 de outubro de 2005

Recepção

Enquanto minha vida morre à noite, diante do estupro do sono, o mundo prepara a recepção a mim, para logo cedo, quando eu retomar a consciência da vida.

3 de outubro de 2005

Dessabedoria

Tenho a cega capacidade de enxergar. A insipidez que culmina no paladar. O surdo dom de ouvir. A inodora fonte do prazer de cheirar. A insensível sensibilidade de tatear. Viver é gozar o tudo de que não se sabe.

1 de outubro de 2005

A Mariana, meu amor

Mariana, que fado pesado para o tempo, hein?! Incumbir-se de você não é atividade fácil. Incumbir-se de você demanda trabalho árduo, diário, horário. Não sei por que você ganhou existência como gente, querida. Você, com essa sua essência evoluída, merecia um patamar superior de vida. O bom é que eu posso degustar da sua companhia, do seu amor, da sua plenitude, da sua perfeição.
Mariana, involuntariamente, meu cerne elegeu você como o grande amor da minha vida, como a evasão para meus momentos de solidão, de depressão, de sofrimento, como a complexidade que me assalta diariamente perguntando: por que brotei nesse lugar habitado por criaturas tão fantásticas?
Marianinha, ser espectador de você é presenciar o céu em dia de estética privilegiada, é ouvir "ária na 4ª corda" e transcender até os bastidores da existência. Estar com você é me esparramar integralmente e aliviar meu coração.
Te amo. O tempo nunca se esquecerá de manter nosso amor casto em dia.

Do seu bichinho-da-seda,
Carol.

30 de setembro de 2005

Ao garoto que é meu avesso

Hoje não estou exata à consciência. Não sei por que delinearam formas aos sentimentos, afinal o curioso da abstração é a abstração. O tempo me consome com misturas indecifráveis, com forças órfãs como a minha existência.
Amei com o sublinhado da libido meramente. E isto culmina em escassez de vida; em erosão, em solidão, em sabotagem à própria alma. Mas, com isso, saciei certas tendências inerentes à vida. Refleti inúmeros fluxos de vida. Avistei outras vidas até então latentes em mim.
Não quero podar jardins alheios. Quero sexo com meus jardins intrínsecos. Quero transcender o tempo como caracol. Redundantemente voltada a mim, à minha descoberta. E depois sairei com pé-sim e pé-não ao mundo.
Só serei o outro quando eu me for.
Decidi.

28 de setembro de 2005

O mesmo pronome

Ele pode ser um novo verbo à minha vida. Uma promessa que atiça certas raridades. Uma experiência que se assemelha a blusas idênticas sobrepostas. Ele é um dia de sol tímido, de chuva rala, de ventos gozando com pudor, sem derrubar vasos de jardim.
Ele é este milagre da existência, mas sem sabê-lo. Ele preocupa-se com a estética e em ser sociável. Mas é a eloqüência de um troglodita. Carrega uma volúpia que jura dela ser isento. Ele é um travesti... Afinal, fala o contrário das palavras originais que lhe vêm à mente.
Ele é a repetição da Natureza. Mas usa da bengala (que nos torna deuses) como instrumento de erosão às flores do inconsciente. Quero um incumbido da Natureza mais dedicado à linfa, mais espectador-ator dos versos que se delineiam espontaneamente à consciência.
Queria um amor - ponte à área de difícil penetrabilidade às ondas do cerne. Um amor que me conduzisse a um crime qualquer. E o fizesse involuntariamente. Queria o sabor mais agudo das manifestações da Natureza. Porque, quando isso se faz é a hora de desvirginar-se de vez. E obter o orgasmo de cada engrenagem viva que se compromete com a Vida.

25 de setembro de 2005

Reflexões

A vida é moderna. Ela sempre se apresenta seguindo a mais recente intervenção do Fado.
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O inconsciente é esteta. Ele é exímio na preparação de uma sensação.
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Engravido de vida todo dia.
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A vida insiste em minha vida.
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Tempo é o nome que se dá às mudanças de máscara do mundo.
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Delineio meu inconsciente. É tão exótico desenvolver estética à abstração... à abstração intrínseca da gente.

22 de setembro de 2005

CAROLINA

Carolina rima com menina. E o que é menina? É ter uma vagina? Ou aspirações diferentes das dos meninos? Às vezes nem me lembro do Fado de menina. Fico apenas sendo essa vida assexuada das vidas que me habitam.
A tristeza não se exibe com saias, com paetês na indumentária. A depressão não disfarça olheiras com base, a alegria não pinta as unhas de vermelho. O mau-humor não se segura em um sutiã.
Sou palco à manifestação do mundo, como sr. Zé, Dnª. Zuleide, o cãozinho Xavier, a tartaruga Ruth, a begônia Marli, o passarinho Zeca, O Rio São Francisco, o milho Chico.

21 de setembro de 2005

Inveja

Inveja é inerente à existência. Como a manifestação ousada das sensações. Invejar é colorir o âmago com uma só cor e castrar assim a manifestação da selva colorida e heterogênea que é a vida. Imagino a Floresta Amazônica escondendo o verde, o marrom, o vermelho, o roxo, o azul claro, o rosa e exibindo somente um cinza insípido que não atiça sentimentos humanos. Isso é inveja.
Inveja é estar com a piscina "cheia de ratos". A inveja consome nossa linfa, nossa poesia, nossa oportunidade de estarmos a par do Tempo. Meu "eu" é vencido pelo Império Onipotente da inveja. Mas, eu "desafio o instinto dissonante".

Viva Renato e Cazuza... os quais, com certeza, já se manifestaram em outra forma de existência. Em uma coisa mais valiosa e mais superior que a condição de humano.

19 de setembro de 2005

18 de setembro de 2005

Depois da Festa

Depois da intensidade, da inconsciência estimulada pelas cores, formas e sons mundanos, restam lacunas cinzas, secas. Feito a morte vivendo sem findar. Gozar à noite é válido para a noite. Para o dia já seria muito labor: sol a exibir-se, azul purinho. Felicidade seria demais, seria demanda enorme a disposições pequenas. As almas ficam sem sentidos, ficam fracas como a profundidade dos estetas.

15 de setembro de 2005

Espiões

A vida me espia. É isto. O céu está vivendo inteiramente sobre a vida que me habita. O passarinho passa rapidamente incumbido com essa gigantesca receita que é a vida. O vento surge com sua vida outorgada. A palmeira esbanja seu talhe, seu verde recente e seu amarelo que sucumbiu à força da vida que vive por detrás do sol. O som do raio existindo e as cores menos exploradas pela Natureza se pronunciam. A vida é esse feixe de matéria e de essência de que não se sabe. A vida é a força de um roxo-violeta, de um músculo se manifestando, de uma onda anêmica do mar, de uma tempestade instantânea, de um cochicho das aves, de um contorcionismo de macaco. A Vida. A vida. São em nome de que essas tapeações ao Tempo? Para que ir, resolver e concluir tudo? Não se sabe o resultado da infindável equação de existir. Soma-se tudo e chega-se ao Nada?

14 de setembro de 2005

Carolina e Natureza

Não consigo. Tento, tento, tento. O céu muda de moda, o canto do galo cala, os pés se preparam para a volta. O dia se foi. A noite prepara-se a um novo dia. A menarca assalta a vida da mocinha. A vida se cala e eu não chego a conclusões. Não chego a conclusões. Não-chego-a-conclusões. Nãochegoaconclusões.
A Natureza nunca se finda... tantos vermelhos em rosas, em bicos de passarinhos, em bicos de bustos. Vermelho é força. Como o músculo adquirido em um trabalho árduo. Vermelho... minha tara. O vermelho gritando em maçãs, desfilando em rosas, exuberante em bocas libidinosas. O vermelho anêmico pelo cansaço. O vermelho pálido da derradeira fatia de vida. E vem o amarelo, o VERDE para eu poetar sempre mais e mais. A força da vida que vive em tudo. O suor com sua transparência inerente me habitanto agora... O mundo é o que não se sabe. Sabe-se muito até atingir o patamar de plena sabedoria: a de não saber nada.

13 de setembro de 2005

Quantidade de Vida

Não sei o quanto de vida tem para me ser.
Será que ainda há muita vida querendo me viver?
Quando será que meus ouvidos se cansarão de ouvir?
Meus olhos, de ver?
Quando meus sonhos deixarão de sê-los?
Quando?
Quando a vida não mais me for,
será que outras vidas virão em corpos
Com bustos por se fazer?
Quando a vida não mais me for,
De que virão os incipientes seres?
Virão pretos?
Virão ricos?
Virão em época de trabalho árduo da Natureza?
Virão junto às flores?

12 de setembro de 2005

O Mundo em nossas mãos

Com a caneta grito meu mundo mais íntimo. As eloqüências mudas da alma ganham vida. Como o amarelo que fica até certo ponto latente e depois se manifesta em uma rosa à deriva. Como a acústica dos passarinhos que entra na engrenagem de existir.

Mundar

Viver é mundar.
O som é porque meus ouvidos são
A cor é porque meus olhos são.
Não haveria Bach se não houvesse ouvidos.
Não haveria vermelho se não houvesse minha visão.

Vivo? Não.
Mundo.

O mundo me é.
A cada passo o céu se exibe
A cada ida a volta se aproxima
O Tempo é meu sexo infindável.

O Tempo é a libido, o desespero,
A morte, a solidão, a alegria.
Ojeriza. Tesão. Fugacidade.

10 de setembro de 2005

Nascer

Quis nascer em outrora. Para ter o paladar do "não ser". Só sou porque existe em mim uma tal de consciência. E ser consciente da inconsciência é enlouquecedor.

7 de setembro de 2005

Companhia

Demando companhia
Como a estrela demanda a escuridão para cintilar
Como a maçã demanda o vermelho para ser maçã
Como o som demanda trampolim para ser som.

Demando companhia
Como o desespero precisa de grito,
Quebras,
Entrega,
Desejo de morte.

Demando companhia,
Como a necessidade imposta de um espirro.

Demando companhia,
Como a salvação de um "mais lá que cá".

5 de setembro de 2005

Vivendo

A vida é viva
Como o som pronunciado
E, só então, sendo som.
A vida é viva em orquídeas
No contorcionismo dos passarinhos.

A vida é viva na minha tristeza
Nesta casca que é o máximo que conheço
A vida é viva nas casas com cheiro de bolo
O cheiro é vida
E o senti-lo também.

A vida é tudo que, despudoradamente, gruda na alma
E fica latejando e fazendo rir e fazendo crescer
Os troncos do nosso império.

Nosso império de insistências
Nosso império de paixões unilaterais
Nosso império de libidos e "dessabedoria" de tudo.

2 de setembro de 2005

Saudade

Saudade é um abuso à nossa fatia esteta
É reconhecer rosas tênues em grande quantidade de rosas
A saudade é uma moda forte, de inverno
Amores indo bem são modas de verão
Mas o que precede são panos, panos
E os efeitos são sempre
Estéticas monumentais.

Saudade é adrenalina que gruda
E leva a longas caminhadas
E retorna cheia de seqüelas.

Saudade é alienar-se do Mundo
E desvirginar a metafísica
Que vive como espiã da Vida de tudo.

30 de agosto de 2005

Versos de um Amigo

Eles chegam a mim como o mundo nasce ao meu despertar.


"... Colhem de minha expressão
muito mais do que eu
posso dar; muito
mais do que sou."

"Exista, tão somente
para perceber
que os meus versos
são livres,
apesar de presos
a você."
Hernany Tafuri

Acho que o amor é essa vassalagem à inconsciência.

29 de agosto de 2005

Engrenagem do Mundo

Quantas carecas incipientes
Crianças com o primeiro passo da existência
Olhos decididos: serão azuis
Local em que irá brotar mais uma vida:
África.

Ganhar existência nem sempre é privilégio
Às vezes o Fado é pesado.

Ganham vida como cão,
mas em corpo de gente.

27 de agosto de 2005

Anticorpos

A Vida é anticorpo à própria vida. Pele, cílios, pêlos. Por que não se pode ficar desprotegido e, absolutamente nu, estando à mercê das vidas outorgadas de tudo que se vive?

26 de agosto de 2005

Plenitude

Rosas povoando o território com suas formas, cores e indecência inerentes. A Natureza sabe a exata hora de ser plena, feito amores de amantes, feito a tristeza e a séria alegria de criança.

24 de agosto de 2005

Estética de tudo

Conheço minha superfície mais fina e a estética das variações da alma. Somos todos estetas. Tenho perfeita consciência de minhas fatias, de minhas doses de bondade, maldade, pequenez, grandeza e nada sei disso tudo. Conheço somente o arremate da minha vida, nada mais.

23 de agosto de 2005

Tempo Maestro

O Tempo afina minha voz. Emenda meu crescimento com perfeição. Desvirgina a planície vigente da infância: palco à nova estampa: o busto. O Tempo vai declamando a vida amiúde, faz o itinerário do martírio ficar mais próximo, me mostra as cores horríveis de amores unilaterais. O Tempo são meus passos, meu atraso, minha poesia, a paixão, a volúpia, a compaixão, a ditadura, enfim, a vida. Nunca estou só. O Tempo se incumbe diariamente de ser esta menina.

21 de agosto de 2005

Fim de noite, início de dia

Dia incumbido.
Noite mal dormida.
O dia flui como um riacho:
Contorcionista

A sombra me espera de tarde
E o sol se esconde
E aparece
E eu me escondo
E ele aparece

Não posso reclamar de solidão
Afinal sou o mundo.

O mundo só é porque eu sou.
O dia em que eu não mais for
O mundo também não mais será.

19 de agosto de 2005

Jardim

Decidi me incumbir dos cuidados com o Jardim. Isto é ponte à Metafísica. Tantos amarelos, tantos rosas, tantas formas, texturas e eu com esta minha ditadura inerente. A Ditadura de existir... e de ser soprada ao Nada depois. O Jardim me espanta... é carona ao infinito, aos bastidores desta Vida transeunte. Como diria meu grande amor, Clarice, somos um espasmo do mundo.

14 de agosto de 2005

Tudo sai do Nada

Consegui concentrar a dedicação da Terra
Consegui existir
Agora estou fadada ao ar
Às cores e formas
Às enormes sensações,
Mudas,
Silenciosas,
Mas, às vezes, danosas
Erosivas.
Este é o preço de existir.

13 de agosto de 2005

Beijo: Matéria-prima à Filosofia

Natureza viva esta nossa. Sempre alerta. De repente, a volúpia latente se manifesta. Grita a nós: "Eu existo". Como o sorriso do âmago que existe quieto e, às vezes se mostra. Como o salgado da lágrima. Como as modas da alma que se repetem sempre perante o novo, perante o velho, perante o agorinha.

6 de agosto de 2005

Rio de Janeiro

Amanhã irei ao Rio de Janeiro com Mariana e Mario. Meus amores. Meus amores simultâneos. E, malgrado eu não gostar de sol e de praia, quero ter o mar por uns momentos. É que ultimamente a Natureza tem me deixado perplexa.

31 de julho de 2005

Ganhei uma tartaruga

O mesmo enigma que se vira com a minha vida é o mistério que encobre a dinâmica da tartaruga e sua natação perfeita. Tão estranho o monstrinho que não sucumbe à força dos mares. Mais um fantochezinho ao Acaso. Um medo sem consciência. Um instinto de que não se sabe. Um meio de a infindável Vida se manifestar. Quanto será que ainda existe de vida? Quanto tem de vida querendo ser vivida? Eu se fosse vida, escolheria ser árvore num campo virgem. Num campo que ficasse incessantemente à mercê de mim mesma se manifestando em outras caras: Céus, ares, chuvas e sóis tímidos.

29 de julho de 2005

Gentileza

Grande gentileza é a chance de viver
Não apelei por nada
E, ainda assim, deram-me o mundo
Maior filantropia é a vida.

Filantropia sem anúncios em jornal
Filantropia desprovida de vaidades.

Palmas à vida.

A qualquer coisa que é

GENTE: Palco à manifestação do Mundo. Palco com chão incessantemente modificado.
Palco às diferenças. Palco a tudo. Não sou. O mundo é que, ousadamente, me é. O mundo me é brigadeiro. O mundo me é o cheiro de tinta fresca. O mundo me é Bach. O mundo me é a beleza que constrange. O mundo me são cólicas horrorosas. O mundo me é grande nostalgia e rara vaidade. O dia em que o mundo quiser, ele não mais me será.
Se fosse por mim, eu não seria o mundo assim. Eu seria o mundo antes. Ou seria uma árvore: Também palco para as manifestações suspeitas das cores e das formas. Eu gosto de ter livre acesso a tudo. Gosto de ser transeunte.
Eu acabei sendo, talvez para dar chance a amores ganharem verbo. Acabei sendo para que as lágrimas pudessem ser. Acabei sendo para assistir ao espetáculo indecente da rosa se exibindo. Acabei sendo a fim de idealizar com mais realce o que, duramente, é real. Sou, na verdade, a total entrega às manobras do Tempo.

28 de julho de 2005

Coisas

Faço meu mundo: Seleciono folhas e céus. Vivo a clausura do Paraíso. E, depois, um sopro vindo do mesmo nada que dita as modas da alma, apaga tudo que estava na lousa. À mercê de olhos alheios.

Fugacidade

Tão pequenas minhas pernas
Tão anêmica minha chance:
Posso fazer esculturas com o tempo futuro
Mas meu fôlego não o alcança.

Mamãe Natureza grita:
1,2,3 e já:
Processo,
Está pronto: Pode viver
Desgaste: Manobra do corpo
Fadiga à alma
Perde-se o Mundo.

Perde-se a chance de estar
E estar, de vez em quando,
É bom.

27 de julho de 2005

O Elemento Fogo

Nunca um instantâneo foi tão presente como no fogo. Fogo: Imediato calor, imediata cor, imediata dinâmica, imediata velocidade. Viver é um grande experimento. Nada é concluído e sempre tudo está disponível. Disponível a acontecer. Disponível a incumbir-se com este feixe que faz a vida pronta viver de fato. Fogo: A identidade com a libido que surge e se alastra à consciência, ao corpo vivendo incessantemente. Somos encarregados da natureza. E, quando enfim se adapta ao mundo, às tristezas, às boas sensações, é a hora de dar chance a novas safras de coisas e de gentes e de seres viventes.

26 de julho de 2005

Grande concorrência

Quais essências são ávidas por este experimento que é a vida? Chega-se já sendo. E degusta-se o mundo amiúde. Com gosto ou mesmo indigestão.

24 de julho de 2005

Hoje

Hoje já está virando antigüidade
Amanhã o hoje já será coisa concluída
Hoje não.
Hoje ainda está tudo virgem
A se descobrir
A se fazer
A se constatar.

A alma está sendo delineada
E somente depois deste instante
É que se conclui o que se foi.

Hoje é o vento que se sente
Com o sopro.
Hoje é a conseqüência.

Hoje é a maior afirmação
De que se está vivo ainda
Acordei!
Mais incumbência ao Tempo.

Acústica

Força das entranhas
É o som.
Balde pesado que sai do fundo do poço
Esforços tênues
Desgaste íntimo.

Quanto véu sobre o nosso som
Não estou mesmo sozinha
A Natureza é infindavelmente viva
Em mim.
Neste mundo que me é.

Meu som.
Tambor de veias, esqueletos
Minha voz... única
Os bastidores do som
Da voz.

Minha interseção com pássaros
O que inspira a invenção de um piano:
Deus personificado.

Deus sou eu com este mundo
Em dinâmica íntima.

E tudo do homem
São deuses personificados.

Queria entender o esforço
Que permite meu verbo
E os ouvidos, ouvem sem preço.

A voz demanda labor.
E o som é um átomo de deus.

15 de julho de 2005

Meus sisos inclusos

Desconheci minha natureza. Desconheci o que me era. Dois sisos a tirar. Nada de pânico. Nada de medo. Nada de ansiedade. Apenas matéria-prima para a razão manipular. Fiquei dias a pensar na timidez de meus dentes, na brancura, na rigidez, na origem. Principalmente na origem dos dentes. A Natureza, coitada! tão incumbida. Tantos e tantos a crescer. Tantos e tantos a nascer. Tantos e tantos em início de calvície. Tantos vermelhos a tantas rosas. Tantas formas e pouquíssimos erros. Tantas águas a movimentar. Tanto vento a ventar. Tanto sol a esquentar. Tantas menarcas. Tantas menopausas. E a Mãezona preocupou-se com meus sisos. Ela é o melhor exemplo de simultaneidade. Enquanto o corpo cresce em mim, ele murcha num desses atletas do tempo. Enquanto a felicidade é moda à minha razão, o desespero paira no corpo de um coitado. Quanta digressão.

13 de julho de 2005

Solidão

Uma nova existência culmina numa nova solidão. Em nova fonte de cores de onde se pode tirá-las. No sabor e no reconhecimento do sabor. No odor. No semblante do mundo. No barulho do mundo. Ser novo é a conseqüência de grande concentração da Natureza. Atingir a condição de ser é um privilégio.

Viver: O Destino

Viver é o meu destino. Eu poderia ser matéria não-viva; aliás, matéria viva a quem realmente tem vida. Uma areia, por exemplo, que é vida a mãos, a pés de um vivente. Tudo sai do mesmo e grande balaio. E por que é que eu fui incumbida?
Há o que vem para exposição. Como um rubi. Como uma esmeralda. Há o que vem para ser processado. Como uma flor atingindo a condição de árvore. Há o que vem como fantoche. Um sapo vivendo o que vive nele. Há o que vem como palco à manifestação do mundo: Eu, você, ele, ela, nós, vós, eles...
Antes de eu existir o mundo era latente. As cores não eram porque meus olhos ainda não eram. O som não era nem silêncio. O som simplesmente não sucumbia à escuridão de tudo que ainda não existe. Mas a escuridão existe. Não consigo imaginar o que é que não existe. Como será a não-existência? O sabor era a insipidez. Mas esta é mero repouso bucal. Talvez a maçã fosse só um esboço. A fragrância da noite passou a ser, de fato, depois da tarde em que eu e o mundo resolvemos ser um uníssono. Enquanto eu não era a vida, não sei qual era a incumbência do mundo.

9 de julho de 2005

Nada

Leveza virgem ao peso dos momentos.

Tapeação

Existem sensações que preferem o celibato. Ainda assim, insistem em lhes arrumar companhia. Ao tédio dão toda a arcada, na tentativa de, com mandíbulas em pura dinâmica, fisgar uma felicidadezinha.

O mais novo superlativo à literatura

Dia insosso aquele. Ali estava eu: Entregue ao tempo - que se consumia meramente; que sequer esbanjava o azul renovado do dia-após-dia.
Tempo anêmico. Sentimento anêmico. Pilha de jornal lido, manipulado, estuprado. Total desinteresse. Estava vivendo tudo que me vivia. E tudo que me vivia estava frígido.
...
(Mamãe): -Carolina, olha aqui no jornal: Uma matéria sobre blogs.
(Carolina): -Rapidinho mãe, tô ouvindo música.
(M.): -Tá aqui separado o jornal.
(C.): -OK! Daqui a pouco eu leio.
Carol reserva o som a um outro feixe de instante. Vai para a sala e avidamente lê os aplausos aos textos de Danilo. E depois lê alguns trechos de Danilo. Trechos que são decotes a rapazes libidinosos. Sucumbe. Vai à grande caixa de textos do Danilo. E apalpa aquele dia como uma boa fragrância se faz sentir.

www.danilozero.blogspot.com

4 de julho de 2005

Grande balaio

À espera do meu ônibus. Fluxos das filiais de todos os lugares indo e vindo e quebrando no meio do caminho. O Brasil ali, esperando um conserto rápido. O Brasil querendo chegar em casa. O Brasil cansado do trabalho redundante. O Brasil em trapos. E eu distante. Equivalho a toda a quilometragem diária da linha 526. E isso em átomos de segundo. Vi uma jovenzinha a ostentar sua linda barriga. Acho que ela está na idade do excesso de libido, da demanda de auto-afirmação. Um velho atônito neste mundo de novas gentes, de sínteses simultâneas de gentes. Ele é um mártir que não sucumbe ao tempo. Com certeza, já viu a arquitetura se mudar. Já foi à última hospedagem na Terra de um grande amigo. Já tem deficiências orgânicas. Tem que se salvar um pouco todos os dias. Quanto do mundo já se perdeu e ele, o velho, o sr., o que um dia já me foi também, continua concluindo seu tempo. Quando meu tempo for o dele ele terá se tornado um buquê de nem sei o quê.

Às claras

Ser, de fato, é tudo que se vive por aí
A onça não é dinâmica a se admirar.
A onça é a vida do seu pêlo,
A onça é a porção de bravura
A onça é o berçário,
A maturidade,
O poder bandido de seus dentes.

O sapo são verde e marrom
São o movimento sempre presente
São a elasticidade
São olhos atentos.
O sapo é um incumbido de amostras.
O sapo é a vaidade de um experimentador.

As pétalas reprimidas são a margarida
As pétalas respeitando o círculo
Ego de alguma professorinha mal amada
Que manda em nome da estética da ordem.

Minha voz é uma fatia dos sons disponíveis
Meu pensamento é o moinho que me foi cedido
Desde que vim a este Estranho
Meus cabelos são as infindáveis safras de ninhos
Meus olhos são o observatório do mundo
Do mundo em sua escala original.
Estranho!
Arranha-céus gigantes e olhos tão pequenos
E estes vêem aqueles em tamanho real
Meu ar: Uma discórdia involuntária
Precisa-se viver.

E quando se precisa de vida
Há sempre o que se respirar
Viver é o inesgotável;
É o tudo de que não se sabe.

26 de junho de 2005

Frete

Neste itinerário Vida X Morte, em que serei transformada? Virarei matéria-prima a buquês lindíssimos de rosas vermelhas, serei meras minhocas a trabalhar na terra, serei o verde da vitrine dos grilos? A vida é o incessante processo. Talvez eu sirva de azul ao infindável céu das tardes. Talvez eu seja a cegueira de uma vida que virá em um corpo qualquer, num barraco sórdido ou num palácio impregnado de nostalgia. Quando se morre congela-se tantos ares, tantos comportamentos da alma. A alma repete-se. Usa a mesma indumentária. Quando se morre, aumenta-se a vida do nosso poço inerente. Quando se morre, aproxima-se da cortina vermelha dos bastidores desta coisa efêmera. Destas trocentas carcaças incumbidas de me ser. Morrer é conceder toda a vida às outras coisas viventes.

Moda da Bondade

Creio que a bondade tem sua própria vaidade
Quando se é bom, a alma se produz
A alma chega à razão num galopante desfile
Desfile que agrada todo o âmago.

Ser bom é transcender a conotação humana,
É dar atitude à pretensão do cerne.
Ser bom não são ensaios, nem eloqüências.

Ser bom demanda sentido à natureza.
À natureza do intrínseco.

Ser bom vem dos bastidores destes corpos.
Sai da aquarela dos céus.
Sai dos talhes das flores.
Sai do calor que grita no verão.

22 de junho de 2005

Pote do Tempo

Hoje de tarde saí. Saí como espectadora das matérias em sua dinâmica. Vi um velhinho com as pálpebras gastas, à mercê. Imaginei aquelas pálpebras jovens e fiquei em dúvida: Onde será que o tempo guarda a matéria que se consumiu? Onde será que o tempo guarda o preto dos atuais cabelos brancos? Onde será que o tempo guarda a planície que hoje é o relevo imposto dos meus seios?

20 de junho de 2005

Festa

Preciso extravasar. Já não agüento este império redundante dos dias. A própria ambiência demanda excessos: Chuvas em escala industrial, sóis que transformam o chão em frigideira, vermelho indecente de flores inéditas a estes meus "olhos órgãos". Preciso sair da clausura que tanto me agradou nestes dias, mas que já virou clichê. E sair desta clausura é entrar em outras clausuras. As dos indivíduos muito mundanos. A prisão dos convencionais. A prisão dos que contemporizam a modas vigentes - Ora as dos céus que estabelecem o que deve se fazer de acordo com o semblante do dia, ora a recomendada pela razão, pelo bom senso. Disseram-me para não falar, para não olhar, para não comentar. Preferem o gozo na clandestinidade. Eu não escolho lugar a gozar. E querem um gozo moderado. Que paradoxo: Gozar é exceder-se. Não quero a mim uma vida previsível. Não quero sucumbir ao peso da manada. Quero ser este fluido enigmático que é inerente à existência.

16 de junho de 2005

Ele

Enfim cheguei à conclusão de que existe o mundo porque existo. O dia em que eu deixar de existir, as árvores perderão suas cores inerentes. As árvores ficarão a novas criaturas. A morte e ressurreição dos beijinhos americanos serão cinema a outros. O sol não mais me esquentará, que estranho. Minha consciência não terá mais consciência. E a vida, esta minha vida, não vai além de mera consciência. Sou fatias. Sou circunstâncias. Sou dores.
Ele emendou diversos sentimentos que são o solo da minha natureza mais intrínseca. Ele me fez sentir mais a minha própria vida. Ele encaminhou-me, sem senhas, ao poço. Ele me mostrou a grandeza frágil de se viver. Ele intensificou minha imunda condição de transeunte, de objeto fugaz. Ele foi nada para um espectador qualquer. Ele é esteta, pequeno como criatura humana, ele se esparrama com facilidade em vidinhas alheias.
Ele foi trivial para a manutenção de sensações das quais a Natureza sozinha não dá conta. Ele foi importante feito os apelos didáticos dos professoresinhos. Ele é enciclopédico e isso, às vezes, irrita. Porque acaba sendo um pote de vaidades. E vaidade esconde o jogo, rompe com as verdades mórbidas da gente.

13 de junho de 2005

O Presidente viu meus textos

Num dia desses, ao abrir este sustentáculo à minha sobrevivência, deparei-me com um parecer acerca do meu texto. Antes de constatar o que estava escrito ali, fui inflando meu ego. Quase explodi. Mas me salvei, ufa! E, à medida que lia o comentário, minha vaidade foi murchando, murchando e morreu. Morreu naquela hora. Não havia elogios, não havia menosprezo, não havia sequer indiferença. Havia uma grande insipidez que pediu emprestado ao abecedário algumas formasinhas para se tornar nítida. Será que, pelo fato de ter sido alguém renomado o leitor do meu texto, eu posso completar o tanque da minha vaidade? Será que a mera contração das mãos de um mito já é o suficiente para eu me gabar pelo resto da vida? Sei lá! Prefiro elogios vindos dos olhos nublados do sr.Júlio, do sr. Raimundo, do sr. Zé, do sr. Mário.

6 de junho de 2005

Pequeno Dicionário

AMAR: Sinônimo de seqüela. Como comer pão com lingüiça em lanchonete suspeita. Quem se inicia no processo de amar está fadado a receber súbitos gritos e dores que assustam o âmago.

DETESTAR: Verbo transeunte. Não há estacionamento a este verbo. Ele é efêmero feito o rosa-vivo dos beijinhos. "Detestar" é o minuto que acabou de passar e, com certeza, erradicou vidas e desvirginou uma fatia de ar com novas vidas.

TEMPO: Toda estética dos céus. A montanha-russa - única diversão da temperatura. O insuportável peso das poças d´água que se manifestam como chuva. O exibicionismo indecente do sol. A aeróbica inerente dos ventos.