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1 de julho de 2006

Acordes

Sábado. Toda a parafernália soprando ao encontro da Felicidade. Isenção de pendências sociais. Liberdade à Vida. Esta oferece às vezes o nocivo... Vai, sutil e gradativamente, extirpando as boas possibilidades de se viver bem, com tranqüilidade ao menos.
Ontem apelei a meus dotes culinários, decidi fazer um bolo, uma vez que o ovo do tédio iniciou-se num processo de trinca. Tapeio. Tapeio com meus próprios novelos... Com os tricôs que, quase outorgadamente fui induzida a aprender fazer. Ainda bem que desenvolvi o escapismo através das mãos... Ainda bem que consigo dissimular fortes intempéries com o compenetrado comportamento das palavras.
Mas ainda há restos de um côncavo solitário... Que atrai poeiras, que sofre o frio sem anticorpos, que sofre o calor que esturrica, que sofre a prepotência inabalável dos Tempos ditatoriais.
A orquestra flui nos ensaios... A consciência fica em vigília e em infindável refeição do bom, do apetitoso. Num súbito, quando se chega a hora da amostra, há um deslize, um tropeço inconsciente. E me quedo a depressões. Malditas, bruxas Onildas; não estava apta à vida.
Meu muro de lamentações tem massas salgadas frescas... Que não esbarrem em sua mais nova arquitetura. Meu muro de lamentações vive em reformas. Mas o coquetel de vitaminas e antidepressivos e tarjas pretas tem me ajudado a suportar. Suportar um gringo intragável que insiste em se alojar nas minhas dependências.

29 de junho de 2006

Janeiro, fevereiro, março, abril, maio, junho, julho, agosto, setembro, outubro, novembro, dezembro

O quanto a vida tem se entendido. De repente, os moinhos de ar me perseguem, me garantem o vigor, ainda que um vigor anêmico de, simplesmente, ter o Mundo a meus sentidos.
Atualizo minha arte que agora sucumbiu ao Populismo das mais novas tecnologias. Há os registros de todos os textos publicados, há os meses do ano, há os dias do ano, há os meus fôlegos temíveis. Há créditos à matéria. Grande camaleão. Grande clichê bordado com novos recursos.
Comungam a mesma hesitação. Quem se dispõe a isso torna-se, numa manobra de céus, arteiro. Os demais vão tapeando os ventos com janelas delgadas feito a eternidade em que se acredita. Quem duvida a vida envereda a um vício qualquer. Inevitável. Fatal.
Sem o advento da linguagem, talvez meus sentimentos pronunciar-se-iam na gangorra de berros e contorções. Seria o reflexo de sóis, de matas, de qualquer substância culminada em Mundo.
Mas as palavras concentram minhas vicissitudes... Censuram e endireitam os primitivismos. Mas não conseguem encontrar o que me assola. Apenas batizam as ramificações dos martírios. Batismos enfileirados... Fileiras à espera de martírios. E idolatram quem deu nome aos bois. Meros observadores das conseqüências com que convivemos. Observe. Esteja alerta. Novos Einsteins despedaçar-se-ão em promessas de vida humana.

Terreno Baldio

Passeio diário. Necessário. Comum a meus dias de juventude. No ínterim da velhice, se é que minhas tendências ciganas não falhem, enveredarei a programas agitados e serei pretexto a chacotas. Porque a natureza púbere é ágil, dinâmica, inquieta. E a minha puberdade é o lado avesso que não pinica. Sinto-me à vontade ao colo do sossego, da liberdade sem propulsões.
O carro agiliza as canelas e me encanta, ainda que a tecnologia me remeta a um plágio furreca, vez por outra. Mas os genéricos têm surtido bons efeitos. Os teatros têm tido boa repercussão. Fomos passear desvirginando superfícies previsíveis. Na volta, também previsível, num súbito, perscrutei, involuntariamente, o terreno que fica a uns cinqüenta metros da minha casa.
As gramas entraram em maturação rapidamente... Estão enormes, verdinhas, e aos mutirões. Transcenderam os muros que as condenam. Há até uma porta de ferro sugerindo que ali existem habitantes. Habitantes que não se contentam com a imensidão daquele terreno. Habitantes que demandam notoriedade. A porta fica fechada, mas se sabe exatamente o que se acontece naquelas dependências. A vida ali é fácil. Tão disponível quanto matérias e matérias humanas.
Morada do inanimado. Requinte de portas e muros ao inanimado. Há deuses que prescindem dos agasalhos humanos: as gramas o são. E deuses que sacodem a Vida moribundos desde os primeiros segundos de exposição à aragem precisam da dignidade de civilização para sobreviver. Quantas gerações de vidas quaisquer devem ter sido extirpadas? Penso fixamente nisso. O deus – homem é sim muito potente. Sabe sustentar seus fortes instintos de sobrevivência através de uma fila de adventos.
Casaco, sapato, portas, janelas, temperaturas-dentaduras, dentaduras, telhados, casas, linguagens...

28 de junho de 2006

Devoção aos ponteiros

Bussunda.
O próprio batismo já se tornou uma boa conotação de uma estrofe ilustre. Tanta fidelidade à fragrância que lhe era inerente: humor. Devoção ao talento, desafio... Enorme desafio para se chegar ao trabalho – lazer.
A Natureza, numa distração em que o balão de gás sobe, privou Claudio Besserman Vianna, o Bussunda, da maturidade – quando iluminada por luzes pejorativas que o ser maduro pode vir a ter. Bussunda era um quarentão criançola.
Morte súbita. Naturalmente, as arcadas se apartaram, como símbolo da perplexidade. O Brasil, no frenesi da Copa do Mundo parou... Não como a brincadeira “Estátua”, mas como a necessidade outorgada de um espirro.
O previsível da vida é taxado a mixarias. Sabe-se em que culminará a vida. Sabe-se, porém, não se sente a vastidão de negritude que acolhe a monstruosidade de se existir.
Ícones da mídia, utopias, aqueles que formam o novelo das famílias parecem ter um contrato sigiloso e inédito com o Tempo. A morte, em nossas filosofias, é a praia onde a onda do mar quebra-se e não atinge nossos pés. A morte inclina-se ao diálogo lúdico com a ingenuidade de adulto. Não se sente a morte. Como não se sabe os incipientes momentos da vida.
Os espectadores pensavam que Bussunda seria emperiquitado pelas gradativas decadências agregadas à evolução da condição humana. Evolui-se agudamente para se voltar ao princípio do qual nada se sabe.
Mas, Cláudio, Sinvaldo, Murilo, Sofia, Carolina, Nina, André, Marcos Paulo, Juscelino... Pertencem ao comum da Vida. E o trânsito vital é um extenso dessentido. O comum é uma anomalia enorme. O Mundo é anômalo.
Ficaram tristes durante o funeral do humorista. Enorme instantâneo. Instantâneo aparentemente sem ecos. Porque já sucumbiram aos decotes palpáveis. Já riram. Talvez isso seja uma tapeação fajuta ao martírio. Mas, creio que, quando é hora de se martirizar, é necessária a vassalagem à pose dos ponteiros.

27 de junho de 2006

Semblante dominical

Terça-feira. Ampulheta se mutilando para culminar em não sei o quê. O dia se constrange e acaba sucumbindo à prepotência da noite. O dia seguiu em aeronave. Lavaram-se roupas. Fizeram sanduíches. Interagiram com as mais frescas destrezas do computador: instantâneo.
O dia quietou-se. Agora mostra sua outra face. Ou esconde sua nitidez. À tarde, seleção em campo, inquieta, ávida, estendida a todos os continentes através da pretensão dos televisores. A tecnologia me surpreende e me é raquítica. Esta quando penso que é mero plágio da Onipotência. Mas é sábia porque demanda labor intelectual.
O futebol culmina em estouros, gritarias, ansiedades, empolgações e irritabilidade. Quem gosta, em época de Copa se eriça todo. Quem detesta, em época de Copa beira o suicídio.
Terça-feira com todo o instrumento de que se dispõe o domingo. Quietude, insipidez, sumiço dos ecos da Copa do Mundo. Silêncio de Hospital. Os bichos humanos, em suas moradas artificiais, escondem-se uns dos outros. A própria espécie é uma ameaça a todos. Canibalismo disfarçado. Todos temem a genuinidade. Porque podem acabar nas arcadas dos receptores de sentimentos e de emanações de qualquer estirpe. Resquícios de presas em caninos alheios.
É mais conveniente se tatuar de anticorpos, de cercas elétricas. Mas, inibe-se a vida, inibe-se o Deus inerente a cada vital ofertado. É preferível quebrar-se amiúde a ser canastrão e se privar de ser em prol de um temor.
A arte salva a carência. A arte tem dignidade suprema... Não deturpa o que há de bom, como acontece com a espécie humana. O processo humano deforma os tesouros com as salivas do sadismo. É uma pena. É uma penitência se viver em meio a gentes e gentes. Tenho certeza de que em um formigueiro há muito mais respeito e lealdade.

Primitivismo

Por que a prepotência da Vida a fisgou? Pô-la como espécie humana, a se arriscar em violências íntimas? Assim tem sido. Há vinte e um anos. E só agora Clara descobriu o quão ríspido é disputar os ares.
À mercê do comum. Do que eriça tristemente as epidermes desmedidas da população interiorana. Um legítimo sarcasmo lhe é mais digerível que um menosprezo frio e intelectualmente aceitável.
Percebeu, de acordo com seu processo de maturação, que os incompetentes desdenham de outrem em prol de um anel de ouro dezoito quilates ao tão abominável ego. Ter ego e diariamente demandar a lida com o bichinho camaleão é-lhe algo maçante.
Envolve-se com seus congêneres por pureza, por acreditar que a dissonância entre os espectros vivos e os sinais da carne é evidente. Esparrama-se nas dentaduras. E mastigam-na, sem grandes esforços, até reduzi-la à péssima sensação da perplexidade. Esta lhe causa descontrole corpóreo, inquietude da alma.
A Candura e a Bondade e a Autenticidade eram suas máximas. É óbvio que, perante a condição humana, diamante ela não era... Mas sua espontaneidade aromatizava a ambiência com um bem-estar enorme.
Maurício, amigo por quem Clara tem grande admiração, desnuda-se amiúde a ela. Mostra-lhe as arcadas potentes. Mostra-lhe o silêncio anárquico. Mostra-lhe que as ficções têm remetentes somente nela. E é assim que é: o bom é depositar empenhos e liberdades limitadas no inanimado ou naquilo que não se aproveitou de quem não mais compete com o Tempo. Que saudade do meu tio Walter, com seus radicalismos engraçados, com seu capricho explícito com a vida. Que saudade do que me é agora utopia. Mas, Maurício apenas bafora seus hálitos de ervas de origens desconhecidas. A Natureza o colocou em cesto de razão... Mas não o fixou à humildade do dessaber. Racionalizar pode ser nocivo a certas carnes. Nada tem as próprias bússolas... E, dependendo da musicalidade do expressar-se, dependendo da escolha do carnaval, desmorona-se o mundo de Clara.
Volta para a casa com uma goma de mascar. Decepção. Preço de banana. Em qualquer canto de qualquer amontoado se consegue essa goma. E no momento em que a língua torna o sabor insípido, a relação fica frígida, alegórica, dinâmica, embora paralítica. Conclui-se que a grande companheira da vida é a Solidão.
A onipotência nos enfia o Mundo goela abaixo. E, hesitante, nossa ampulheta se consome... Erra o círculo. Passa com sofrimento a outras partes a viver. A providência ousa com o outro, porque não se arrisca. Para pôr a própria pele em estiletes é necessário insanidade. Esta é interessante a se observar. Grande laboratório. Depois, chega-se a hora de materiais recentes serem degustados.
Baralho de solidões.

24 de junho de 2006

Van Gogh

As janelas, à noite, que me são contemporâneas, acalentam minha solidão. Solidões aos mutirões, devotas do Nada. Respeitam, pincelando no embaçar, o Nada. Uma solidão agregada a outras solidões culmina num triste e estendido solitário padrão.
Abro a janela de vidro... Entrego minha face à aragem que se excita com as frestas da janela de madeira. Numa fatal decisão ajo e escancaro as árvores talhadas em janelas. E espio a ambiência. Vejo um edifício que, neste instante, provavelmente simula mortes. Uma janela de banheiro mantém-se acesa. Talvez para clarear indiretamente o quarto... Talvez para acolher um incômodo orgânico do morador.
Tudo está provisoriamente morto. Os homens morrem para ter fôlego ao desenrolar do tapete amanhã. As cores... Houve um genocídio oriundo da negritude dos céus que as matou. Lei do recolhimento. A Natureza flui com seu pedantismo inerente... E eu não compactuo com o Nazismo. Por isso morro paulatinamente.
Sinto o esfarelar da ossada... Diminuo as medidas... E a alma enclausura-se em um pequeno quadrado de ar viciado.
Acabo por trocar os desenhos de um único sentido.

Bolo

Júlia competiu com o fôlego daquela sexta-feira inconveniente. Empecilho de provas chatas a partir de matérias teóricas. Júlia tem integral ojeriza a teorias, a didáticas, a lógicas. Júlia vive porque lhe é outorgada essa infindável ação. Vive transcendendo a utopia dos céus.
Incrementa o vital com o incogitável. E ri plena perante o Mundo elaborado de criança que se atenta aos sentidos. Ri plena... O palhaço é real. A maturidade das óticas inorgânicas é de verde intenso, brilhante, vigoroso.
Os compromissos lhe atropelam o dia. Retocar o corte de cabelo. Como de praxe, pintar as unhas e lanchar a tempo de chegar em bom horário à prova. Toma chá de camomila, esquenta um pão e o arremata com pasta de queijo... Todos desempenham incumbências de pedreiros na hora da fome. Todos desempenham os talentos dos confeiteiros quando se saliva um destino ainda não predestinado.
Júlia fez a prova, voltou para casa a tempo de dar tempo ao telefonema. Ligou para o celular de Arnaldo; como detesta insistências, deu um tempo. Ligou novamente, chamou, chamou, chamou... À medida que a chamada era-lhe um eco, desnudou-se das expectativas. Ligou mais três vezes. Nada de atendê-la.
O dia passara preenchido, cansativo e a garota debruçou-se sobre a feliz expectativa da sedução primitiva e pudica da noite. Fez todos os afazeres com o grifo do bom sentimento. De repente, tudo o que o cigano havia predeterminado inverte-se. Não haverá encontro. Júlia frustra-se, como é legítimo no manual da Grande Proprietária da Vida.
Mas o bolo não terminará seco, mal acabado, insosso. A menina preparou-lhe uma linda cobertura... Cobertura de irritabilidade, frustração, desilusão, incipiente frieza e desprezo. E depois, apelando aos serviços do Sedex, mandará a obra arrematada para o doceiro despreparado.

23 de junho de 2006

Caracol

Da boca pra fora. Minha maior pretensão. Como os decalques das projeções do humano me fazem transbordar de inveja. Tenho inveja de quem se emperiquita às segundas-feiras; tenho inveja de quem salta perante um televisor com um número maior de polegadas; tenho inveja de quem fica tranqüilo no domingo, principalmente quando se é criança.
Minha língua copula minha goela. Ventos que meu aparelho bucal importa e estende ao âmago dão-lhe (a este) um calafrio irremediável. Desconforto. A vida vitimada pela Vida. Banditismo involuntário. Não há xadrez ao frio que mata... A tudo aquilo que mutila a alma. A vítima é que fica em penitência de segurança máxima, enclausurada nos ferimentos que jorram sangue e secam... Mas, de repente, esbarram-nos em uma superfície qualquer por um descuido qualquer e o sangue retorna à mangueira possante.
Mutilam a alma. E riem. Como se a gente dominasse nossos instintos. Parece que somente as crianças seguem as setas do instinto instantâneo. Os adultos tendem à canastrice. Abstêm-se das próprias vidas em prol de um espelho. Adultos são a imagem do real, embora não o sejam.
É tudo ficção mesmo. Mas a criança é devota das mentiras, dos desentendidos, a criança faz jus à vida, à miscelânea. À medida que se cresce e que os semáforos vão sendo fincados pelas mãos de outrem, inicia-se a morte da vida. Abdicam-se da vida em prol do que o maestro ensina. O maestro é da mesma estirpe... Ele não tem didáticas. Ele não sabe de nada. Apenas batiza coisas.
Que retorne a devoção a ficções. Credito fé nessa ressurreição. Serei mais feliz... Seremos mais serenos... Empertigados morrerão de falta de ar... Imponência sucumbirá. Ruínas aos estetas. Ficção.

22 de junho de 2006

Copa do Mundo de 2006

Viviane é frígida a partidas de futebol. Respeita, verdadeiramente, sem esforços, o amontoado de bichos humanos que se aconchegam à frente de um televisor para verem várias orquestras orgânicas em exímia execução.
Habilidades talentosíssimas que cobiçam a mesma presa. Codificação dos novos dias que ela fura; fura o tapete desenrolado do destino. E compromete-se – obrigatoriamente – com o novelo que não cede espaços a ninguém.
À medida que os enredos sociais se emolduravam, Viviane portava-se como trena. Preferia engolir a seco o ato cru que lhe regia a vida a projetá-lo em escapismos esportivos. Futebol. Alienação laboriosa. Corrida impensada feito a inércia do objeto vivo diante da Vida.
Embora o futebol não a incomodasse, a epidemia desse esporte, no entanto, alterava-lhe a eletricidade. Sobrecarga às tarefas dos nervos. Haja nervo.
Todos os veículos de comunicação soletram a mesma redação, com a mesma entonação, com uma ginga que se agarra em uma parte da partitura. E trava as mãos naquela dificuldade face a face à Viviane. Medo fatal perante uma fera. Íntegro tédio.
O ódio, que raras vezes era o semáforo verde da mulher, estava em pane. Era agora insistentemente verde. Verde porque havia berros, verde porque havia fogos a estourar sem falta de ar, verde porque cheiros inoportunos de churrasco eram importados pela flexibilidade dos ventos. Tudo isso para ovacionar a fúria de corpos em momentos exclusivamente atentos, orgânicos que promovem efeitos também orgânicos na vastidão de torcedores.
Copa irrita. Deprime Viviane. Ela queria adquirir felicidade súbita nessa grande movimentação que Imobiliza o Mundo.
Que acabe logo essa arcada escancarada de uma dentadura furreca.

20 de junho de 2006

Kama Sutra

Os parâmetros inquietaram-se. Bateram suas pesadas pernas e rebelaram-se contra eles mesmos. Genocídio de padrões. Tapete vermelho a postos do Atípico. De sua tão rara aparição.
Laila decidira sair ao sábado com sua irmã Cláudia para irem a um show de rock n´roll. A proposta de se extravasar jamais se projeta exclusivamente na causa da diversão. O show de rock n´roll era decalque a um grande prazer. O show, simplesmente. Mas, a platéia era inferior à quantidade dos dedos das mãos.
As bocas e bocas explanam, impensadamente, que uma boa companhia priva-se de um bom lugar. Tudo bem. Um novelo bicolor pode se entrosar legal sobre um chão de terras áridas, sobre um solo infértil. Mas, quando a relação dos consangüíneos vai às ruas, deseja-se, amiúde, impelir novos ares.
Os vendavais da consangüinidade são previsíveis. O Novo é sempre farejado pela estirpe humana. A bandinha possuía todos os trejeitos do sucesso, do valioso. Mas, o “pub” estava Saara. Não havia a quem se olhar, por quem se encantar, com quem conversar.
Laila e Cláudia decidiram fechar a conta e, num surto de aptidões, trocaram o roque pelo sertanejo. Laila tinha ojeriza às músicas desse estilo... Uma ou outra lhe era saudável. Mas, estava tudo bem. O público sertanejo – pertencente a um nicho sócio-cultural diferente das irmãs – era menos pudico; era mais discípulo da Natureza. Ao contrário dos estereotipados roqueiros.
Num vaivém de agudos, rebolados, gentes e mais gentes surge, à frente de Laila, dois brutamontes: maltratados pelo Tempo e pela própria nascença. Brutamontes evidentes e interiores. Falaram à mocinha (magrinha, discreta, sutil e tênue; muito tênue):
- Poxa! Imagina essa mulher na cama!
Laila – autêntica sem surpresas – respondeu-lhes:
-Não agüento nem meia masturbação, meus amigos (luzes e luzes de ironia a esse vocativo).
Como a majoritária espécie humana masculina trajada do Falo é carnívora, Cosmos.

19 de junho de 2006

Fotografias

A morte está estendida sobre esta mesa onde meus lamentos se consolidam na forma lingüística; na forma dos desenhos que equivalem a barulhos, sentimentos, momentos, multidões, solidões. Resolvo meus compromissos e volto a pé. Os pés – postiçamente – entrosam-se com as calçadas irregulares, com o asfalto mal acabado.
Paro aos arredores da área destinada à parada de ônibus. Observo, perscruto os fôlegos marítimos; invado as lojas com os olhos vivos; penso nas solidões alheias... Penso o Mundo segmentado em cada coisa que demanda as muletas cósmicas para deslizar nos terrenos que compõem a miscelânea das vidas naturais e artificiais. Imiscíveis. Miscíveis. Promíscuas. Pudicas.
Segunda-feira, legítimo motivo a depressões... Tento abster-me dos conteúdos do calendário... Tentativa vã. Os redemoinhos dos compromissos me engolem e eu morro... Privo-me do fundo e, obrigatoriamente, elevo-me à exposição da cara, da raquítica coragem de se viver em meio à civilização.
Também me encharco de martírio quando me submeto à vida primitiva... Vasculho-me e acho somente um pote vazio, empoeirado, à mercê. Solitário, inútil, alegórico e triste, muito triste. É quase a piedade perante o inanimado. O problema é a consciência disso.
As fotografias estão espalhadas sobre a mesa do computador, estão misturadas a controles remotos, a papéis com gigantes bilhetes de pendências burocratas, a CDs, a copos d´água, a estatuetazinhas que compõem a estética tonta do mogno bem arrematado.
Vovô está um senhor ativo, limpando a piscina do antigo sítio que nunca me fez bem. Sentia mal de âmago quando bem pequena, quando era domingo e decidíamos ir à granja. Não sei por quê... E, à medida que o dia se recolhia em noite, agigantava-se a sensação horrorosa de não sei o quê que me exprimia e me reduzia à única sensação de sofrimento. A posição congelada das fotos sempre me remete à posição involuntariamente inerte dos defuntos. Fotos são os nossos momentos de mortes súbitas.
As outras duas fotos que, com pedantismo, entraram por minha ótica e me surtiram efeitos nostálgicos são dos meus irmãos e dos meus priminhos ainda bacuris. Ainda lhes havia pouco orgânico; ainda não lhes havia bússolas inteligíveis. Ainda não me há. Mas, minhas pegadas seguem majoritariamente um rumo de sombras e calafrios. Rumo que me arrepia, que me faz de pesquisa do cume a que o ser humano pode chegar estando bem ou mal ou péssimo.

18 de junho de 2006

SolidÃO

Betânia crê na solidão dona de si. A mocinha, 19 anos, norteada pela aragem das pegadas modistas da sociedade, ainda não se sentou para pensar; não simplesmente pensar, mas sentir o quão hediondo é o ato fugitivo de se viver.
Ela é belíssima, vive sob confortos exagerados que acabam por culminar em luxo, sai deslizando em asfaltos, desvirginando terrenos a paquerar e ser paquerada. Ama a direção. Sente-se poderosa. Íntegro instinto se proclamando.
Somos muito amigas, apesar de nossas semelhanças serem a proximidade das Américas com a Ásia. Vira e mexe Betânia bate campainha e os olhos da garota denotam uma carência de papo, de mostruário de sentimentozinhos. Eu adoro. Nossos novelos se entrosam facilmente. Ao fim, uma linda peça estilo mocinha nostálgica fica pronta.
Pensávamos – eu, Lívia e ela, Betânia – que a solidão era o diagrama que continha as mazelas dos nossos corpos e das nossas almas. Eu tropecei em uma enorme rocha, sangrei, fiquei plena de dor e pensei na condição de bebê aconchegado em braços firmes, sem R.G., embora sempre presentes.
Betânia ainda se culpa pelos próprios desleixos. Não tateou a própria escravidão. Ser escravo é válido quando se tende a se culpar por algum ato indigno. Quando se é monitorado, a culpa cabe às mãos do manipulador. Ser escravo é péssimo, em se tratando do xadrez sem uma nesga de luz onde somos submetidos a viver.
Que a Humanidade descobrisse a vassalagem. A alforria é somente a morte, creio. Que a morte seja integral inconsciência... Mas, enquanto se vive, inevitavelmente, fica-se à mercê da Rosa-dos-ventos do tão antigo Tempo.
Em sua mais recente visita, minha querida prima e amiga e amor trouxe-me um saco com um monte de roupas lindas. Ela veste-se muitíssimo bem. E eu adoro receber objetos que já foram revestidos por auras de pessoas de que gosto. Comprar uma roupa nova é agradável... Mas bate-me uma sensação de levar o Instituto Médico Legal para casa. Um mortinho, por um motivo qualquer, pousou em uma loja... E agora ele ressuscita com meu fraco fôlego de salva-vida. A roupa usada já fora revivida por outras habilidades. Uma adoção. Uma filantropia que mexe com as poças do meu bem-estar. Meu altruísmo é um egoísmo que saliva minha insipidez.

De mim a mim

Um dos espectros que me atormentam diz-me todo dia: apegue-se a uma felicidadezinha; ainda que você se dependure nela; ainda que demande (a felicidade) esforços, potência de seus cândidos bracinhos.
Lista de sugestões, manual de “como atingir a felicidade em um minuto?”, instruções a se viver bem. Espectros me bitolam... Tentam me bitolar. Tentam fazer com que eu não resista às baforadas do Feliz. Este, geralmente, tem um escapismo com que pode contar a todo tempo. A Vida é ladrão foragido da própria vida. Perseguições. Por isso o infindável temor.
Peixe fora do hábitat em mãos ressecadas. Peixes escorregadios. Gauche. Receita de Vida: à base de antidepressivos, alopatias, iogas, forças musculares. Escapismos. Uma paixão falsamente dissimulada, joguetes falsamente despretensiosos. Espero que eu me finque em uma nesga de seu coração. Será tão bom para um novelo macio se fazer; que nasça um “nós”. E que o nós chegue a ser consciente... Que o nós não morra feto.
É a você – por enquanto embaçado por um codinome – que dedico esta prosa

Velocidade de avião em solo

Todo meu contemporâneo sucumbirá. Que as sobras saibam gozar todo o dolorido fôlego que insistiu; que esteve em minha vigília. Mutirões de pretéritos, de promessas, de frescores a participar de meu redemoinho.
O panteísmo espanta a fragilidade de minha alma. Monstros ensurdecedores; monstros mudos. Mostruário de anestesias. Mostruário de dor. Mostruário de regozijo.
Desabafo com o inanimado, porque os ânimos já estão esgotados. A casa está morta, como obra em andamento à noite, sem a aura dos pedreiros. A casa é a suma inércia, porque todos dormem e fisgam outras moradas ininteligíveis.
Face a face com uma das mímicas da vida. As imitações são quase sempre iguais, mas persiste uma balbuciada que os ouvidos não captam. Feixe de solos desconhecidos a cegos ousados; a poetas. Poetas são míseros cegos petulantes.
Volto de uma adrenalina insana. Ilógica como a ação do existir. E desnudo-me. E coloco o pijama e retiro o decalque da maquiagem... Junto ao processo de depuração, existe uma ginástica em que a alma se estende a ponto de rachar. Racha em jardins de inverno de tristeza, alegrias-defuntas, nostalgia. Vasta nostalgia.
Bônus de mesquinhez do que é bom. Enorme mesquinhez. Cancelas ultra - modernas à liberdade cobiçada pelas salivas, indicada pelos livros, inexistente.
A plenitude não altera céus. A plenitude não se acomoda despudoradamente no orgânico. A plenitude talvez demande a morte, a “dexistência”. E antecipar céus me apavora... Temo as engrenagens possantes do signo da interrogação.

17 de junho de 2006

Mulher Fatal

Bolsa de Valores. Inquietude das finanças. Abstinência do trivial, do aconchego à alma. A favor da estética... Vaivém de pagamentos, dívidas agigantadas, fileira de empréstimos.
Loira, corpo preenchido; corpo que, num instantâneo, faz da estirpe masculina a condição de cigano (em conotação Rodriguiana). Gos-to-sa. Comportamento de deusa mitológica onipotente.
Os homens salivam perante um artesanato inflado e uma personalidade carinhosamente batizada de Temperamental. Lígia dirige-se a Cláudio (com quem tem um filho) com acidez, prepotência. Ela tem mil justificativas para isso, afinal é um capricho das mãos ocultas da Vida. Que arremate! Uau!
“Mulher Fatal”. Concentração de deturpações. O Fatal sai de continentes inimagináveis. O Fatal é que rege as Lígias, as Carolinas, as senhoritas, as donas sem status. Ser fatal é imperícia do humano.
Fatal é a grande utopia da Existência

16 de junho de 2006

Desalmados

Propriedades humanas. Sentidos em alerta no tapete estendido do Tempo. As várias mortes dos sonos não me agregam a um postiço silêncio do Vasto e Curioso “silêncio – desfecho”.
Vida dinâmica. Incansável doméstica cujo trabalho lhe está sempre vivo. Está tudo orgânico. “Outdoors” orgânicos, asfaltos orgânicos, semáforos orgânicos, corpos e almas orgânicos.
Almas vivas... Bem vivas. Mercúrios que têm como fado as aragens gringas. A alma se locomove de acordo com as varetas inquietas de mãos cegas. Almas. O maior caminhão das toneladas de não sei o quê, perante estradas deformadas pelo próprio Cosmos e pelas vidas artificiais dos carros.
Corpo suave. Quarenta e cinco quilos e quinhentos gramas. De manhã, exatos quarenta e cinco quilos. Transporte leve... Não são necessárias grandes intrigas com os ares; o corpo flui em junção aos ares.
Alma perturbada. Iogue que não se adaptou às didáticas que visam ao equilíbrio. Iogue forte. Embora hesitante; sem bússola; redemoinhos atraentes.
Todo manual que consta a estirpe humana. Pela transparência da sanidade, tudo parece estar em suas devidas poltronas... A alma, no entanto, faltou-lhe. Carnívoros... Devoradores de carnes humanas. Resquícios das presas nas arcadas.
Lamento os desalmados. Por, talvez, cobiçá-los a mim mesma. Gostaria de dessentir todo meu sofrimento que contempla uma nostalgia sem remetentes.

13 de junho de 2006

Luftal

Margareth demandava um pudor praticamente outorgado. Não sei de onde nascem as convenções, e nem cobiço o embrião de padrões. Acho que parâmetros são grandes despropósitos que sugerem os trejeitos da Vida. Dessentido vital, ilogicidade artificial.
A senhora, senhora não; Margareth não se casou; teve apenas um filho e insiste despercebidamente em comportamentos púberes. Margareth acredita em seus amores utópicos, mutila-se perante um prego abstrato que lhe põem. Cinqüenta e quatro anos e ainda firme, verde na consistência dos dedos do materno. Parece-me que ela não se desprendeu dos galhos... É a suma carência; é a farmácia de, exclusivamente, anticorpos a qualquer emanação que não lhe agrade.
Margareth, ainda que sinalizada pelas vestes humanas, detém uma das peculiaridades dos felinos; dos gatos especificamente. Ela possui sete, setenta, sete vezes setenta vidas. Vive sobre o berço de alopatias. Talvez, a eficácia das suas cartelas de vidinhas inertes, embora possantes, equivalha ao efeito nocivo de doses exacerbadas, overdoses de cocaínas. A senhorita antecipa o futuro pensado pelos cientistas – os quais dizem que, num momento não tão distante, as pessoas viverão de cápsulas e não precisarão dos genocídios da Natureza.
Ela já condicionou a língua, o esôfago, os copos de água e o cerne à recepção das mortezinhas de efeitos bem vivos dos comprimidos – carnavalescos. Alguns respeitam as alegorias da paz e estão sempre de branco, outros são ousados, fúteis... Gostam de estar a par das modas. Das cores atingidas pelo Homem. Margareth toma muitos comprimidos como precaução a possíveis mazelas, como uma carência psicológica também. Mas, o pudor de que necessita para se expor em sociedade é sério. Sério feito a estampa de um empedernido jurista que entra num elevador pleno de sinônimos e sente-se deus... Deus que precisa de uma estética para dizer tudo que tem a dizer.
Margareth, perante a civilização, é contraída. Denotativamente contraída. Contrai-se temendo que a acústica odorífera de um pum a tenha como remetente e os arredores como destinatários. Pum. Um gesto outorgado foi traduzido como monstros. Monstruosa é a incessante contração de dona senhorita. Ela estabeleceu a hora exata de seu compromisso com o velho amigo e divã Luftal. Marcou de encontrá-lo sozinho. Daí, poderia ela – Margareth – soltar-se despudoradamente. Orquestra próspera. Orquestra autodidata; não houve ensaios aos sons, mas eles saem naturalmente. E os cheiros são metáforas, ainda que pejorativas, à vida dela.

12 de junho de 2006

Marravilha

Meu coração se eriça com a Língua Portuguesa. Desde o momento incipiente em que tive contato com as vogais, com as consoantes, com o casamento das vogais – casam-se inúmeras vezes; vogais carnívoras, despudoradas na pior das conotações; gostei das miscelâneas consonantais.
Dei-me bem, muito bem com a musicalidade, com o desenho, com os utópicos sentidos das palavras. Palavras. Minha tábua de salvação... Meu melhor escapismo perante a vida feita unicamente de escapismos. O tempo todo a gente está correndo do que nos foi concedido. Sem medos; sem pressas... Naturalmente, sem se saber por quê. Corre, moço. Corre, moça. Corre, criança. Vamos tapear esta tontura, esta enorme tontura que é se viver.
O contorcionismo da Língua emanada pelos brasileiros me arrepia. Poros em um grande pronunciamento; alma concentrada. Integralmente concentrada, concentrada em uma emoção valiosa, aprovada pelos côncavos da consciência. Paixão pelo Mundo de sentidos, da representação dos dessentidos, pelas grafias, pelo Português bem dito, pelo maldito. Que fere, que goza, que dissimula, que é a esteira por onde os devaneios se manifestam.
Não domino sequer o verbo tcho bi. Acho que os traumas das minhas aulas de inglês me pousaram numa conexão de ojerizas a esse idioma que já é o que rege as salivas. Todo mundo fala inglês. Ainda que com a musicalidade do português. É, porque há os que falam o portuglês, ou seja, com a mesma entonação e musicalidade típicas da Língua Portuguesa explanam o inglês... Mas há aqueles que incorporam o gringo, a ginga, a dança do inglês. Que lindo. Que iogue fantástico. Parabéns a vocês que se travestem do outro. Da outra América.
O idioma que me comove... Ainda que eu não domine sua semântica, é o francês. Não sei o que querem dizer com aqueles trejeitos de passarinho, mas, poxa! A valsa dos franceses me sugere um processo inacabado, mas empenhado, repleto de boas promessas. Parece-me que as frases ficam com pendências a resolver, mas elas já estão concluídas. Isso é meio onda de mar, num jogo lúdico com quem perscruta as flexões das águas. Elas sugerem um movimento estendido, mas nos enganam. Ficam contidas a uma distância de nossos pés.
Francês. Sua etimologia foi inspirada nas lambadas dos Oceanos. No sexo dos mares com a quentura das areias. Muito lindo, muito Deus. Obviamente um Deus embaçado pelas respirações dos humanos.

10 de junho de 2006

Buda Peste

Toda tranqüilidade, toda paz, toda concentração que emanavam do Siddhartha – ainda novinho – repetiu-se postiçamente em Aline. Esta se entrosava bem – embora sem perder suas reservas – com seus contemporâneos, com aqueles por cuja condição ela já passara, com as promessas à própria vida.
Suas explanações salivavam candura, doçura, atração.
Fora pousada em uma família bem sucedida economicamente. Mas se abstinha dos luxos que lhe eram viáveis.
Toda vastidão de “vazio” a que Buda chegara era a maior cobiça da garota.
É óbvio que, face a face ao formato humano, a mocinha aspirava a um grande amor, a umas roupinhas, a umas vaidadezinhas visando à atração de fêmea ao macho.
Mas sofria, sofria de um nocivo desconhecido pelas intelectualidades colossais. Nocivo-cósmico. Nocivo-segredo. Todos constituem uma grande emenda que culmina num grande desconhecimento.
Cada Vida é a integral ignorância de ser o que não se sabe.
Aline era pó de alquimias atônitas. O corpo dela era enraizado no solo civilizado, condizia com a força gravitacional. A alma, no entanto, passeava e hesitava por terrenos gelatina-fresca.
Aline tinha todo o terreno de civilizações disponível a ela e toda mesquinhez do Celestial.

Precisa-se de tijolos

Tijolos lapidados pela inocência de uma mulher; de um sentimentalismo inerente à maioria dos vivos formatos femininos. Tijolos. Quantos tijolos talham as fêmeas, as sensíveis existências. Num súbito, uma aragem fatal extirpa o amontoado de tijolos.
O homem é a projeção agigantada de nossas ficções. Parece que a estirpe masculina desenvolve e automatiza uma oratória que encanta, fascina a mais séria das mocinhas. Oratória emperiquitada com modas raras; modas de eventos raros. Modas que não condizem com a fictícia realidade de se viver.
Homens. Orgânico. Mulheres; imediatamente crochês de minúcias e de suposições possantes feito muros de cimento batido. Quando o crime ocorre, todo o radicalismo de que a gente se abstinha ressuscita com o vigor-sinônimo de outrora. Radicalismo apical. Intempestiva ojeriza a macios novelos de conversas aparentemente despretensiosas. Que tudo tivesse pretensão; o empenho com a casa da roça, da estradinha bem interiorana. Que houvesse empolgações com a aura do ambiente. Mas os propósitos são sempre óbvios com demasia; denotativos à beça. As vontades contentam-se com as epidermes de Biologia, com as reações de Químicas. Químicas nocivas. Cocaínas em bastão consistente ao encontro da recepção de Dona Alma.
Viram, os vitimados por traições de corpo e de cerne, banqueta com uma aberturazinha a sugestões. A seriedade de um trapaceado é um anticorpo evidente que diz: “Por favor, não me induza a verdades, à dureza das verdades e nem me faça acreditar no Amor... Por favor, deixe que eu me entenda com minhas guerrilhas”. Não quero ficar frígida perante o postiço encantamento da vida. Quero acreditar nas dentaduras. Quero acreditar em Elza Soares. Sou trapaceira de mim mesma. Mas me é tudo outorgado. Professorinha de quarta série é que me rege até hoje. Queria desagregar a consciência de minha vida.

9 de junho de 2006

Xadrez

TRABALHO DE ESCOLA; DETESTO DIDÁTICAS E LAPIDAR CIRCUNSTÂNCIAS ORGÂNICAS, MAS ACHEI ESTE INTERESSANTE

Suzane Von Richthofen – segundo o escritor – comentarista – (...) Arnaldo Jabor – inverteu a obra Romeu e Julieta de Shakespeare, ao elaborar, junto ao namorado e ao cunhado, o crime hediondo (a pauladas) que matou seus pais. Isso em prol de uma linda promessa de amor com final feliz.
Ela tornou-se “grande-série” nos veículos de comunicação de massa, foi estampada em capas de revistas, foi pronunciada por diversas bocas de diversos repórteres, de diversos amadores, passou por processos ultra-modernos das máquinas digitais como tentativa de nos alienar do rostinho de boneca que ela possui e de nos induzir a imagens monstruosas a fim de ilustrar a aura da violência com a qual esteve envolvida.
Todas as ampolas de agressividade, revolta, protesto emanavam do bolo homogêneo em que se transformou a sociedade para transferi-la (Suzane) à condição de “a pior representante da espécie humana”. O banditismo que envolve a pele, ou seja, o bandido que ataca o corpo de uma pessoa de quem se cobiça algo é mais digno que aquele que mutila o cerne de um infrator. Suzane chegou ao cume da irracionalidade. Materializou um de seus instintos mais primitivos num ato chocante: na morte dos próprios pais.
A época do crime foi encoberta pela aragem de indignação. Todos os trejeitos, todas as explanações, todas as peregrinações das pessoas que se abstiveram de seus afazeres para “apedrejar” face a face a moça contaminaram a Nação; esta, à medida que assistia ao "Espetáculo Von Richthofen", transbordava-se de revolta. Quanta indignação, Mestre. Nem parece que estamos sob a mesma condição desse “monstrinho-Suzane”. Ela não parece condizer com a receita humana; ela assemelha-se à agudez de todo mal cósmico.
As pessoas vêem as notícias de violência, principalmente, de fora para dentro meramente. Não aproveitam o embalo do caos para vasculharem seus mundinhos interioranos:
-Espera aí! Quantas vezes eu tive vontade de espancar aquele namorado que me traiu? Quantas vezes eu estive à beira de matar um amigo falso, cuja fidelidade habitava terrenos de ficção? Talvez, se a gente fosse devoto dos instintos...
A Humanidade é feita de mesmos conteúdos. Os instintos, os sentimentos, a composição orgânica enfim são comuns à vida humana. É claro que existem indivíduos com bônus de maldade ou bônus de qualquer mazela que seja.
Suzane, provavelmente, privou-se da íntegra razão ao elaborar e realizar o assassinato dos pais. Ela diz-se arrependida.
A maior penitência da garota não é o xadrez, não são os xingamentos de remetentes desconhecidos berrados a ela, não são as algemas, não é a humilhação de mostrar a cara e a mala de derrota à sociedade brasileira. A grande clausura da menina vem de seu próprio inconsciente. Existem almas aleijadas, etíopes, anêmicas, mas “desalmados” não receberiam o status de ser humano. Falta-lhe fôlego; sobra-lhe sofrimento. A morte ser-lhe-ia um prêmio; ser-lhe-ia a metamorfose da borboleta apta a voar.
Acho um enorme despropósito a mídia ficar em vigília de Suzane. Já foi esclarecido ao povo o fato. Parece que querem acumular audiências e conseqüentemente lucros em cima desse filme sangrento de terror. Que os juristas decidam – com portas fechadas – a punição necessária à moça. E que nós guiemos nossos itinerários como caracóis que se voltam para dentro de si. Que sejamos os fiscais das nossas próprias vidas – tão perturbadas pelas baforadas do bem e do mal.
O impresso, a TV, a rádio, a internet têm compromisso em informar o espectador dos acontecimentos. Compromisso é coisa séria. Há espaços exclusivos às novelas.

7 de junho de 2006

Banditismo

Bandido é mau, muito mau. Bandido é destemido... Extirpa carne e traveste-se de
Cosmos promovendo tristezas instantâneas e simultâneas em endereços humanos. Bandido mata e o funeral dos vigores silenciados por mãos genéricas do Grande Poderoso é um possante martírio; enorme estilete curioso pelos componentes da alma. Bandido mata. Mas os ecos do assassinato se estendem às vidas encaixadas ao defunto: as almas dos que restaram ao Mundo murcham e sucumbem. O orgânico, toda a perfeição e enganosa potência que emanam de um corpo são moribundos a carregar uma nova estação. Os materiais do novo tempo são maciços, pesadíssimos. Nesse momento não se pode contar com a alma. A alma usa das vestes da desalma. E o corpo, coitado do corpo, não tem bússolas. Está atônito. Está em total eletricidade. Cada poro se rebela, demanda notoriedade. Cada poro está carente... Faz tempo que eu não me lembro de meus poros.
Mortes, genocídios, armas em cabeças sem nomes, tudo é matéria humana, tudo é homogêneo em horas de violência. Violência. Muita violência no Brasil, nos Estados Unidos, nas Américas. Na Europa, protestos – despropósitos. Protestos ao excesso de luxo. Abster-se de um pouco de luxo é nocivo, quase fatal. Na África, o silêncio e o estandarte que reveste os corpos são o protesto passivo. Todos os continentes têm seus gritos, seus gemidos de dor... Dores das civilizações, dores das alquimias cujo remetente são as mãos humanas. Dores. Dores para as quais existem vários paliativos, várias curas.
Quando o banditismo ataca o Mundo Interiorano, mudam-se os itinerários, constata-se a plena ilogicidade da existência. Canteiros de flores sempre dispostas a esbanjar a própria tônica: beleza. Aragens de aromas espetaculares. Aura de templos de deuses... De dois, três, quatro, incontáveis deuses a rodear um novelo macio de relações prazerosas. Relações sempre bem vindas.
Banditismo à alma estende o sofrimento do velório... Porque se morre, mas a morte fica ereta, íntegra. Sendo digerida. Inevitavelmente digerida amiúde, dia após dia. A morte da alma repercute em morte dos peregrinos amigos, pais e mães e filhos e irmãos, afins, enfim.
Por que se morre vivo? O defunto que, naturalmente, abstém-se da Vida com suas mazelas inerentes, fica vivo. Por quê? Grande Artesão de mãos foragidas, por quê? E a vida que se projeta em escala agigantada nas paredes claras da existência faz ciranda no Sofrimento. O sofrimento se apropria das terras. O sofrimento abusa do usucapião. E não existem fiscais a desviá-los dali. A solução é se rasgar com facões para despachar os posseiros.
Malditos posseiros... Mas nasceu sofrimento. Quando se nasce é preciso casa. E as casas do cardápio de sentimentos são ciganas; fisgam existências nômades e as habitam. Sem pudores; sem hesitações. O banditismo, cujo destinatário é a alma, é um musculoso ousado... Vive sob as rédeas do instinto. Fúnebre instinto.
Tinha-o como uma macia poltrona velha de quarto individual. Na qual me esparramava sem formalidades... Éramos sujeito e predicado. Éramos. Quando se morre o orgânico, ainda nos restam os ecos do que foi bom; chora-se; chora-se pela viagem de destino embaçado... Totalmente embaçado. Depois se chora com alegria das lembranças de momentos cômicos. Chora-se o corpo que se reduziu à pedra... Pedra que um dia comoveu comoções alheias. Pedra-ponto-final.
A morte orgânica é mais salutar que a morte de alma com corpo pleno de sentidos em alerta.
Banditismo. A violência sempre emperiquitou com decalques meus poros. A violência transcendente não aguça ódios, raivas, redundantes primitivismos. Mas mata o corpo abstrato sem o qual o corpo orgânico não vive.
Abaixo o Banditismo às almas.

5 de junho de 2006

Saudades (vigésima vez)

Patologia nos rios, no grande mar. Saudade é intransferível aos castelos humanos de que se dispõe o Globo. A saudade atinge o cume de meus esforços para se esparramar, através de minhas mãos, à folha virgem de um papel áspero, liso, rascunho...
Muita potência voluntária... Força de parto. E a saudade de não sei o quê não me sai. A saudade me enclausura a tal ponto de polícias me transferirem ao xadrez de segurança maciça, onde só tenho acesso a feixes de cinco centímetros de luz. Xadrez. Todos estamos abaixo das condições subumanas a que estão submetidos os possantes bandidos. Viver é preto e branco, são as grades resistentes dos presídios concentradas em cada objeto vital, viver é penitência. Este é meu único e insistente lamento. Quanto lamento. Quanto pessimismo. Mas sou induzida por uma cocaína qualquer de endereço sem registros.
Saudades do que eu provavelmente era... Saudades dos tempos de inconsciência... Saudades de um futuro por que aspiro. Em que me trajo de borboleta... Borboleta sem instintos reconhecíveis. Borboleta livre... Livre de corpo, das vaidades dos pincéis do Terreno. Quero o vôo, a íntegra dessabedoria do vôo. Porque passos em solos formais são pontiagudos e a sola dos meus pés é tênue, não suporta pregos espessos.
Saudades de não sei quem. Existe-me uma vasta carência. Nenhuma idolatria que emana de fora para dentro a sacia. A carência é vastíssima. A carência é tatuagem de nascença. Não sei como me abster definitivamente disso... Dessa persistência em erros. Paliativos não me faltam. Mas a cura, a tão cobiçada cura não se esboça sequer. Preciso da cura... Ainda que seja sangrento, ainda que haja estiletes deslizando sobre a epiderme mais sensível do cerne, demando a cura. Não me importo com o processo. Não me importo com a ampulheta que culminará em extirpação do tumor de carência, que se proliferou muito rapidamente.
Tornar-me-ei devota de qualquer entidade, se for preciso. Só não quero é viver à margem de um rio que me engole com sua composição de lamentações e carências.
Rio vermelho... Vermelho denotativo. Não agüento.

3 de junho de 2006

Siddartha Gautama

A primeira entidade de agressividade o fisgou quando sua consciência ainda não alcançava a planície da inconsciência. O trejeito da irritabilidade, o primeiro gestual de irritação veio-lhe quando ainda era bebê. O instinto passava-lhe reto; sem depurações da razão. Mas é regulamento do Cosmos. Inevitável chefe a que se deve submeter.
Toda cautela com que se pega um nenê estava armada. Trinta graus do círculo trigonométrico a postos do contato pleno com o serzinho que se sentia ainda inconsistente sobre o colchão do berço. Mais uma vez se treinava a dinâmica das teorias de Trigonometria. Pegou-se, enfim, aquela incipiente existência. Aconchegou-a na carne já firme. Sentidos embaralhados à mercê de sentidos mais íntimos de si.
O mimo não se restringiu à pegada da criaturazinha, ao balanço do objetozinho sem bússolas, a cutucadas na plenitude. Falou-se à pequenina Vida o nome que lhe fora dado. Toda exagerada delicadeza que emana dos bebês foi atropelada pelo trator cuja potência era: SIDDARTHA GAUTAMA.
“Siddartha Gautama” foi explanado por um ar de um túnel imemorável. Não se sabe NADA acerca do indivíduo que promoveu a gigantesca modificação de Siddartha. Este se tornou desprendido, desapegado... Após o império instantâneo do trauma que lhe entrou pelos ouvidos e se espalhou amargamente pela alma.
Decidiu seguir o esboço da abstinência em prol da busca de um mísero sentido à Vida, em prol de paliativos aos traumas por que passara. Insistiu. Persistiu. Resistiu. Até chegar à onipotência de um simples batismo, embora de um extenso cerne: Buda.

1 de junho de 2006

Empada

Insiste esta alma na intolerância à existência. Existir conforme a bússola das arquiteturas oriundas da Civilização corrompe as ginásticas da alma.
O corpo é insuficiente à liberdade do cerne. Este não pode estender-se, ficar à vontade no interior desta receita orgânica.
Casa inimaginável.
Cortiço.
Humano perante condição subumana.
Sub-Humano é Ser-Humano.
Há equívocos quanto a nomenclaturas.
Etiópia de conotações.
O Mundo Interior lamenta. Lamenta o que a carne vê e conseqüentemente o abstrato sente. Lamentos que emanam das frestas das janelas dos asilos.
Quantos crochês demando para enganá-la, Oh! Vida? Toda porção de Tempo a tapeia: as crianças empanturram-se de ficções para suportá-la, os jovens usam da hesitação como solo e se emperiquitam com modas, tatuagens, piercings, drogas, roques sem voz, sem autonomia e se enclausuram em suas depressões e se suicidam e se sentem inseguros e se rebelam contra eles próprios. Os adultos depositam o dessentido vital em excesso de trabalho, sexo previamente programado, cerveja outorgada aos finais de semana... Velhos... Inevitavelmente se inclinam a tricôs, crochês, pontos de cruz, igrejas e mais igrejas e mais religiões abundantes. Querem um carinho ao serem concluídos e exterminados pelo Tempo; talvez seja por isso que enveredam às máximas de Jesus. Desejam recomeçar a estória com o mínimo de dignidade, com solos consistentes. Temem a queda. Parece-lhes que a morte é um avião a quedar. Sensação pavorosa... Peregrinação das caretas do abstrato. Morte é o íntegro desrespeito que equivale ao viver.

31 de maio de 2006

Dia-a-dia do Sentimentalismo

Dia de sentimentalismo puro, sem interferências da razão, é bem noite, altamente noite, momento em que o Cosmos - com sua esponja ágil e imperceptível - nos isenta do mundo. As flores com que compartilhamos o dia, os pássaros que desvirginaram nossa ótica, as borboletas transeuntes que pousaram rapidamente sobre um ramo rígido ou tênue de flores, a claridade arquiteta que entra em meu quarto mostrando suas retidões, suas exatidões, seu talento em suma. Quando tudo isso é inibido pelas nossas ignorâncias, é a hora de o sentimentalismo existir de fato.
Nessa noite, ao me entregar plenamente à sonolência, minha alma sentiu a potência que o orgânico é capaz de sentir. Minha alma sentiu meu tio que não é mais posse deste Mundo – Rodoviária. Meu tio foi para o Mundo de que não se tem notícia; de que nunca se teve notícia. Mas sua alma, travestida com a indumentária que o acompanhou no ínterim da vida terrena, aproximou-se de mim. Aproximou-se e me fez um convite. E eu não raciocinava... Apenas sentia. Era um ser irracional, pleno de Natureza, sem revides a mim mesma. Apenas o sentia e me sentia. Sentíamos sob uma enorme, extensa, gigante, exacerbada, demasiada fluidez. Fluíamos feito uma existência inumana.
Pude provar do tira-gosto de não ser... Ou de ser mera inconsciência sendo vivida pelo Fatal. Andávamos felizes, integralmente felizes por um chão nunca visto por mim. Andávamos. Os sentimentos que emanavam de mim a ele em vida terrena estavam inteiros, sem erosões, sem craterazinhas sequer. Tive total contato com a plenitude.
Caso a morte seja mesmo plena, que permeie apenas os terrenos dos bons sentimentos. Porque uma tristeza em sua totalidade é digna de combates e, para fazê-lo é necessário haver intervenções de outros sentimentos. Que a plenitude eleja sempre as boas modas.
Acordei. E me vi perante a miscelânea entre consciente e inconsciente. Tudo bem... O por enquanto Utópico ainda me irá fisgar.

30 de maio de 2006

Anúncio de Jornal

Prepare-se para um calçadão empapuçado de gentes e gentes a esbanjar gritarias, ironias, tragédias, fofocas, seriedades, preocupações... Todas as musicalidades de um pronunciamento enfim. Telefone a incomodá-lo pelo ínterim das maçantes horas a se concluirem a um dia de calendário.
Um dia do calendário encarapuça-se de penitência de 414 anos. É ridículo prolongar exageradamente as penas; estendê-las ao Utópico. Os juristas têm acordo com o Tempo? Mesmo após a morte do criminoso este será enclausurado pelos fogos do Inferno ou preso por nuvens negras? Prisão perpétua já soa possante o bastante a audições à deriva.
Triiiiiiiim.
Triiim.
Triiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiim.
- É aí que estão precisando de empregada?
Com doçura postiça:
-É sim. Eu preciso de referência de carteira, telefone da referência e telefone para contato direto com você.
O Brasil é ávido por chance. O Brasil mantém-se em alerta. Incessante alerta. Parece que, às vezes, uma inércia encobre as casas humanas. Mas todos peregrinam com esperanças... Apelam ao Cosmos... Oram. Cobiçam a dignidade.
Um rapaz, traquejado, estendeu sua bonita e cautelosa voz ao telefone:
(aspirante a emprego de empregada doméstica) - Bom dia, com quem falo?
(Beatriz, proprietária da casa que demanda uma empregada doméstica) - Beatriz.
(aspirante) - Beatriz, é você que colocou um anúncio no jornal a respeito de empregada doméstica?
(Beatriz) - Foi meu pai quem o fez, mas você pode tratar comigo sem problemas.
(aspirante)-OK. Olha só, quais são as cláusulas necessárias para o emprego?
(Beatriz) -Eu preciso de referência... ... ...
(aspirante) - Tem problema ser homem para desempenhar os trabalhos? Eu já tenho experiência com isso.
(Beatriz) - Infelizmente sim! Desculpe-me. Boa sorte.
Com a mesma delicadeza com que ele se apresentou ao telefone, despediu-se de Bia.
Bia ficou a perscrutar a situação do rapaz. Poxa, ele fala tão bem, é tão educado, poderia estar envolvido com um empregão. Afinal, os serviços domésticos são pesadíssimos e abocanham, geralmente, as pessoas que não tiverem chances de freqüentar uma escola, desenvolver alguma técnica específica. A manhã de Bia teve, como teto, a condição a que a majoritária população brasileira está submetida: trabalhos braçais, que necessitam de integral comprometimento do corpo, meramente do corpo. Não lhe sobra tempo (à população nativa) para atender às carências da alma. Almas etíopes. Almas abandonadas. Almas órfãs, em prol de sobrevivência. Em prol de um apego sem motivos à vida.
O telefone não pára de tocar.
Bia já não mais se irrita.
As pessoas explanam-se com entonação de empolgação e fé; muita fé. Fé em se reduzir a atividades primitivas para fisgar a dignidade. É preciso ser bicho para vestir-se do Digno.
Bia nunca trabalhara. Dedicava-se exclusivamente a leituras que a faziam feliz ou que preenchiam os déficits estranhíssimos de sua alma. A alma, assim como o corpo, assim como a Vida em suas flexões versáteis eram-lhe suma estranheza.
O que a incomodava agora era a avidez das pessoas. Ávidos em nome de uma Vida que não lhes garante sequer o trivial. Que amor de Deus, que amor incondicional a uma enorme ditadura ultra-nazista.
Bia está com pedrinhas de comoção sobre seu terreno de sentimentalismo. Enquanto a generosidade das mãos ocultas da Vida proporcionou-lhe riqueza, luxo, conforto... A mesquinhez das mãos foragidas da Vida não garantiu à massa homogênea de gentes o mínimo esboço suficiente à tranqüilidade.
Triiiiiiiiiiiiiiiiim.
Triiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiim.
Triiiim.

Fila Única

Enfileiram-se, feito formigas que farejam umas as outras, na caminhada ao encontro da Lógica. Da ficção com arremates que sugerem verdade, verossimilhança pelo menos.
Lógicas sociais, lógicas religiosas, lógicas sentimentais. Lógicas ao Utópico. Está triste porque está perante um cadáver muito querido em outrora; essa outrora lhe parece tão fresca. Buscam causa às conseqüências que se sentem na epiderme do âmago, às vezes revestido por uma aspereza, às vezes banhado em uma maciez nítida.
Empanturraram as sensibilidades à deriva neste Tapete estendido que é o Mundo. Empanturram-nas de ficções amadoras, nada persuasivas. Nada é eficaz ao ponto de convencer acerca da Vida. A Vida é o ápice do Sagrado. Do lacrado. Do intocável em que não se pode ousar mexer, e sequer aproximar-se dela. Da Vida. Da tão fácil Vida.
Da tão enclausurada caminhada.
Fileira com concavidades à espera de explicações, de matemática cósmica. Por que se explicar? Por que não explicar? Por que o Dessentido? Por que a composição orgânica e de alma são suma ignorância? Por que nascemos e morremos analfabetos de nossas dinâmicas, nossos monstros, nossas vitórias viscerais, nossas derrotas erosivas?
Por que, Grande Mágico de mãos foragidas, não nos podemos saber? Há algo de muito sério a nossa sombra? Há algo apavorante como nossas próprias bengalas? Há algo tão macabro que é preferível a alienação?
Que assim seja, então.

29 de maio de 2006

(In) sanidade

Ser louco é tão fatal quanto ser são. Assim como ser formiga é tão fatal como ser a extensão ilógica de cada valsa que a onda faz com a areia.

Chocante

Não há crimes hediondos, não há incestos, não há desrespeitos, não há desalmados, não há comportamentos que me choquem mais do que a ação que culmina na existência de qualquer coisa: seja animada ou inanimada, perceptível ou imperceptível, perecível ou imperecível, nítida a olhos orgânicos ou cega a olhos orgânicos.
Estava frente a frente à televisão vendo um Universo Paralelo. Sim. Um legítimo Universo Paralelo. A vida no Mar. Neste gigante pretensioso de mãos nunca vistas. Degusta-se, goza-lhe as boas sensações, mas não se sabe sua doninha. Às vezes penso que o dono do Mundo corresponde a um estereótipo de um sem nome que dinamiza a casa humana em prol da sobrevivência.
Ser mar é possuir, involuntariamente, uma soberba. Porque Ele detém inquilinos e mais inquilinos e caso falte a eles o fôlego dos mares, não lhes há outra residência na qual se possa sobreviver. O Mar é monárquico. Seus submissos sugerem liberdade, plenitude, mas são censurados e limitados pelas porções de água e de sal que compõem o condomínio deles. Verdadeiro síndico inconveniente de prédio.
Viver é enclausurar-se na própria cutícula e enclausurar-se nas oferendas de que não se sabe do Planeta. Peixes. A tônica do corpo é um, ainda que curto, enorme deslize. Vencer os protestos da água é magia gringa. Peixes. Chocantes feito os olhos vencidos por peles caídas de gente sabotada pelo Tempo, por esta abstração sócia da Potência do Mar.
Mar, danças, fantoches de não sei o quê, despropósito (meu verbete predileto). Antes do ponto final de cada devaneio fragmentado, aparece ele, intruso a concluir minhas transcendências. Despropósito.

28 de maio de 2006

Pseudo-estetas

Desde o tempo em que minha razão não era concentrada na peregrinação do Mundo, já sabia eu que, geralmente, quando alguma palavra tem como ancestral um pseudo é porque há algo a se condenar, há algo genérico, há algo pejorativo enfim. Ser esteta é complicado. Lidar com esteta, complicado e uns 87,12 % de complicação a mais. Estetas, respeito-os, mas, vocês aí em suas clausuras e eu em minhas clausuras.
Enquanto me preocupo em o que culmina a existência, um esteta preocupa-se com o talhe do salto alto da Sandy. Ambos estamos errados... Porque, ao invés de conduzirmos a vida como um sopro, sem janelas artificiais em que se apoiar, debruçamo-nos sobre uma sedução qualquer.
O decote que mais me sensibiliza é pensar no impalpável. O decote que atiça a curiosidade dos estetas pode vir em vários formatos: U, V, O. É, agora se usa o decote “O”... A roupa é toda séria e, de repente, nas dependências onde moram os bustos, abre-se um “O” enorme. Os bustos se rebelaram, neste ano de 2006, com a política que, até frescos momentos, era-lhes vigente. Acostumaram-se a clausuras do sutiã e da roupa. Quase mofaram. Decidiram, então, escancarar-se. Para arejar. Para viver face a face com o Grande Artesão dos seios. Agora, as roupas têm novos formatos de janela... De repente, um dia, as janelas das casas serão instaladas no teto. Tem nobreza. Os céus serão mais acessíveis a nossas óticas. Acordaremos juntamente ao acordar cósmico.
Acreditava que aquela banda – cujos integrantes eram vitrines emperiquitadas com excessos (tatuagens, piercings, cabelos voluntariamente desleixados...) não tinha espaço a um quarto livre, a uma casa aconchegante. Achava eu que aquela banda era um quarto mofado repleto de vaidades mortas e dizia, com aquela aparência toda sublinhada por um monte de parafernália, o que a estética deles tinha a nos dizer. Os estetas depositam na estética todas as frases, todos os gestos, todos os capítulos, todo o livro e o ponto final de suas vidinhas. Há exceções... Obviamente. Raríssimas... Obviamente.
Uma bandinha dessas em que a gente não credita fé, repleta das vaidadezinhas supérfluas, pode nos contorcer. Houve um enorme contorcionismo. Uma aula maçante de ioga no momento em que rompi meus tijolos de verdades fictícias e li uma entrevista da dita cuja.
Meus olhos entraram em processo de constrangimento. E eles, os olhos, insistem em olhar todos os chãos do Mundo. Será difícil reerguê-los.

Androginia

Qualquer materialização humana possui um ícone possante da masculinidade e um ícone tênue da feminilidade. O sal e o açúcar, triviais, misturam-se e perde-se de vista o semblante de um e de outro, miscíveis, homogeneizados.
A androginia é inerente à condição com que o homem foi encarapuçado. Há os andróginos cujo sentimentalismo fica sob uma leve toalha de “macho e fêmea” e outros, no entanto, que, à mercê de potentes setas bilaterais, demandam concretizar seu lado feminino – apelando a atrações masculinas e necessitam realizar a face masculina – seduzindo esboços vivos femininos.
No Universo batizado de “Pós – Moderno” existe um baralho à denotação que emana de “androginia”.
Parece que a solidificação das duas faces é um regulamento da Civilização. As pessoas condicionam-se à androginia como o fazem com a conclusão do segundo grau. Banalizou-se a prática da androginia; glamourizou-se a ação andrógina.
Isso tudo é uma inibição aos apitos – índios que emanam da natureza; condicionamento a mais uma ditadura – agulha – fina do Mundo Civilizado que penetra na estirpe humana sutilmente.

Justiça Velada

A verdadeira Themis ainda não foi codificada pelos homens. Quando a justiça – inerente à condição humana em sua profundeza – sai de seu endereço clandestino e peregrina pela razão, esta a mutila e o exercício da justiça não caminha íntegro como sugere a Natureza.
Há quem possua poucas ampolas da justiça e, por conta disso, sabota vidas, construções, almas. Há a necessidade por cujas janelas transitam os ventos do desespero e deste, às vezes, nascem os delitos: roubam em prol dos apelos da Vida; roubam porque se tem fome, sede, frio, doença. Há bandido e Bandido: este possui de nascença uma epiderme de fel; é que a alma dele fora submetida a um banho de químicas nocivas. Aquele, no entanto, infringe alguma lei em respeito a uma súplica instantânea que lhe vem conforme os passos das ameaças que se organizam aos pares com as circunstâncias.
A punição a infratores é quase sempre uma infração colossal à Vida. Usam do sadismo para alinhar os desvios. E o sadismo é pretexto para a autopromoção de quem detém alma anêmica. O Sadismo é uma força unilateral que sai do ego opressor e mata o ego oprimido; é a negação da condição a que pertencemos.
Quanta pretensão de se travestir de atleta da Justiça. As faculdades de Direito têm excesso de gente e deficiência de espaço físico e de cadeiras (talvez seja esse o motivo do sucesso das graduações à distância). O que se vê são as promessas a juristas totalmente alienadas das propostas fundamentais da prática da Justiça. Parece que os estudantes de Direito vêem a seringa com o conteúdo teórico capturado sem área de aplicação e não usam a genuína indumentária do Justo. Isso me faz lembrar de indivíduos extremamente religiosos que cultuam um deus utópico e desprezam as matérias-humanas (verdadeiros artesanatos do Cosmos) que compõem o Universo.
Certa vez, num lanche na casa de uma amiga – cuja família encaixa-se no estereótipo da “família perfeita” – disseram-me:
- Mandamos a empregada embora porque ela nos roubou um iogurte.
Ri com todos os potes do amarelo. E eles riram com a potência da orquestra que lhes rege a matéria. Imaginei a doméstica arquitetando a grande violência que praticaria no momento da apreensão do pote de iogurte. “Roubo”. Isto me soou como a empregada, munida de facões e agressividade, ameaçando os patrões:
- Hei, se não me derem o iogurte, esfaquearei um por um.
A família da minha amiga é super sociável, bonita, bem sucedida; os pais dela lustram o casamento; semanalmente eles se reúnem para fazer rituais religiosos... E impedem que uma pessoa que lhes serve tenha acesso à geladeira. Fazem-no, não em nome de um jejum hindu; fazem-no porque são a dissonância entre vida e Justiça.
Sabrina fazia tanta acrobacia para comprar toda a gratuidade da vida (água, frutas, leite, verduras, legumes, carnes): trabalhava em uma padaria de acordo com o fôlego dos céus e, ao sair do serviço, era submetida a eloqüentes desconfianças do patrão – verdadeiro detector vivo de possíveis furtos. Sabrina era trabalhadora com status de bandido. E não sei que destino teve essa lembrança que, vez por outra, vinha-me como semáforo de indignação.
Tantas circunstâncias são verdadeiros palanques à linguagem da Justiça. Tantas vezes, nas casas humanas, há quartos disponíveis à Justiça. Mas preferem enchê-los com as quinquilharias da vaidade, da prepotência, do orgulho.

27 de maio de 2006

T-E-C-N-I-C-I-S-T-A

ESTE TEXTO NASCEU DE UM SUSPIRO TRANSCENDENTE DE JOÃO FELLET

Calma! É preciso, primeiramente, investigar se a fileira das letras está em linha reta. Escrever demanda anos e anos de estudo. Uma idéia estendida em palavra não representa Nada. Uma idéia que se depura no processo gramatical, no entanto, é arte. Isso sim é arte!
Raquel era o cume da clausura. Sua consciência – ingenuamente pretensiosa – inclinava-se às máximas já prontas; às convenções do Mundo.
Para a rapariga, “arte” equivalia à perfeição no manuseio da técnica. Dou-lhe outro nome: profissionalismo. Arte, a genuína arte é a brincadeira de elásticos, são os hipérbatos que se fazem com a soberba inerente às técnicas.
Para explanar seu idioma é imprescindível graduar-se em Letras, ler concentradamente e guiado por críticas e críticas todos os clássicos recomendados; ainda que não haja harmonia entre o leitor e a coisa lida, é preciso condicionar-se ao gosto por essa linhagem de Literatura. Tudo é questão de condicionamento. Só o Tempo para ajeitar suas acomodações.
Olhos esquizofrênicos, anestesia à tônica do Vital. Desreflexo. Inibição da extensão da vida – legítima arte.
Raquel abstinha-se do deguste “Fenômeno – Vida” em prol de um maçante ritual do Postiço que não condizia com o enorme dessentido que é a bússola da existência.
Pode-se lhe extrair a pureza, uma Floresta Amazônica de pureza.

Síndrome da mendicância?

No sinal. Desempenhando o status de transeunte. Maltrapilho pelos cantos. A carne viva estendida em chão morto, frio. Etíopes brasileiros. Semblantes insistentes: há sempre, a encobrir o rosto dos sem teto, uma aura de profundo dessentido.
Àqueles que vivem sob a bússola da civilização a vida já pesa. Casas, “estátuas e cofres e paredes pintadas” são cadáveres que ganham animação das mãos dos bichos humanos. Mas essa parafernália não os sacia, não os preenche em se tratando das carências do cerne. Apenas lhes lustra a vaidade – esta, fugaz feito o segundo que já se cimentou em pretérito.
Os indivíduos que têm como patrimônio exclusivamente o corpo ficam à mercê das intempéries da Natureza: e os anticorpos ao frio? À chuva? Ao excessivo calor do Calor do Brasil? Os moradores de rua são a palavra “mártir” possante, em quinta marcha. Não sucumbem às rebeldias do Cosmos, porque desenvolveram força de pilastra que sustenta residências.
Os mendigos creditam fé em cada pedido feito a um desconhecido qualquer. A única religião, a única dieta de sobrevivência deles é a incansável tentativa de sobrevivência. Para isto, contam integralmente com a filantropia alheia.
A seta do fatal parece que os condicionou (os mendigos) a uma estática sensação de derrota; parece que lhes mutilou a alma e os alienou das propostas de se reerguerem.
Grande parte da sociedade analisa-os quanto à carne fria, crua. Não perscruta o contexto em que esses objetos vitais vivem. Por isso, tantas vezes, despreza-os e não lhes cede um sorriso; um gesto sequer.
A esmola é um ato altruísta que promove um bem bilateral: quem a recebe fica em dia com a vida e quem a doa sente-se pleno; útil. E dar esmolas não se restringe a mega - doações terceirizadas; o tesouro de ajudar alguém se fixa no face a face, na troca de auxílios, afetos e pi-e-da-de.

A você, isento da burocracia de nome e de sobrenome

O nome é burocracia de nascença. O nome que se escolhe é um sobretudo, desnecessário aos verões brasileiros. A carne viva é única, incomparável, tem suas próprias peculiaridades que dispensam batismos, porque são óbvias a olhos lúcidos.
Nome? Para quê? Para dificultar ainda mais o novelo macio que se pode formar a partir das coincidências humanas? A estética singular de cada condição humana é mais potente que um tênue papel de R.G..
É a você – negrinho meigo, já meio seqüelado pelos martelos do Fatal – que dedico esta prosa.
...
Nunca o havia visto. São tantas vitrines de vida com que cruzo... Todos os dias alguém – a quem, geralmente, dou um codinome – penetra-me. Às vezes, essa novidade permanece a temporada de um paliativo em nossas veias; outras vezes, no entanto, como um sério tratamento alopata, certas caras e bocas e gestos e o resto impregnam-se em meu sentimentalismo. A ornamentação deste já alcança o esboço do exagero. Mas, nada posso fazer em prol de uma faxina estética, porque o sentimento é-me outorgado.
Fiquei a perscrutá-lo ali, do lado de fora do pub, sem referências, tendo como único patrimônio unicamente a sua vida. Sua moeda é rejeitada pela nossa moeda. Portanto: o bar é impermeável a você. Mas, isso não o impediu de dançar e de sorrir sem o empenho dos dentes na íntegra. Você beliscava o som possante que emanava do lado de dentro da boate e se satisfazia com as balbuciadas sonoras. Degustava restos de claves de sol e os transferia à flexibilidade – já censurada pelo Tempo.
Seu semáforo sugeriu-me plenitude... Correta entrega ao despropósito da Vida. Deu-me vontade de abraçá-lo, oh! Criatura suave feito epidermes de bebezinhos. Deu-me vontade de abraçar Você.

Lei da Gravidade

“Lei da Gravidade”. Indiscutível. Já foi pensada pelo magnífico Isaac Newton... Memórias já amareladas pela eternidade do Tempo. Não se pensa a grandiosidade que embrulha as máximas que vão virando convenções e, de repente, tornam-se tão imperceptíveis como o ar.
Pesquisa-se acerca da gravidade. Insiste-se na idolatria ostensiva ao Físico (respeitável, claro), mas não se sente a esperteza e a íntegra condição de alerta em que se posiciona o Fatal... O tão presente e incompreensível fatal.
A Vida está viva a todo Tempo. Perante qualquer descuido, os dedinhos foragidos da Terra exibem suas forças, suas potências, suas eficácias, suas velocidades.
...
Lya cumpria seu ritual de “chegar-à-casa-dela-e-lavar-o-rosto-e-secá-lo-com-uma-toalhinha-fiel-a-sua-face”. A toalhinha passava o dia estendida sobre uma madeira da janela do quarto da mulher – metódica com demasia. Havia-lhe (à toalhinha) frestas de madeira que permitiam que baforadas leves de vento sugassem a umidade daquele pedacinho de pano tão solitário.
O que desafiava a tendência ao infindável quedar cósmico era uma estatueta pequena, embora pesada, de um sapo. Caso ela não existisse, a toalha seria rebaixada a tapete.
Por uma distração qualquer, Lya levantou o sapinho; a Natureza – vigorosa- exibiu-se na descida selvagem da toalha.
Lya encantou-se, não sei por que, pela presença incansável do Tempo em sua vidinha redundante. A vida é uma inquieta vaidade, pensou.

26 de maio de 2006

Pesos e Medidas

ESTE É DEDICADO A TODA DISSONÂNCIA QUE ENCOBRE AS PODEROSAS E INCESSANTES RIVALIDADES ENTRE O CORPO E A ALMA

A questão é que a elaboração do orgânico foi mal feita. A matéria humana nunca comporta a extensão ou o peso ou a potência ou a velocidade com que surge o sentimento. Bafinhos de saudade são fortes o suficiente para fazer com que a carne desmorone. E o itinerário por que transitam os sentimentos fica obstruído, plenamente obstruído por qualquer esboço oriundo da casa do Sentimentalismo.

25 de maio de 2006

A Saint-Exupéry

ESTE TEXTO É DEDICADO A MÁRIO CLÁUDIO FELLET FILHO, UMA EXISTÊNCIA EMPERIQUITADA PELO FENOMENAL.

Primeiramente, obrigada! Muito obrigada! Prefiro esse reconhecimento de destinatário subliminar a receber a fileira seca do meu nome lá – frio, como sepultura.
Sempre hesitei nas minhas empreitadas oriundas do sentimentalismo que lustro pelo meu pai. Dava os primeiros passos despudoradamente, unia as letras a todo meu Amor por ele, mas jamais consegui atingir uma moda perfeita ao espectro desse homem fantástico: Mario Cláudio.
O grande farol inconsciente do Mundo se distraiu e se esqueceu de alterar a aura de Marinho (aqui em casa, a gente sempre infringe as regras empertigadas do papel e elege um codinome às pessoas): ele permanece agigantado pelo Tempo, com o orgânico condizente com sua faixa etária, com os cabelos já isentos de cor. Embora transporte todo o fenomenal filete de não sei o quê que abocanha as impúberes criaturas.
Mario abusa de um dos semblantes naturais que detém: escancara a felicidade que tem de viver, codificando-a com um enorme e perfeito sorrido cujo embrião é um dos cômodos do âmago. Ele (Marinho) nos traz, amiúde, um cesto desmaterializado de boas novas; as cascas dos frutos que contêm nesse cesto são sempre plenos sorrisos e dores abdominais como conseqüência do excesso de risadas (sim, porque nunca se pode abusar das oferendas da Natureza).
Mario Cláudio é a integridade do Pequeno Príncipe. É um vastíssimo tesouro. Tê-lo como vizinhança é extraordinário, porque, vira e mexe ele invade minhas dependências.

24 de maio de 2006

Sofia

Parece que os pais previram a tendência que aquele objeto vital seguiria. Batizaram-na de Sofia – letreiro que faz jus à sabedoria, à cultura, à erudição, à esperteza. Sofia foi sendo desenvolvida de acordo com a coreografia do Fatal. Foi tornando-se cupim de livros que lhe mexiam o ego. Era demasiadamente egocêntrica. Escondia-se na indumentária natural que lhe fora cedida. Vivia sob as mãos da clausura.
Festas, eventos sociais, mutirão de gentes opinando sobre qualquer coisa, parques plenos de artesanatos dinâmicos perante faixas etárias diferentes a repeliam. Ela se entrosava perfeitamente com as oportunidades que emanavam da solidão.
Malgrado seus vinte e dois anos, ainda não havia beijado uma boca sequer. Não a sou para dizer: “é falta de vontade”; “é timidez”; “é frigidez”. Sofia é uma metonímia do Mundo: dissimula uma gigante verdade. Não sei de sua inclinação sexual. Nunca a vi pretensiosa, apelando a ferramentas que emperiquitam a fêmea no momento em que esta cobiça um macho.
Vive aos cantos – com seus espessos cabelos negros e lisos e em grande quantidade. Perscruta a Vida usando do mesmo semblante para fazê-lo. Não se sabe quando está feliz, triste, insípida, plena. Cobre-se com vestimentas sem notoriedade. É uma estampa opaca e clichê... Embora carregue uma desmedida vida interiorana. Pesa-lhe esta.
É praticamente impermeável às oferendas dos seres humanos. Prefere prender-se à aura de cercas elétricas que criou a abrir as próprias janelas a aragens estrangeiras.

23 de maio de 2006

Lolitas Cândidas

Não se sabe em que marcha comporta-se o Tempo durante os artesanatos humanos em épocas de juventude. Desconhece-se uma mocinha sequer que não tricotou ficções libidinosas, amorosas, afetuosas enfim cujo destinatário era um professor.
As meninas – entre 12 e 20 anos – geralmente, baforam um círculo de Amor no qual se inclui um professor. As mais carnívoras encantam-se por aqueles cuja estética remete-as aos belíssimos mitos gregos. A beleza das incipientes belezas das incipientes civilizações é poste de luz em nossas consciências. A nossa epiderme se pronuncia eloqüente, imponente, perante o belo. A alma abstém-se por inteiro e por fugazes segundos.
O professor, em sua indumentária natural, em meio a seus arquivos, diante do talhe de sua letra, à mercê da própria oratória, eloqüência, didática... Persuade, ainda que involuntariamente, as alunas: do âmago saem mensagens subliminares: “tenho uma habilidade especial me cedida pela Terra; guardo um segredo afrodisíaco e censurado pelas cláusulas de uma Escola”. Isso as encanta. Esse tipo de mestre – misterioso, de fluência vocabular atiça a paixão das sensíveis carnavalescas que têm imensa fé em amores utópicos.
Existem, em todos os continentes que compõem o Globo, Lolitas e mais Lolitas. Os corredores de escolas emanam não simplesmente cartazes elaborados por alunos, mas sopram a qualquer pessoa o constrangimento de uma libido proibida e, por isso, freneticamente censurada pelo indivíduo que é ditatoriamente incumbido de sintetizar o prazer; o prazer do falo.

Métodos

Estou empanturrada dos meus métodos,
Das setas a que o Mundo me induz.
Tudo vai mal...
Coquetel contra os as artrites dos dedos cósmicos.

O amor já é cimentado de sofrimento,
À dor já possui paliativos,
A vida é anticorpo à Vida.

A masturbação é alienante,
Porém,
Quando a sente,
Já se é pretérito.

Precisa comer melhor!
Precisa de um namorado!
Precisa se alegrar!
A vida é bela!

A Vida é a integridade do desrespeito.
Nada sei de minhas próprias habilidades,
É tudo outorgado.
A maior das ditaduras que existiram,
E que chocaram toda a estirpe humana.

Viver... Despropósito.
Cansei dos métodos,
Dos passos que amiúde me põem lá e me trazem a cá,
Das medidas e dos ajustes do alfaiate,
De amar cafajestes,
De acreditar nas minhas tolas ficções
Do amor que emana de mamãe.

À Sandy

FAZENDO MÍMICAS DA DICÇÃO DE FERNANDA YOUNG, DEDICO ESTE TRICÔ À SANDY; À SAAAANDY, DA DUPLINHA CAMALEOA

Sandy poderia ser inanimada, afinal é uma linda boneca esteticamente perfeita. O rosto da menina é oriundo de tremenda generosidade das mãos foragidas do Cosmos. O artesanato – Sandy é fulgurante. De fora para dentro, opa! Antes de entrar, muita cautela. De fora para dentro, fica tudo OK.
Mas, e o mundinho interiorano? Reunião freqüente de materiais de limpeza para lhe lustrar o ego, a vaidade. A virgindade. Esta, explanada por qualquer boca desconhecida me remete à estatueta que se criou à castidade da cantorazinha que é refém das tendências do Universo – cujo codinome atual é “Pós – Moderno”.
Desculpe-me, Sandy, mas sua virgindade já habita terrenos da ficção. Ainda que não tenha havido a materialização de sua cópula, todas as bocas desse Brasil colossal penetram-lhe devido a sua pureza. Assista a mais aulas de química, menina. Aprenda a se misturar com as oferendas do Mundo.
São penetrações simultâneas de emanações que têm como combustível sua vocação para santidade.
A cada conclusão de tempo há a você um possante penetrar. E você é usada, consumida feito alimentos de fast-food. E a cópula da alma é muito mais potente, repercute extensamente em relação à cópula orgânica.

22 de maio de 2006

Berçário

A seta do fatal poderia me emperiquitar como noz. Eu viveria à mercê de bocas requintadas no continente europeu. Seria chique ser noz. Talvez servisse de pretexto para cartões postais que levam vida de nômade. Circulam o Mundo em uma grande empolgação. E sem preços... Por investimentos de mãos desconhecidas.
A Vida poderia eleger-me tantas modas; afinal, o Mundo é um banquete colossal de belezas, feiúras, tristezas, felicidades súbitas. Quem sabe eu não fosse uma sensação fúnebre, de vida aguda e fugaz, que se manifesta em um parente distante de um defunto fresco. Ou uma única empreitada em um vendaval que rebola cabelos, roupas do varal, derruba lindos vasos cuidados por velhinhos depressivos e sem cobiças na vida.
A Vida foi-me justa. Investiu esta peça de jogos de continentes no Brasil que, malgrado ter sido batizado de país, detém o status de Mundo. Aqui tem excesso de purpurinas e confetes, etnias que se inauguram devido a envolvimentos entre cores e cores, gestos e gestos, gente do mesmo sexo. Sair a peregrinar pelas ruas do Brasil é a melhor alopatia antidepressiva. O Brasil me comove com suas carências, me revolta com certas desregras, me emociona com os mahatmas que se incorporaram aqui. Nestes terrenos versáteis, de semblantes distintos e belos.
Brasil, é em Você que meus pés flutuam, que esparramo minhas tristezas e você as engole sem revides. É de você que fisgo minhas felicidades, ainda que raras, possantes; transcendentes. Brasil... Saio e o vejo flexionado em preto, bem preto; branco, bem branco; gringo preferindo dar as próprias marchas aqui. Vira-latas esperançosos. Vejo muito sofrimento em você, meu Berço. Vejo martírio estendido em corpo de mendigos que não sucumbem por conta das alquimias que fizeram com o álcool.
Você, Brasil, causa-me cólicas... Alopatias à alma são ineficazes. Fico com ecos e ecos de dores de alma. Mas a sua tônica está na arcada escancarada e incessante dos entregadores de pizza, dos correios, dos caixas de supermercado, dos lixeiros, dos professores. Há sempre, claro, aqueles encostos materializados... Que não nos aludem a lugar algum. Se nascessem na Europa ou na África seriam a idêntica e cansativa insipidez.
Brasil, adoro suas caras e bocas e gestos e gingas e seus domingos e suas ruas com baforadas lúdicas.

20 de maio de 2006

Sr. Pênis

ESTE TEXTO É DEDICADO A TODOS OS PÊNIS QUE ME SÃO CONTEMPORÂNEOS.
Ainda não o conheço pessoalmente. Seu semblante, sua aura, seu genuíno formato me são gringos. Sei de você através de um monte de mediações; daí dá para se saber somente a condição paralítica da sua vida, não é mesmo?
Esta minha ignorância de você ganha tanta repercussão. Enfiando a razão no balde de lógicas, sei por que é que isso acontece; é que, garotas da minha faixa etária já se entrosaram bem, muito bem, muitíssimo bem com o Sr. E eu não lhe sei. Fazem panfletos e panfletos da minha condição de celibatária, montam palanques para divulgar – explorando todos os sentidos alheios – a minha virgindade. Quanta polêmica tem minha pureza. É raro ser puro? É tesouro do Cosmos?
Refiro-me respeitosamente a você, chamando-o de “senhor”, porque, afinal, a gente não possui intimidade. E minhas instruções foram rígidas, ainda que válidas. Muito válidas. Potes de mel é que mantêm a minha união com meus pais.
Vejo-o em homenagens ao Detran: setas à direita, setas à esquerda... Vejo-o como um apêndice que demanda ser extirpado... Vejo-o com asco. Tenho um pouco de medo do senhor. Vidas possantes, geralmente, são temíveis, não é?!
O equipamento dos homens é o paradoxo do instrumento involuntariamente constrangido das mulheres. Ele (o falo) sugere poder, patrimônio tombado, eternidade. E ela (a vagina) é low profile, dissimulada... Tem vergonha de existir.
Um dia, peregrinando suavemente, falarei a você Falo. Sem pressas, sem avidez! Porque me inclino a sensibilidades; e sensações são secundárias nestas minhas dependências. Apesar de MUITO bem vindas.

18 de maio de 2006

Amor estendido em Natureza Morta

Havia tempos que Maria Eugênia não era abocanhada pelas mandíbulas do Amor. Sempre que isso lhe acontecia, uma sabotagem doloridíssima à sua alma se pronunciava despudoradamente. Geninha (apelido que lhe era manta desde a infância) sofria cronicamente da sensação negativa que emana do “apaixonar-se”.
Desta vez, o Amor era-lhe um risco. O objeto - vivo – alvo de todo um sentimento emperiquitado pelos dedinhos do Cosmos, era a íntegra repugnância à família da garota. A menina – que se esparramava na Literatura como forma de transcender as intempéries mundanas – lembrou-se de Shakespeare. Lembrou-se da aguda aragem que se expandia ao coração de Romeu e de Julieta. E pensou em se abreviar. Insistia em “que eu seja breve”. Não tinha fé. Pensava que viver era uma mísera marcha do Fatal e que, com a morte, de repente, se “deXiste” e, conseqüentemente, dessente todo o martírio que é a base do tricô do Mundo.
O amor unilateral sofria potentemente, porque o soletrar de seu remetente era sentido a cada esboço da caneta peregrinando lenta e tristemente sobre a planície do papel e a não resposta desse amor gerava um eco de mesquinhez, sofrimento, morte de todos os sentidos. O túnel gutural estava obstruído por uma pedra que impedia a passagem de qualquer outra estirpe de sentimento. O palanque e o amplificador disponíveis eram a Tristeza; a tristeza-cutícula que a acompanhava de nascença e a Tristeza embrionária daquele amor cuja receita era um bônus de sentimentalismos e um pouco de tempero carnal; voluptuoso.
O morto-amor estava vivo, ereto, inteligível e, no entanto, indigesto.
Por causa dos relevos instantâneos que se amontoavam e, de repente, apossavam-se da garganta de Maria Eugênia. O tempo é pássaro. E o usucapião dessas montanhas cimentou-se no orgânico e na alma; na tão problemática alma de Geninha.
Ah! Geninha, a Vida parece a todos tão simples, tão preenchida e plena, tão regozijante. Mas a ti, doçura, corrói. São sessões exaustivas de quimioterapia. Esta, no entanto, só afeta os integrantes sadios da sua casinha. Tu sais sempre moribunda das sessões de submissão à Terra. Mas a terra irá aliviar-te de todo mal. Daqui a pouco a inchada fatal te fisga deste Mundo que demanda avanços da Medicina para ser suportável.

16 de maio de 2006

Apêndice

ESTE TEXTO É UMA PEQUENA HOMENAGEM A UMA PESSOA DEMASIADAMENTE ESPECIAL A MINHA VIDA: RODS.

No primeiro dia de aula na faculdade de Jornalismo, os calouros receberam um trote (isto não é nenhuma surpresa; já foi cimentado e eleito estátua pelo vigente). Quem lhes passou o engano foi um rapaz do segundo período, todo empedernido, vaidoso e baforando um sentimento de “sou onipotente diante de vocês, seus embriões ignorantes do regime de uma Universidade”. Ele travestiu-se de professor severo e menosprezou com enorme aspereza cada indivíduo que estava ali temendo o novo, impregnado de expectativas.
O rapaz fez-se de popular, mas, na verdade, é um tanto quanto impermeável ao novo. Foram raras as vezes, por exemplo, que, ao cruzar com os novatos na faculdade, ele os cumprimentou. Ele transitava pelas dependências da escola como um militar que acredita que a seriedade e a severidade são as setas essenciais para se conduzir bem a vida.
Isso tudo se tornou pretexto para piada de Eduardo, Rodolfo e Carolina (amigos que se perceberam afins com uma quantidade de tempo muito pequena de entrosamento).
Ouviam-se comentários do tipo:
-Lá vem aquele antipático!
-Ao “sabe-tudo”.
-Esse menino nunca mais me cumprimentou; ele parecia-me tão amável, tão desprendido, descolado. Vai entender!
O ápice da chacota surgiu quando, num dia comum, como o ar a que o dia-a-dia fica submetido, Rodolfo – o fofoqueiro-mor, o humorista-mor explanou instantaneamente, sem muito contar com as marchas da razão:
-Quem é aquele apêndice?
O apêndice era um garoto cuja metragem não condiz muito bem com a espécie humana. E o “doutor-onipotente” que nos passara o trote era também um desleixo do Cosmos: era altinho, rechonchudo e mal-humorado. Aqueles dois ali, juntos, cutícula do outro, sugeriam gargalhadas colossais a nosso mundinho interiorano.
“Apêndice” tornou-se nosso jargão a tudo que nos é inconveniente, a tudo que desequilibra – ainda que minimamente – dos padrões. Carolina, Eduardo e Rodolfo batizaram um monte de acontecimento mundano de “Apêndice”.
E assim esse trio faz o tempo ser menos entediante... Com suas palhaçadas sem maldade, com o ato de enfiar a cabeça no banal e voltar de lá cheio de novidades.

Agenda

Agenda para marcação de antecipações de céus. Quanta pretensão programar “n” compromissos estando desprevenido aos súbitos pronunciamentos do Cosmos.
A agenda é uma enorme ousadia. É a crença na Vida e a íntegra fidelidade a ela. É empertigar-se perante a existência.

13 de maio de 2006

Inutilidades: anticorpos ao tédio de se existir

Depois de muito perscrutar-se, Anne enveredou a caminhos de masoquismo supremo. Os sentimentos que lhe eram inerentes desempenhavam uma notoriedade exageradamente maior do que o orgânico que, aos poucos, vai se auto devorando. A Vida negando a Vida. Os objetos passaram a ser envoltos por uma aura de sensibilidade – hegemônica. Cada traço vital afetava o túnel de Anne. E as lágrimas disponibilizadas a ela pelo Cosmos eram infindáveis. Todos os dias havia uma circunstância (às vezes banal, às vezes mais consistente) que lhe trazia crua uma tristeza sem pistas. Tristezas consolidando-se na potência e fraqueza que as lágrimas causam.
Procurou tratamentos... Homeopatia, Ioga, Divã, Desabrochando à mamãe, isto, isso, aquilo... Alopatia. Apoiou-se na tão repugnante alopatia. Nos vícios, nas drogas que são essas cocaínas travestidas de tarjas-pretas. Mas está melhor... Tem feito jus ao status de transeunte que lhe fora fadado. Passa. Vê. Diverte-se com um tropeço de uma vida despreparada para a Vida. Acha puro tropeçar, trocar os nomes, esquecer o trivial da lista de compras. Anne está em processo de ressurreição.
Saiu à rua com sua irmã Paula e ambas foram às compras... Ambas obtiveram orgasmos com as compras. Mas o parceiro depois se dilui num outro pensamento qualquer. Vida natural e Vida artificial não têm final feliz. A cópula é muito rápida. A cópula é impessoal demais para surtir ecos. Anne ainda não se entrosou com as máquinas. A espontaneidade com uma secretária eletrônica é-lhe quase inviável. Ela sente-se perante uma rocha frouxa. E esta é a única mão que a impede (Anne) de quedar e culminar no último suspiro do Fatal. O pulso aciona a quinta marcha, o coração ocorre-lhe como sessões exaustivas de sexo.
Talvez, a futilidade incessante salvasse Anne das próprias intempéries. Mas depois de engolir cada vida inanimada, ela cai, ela cai de cara... A face da alma fica mutilada. E a cura de ferimentos do cerne é infinitamente mais lenta que a cura do artesanato. Há muito enxerto disponível no Nada.

10 de maio de 2006

Pós – festa

A gente se entrosou legal no ínterim da festa. O som – ainda que não estivesse dos melhores – embalou minha morada, incrementou minha alma e me satisfez enfim. Satisfação fugaz. Como qualquer coisa boa da vida. Os meninos estavam encobertos pelas suas belezas inerentes e ajeitados com roupas que lhes garantiram um bônus de lindeza. Três a minha espera. A única fêmea. A única feminina. Adoro o Universo dos intitulados paradoxos, mas que são, na verdade, emendas triviais ao “estar-bem”.
Adoro estar com os meninos... Adoro Casas inacabadas por dentro ou casas que emanam propagandas enganosas também.
Dançamos. Muito. Sob um frio natural de não sei quantos graus, mas a gente se abanava de calor. Por que o corpo em movimento infringe o a bandeira levantada pelo frio? Biólogos e cientistas têm milhões de teses em defesa... É que com o movimento dos corpos há a síntese de uma substância que produz um efeito contrário à temperatura ambiente. Isso é chute. Não sei da explicação que eles dão a esse fenômeno. Não me simpatizo com as máximas dos cientistas e biólogos e afins. Cismam entender o mundo. Conseguiram detectar de que é feita a mistura o corpo humano: água, oxigênio, hidrogênio, azoto, carbono, cloro, iodo, enxofre, fósforo. Mas e a água? E a os outros componentes? Eles vêm de onde? (Estou como criança chata: “Mas por quê?”). Batizam os artesanatos concluídos. Vai fazer a mistura de que eles se empombam ao falar. A receita, em seu processo lento, é de espantar... Culmina em uma miscelânea de não sei o quê. No Pós-Moderno poderia ser até nomeada de “arte moderna”. Para mim, no entanto, equivale a um lamaçal mecânico.
Dando uma pequena ré: voltemos à festa!
Uma senhorita, louca devido a monitorias de alopatias misturadas, enveredou a um dos meus amigos. Agarrou-o, beijava-o freneticamente, dançava como fêmea encarapuçando-se de iniciativas (naturalmente concedidas aos homens). Eu infrinjo a Natureza; e como! Foi uma dança voluptuosa... Que emanava libidos e libidos que pegavam fôlego em olhos alheios e se estendiam a todo corpo promovendo uma eletricidade enorme nos observadores da cena.
Isso foi o fato mais relevante da noite.
Mas o melhor da festa foi a pós-festa.
Todos os circos se concentraram no meu mundo interiorano: ri, ri como há muito não fazia.
Primeiro porque meus amigos decidiram estender a extravasada em uma lanchonete... Meus pezinhos, moribundos por conta dos passos de minhas danças desengonçadas e brutas, peregrinaram por boa parte da Avenida Rio Branco e ótima parte da Avenida Independência. Pelo itinerário... Surpresas. As surpresas já estão se tornando previsíveis à minha vida... Quando saio com meus amigos-amores, as surpresas são infalíveis. Ainda que eu possa prevê-las, não sei com que cara elas se apresentarão a mim. E é este o legal disso tudo.
Dessa vez houve duas surpresas.
Uma Kombi vinha relutando com seus trajes maltrapilhos pela Avenida Independência. Em seu interior havia cachos e cachos de bananas e pencas e pencas de crianças. As formas vitais estavam tão juntas que se confundiam. Confundiam-se tanto a ponto de um de meus amigos me perguntar: “Carol, aquilo é uma banana ou um menino?”. Agachei de rir. Ri com todos os pacotes de confete que estavam enclausurados em um dos meus armários internos. Depois, na contramão da nossa peregrinação, vinha vindo um senhor e, o meu amigo (o mesmo que hesitava quanto à identidade do objeto vital que estava dentro da Kombi) com uma musicalidade de seriedade irônica explanou: “Um bom dia para o senhor” e continuou dando passos normalmente, empertigados propositadamente. Eu, vendo a cena, mergulhei em meus confetes...
Foi carnaval! É isso que chamo de carnaval. A verdadeira alegria sem acréscimos de drogas, sexos e excessos. A alegria cósmica a que se pode chegar.

7 de maio de 2006

Orkut

A vida insiste na mesma. Cada um com suas hesitações, excitações, frustrações, alegrias, infelicidades inerentes e segurando firme isso tudo com os instrumentos de que dispõe. E estes são arcaicos, nada tecnológicos, nada eficazes. Demandam potência nos músculos do âmago. E, infelizmente: agüente quem conseguir, salve – se quem puder.
Um transeunte me habita os olhos e eu, por detrás dos vidros do carro, imagino – o com suas inquietudes – cutículas a persegui-lo. E ele não me é nada. Nunca me foi nada. Ele possui grandezas, idéias nobres, talentos especiais. Mas tudo isso fica nos bastidores do grande evento que é o dia-a-dia: uma emenda e tanto.
Penso – lhe a carência. A impermeabilidade à notoriedade. Todos demandamos um minuto de boa repercussão, de má repercussão ou da depurada repercussão simplesmente. Todos demandamos um entrelace com quem pousa, ainda que por míseros momentos, a nossa volta.
Os talentos de escritores, oradores, desenhistas, vendedores, motoristas, dentistas, médicos, advogados,,, ,,, ,,, Não encontram pleno reconhecimento na própria alma. A alma se estende de satisfação quando se tem consciência das habilidades que cada um detém, mas a alma, tão necessitada de mais e mais de não sei o quê, precisa de outras almas espontâneas a reconhecê-la. Um vernissage é o cume da ausência de auto-suficiência. O propósito é que vejam e que se encantem com o bônus de habilidades que aparentemente difere uma pessoa da outra.
Estampar-se, escancarar-se alivia a solidão de ter todo um repertório ajeitado e cedido pelo Cosmos enclausurado numa única razão. Exibir-se é a forma de se viver sob o regime semi-aberto.

Uma virgem sussurrando a um amigo:

- Muito boa sorte; goze até a morte.

6 de maio de 2006

Pálpebras seladas do futuro

Não queria antecipações. Gozo os trajes. Visto-me. Experimento a mesma peça com outra peça. Ensaio oratórias – faço um supletivo de oratória – quero uma musicalidade interessante e falsamente despretensiosa no momento do crime. Crime de predadores. Amanhã desenrolarei meus papéis. Ficarei à mostra. Estampada pela aragem que emana da alma.

5 de maio de 2006

Receita Humana

O livro amarelado e antiqüíssimo
Permanece sob a guarda de mãos clandestinas...
Mas especulo o banquete das epidermes de Deus.

De todo vital ofertado - verdadeiro truque de mágico -
Inclino-me à receita humana,
A esta recepção de Mundo cheia de requinte.

Caso não houvesse o fôlego das consciências,
O Mundo sucumbiria à própria carência:
Haveria monólogos sem ouvintes,
Ecos ensurdecedores.

Benditas receitas humanas
Que gozam do status das frutas,
Dos céus, das fragrâncias...
Que gozam das destrezas da Vida.

A vida humana - com seu bônus de talentos -
Faz mímicas da Vida:
Avião, incenso, obra-prima...
Instrumento musical...
Boneca... Casinha.

Tento captar o truque do mágico
(trabalho incansável este)
Um dia ele ainda me escapa
Suas mãos foragidas.

4 de maio de 2006

Vicissitudes (parte 2)

Depressão. Alma com noventa graus de inclinação a idéias de findar-se propositadamente. Carina era jovem demais para ter agudo o banquete de sentimentos disponíveis à condição humana. Quando era alegre, era a potência de todos os apetrechos que nos remetem à felicidade... Quando era triste, era o coquetel de enfermo e a aura de um hospital emperiquitado por todas as estirpes de doença.
Comunicou à mãe do sofrimento sem remetentes. Chorou. Pensou no “dexistir” de Virginia, de Ana Cristina. Fincava todas as suas esperanças no dessentido do Mundo. Como a narradora é redundante. Ou são as vidas que se coincidem? Ou são os mundos que se correspondem?
A mãe, preocupadíssima com a agressividade que encarapuçou toda a doçura de Carina, levou-a ao médico. Um cacho de remédios... Pazes com o relógio. Hora certa a tudo. Tomar remédio antes de... Depois de... Entre... No final da... No início de...
A menina, temida com as seqüelas das alopatias, optou pelo tratamento com homeopatia. Se houve efeitos, todo o corpo esteve cego, frígido. Lutou... Apelou para religiões... Manteve contatos desesperadores com deuses... ... ... ... ... Passaram-se seis meses e, morando em condomínio de horrores, Carina decidiu apelar para alopatias. Voltou o esquema esboçado e sugerido pelo homeopata. Remédio, remédio, remédio, remédio.
Ela agora está ressuscitando. Parece que voltou a encobrir o Mundo com seus devaneios e incrementar a ignorância com a arte de escrever.

1 de maio de 2006

Aleijo

Pâmela era a terceira filha do casal. O impacto da carapuça de pai e mãe não foi tão grande na época de seu nascimento. Antes dela já havia Marcelo e Tatiana.
Como quase tudo que ganha notoriedade à consciência, Pâmela não representava surpresas. A Vida – tão complexa e ininteligível – dilui-se no povoado do óbvio que prospera em nossa consciência. Até mesmo os exageros do Mundo culminam no comum.
Pâmela era tão comum como o processo diário e incansável do tingimento do céu. E a Vida era-lhe insípida como a beleza de lindas rosas que são belas devido a uma seta outorgada do Fatal.
“Existir o tempo todo”; “ser incessantemente um gerúndio” a esgotava, a maltratava.
A família da menina era acomodada, rica, bonita... ... ... Mas a caçula, desde que tomara consciência da própria existência, hesitava entre as seduções da felicidade e da infelicidade.
Pâmela peregrinava por transcendentes instantes de volúpia... Pâmela repousava sua alma – na íntegra – em horas de desespero.
No último final de semana de junho de 2006, sob a aura do povoado da Tristeza, Pâmela sucumbiu: matou-se com o lençol com que dividira a noite.
A família ficou mutilada. A alma lhes é um aleijo trabalhoso de ser carregado.