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22 de maio de 2007

Ócio Inteligente

Caso o pensamento se enfurne em áreas invioláveis, dá-lhe conseqüências.
Este era o slogan da campanha, a partir da qual palestras eram ministradas em diversas universidades, clubes de terceira idade, hotéis de renomes das cidades espalhadas pelo Brasil.
Envolvida com pesquisas acerca das religiões, das doutrinas e de pensamentos que se formaram para se tentar chegar ao porquê da vida e da morte, Lísia Galhardo, herdeira de um patrimônio composto por fazendas, imóveis no exterior e conta bancária imponderável, aos setenta e cinco anos, resolveu, provavelmente devido a ser espectadora de um esboço ainda tímido da morte, dedicar-se à ciência que investiga o Mistério. Com a palavra, Lísia Galhardo...
ESTRÉIA DE UMA PERSONAGEM. Espero que a vida dela dure o suficiente para o romance ter um fôlego grandinho. Senão, que a morte dela faça iluminar novas criaturas e que o enredo se monte a partir disso.

20 de maio de 2007

Psique de cineasta

Domingo é tão parado. É custoso procurar um enredo bacana para agradar ao namorado. No sábado, afinal, já trocamos mensagens românticas, as juras mais antigas, embora resistentes e os bilhetinhos abreviados, conforme as máximas da linguagem virtual. Fizemos uma sinopse da gazeta da nossa semana. Resta-nos inventar. Inventemos, portanto!
Vamos abusar da linguagem... E tentar pormenorizar, dar cartas, investir um pouco de verba na jogatina que tenta acertar o significado mais consistente do amor. Vamos pôr luz somente sobre nossa face ovacionável. Depois, fazer carícias, não simplesmente com o propósito da volúpia, mas como oferenda ao carinho intrínseco que se anunciou em nosso grande fôlego de vida, em nosso coração.

O sentimento de Pena

É como se um Cosmo todo sombrio entrasse em inércia e apenas uma vida dinâmica - a incumbida da nossa pena - ficasse subjugada a esse mundo morto, embora erguido.

18 de maio de 2007

Sobre a Beleza

A beleza é a metafísica que se faz na ótica de quem a vê?
A beleza é a emissão intransponível da coisa bela?
A beleza é um diálogo entre dois gringos.

15 de maio de 2007

Promoção

Todos os dias, Lísia passa por uma guarita, que faz parte do percurso rumo à casa dela. Lá dentro, na hora em que ela passa, sempre fica um homenzinho. O homenzinho. O mesmo, cujo nome ela desconhece. Apenas o saúda:
- Boa noite, moço, tudo bom? (BIS)
- Boa noite, menina. (BIS)
Já automatizou. Não existe expectativa de ele falar algo além de “boa noite, menina” e nem de ela se delongar nas cordialidades. É apenas um ato démodé aos parâmetros deste mundo Pós - Mega – Ultra – Moderninho. É apenas a manutenção da educação.
- Boa noite, moço, tudo bom?
- Boa noite, menina.
O dia fluía, conforme “O Show de Truman”. Maritacas insones acordaram a garota, o vizinho, bem cedo, com moto serra à mão. O céu inerte. Pela fresta da porta, Lísia ouvia a empregada pinçando recados ao telefone. Vendedor de gás batendo à porta. Coragem com exército próspero: levantou-se. O dia se iniciou...
À noite, já imune à necessidade de se pensar para agir, saudou o vigia:
- Boa noite, moço, tudo bom?
- Boa noite, moça.
Acendeu-se o quartinho da novidade. Tudo lhe estava tão óbvio. Como a tendência da humanidade de se adaptar à tirania de ser humanidade. Aquele moça lhe reverberou imediatamente: quer dizer que fui promovida à moça? MENSTRUEI! Ela riu de si, de suas idéias - relâmpago. De suas divagações.

14 de maio de 2007

Tabaco

Minha irmã contribui com 657486516,29864% das emissões de poluentes na Atmosfera.

12 de maio de 2007

Mutação

Vou sozinha à festa. Porque a relação está passando por um processo de substituição. Será que existem criaturas sinônimas? O brechó das fantasias com que vestia meu âmago está em ruínas. Acabaram as fantasias. É preciso reinventar um talhe ao cerne.

Manchete da parte superior da capa de todos os jornais de circulação nacional: A VINDA DO PAPA BENTO XVI AO BRASIL.

Ao Brasil nada, à área mais cinza da Nação: ao estado de São Paulo, cujo ar é devoto de concentrações-poluidoras-trânsito-industriais.
COF, COF, COF.
Lencinho à mão com a dissimulação de acenar aos fiéis. Mas a pretensão-mor é assoar o nariz, afinal Deus lhe envia muita coriza nesse solo brasileiro. Choque cultural, choque ambiental.
O senhorzinho está exausto. Outorgaram-lhe uma agenda extravagante demais: ele incumbe-se de quase céu: está aqui e simultaneamente o Japão o saúda. Bento XVI já é antigo de guerra; é, portanto, a hora de ele curtir uma sesta prolongada. ZZZZZZZZZZZZZZ.
Todas as mídias, todos os habitantes de planetas próximos rumaram a Aparecida. É a fé movendo as pessoas? Não! É a intenção de exibir o novo nos meios de comunicação. Como Bentinho nos será útil: daqui a um ano, haverá o aniversário da primeira visita do Papa ao nosso solo. Os jornais terão momentos católicos engavetados e os exibirão e forçarão uma comoção e mudarão a entonação da voz. Programinhas de humor sem capacidade de criar farão caricatura do sotaque de Joseph Alois. Sósias e sósias dele surgirão.
A TV, principalmente, dá-nos a impressão de que a fé pode ser terceirizada, de que, ao estarmos atentos à palavra cristã, já dissuadimos Deus de todo mal que cometemos. É um bem unânime estar perante o Papa Virtual, diante da missa virtual, diante da hóstia virtual.

Fatalidade

Por que não houve perdão? Por que você se iniciou em cirurgia e viu-se incurável? Por que se matou, menina? A ciência da psique evolui em tempo imensurável, por que não lhe esperou, hein?

11 de maio de 2007

Morte morrida, morte por auto-sugestão

Às criaturas mais comuns, morrer de morte morrida sucumbiu ao trânsito da obviedade. Obviedade esta que, equivocadamente, existe na Natureza toda. A árvore é óbvia, o pássaro restringe todo seu discurso naquela estampa e na destreza de voar e cantar, as frutas são todas óbvias. As genitálias são óbvias. Os excrementos são óbvios. A Terra passa por uma crise de preguiça mental... Terceirizam os pensamentos a todo instante: no jornal, vendem-se monografias, precinho especial neste meio de ano.
Presunçosamente, digo que a morte morrida não culmina em grandes repercussões, porque ela ocorre em série. As coisas que acontecem assim, de praxe, tendem ao clichê, ao costume comum.
Entretanto, àqueles mais curiosos, mais atentos ao verbo da existência, morrer não é tão simples quanto disponibilizar uma fruta que se catou em um pé e destiná-la à capacidade de o sentido sentir. Morrer é o mistério vital, morrer é talvez a ignorância da condição das coisas antes de serem vida. Quem morre sempre é elevado a patamares heróicos. Os mortos sabem, afinal, de uma verdade que nos é hipótese ou que sequer cogitamos.
Pensemos na morte! Na morte morrida, que, em tanto momento, corresponde a uma folha que se quedou, mas ninguém a avistou. Respeitemos todas as criaturas que não resistiram antes de nós. Elas têm segredos divinos, preste atenção!
Agora, existem mortes que equivalem ao estopim de um desespero, de uma caverna toda embaçada, impregnada de agonias. Alguns, perante essa situação, apelam a sessões imensuráveis em um analista; outros, mais radicalmente, matam-se. Já existem manuais de sugestões e até apologias ao suicídio. A ciência pode ser seu próprio assassino, a tecnologia, os mares, as alturas em sociedade com a gravidade. Jovens se matam em devoção a um amor unilateral. Jovens se matam porque têm medo de se meter na vida e lhe ser rejeitado. Adultos se matam por causa da solidão. Matam-se por conta de frustrações-metástases.
O suicídio, em geometrias mais extravagantes que as mortes convencionais (ele fez o óbito!), promove efeito genérico entre as pessoas. Espanto, perplexidade. Equipamento de coragem, desafio em terras gringas. Parece que a vida é inviolável e, no entanto, há os ousados, destemidos que transgridem a emanação cósmica por um ato covarde, desesperador.
A sociedade eleva-se a uma reflexão em uníssono. Calam-se-lhe os assuntos, extirpam-se os compromissos. O mistério do Fim vem ao nosso encontro, fatalmente. É assustador irmos ao encontro do fim, em uma peregrinação voluntária. Pré-disposição à morte. Ou à vida. A uma outra cultura vital.

9 de maio de 2007

Solidão

Existe uma plêiade imperceptível aos sentidos, que nos vem de nascença. A gente deve-lhe todas as nossas frustrações. Ela é a mestra. Os nossos regozijos, só ela sabe o quanto. Por a plêiade não ter esboço, não ser um organismo comum, vivem por aí reclamando de solidão.

6 de maio de 2007

Convidada

Não estou com o atenuante de um grupo, da família, sequer de uma pessoa me ladeando para a aparição. O legal seria se eu chegasse bem cedo ao encontro, oferecesse meus préstimos aos anfitriões, mas não lhes sou tão íntima assim. Transgredir demais o horário é extremamente vexatório, as pessoas se desconcentram de seus assuntos perfeitos, e dos sabores das iguarias e da cócega do álcool e pousam o olhar sobre nós. Vou dar uma meia hora e, aí sim, rumar ao evento. Fui convidada à sociedade das expressões. As pré-estréias são um alfaiate precavido, que costura roupas em muitos talhes diferentes. Ele mune-se de toda a ferramenta trivial para um sucesso promissor. Às vezes, ainda assim, se equivoca. Mas, temendo ou não, topo o acordo. As adrenalinas, afinal, é que aceleram a peregrinação à serenidade.

3 de maio de 2007

Esporte Radical

Não existe veredicto aos sentidos e aos sentimentos, embora, a certos, arrumam-se alguma analogia, correspondência. A tristeza entra por uma fresta deixada pelo relapso dentro desta casa. A tristeza é vitalícia. Entrou e, uma vez pousada sobre organismos do âmago, torna-se imponderável.
Quando o inesperado ou o improvável submete-se à temperatura do nosso corpo, à condição da nossa matéria, enfim, nada do acervo humano é capaz de reconhecê-lo. Apenas o sente. E o sente sem respaldo algum. Arrepia-se ao vácuo, sem paredes a acolher e a confortar. Ser laboratório de sentimento é arriscar-se em aventuras demasiado radicais.

1 de maio de 2007

Esfera

Do seu nome, radicado na tela do computador, emanam os quadrinhos que, com ou sem arte, há em torno de nós. As páginas todas se exibem em uma esteira extremamente veloz; não consigo compreender tudo, mas sobressai uma melancolia imensurável. Que é esférica e que fica presente em dois de meus mundos: no meu eu e no meu nós.

Saudade

A saudade escapa de todas as nossas habilidades à compreensão de certas coisas. A tentativa de compreendê-la inicia-se e, à medida que evolui, as bases vão se rompendo até o momento de imprescindível recomeço. Recomecemos, portanto!
A saudade é radical à beça. Ela não aproveita da capacidade do cérebro de idealizar o corpo que se esvaiu. Quero corpo presente, ainda que em silêncio. As viagens virtuais e aladas da psique são desprezadas pela saudade. Ai, desisto dessa eterna adolescente em crise de identidade.

Pane mental

Conquistas, frustrações, afinidades, tédios, arquivo de conhecimentos. Acervo psicológico. Sociedade da mente. Vida útil mais provável: duração da minha própria consciência. Intempestivamente, surgem-me extirpadores de toda minha vida íntima. Morro. Fico oca ou com águas paradas. As águas paradas, de praxe, são imunes às próprias vidas e entregues à marcha de químicas nocivas, de ventos destruidores, de calores danosos.

Psicose

Uma psicose é uma vida patenteada por Deus? Vida essa que a gente, ser humano, não consegue alterar por nada? Vida genérica, dona de si, impenetrável? Representantezinha da mensagem de idiossincrasias do Mundo?

29 de abril de 2007

Gentleman

O terreno por onde transitam os gentlemen é um acervo de grandes despistes.
Houve tantas lutas, rebeliões e sangrias para se teorizar a igualdade dos sexos. O homem se aprimorou no trato com as mulheres, tornou-se mais cortês ou usou e usa de postiços para fazê-lo.
Como é bonito o rapaz que trata a namorada muito bem. Manda-lhe cartões com versos de Shakespeare. Abre-lhe a porta do carro. Dá-lhe presentes fora de datas especiais. Liga-lhe de segunda a segunda. Leva-a a lugares que potencializam o romantismo dos amantes. É lindo! Talvez seja a cobiça mais ferrenha de todas as mulheres heterossexuais.
Mas eu desconfio, e muito, dos garotos que se graduam em Universo Feminino e passam a exercer a função de mãe, melhor amiga, conselheira insubstituível sobre a relação. Pode ser que você esteja à mercê de um cara extremamente possessivo. Pode ser que a cafajestagem dele extrapole os limites das probabilidades e ele use dessa ferramenta como experiência para a própria eficácia para sedução.
Não vamos, no entanto, demolir nossa cidade de castelos. Vamos morar em castelos separados, por que não?! Vamos viver da própria ficção de acreditar em amor-perfeito. Mas jamais se esquecer de que o eu deve preceder o nós. SEMPRE.

28 de abril de 2007

Açougue

É tão inescrupulosa aquela exposição de bovinos – pretéritos nas mega- geladeiras dos açougues. Não há nenhuma conotação religiosa nisso. Apenas um reforço à existência do bom senso.
Pense bem: faz-se uma cova imensurável para o acervo do futuro humano. Já com os bois, expõem-nos em vitrinas enormes e os taxam. Cemitério. Antro de cadáveres. Decomposição prestes a compor uma comilança.

Ficção Mental

As terrinhas que fazem fronteira com meu tino me manipulam com garras de pinça. Às vezes, estou lúcida e concordante perante meus carnavais. A imaginação me coloca diante de fileiras e fileiras de espectadores; daí, sobrevivo das performances. O Mundo parece me enxergar por trás de um grande visor. Ping – pong: o Mundo é o panóptico e eu sou T.O.C..
Meu amante fica a minha espreita. Assiste a minha nudez. Além de a visão alcançar longas distâncias, os outros sentidos o fazem também. Uma consciência biônica faz casa no meu corpo. A liberdade que, de nascença, já é paralítica, fica mais e mais comprometida.
Tento organizar meus pensamentos como as colônias que a Natureza estabelece às abelhas. Pretensão vã. Divago e me perco e enlouqueço.

27 de abril de 2007

A morte de tantos Tios Patinhas

Seu próprio destino o estampa como indivíduo de sorte. Pense bem, você tem status para carregar até a morte e depois reencarnar com regalias e mais regalias. Não sei se esse aparato todo alberga sua felicidade, seu contentamento. Tantas vezes, o tio Patinhas se mata. Mas não creio ser seu caso. Você é tão bonito, tem uma namorada para inquietar sua boca, seu silêncio.

25 de abril de 2007

Beijo

Duas superfícies inicialmente secas vão se ampliando, se ampliando e, de repente, uma está dentro da outra. Neste instante, já transcenderam o estágio umedecido. O beijo é líquido.
Nos bastidores, nos corpos dos indivíduos que compõem a trama do beijo, uma espécie de efeito – anilina radica-lhes uma volúpia; volúpia instantânea, como a proliferação imediata da cor.



**Beijar é uma boa maneira de se iniciar uma pesquisa de campo, de se entender um significado incipiente da Metafísica, de se filosofar acerca da espreita das divindades sobre a Humanidade.

24 de abril de 2007

Autoconfiança

Um poeta ilustre me deu respaldo a dizer muito em poucas linhas.
Eu nunca tive vocação para Sherazade. As tentativas? Todas vãs, inconsistentes.

22 de abril de 2007

,mas o PIB da China estava errado

Acho que essa correção que fizeram ao cineasta-escritor-comentarista Arnaldo Jabor serve de jargão a todos os tecnicistas de plantão, plantão não remunerado.
Se a música é boa, ele diz que não há nenhum traço de música erudita, portanto, não tem qualidade. Se o rapaz é um gato e articulado, comunicativo: ele não é nada mais que isso! Na padaria Mini Pão, o atendimento é péssimo e um tolo ainda me diz: eles são instruídos para um atendimento padrão. Padrão de péssima qualidade, reprovado pelo Inmetro.
O estudante de Jornalismo, em regra, pega todas as teorias e as come, impensando nas prováveis conseqüências. Come todas elas. Por vezes, como a digestão é custosa, ficam – as iguarias – a os perturbar.
Eles se vestem com uma atadura que corresponde, fielmente, às máximas angariadas em cada teoria. E contestam o professor porque Jornalista tem que ser crítico.
- Professor, eu fiquei muito confusa em sua prova porque você igualou o sentido de matéria com o de artigo. Existem várias diferenças entre essas duas expressões e... ... ...
- Cara aluna, pelo estilo da prova, subentendi que você compreenderia a abordagem descompromissada das palavras.
O cara foi inteligente. Ele emendou a forma ensaiada como a garota se pronunciou e, ironicamente engajado, pôs um ponto final no discurso. Conclusão: a menina não tinha outra alternativa em vista, a não ser calar-se.
A todos os tecnicistas uma faixa:
,MAS O PIB DA CHINA ESTAVA ERRADO!

Debutante

Quinze anos de vida dá valsa.
Quinze anos de cão sucumbe.
Quinze anos de foto dá amarelo.
Quinze anos de velhice dá calvo.
Quinze anos de caule dá tronco.
Quinze anos de galinha dá baba-de-moça.

Quinze anos de arcada dá atrito.
Quinze anos de obra dá cidade.
Quinze anos de firma dá tradição.
Quinze anos de dente dá cárie.

Quinze anos de escola dá alienação.
Quinze anos de namoro, incesto.
Quinze anos de crime, serial.Quinze anos de castigo, loucura.

Quinze anos de indústria dá poluição.
Quinze anos de dias dá matemática.
Quinze anos de morte, saudade.

20 de abril de 2007

Metástase Noturna

Hoje só teve noite.
Acho que a Terra não girou;
A natureza ultimamente tem se alterado,
Se abstraído dos compromissos tradicionais.

Na época da vovó,
Os ciclos menstruais eram infalíveis.
De vinte oito e vinte oito dias,
Recepção à sangria.

Os mares não extrapolavam as medidas,
As criancinhas brincavam com seus baldinhos
Na água.
Os Tsunamis não punham o povo
Em liquidificador.

Hoje só teve noite.
Nada usou uma nesga de luz
Para se mostrar.
O tempo parece radical-mega-conservador.
Repete uma ladainha irredutível
Que amedronta as casas humanas,
A vizinhança,
A mãe,
O pai,
Os velhinhos,
Os vitimados pelas fatalidades.

Letra e melodia

Vamos brincar de Deus, Erick?!
Tentar a harmonia entre a metafísica do som,
E a articulação das palavras?

A dissonância não seria má idéia.
Hein?!
Versos sem métrica
Sobrepostos a decassílabos.

Camões e poesias marginais,
Em um varal de cordéis.
Textos prosaicos junto a bulas de remédio,
Caderno de receitas com a Bíblia Sagrada,
Texto hermético ladeado por linguagem visual.

Que tal Zequinha de Abreu e Tchaikovsky?
Mariana Fellet e Erick Vidal?
Seu Antônio, do calçadão
Com a bateria do Vidigal?

Canarinhos e maritacas insones?
Aulas de harmonia desconcertantes?

18 de abril de 2007

O arroz que dança na peneira

A vida acoplada à consciência de si mesma não agüenta a quietude. A ignorância dos grãos é que lhes garante a felicidade. Ah, como eu queria ser algo inanimado!

17 de abril de 2007

Nair Bello in terça-feira, 17 de abril de 2007

Eu não tenho certeza da Vida Eterna,
Eu não afirmo a reencarnação,
Eu vejo a morte,
Eu vejo a vida:
As duas, meio concluídas.
Óbvias em aparência.
Mas obscuras, em se tratando da linfa.

Não sei em que orgânico culminarás,
Não sei se as almas são, de fato, aladas,
Não sei qual é a sombra do processo de decomposição,
Só sei,
Só percebo, melhor, o que meus sentidos ingerem.

Hoje o tempo se esvaiu de tu.
Talvez para dar conta dos trigêmeos
Que estão prestes à vida na favela.
O Tempo te emudeceu.
Mas, as habilidades da Tecnologia te eternizaram.

Ainda que Deus não te eternize,
As novas consciências estão em incessante gênese...
Os novos galhos das velhas árvores saberão de ti.

Mesmo se a alma não for alada,
O Novo sempre te alcançará,
Sempre,
Sempre,
Sempre.
Enquanto houver matéria disponível à condição humana.
NAIR BELLO.

Procissão

Vamos fazer nossa p r o c i s s ã o;
Eu não poderia carregar esta cruz sozinha.
Deixei você preocupado, não é?
Seria nobre meu sigilo,
Mas sou plebéia.
Por um simples motivo:
Fui materializada como gente.

Mutante

É!
É verdade!
Papai sempre me recomendou mo-vi-men-to.
E eu achava que ele iria favorecer meu tédio.

Achava mesmo:
Esse troca-troca postiço,
Esses cafés dormidos de lanchonete de alta rotatividade
,
Gente de toda idade –
Com seus discursos estereotipados –
Suas roupas manjadas
E o esmalte degrade,
Conforme a maiorIDADE.

Daí, desvirginando meu radicalismo,
Saí.
Observei a teia de pessoas que saem,
Ao trabalho,
Às compras,
À vadiagem.

Daí,
Concluí:
Tudo demanda mudança.
As fachadas das lojas,
O corte de cabelo,
Um anseio,
Um medo,
As tipografias,
O design dos carros,
As crianças,
A seriedade e a sisudez.

Amor, amor, amor

Não sei se invento,
Se o amo,
Se você é mero vapor da volúpia.
Qual é meu intento?

Por vezes,
Os instintos se embaçam,
São exércitos disfarçados...
Na prontidão de enfrentar a psique.

Esconde-esconde.
Eu sinto, mas não posso?
Eu posso, mas não sinto?
Até onde eu devo me permitir levar?
Pela metafísica?
Pela minha autonomia?

Não existe autonomia na vida!
É tudo nazi-fascismo.
A gravidade é uma conseqüência do Fascismo.
Fascismo das Fatalidades
Que compõem o Mundo,
Em uma valsa presunçosa.

14 de abril de 2007

Atuais conjunturas

O medo é a espera de um veredicto do Futuro. O medo é o desviver em prol de uma fantasia mesquinha que estar por vir.

5 de abril de 2007

Mulherzinha

Uma baforada – relâmpago do inconsciente,
Às vésperas do domingo de Páscoa,
Disse-me, aos gritos:
Tu não és uma mulher convencional.

Algumas máximas do manual de etiqueta
À mesa,
Diante de cerimônias sociais,
Perante relações humanas, enfim,
Subornam os sentidos femininos,
Ou simplesmente e igualmente vitais:
Os dos Homens e os das mulheres: os dos seres.

As mulheres mentem,
Entopem os instintos com uma bola de algodão,
Saem de saias, numa fajuta insinuação.
Basta – lhes um vestido,
Para que se sintam extremamente femininas.

Elas rosnam,
Porque um rapaz fez um comentário autêntico,
Selvagem, embora sincero.
Elas denotam fortaleza,
Mas se esfarelam com perdas conjugais.

Ah! Mulheres.
Minhas congêneres,
Embora aflitas em nome de um exército inventado,
Civilizado,
Postiço.
Vamos voltar à época dos bichos,
Da desordem.

30 de março de 2007

FELIZ ANIVERSÁRIO

Como jargão – sobrevivente de guerra – passo
Com meu – já gasto – cartaz:
À medida que a vida faz-se maciça de vida,
Mais se aproxima da derradeira goela do Fatal.

Feliz aniversário?
Tudo bem! Que essa sua proximidade com a morte
Seja, ao menos, serena, suave.
Feliz aniversário...
Os novos tempos contam com sua contribuição.
Para que se fechem os tempos reservados a você.
Aniversário: já se nasce em morte.
Portanto, gozemos dessa morte-vida incessante

Insight de Amor

Guardei teu primeiro recado.
Para um dia ter me orgulhado:
Eu tive um namorado
Custoso, embora autêntico.

É verdade, bem sei.
Porque desligas o telefone,
Somes,
Reapareces.

Como militar da masculinidade, como os homens, possuis um falo;
Quer espontaneidade maior que a do pênis?
Em felicidade: a antena rígida ascende;
Em frustração: avezinha encolhida a cochilar.

Acredito, sim, no amor, ou melhor dizendo, na afinidade.
Porque o primeiro se equivoca, quando é processado pelo homem.
A afinidade das genitálias, das oratórias, da aura, do esperá-lo sem me entediar é fato.

Por que, então, abster-se da coragem de se entrosar,
A ponto de os sentidos – todos eles – comungarem um mesmo paradigma?
Afinemo-nos sem covardias.

27 de março de 2007

Calendário à brasileirinha

Antes, o Brasil - o Brasil das lojas abertas, dos serviços públicos, do calçadão cheio começava sua atividade em março. O argumento: tudo se ajeita depois do Carnaval. Agora, deram um prazo maior para a ressaca. Um mês inteiro de descanso, de desintoxicação.
A programação da TV inicia-se em abril. O cursinho pré - vestibular, idem.
Os futuros seres humanos herdarão esse calendário à brasileirinha? Viva o ócio do janeiro, do fevereiro e agora do março.

22 de março de 2007

21 de março de 2007

Constituição de 1985

Sou minha maior censura.
Mamãe vem, amontoando palavras pretensiosas, mas travestidas de doçura. As frases são estiletes eficientes que estavam no acervo de nossa intimidade. Rapidamente me recomponho, monto um altar com pequenas oferendas a meu próprio âmago: sou uma nesga de Deus e, conseqüentemente, um farelo da Onipotência.

18 de março de 2007

Vão

Gisela vasculha, numa pretensão de se defender das próprias condições a que a vida a induz, o acervo de possibilidades à origem de cada sofrimentozinho que a rege. Sempre se inclinou ao raciocínio matemático, lógico, exato sobre as coisas.
Desta vez, sofria em nome de um amor inconsistente, desmazelado. Não lhe cabia na psique a própria punição que lhe veio de nascença: uma carência indomesticável. Nenhuma cortesia supriria aquela dor, dor dos incipientes tempos em que se reconhecia como humano. Dor do maquinário outorgado do Mundo.
Dor. A dor morta do dicionário. A dor conotativa. A dor legítima. Mune-se das lupas invisíveis da consciência e sai à busca de endereços; do catálogo que contém todos os dados do motivo de se padecer.
É tudo vão, coitada! A serenidade lhe virá, quando o líquido dos lixos escorrer-lhe do caixão. Só assim!

17 de março de 2007

O outro

O Outro, numa relação (hipoteticamente promissora) de monogamia, dá uma consistência em prováveis hesitações. Nada é certeiro. Portanto, arquivamos outros indivíduos bem quistos em nossos acervos de maridinhos e esposinhas.
(Um filósofo de 2158 disse isso a um Futuro que não me pertencerá. Achei interessante e decidi introduzir esse escrito com este pensamento que segue).
Iramaia, há uns meses que se desviaram das rédeas de minha contabilidade, relaciona-se com Olavo. Este permanece ingênuo perante as metáforas de que tanto ela gosta de falar. Talvez seja um jeito de a moça se proteger da neurastenia do Mundo. Fala doce, cujas ferraduras aludem os outros à sensação mais farejada por qualquer criatura.
Com o carinho de um solitário que faz jogos lúdicos e minuciosos com a existência, ela se aquieta no relacionamento. Ainda que sofra, ainda que sinta a necessidade de um aconchego inumano, prevalece contida, enclausurada em seus próprios pensares. Nada, jamais, poderá servir de ração a minhas aptidões. Fala Iramaia; remetente: inconsciente; destinatário: distinção da consciência.
Iramaia vive em um estoque obscuro, em que seu maquinário não cessa trabalhar. O labor pende de um súbito e fugaz movimento ao tédio cego de possibilidades. Dizem, nessas cirandas que peregrinam pelo calçadão das cidades pequenas, que todas as pessoas, numa fase xis da vida, passam por um período negro. E nesse negrume, não existem estrelas, não existe a lua. O único sentido válido é o que observa a negritude.
O namoro, como todos os naipes do Relacionamento, é uma emenda à vida da garota. Um enxerto que lhe garante, indubitavelmente, tempos voluptuosos, tempos de plenitude dos sentidos e intempéries. Sofrimento. Sofrimento oriundo de temores. Temores todos vãos. Mesmo que a vida se desfaleça, certamente, ter-se-á que a suportar. É tudo outorgado. É tudo força clandestina e soberba como a empáfia dos que negam a Paternidade.

"Não" às drogas?

Como pude deixar que a conduta, esta de que nada sei, embora ache, num ínterim indeterminado, que ela seja o condutor-mor da existência, me levasse ao caos? Ao niilismo total?
Os tarjas-pretas, em muito, me ajudaram. As maçantes sessões de ioga me reergueram. Os antidepressivos, muito paulatinamente, possibilitaram serenidade aos sofrimentos carecas, moribundos, agonizantes. Afastaram-me das drogas... Ou, sucumbi às campanhas de combate ao tabagismo? A vida agora vem crua para o meu lado. Nua, crua, repugnante, por vezes. E o sexo é outorgado. Uma masturbação indelicada, que desvia o propósito principal. E, em vez de prazer, atiça a idéia que deu origem às práticas sádico-masoquistas.

16 de março de 2007

Sr. Onomatopéia. Onomatopéia de quê?

A aula do professor Aurélio é irretocável. Possui, inerente à condição solitária dos indivíduos ilustres por nascença, a capacidade de, sem intervenções, fluir perfeita e prazerosamente. Ainda assim, Juca insiste em levantar o braço rígido e ensaiado como um soldadinho temeroso: ô professor... Entre uma palavra e outra, ele solta um som que não faz parte do repertório dos falantes da Língua Portuguesa aqui no Brasil. Ô profelaksjapfsdmvl. Além dessa proeza, onde couber, ele coloca a palavra esdrúxulo.
Gostaria muitíssimo de entender: que som o Juca imita ao estrear seus discursos com um pretenso, embora pelas metades verbete: prof...

11 de março de 2007

Reincidir

A vida é reincidente.
Nasci com fome,
Com sede,
Engolindo tudo que estava à frente.

E isso tudo persiste.
Já estou velha,
Sobrevivente de guerra;
E a fome insiste, não pára.
A sede não se sacia com minha saliva.
O Mundo me vem, entrão.

9 de março de 2007

Plágio

Alertaram-me a possíveis plágios. Mas, diante de qualquer forma de expressão, fica-se exposto e obviamente sujeito a cópias, copiou?! Colou! Portanto, destemida, continuarei a escrever meus textos, meus escritos, meus desenhos, minhas músicas, meus sentidos, minha vida, enfim.

3 de março de 2007

Bochechas Rubras

Há tanto tempo não escrevo;
Fico até meio sem jeito.
Todos os dias eu estendia meus sentimentos,
Em letras bem talhadas,
Em metáforas que tratavam com fineza minhas ousadias.

Há tanto tempo não escrevo,
Mas jamais se esquece do manual dos beijos.
Não se esquece do Amor velho,
Sobrevivente de guerra.

Deus lembra-se da fórmula das vidas,
Embora, às vezes, por um deslize qualquer,
Seja falível como os médicos tão presunçosos
E, no entanto, raquíticos da legítima sabedoria...
De que tudo culmina em nada.

21 de fevereiro de 2007

Tia Hilda

Caminhão de mudanças.
Aproveitou da ojeriza que tem a carnaval para fazer a mudança a que tanto aspirava. Sairia de um apartamento de três quartos para um de um quarto. Motivo: muito espaço a uma pessoa sozinha, muitos cômodos a limpar, mausoléu, enfim.
Pagou um frete apenas. A fim de economizar, amontoou tudo, de forma que uma viagem desse conta dos móveis, dos utensílios, das roupas, dos sapatos. Era muita coisa: roupas herdadas de bebês de dois anos de idade, sapatinhos com numeração de criança, frascos vazios de perfumes franceses, toquinhos de batom, mofo. Em tudo havia mofo, muito mofo. Uma prova de que a vida, de que Deus estava ali presente. Deus nunca se abstém das vidas; nem das vidas inanimadas.
Tirou do tino o motorista do caminhão. Ele se arrependeu de, à época carnavalesca, aceitar a proposta de fazer uma mudança. Não uma mudança qualquer, mas a uma senhorinha neurótica. Cuidado com as curvas, moço, tem um monte de taça que eu trouxe da França. Preste atenção, abaixe o volume desse rádio, o senhor está em horário de serviço. Aiiiiiiiiiiiiiiiii! Puta que o pariu. Se eu soubesse que seria assim, teria levado tudo na mão. Nossa senhora, que má vontade!
Depois de observar tudo aquilo, quieta, esteticamente absorta, concluí que, com aquela quantidade de parafernálias, Tia Hilda poderia estrear uma nova civilização. A civilização incipiente e ultra-moderna do século XXI.
Foram seis dias de arrumação, limpeza, insônia. Desligou o telefone. Fechou as janelas. Simulou uma perda de identidade. Como em uma ficção fajuta, enterrou-se por uns dias e alienou-se do Mundo. Há trinta horas que ela dorme... E dorme... E dorme.

20 de fevereiro de 2007

Pés

Olhando, parece um ser bruto. Os pés, conforme nosso comando, podem tatear suavemente a superfície, extraindo dela a textura, a temperatura e, conseqüentemente, uma afinidade ou uma ojeriza a ela. A ginástica do pé fica sob nossa vontade, embora a composição que o forma esteja à mercê da Vida. Como os grandes rochedos que ilustram a interseção entre o fundo dos mares com a parte rasa, com a praia. O pé, levitando a menos ortodoxa conotação, é uma rocha que corresponde à gastura a que o tempo o submeteu.
Os dedos dos nordestinos de pouco tempo e, no entanto, antigos de trabalho, ficam estáticos. Os sóis, as chuvas, o incessante movimento, os calos os mumificaram. A vocação a contorcionistas cessou-lhes.
Eles resistiram a mil guerras, feridas abertas. Não precisam de histórias, não precisam de um ouvinte. O sentido instantâneo da visão dá o desfecho à trajetória do instrumento andante.

19 de fevereiro de 2007

Cadáver à moda da Rede Globo

Enterraram o vovô com o blazer irretocável. Azul marinho, beirando o preto. Camisa branca de gola engomada e uma gravata discreta, de seda. A fisionomia já estava comprometida pelos oitenta e dois anos e suas mazelas inevitáveis. Ah! Vovô, quanta saudade.
Outro dia, ao mexer na caixa onde guardo velhas fotografias, assaltou-me a imagem dos cabritinhos que, amiúde, você comprava para nos agradar. E enchia aquele sítio lindo que você fez também para nos agradar. O que me comoveu e me encheu de um prazer nostálgico foi a mamadeira que você comprava a cada um dos cabritinhos. Dava-lhes leite pela mamadeira. Que alma imensurável. Daí, já envolvida com os raios de nobreza que lhe emanavam, fiquei frente a frente à outra imagem sua: você estava tirando cochilo, debaixo de um banco de madeira, sobre uns jornais. Que homem. Que Homem.
Tudo que você fez em Terra ganhou uma repercussão toda peculiar. A Natureza capricha em algumas de suas empreitadas vitais. Há tempos não o encontro em outras gentes. Quanta carência.
No Rio, uma vez, todos ávidos pela festividade da virada de ano, ao abrir o armário da vovó, hipnotizei-me com a cena ingênua que o senhor montou: seu martelo – sujo de tintas e do próprio tempo – fora colocado sobre uma roupa de linho branco da vovó. Chamei todos que estavam na casa da praia e rimos da sua pureza. A pureza é tão exígua que, quando se a vê, sente-se algo incomum. Você continua sendo incomum.
Até no cume da vida, até diante da morte, houve uma circunstância memorável ligada a você. Enterraram-no com o tronco requintado e, no entanto, sem as calças. Cobriram-no de flores. Talvez gastaram a Floresta Amazônica inteira, mas não deixaram suas calças ao deus dará. Quem o preparou ao final estético, encantou-se pela calça... esta deve estar vivendo a marcha de um par de pernas anônimas.
Garanto que, conforme seu talento à generosidade, você está muito feliz a perscrutar essas perninhas que, clandestinamente, herdaram suas calças.

Restos e sobras

Deixaram-me o Mundo. Tantos céus a serem, outorgadamente, contemplados; ares a serem inalados; águas a serem bebidas; frutas a serem comidas. Minhas vidas contemporâneas vão ao cemitério dos meus sentidos em ação. O alface por pouco sobrevive em meu tempo. Já, já vira cadáver. O meu apetite é um cemitério superpovoado.
O sabiá que se dissimula no jardim da casa de sr. Itamar, meu vizinho, é ração a meus olhos, a meus ouvidos. O mundo estende-se a mim... Todas as habilidades das mais variadas formas vivas são uma exuberante vitrine a mim.
A chuva, que já é destra a ser chuva, escorre-me integralmente. O nascimento hábil das águas incita minhas curiosidades; minhas ávidas pretensões de saber qual é a verdade.
No momento em que a casca da laranja foi jogada ao solo, no momento em que o Tempo iniciou-se no processo de decomposição da vida, no momento em que penso e, conseqüentemente, sou pensada pelo tino de que não sou rei, o aerossol de espantos radica-se em mim. No meu mundo mais interior.
Dispuseram-se de um acervo virtual impalpável para elaborar as imagens que me surgiram nessa noite, enquanto dormia. Quanto será ainda me resta para consumir??

17 de fevereiro de 2007

Argh!

Não vou vulgarizar. Usar do efeito das palavras de baixo calão. Mas, a minha maior pretensão é me rebelar contra os indivíduos que fervem minha saliva de misantropia.

16 de fevereiro de 2007

Carnaval 2007

Nunca concebi aqueles carnavais de que tanto falavam meus avós e até mesmo meus pais. Será que os tempos eram tão diferentes destas temporadas entediantes? As lindas marchinhas salvavam uma existência pelo menos até o final do respectivo ano? O lança perfume, que se acumulava na composição dos ares, aliviava os indivíduos da Melancolia? Os Coquetéis tinham efeito prolongado?
Como os ateus tão presunçosos quanto os fanáticos, descreio nos milagres dos antigos carnavais. Acho que tudo isso é oriundo da grande farsa do “Era melhor porque era antigamente”. Antigamente traz uma noção de cultura erudita, elaboração minuciosa das civilizações greco-romanas. O cume da perfeição, ou da proximidade a ela, pertence ao agorinha, àquele serzinho que acabou de berrar ao Mundo. Bandeira ascendida à vida.
Aproveito, com costume, como quem faz um jejum anual, a mudez do carnaval para atinar à minha posição na Existência. Reparo como foram as manifestações sociais, culturais, sentimentais. Pego meus sentidos e os trato como Playmobil. Uma lascívia abre uma fresta a uma frustração. Daí, nasce um enredo. Meu brinquedo é o desabafo.
Comemorar os bustos fartos, explícitos e lustrados com óleos e postos na feira. Sem preço. Quase gratuitos como os frutos. Embora sem a castidade da ignorância de ser um fruto. Comemorar os bumbuns, incrementados com pecinhas pequenas de pano. Comemorar a falta de sobriedade. Comemorar o xixi público de um pênis anônimo. Comemorar a pornô chanchada livre de tributos. Comemorar a volúpia do guarda que se pune em uma objeção à própria Natureza. Não se sente digno ao se excitar perante as pernas de uma garotinha muito jovem. Mas, se salva rapidamente ao vê-la desmontada de libidos, nos braços de um rapaz bem adulto.
Aproveito meu Carnaval. Minha vocação a Themis perdoa a juventude que se vulgariza. Minha Themis entende o excesso dos outros. Mas, não se enfurna na morbidez. Porque valoriza, com primazia, a fragrância que existe em cada corpo. O que há no lado de cá.
Neste ano, a novidade da fantasia é a casa enorme, esse mausoléu entregue a mim. Simplesmente a mim. Acordarei sem as dívidas do bom dia. Descerei a escadaria e preparei o recheio a meu pão que, bem cedo, o padeiro deixará na grade.
Ai, a solidão me enche de frenesi. O exercício esporádico da Misantropia é salutar.

14 de fevereiro de 2007

Motivos para não se gostar de telefone

Simone tem ojeriza a diálogos – à mil e uma noites – à linha do telefone. Radicalmente, diz: telefone é para caso de urgência. Caso eu necessite mudar o horário dos clientes, caso eu atrase a visita a Mirian... Nada de chamegos guturais.
Estava umedecido o Tempo. O céu dissimulado pelo degrade oriundo do Cinza. Era domingo. Tudo incitava depressão. Ainda que sofrida, desencadeadora de produções artísticas mirabolantes. Simone é artista plástica. Como de praxe, escolheu um sobrenome que reluzisse; escolheu um codinome: Simone Belvederli. Conforme as convenções se enraízam em nossa psique, aquela invenção toda se radicou na linfa da mulher. Absteve-se ingenuamente da Simone-mais-um-artesanato-de-deus e incorporou a extensão da artista. Considerava-se e, de fato, era artista. Uma interseção entre Deus e o Mundo.
Deu-se ao luxo e ao despudor de assumir detestar telefonemas longos, infindáveis. Certa vez lhe ligaram e os assuntos voavam a todos os continentes. De repente, após o giro cósmico, cessou-se o ideal. Silêncio nesse lado, mudez naquele lado. Que constrangimento. A mulher fez de tudo para que a pessoa que estava na linha desligasse o telefone... Sutilezas vãs. Haja paciência! Silêncio à frente de uma existência robótica que tem, como status – mor, a transmissão de sons. Não dá.
Outra vez, o zunido repelente do telefone soou. Ela estava à pia, escovando os dentes após uma das poucas refeições que fazia no ínterim de um dia. Enxaguou-se com desleixo e correu em direção ao aparelho que emanava o ruído. Atendeu. Era uma amiga de infância, da qual nem se recordava nitidamente, já que conviviam porque assim determinou a Eternidade. Joana – a amiga de outrora – forçou uma saudade, forçou uma espontaneidade. Por um momento, fixou-se em um assunto com projeções incrementadas e o repetiu... Repetiu... Repetiu. Existe sempre gente que se identifica com o refrão. E sequer se interessa pela trajetória de um poema.

12 de fevereiro de 2007

Corte de Cabelo

Vanice comprou uma vastidão de revistas no sebo. Todas com as capas referentes a cortes de cabelo. Corte de cabelo. Vale a pena, principalmente quando os dias ficam comprometidos meramente com a hóstia previsível do trabalho, da escola, da ioga, da ginástica. Mudança. Já.
Enquanto os esquemas não variam, enquanto a Economia não oscila, enquanto meu emprego não melhora, enquanto me fatigo com as mesmas ideologias, com a pilha de livros e com a MPB, opto por alterar a jardinagem.
Que novidade. Sou uma intrusa nos textos que não me pertencem... Que fazem parte desse mundo lúdico da minha consciência e do meu devaneio.
A moça vasculhou todas as revistas, analisou cabelo por cabelo... Deu uma grifada naqueles que condiziam com suas pretensões e que combinavam com a forma do próprio rosto. Mostrou à Dorarite, sua mãe. Ela enumerou objeções a todos os modelos de corte. Ah! Minha filha, explica para o cabeleireiro direitinho o que você quer. Vá na sorte. Existe sempre aquele indivíduo que, por mais que o Tempo o faça de presa, prevalece com a apreensão; apreensão perante circunstâncias irrelevantes como cortar o cabelo, fazer uma tatuagem. Não há nada de nocivo em um cabelo mal cortado. A tatuagem, caso não goste, será devorada – muito rapidamente – pelo Leão da Fatalidade.
Vanice preocupa-se com a vicissitude da sua psique. Concordo com ela. Isso é pretexto à hesitação, ao medo. Ainda assim, o medo vai culminar no funil dos finais... Se há um final, uma morte, um assassinato, por que cultivar essa horta que aflige? Por quê?
Corte de cabelo é a ciranda do Lazer. Vamos ousar ser deus. Brincar com simetrias e assimetrias. Olharmo-nos ao espelho e imaginar uma forma redonda, uma franja reta e desfiada. Tudo é deus. Continuo devota do meu Panteísmo.

3 de fevereiro de 2007

Cortesia

A melhor maneira de ser cortês com todos os convidados da festa da Vovó Maria é respingar-lhes cachaça goela abaixo. Com certeza, todos ficarão BEM à vontade. Despudorados. Dançarinos sublimes. Mestres da Oratória. Discípulos de Nelson Rodrigues.

1 de fevereiro de 2007

Jazigos Perpétuos

Pois é! Estou aqui,
Comendo o fruto que o pé da Vida me enfia,
Goela abaixo.
Estou nauseada.
É o mesmo sabor quase sempre;
O apetite já se gastou.
O apetite já nem reconhece as iguarias.

Ainda não tenho emprego,
Uso e abuso do dinheiro,
A cujo horizonte nunca tive acesso.
Vem com o corpo gasto do meu pai.

Extravaso e sempre me sinto cansada,
Exausta,
Em estafa.
Deprimida com o excesso de vida,
Decepcionada com a estirpe humana.

O ônibus pára.
O fluxo de carros da via ao lado é imensurável;
Quanta gente.
Quanto vigor de Deus.
Cada criatura assentada ao ônibus tem consciência de si.
Quanta agilidade de Deus.
O sinal está verde,
São tantos ônibus para virar à direita.
Vamos aproveitar essa empreitada.
A curva é feita...
Sacolas despencam ao lado oposto,
Forças batizadas pela Física.

Meu corpo é atingido por um sol já distante,
Das cinco da tarde.
Claridades imersas em florestas impalpáveis.
Sombra e sol...
Intervalo de sol e sombra.
Ainda dentro do ônibus.
Felizes são as populações dos jazigos perpétuos.

Desço, sem pensar, e a rua me recebe.
Ainda há um itinerário que precede minha casa.
Estou ligada.
Os deuses da Mitologia me inquietam.
E estão todos bem vivos...
Até as populações dos jazigos perpétuos estão bem vivas,
Já que existem tantas consciências daqui deste lado.

30 de janeiro de 2007

Face a face

Escolha, após observar bem seus arredores, uma forma de exercer o Amor com você mesmo. É. Amor de vulva, amor de amiguinho das extravasadas, amor às coisas é unilateral. U-ni-la-te-ral.
Vá ao banheiro; estou radical. Vá a qualquer lugar onde haja um espelho. Lave seu rosto, penteie seu cabelo, tire a blusa, a calça, as roupas íntimas. Fique descalço. Olhe-se. Perscrute-se. Veja-se de frente, de lado, de costas. Brinque com seu corpo... Que seja com objetivos de lascívias.
A rejeição a alguma coisa, inconscientemente, aparecerá. Encarará você como alguém que lhe está aquém e, justamente por isso, inocula seus venenos porque se sente em território perigoso. Amontoe seus instintos mais nobres; sei que a sua bondade compõe as imediações da vaidade, mas esse tipo de luxo não faz mal nenhum.
Inspire somente, neste instante, as suas qualidades. Exponha, ao próprio museu, as frustrações e as deixe nuas. Ainda que trêmulo, pare à frente de cada uma delas e, com auxílio de uma manobra divina - que virá, certeiramente - estenda-se ao gozo, ao gozo de ser parcialmente livre.

29 de janeiro de 2007

Evocação à concha

Há algo que a alude às unhas. Ana Maria, quando criança, quando jovem – ainda que muito inclinada às próprias bússolas de volúpia – inquietava-se toda perante o poder imperscrutável do Universo. Atualmente, aos sessenta e três anos, prevalece, embora branda, a barulhenta dúvida sobre a síntese de qualquer manifestação vital.
A concha que está sobre sua mão possui três tons que compõem um efeito degrade. Todas as coisas possuem tantos efeitos. Qualquer coisa, melhor dizendo, que se torna incumbida do Mundo, é vitimada por tanta beleza ou por tanto desastre. Não se pode ousar entender. Pira-se.
Há perfeitas linhas paralelas que revestem toda a superfície deste ser bruto que se aconchega aos mares. As fachadas das casas mais modernas, numa mímica inconsciente, reproduzem os relevos dessas habitantes oceânicas. Existe uma temperatura toda dela. Num instante em que se apóia a concha sobre um dos braços, sente-se a diferença de realidade. Uma existência é imiscível à outra. A sisudez de ambas é uma etiqueta que as acompanha desde a nascença.
Que experimento mirabolante dos deuses. Há um côncavo com utilidades múltiplas, como o orifício trivial para capturar os zunidos, os sons clássicos, os gozos, os gemidos de quem agoniza. As conchas em seu nicho silencioso, fúnebres como o impacto da morte no corpo atingido. As gentes em seus nichos, mascaradas com a estética em que culmina cada sentimento. E é tudo origem clandestina a um mesmo destino.

28 de janeiro de 2007

Templo dos sábados noturnos

Na sexta-feira, Berenice e Silvana combinaram de ir ao bar mais interessante da cidade. Elas estavam cansadas de sair para extravasar e, banhadas em arrependimentos, voltar para casa entediadas, perplexas, insossas; isso tudo devido ao comportamento da juventude fresquinha, que acabou de completar dezoito anos e iniciou o processo de freqüência a lugares que só abrem portas à maioridade.
Sábado iniciou-se sereno. Nada de enormes empolgações, paetês e indumentárias especiais. Nada de frenesi. Calmaria que emana da faxina dos conventos. Lavação de pecinhas miúdas de roupas, arrumação de armário, “isto serve, aquilo é para doação”. Meninas, venham lanchar. Berenice e Silvana são irmãs.
Silvana deu um desfecho à arrumação do quarto. Berenice, ainda aos pingos, saía do banho e velozmente descia os degraus a caminho da copa; provavelmente estava ávida por uma iguaria que sua mãe, certeiramente, preparava-lhe aos finais de semana. Estiveram à mesa por bastante tempo. Ainda que mantivessem o hábito de diariamente se reunir nas horas da refeição, de segunda a sexta era tudo muito prático e rápido, talvez estressante. Aos sábados, aos domingos havia uma extensão à hora de alimentar-se. Fazia-se um resumo dos acontecimentos mais protuberantes da semana... Cada um tinha seu espaço a contar o inusitado, o engraçado. Riam-se. Chegavam ao estopim dos sons humanos e depois, quando todos, parece que ensaiados, decidiam brecar a comilança, o silêncio tornava-se general. Daí, todos saíam da mesa. Silvana, porém, ficava para ajudar sua mãezinha. Tudo OK, louças lavadas, mesa desnuda, chão livre de farelos, a garota subia e aí sim a esteira de entusiasmo para sair se lhe esboçava.
Hoje vou com meu vestido roxo, estilo “antigamente, bem antigamente”, no tempo em que a vovó paquerava outro rapaz que não era o vovô. Essas pulseiras e, para não me exceder na estética, colocarei esses brinquinhos discretíssimos. Banho. Secador. Maquiagem. Roupa. Sandália (fiz as unhas hoje). Creme nas partes expostas do corpo. Perfume. Perfume. Perfume. Vou aproveitar esta semana, a Cenilda disse que tudo da Natura está em promoção. Economia. Que felicidade!
-Berenice, vamos?
-Arrã. Estou lhe esperando já. Só vou acabar de fumar esse cigarrinho.
-OK.
Pegaram o carro. Foram à saída da cidade, lugar onde ficava o pub. Entraram, felizmente, conforme as aptidões delas, o lugar não estava empanturrado de gente. A taxa de entrada estava meio elevada. O horário eleito por elas foi perfeito; em muito breve, a banda começou a tocar. Nostalgia total. Músicas que atiçavam o âmago dos âmagos das duas. Felicidade súbita. Espectro de alegria. Muitas em duas. Dançaram com demasia.
Decidiram ir à varandinha porque o espaço que fazia arredor com o palco emanava um bafo quente e insuportável. Beberam água, cerveja, remelexos mil, mas sutis. De repente, um rapaz alto, largo (isto, devido a esforços antinaturais que se conseguem, através dessas dependências cheias de equipamentos de ferro; equipamentos esses que se parecem com alguma eficiência ao mal em épocas de guerras explícitas). As irmãs olharam e olharam e olharam; perscrutaram, enfim, o monumento (não da metáfora bonita, mas da dimensão colossal que evapora dessa palavrinha de mil destinos). Uma delas – já perdi a noção de quem é quem – disse à outra que o colosso era uma publicidade a uma dessas academias que, presunçosas como deuses responsáveis pelas mutações dos vitais, transformam as estampas dos indivíduos.
Quanta facilidade de se esparramar na vida dos outros. Mas, os sentidos sempre estão em alerta total. Os sentidos têm o Mundo em alerta. Fazer o quê?

22 de janeiro de 2007

Invada uma festa de casamento

Laís e Humberto – amigos de faculdade – combinaram de ir ao aniversário de Ana Elisa – conhecida em comum dos dois – juntos. A comemoração foi num clube enorme onde, simultaneamente, no salão principal, acontecia uma festa de casamento.
Chegaram à festa de Ana e perceberam a movimentação da festa contemporânea. Com a sensação de crianças ariscas, falaram um ao outro, quase ao mesmo tempo: “vamos catar uns docinhos da festança do casório?”. Isso habitava o sentimento de utopia que cada serzinho – variando de dose – carrega consigo.
Dançaram muito. Deliciavam-se em iguarias típicas de festinhas de aniversário. Jogaram as sementes das piadas entre possíveis casaizinhos que dariam certo caso se unissem. Viveram meramente a superfície ilesa da existência. Geralmente, o convívio social anda aos pares com a perfeição. Tudo é certo. Tudo é tão bonito.
Quando se esgotaram fisicamente e decidiram sentar-se para beber alguma coisa, a consciência lhes veio à tona, com lembretes despudorados: “Está na hora de invadir a comemoração dos pombinhos”. Não hesitaram; a passos de veludo, subiram à escadaria que desembocava no salão. Subiram tudo. Já fartos de adrenalina e escassos de fôlego, deram-se de cara com a cozinha, onde um grupo de uniformizados agilizava as demandas do ambiente. Ninguém os percebeu. Seguiram, portanto, o itinerário à festa. Descobriram uma portinha e, contando meramente com a audácia, venceram-na. Surgiram ao palco, escancarados a todos os convidados e seus respectivos sentidos.
Nossa! Os “desconvidados” surgem estrelados, com roupas dissonantes àquelas recomendadas a casórios. Venceram o impacto inicial e se dissolveram no luxo com que se trajavam as pessoas. Nada comeram. Nada beberam. A carência de Laís e Humberto era simplesmente de um pouco de frenesi à vida.
Este dia já é digno de novas memórias e conseqüentemente novas comemorações.
Vale a pena, vale muito a pena invadir uma festa de casamento.

19 de janeiro de 2007

Cacoetes da classe média

Carina é da classe média. Aos vinte e sete anos, se não fosse pelo próprio bem-estar, poderia, sem pudores e/ou temores, abdicar da carreira profissional.
O dinheiro tapeia (aos pensadorezinhos) os vexames que o povão cru (não o travestido de paetês secos e Diesel) poderia causar. O dinheiro possui um discurso implícito que diz: Ou! Eu sou vulgar, eu exponho toda a minha feira em troca de uma volúpia instantânea e fugaz, eu abordo as mulheres como o barulho dos répteis que irrita os mamíferos, eu, com minhas garras – prendo "aqueles bracinhos delgados daquela menininha". Quero me excitar. Nesta noite, quero meu pau duro.
Ela ficou aos cantos. Sua estampa em nada condizia com as vestimentas indígenas, embora de um momento histórico “ultra-civilizado”. Dançou. Até dançou, como uma devoção à profundeza e ao divino que compõem qualquer tipo de música. Mas, à pista, de forma meio induzida, observou o comportamento curioso dos filhos de pais que fazem questão de um complexo estético todo nos trinques (carro presunçoso, roupas com etiquetas reluzentes, bolsas rotuladas de boa reputação... deselegância para a lida com outrem). A soberba tem um componente imprescindível: o de que tudo é permitido e soa até bonito, desde que se adquira ou se herde um status respeitável.
Cansou-se daquela música sem movimentos, que se assemelha a um incipiente aprendiz de piano que insiste pressionar uma, duas ou três teclas do instrumento. Foi à área verde da boate. Olhou e, antes que visse profundamente as coisas, pensou... Abismou-se. Viu um homem servindo de muro a uma mulher a qual estava de costas, com as nádegas beijando-lhe o falo. OK. Carina olhou ao outro lado e, quando se focou novamente no casal, viu as mãos dele manipulando a genitália dela. Excitante. Voluptuoso. Mas, ao reservado, com a intimidade entre dois amantes e uma aura sigilosa de um incenso, uma música, uns quadros acoplados à parede.
Os cacoetes da classe média estão tão berrantes. Sei lá, é pretensão demais afirmar o que o outro quis dizer com o décimo verso da terceira estrofe do poema da página dezessete... Cazuza, de fato, a burguesia fede.

17 de janeiro de 2007

OBITUÁRIO:

16 de janeiro de 07. Morre Luiz Augusto Pafè Albuquerque, militar de sessenta e seis anos.
Triiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiimmmmmmmmmmmmmmm.
- Gabriela, avise a todos aí que o Luiz Augusto morreu.
Giovanna estava ao longe, mas às escutas. Quem morre derrama algo heróico. Talvez, porque apalpe um território que quem resiste desconheça. Ah! Nem há por quê. A sensação é mágica e o truque não é inteligível a ninguém. Sente-se isso, porque isso se apropria das repartições do sentimentalismo.
Era câncer. Quando o descobrem, geralmente, em vez de detectarem um tumor incipiente, deparam-se com uma metástase irremediável. Mas, muitos não sucumbem: vivem dez anos, quinze anos. Claro que com as fadigas e os sofrimentos a que a própria doença submete as criaturas. Outros, no entanto, são sugados pela fatalidade muito rapidamente.
Morte. Vida. Morte e vida. Morte diária e imperceptível. Caminhos invisíveis em prol da derradeira fatalidade que nos encobre. A vida é piegas... Por que não nos esquece às soltas? Namorado grudento! Quer saber? Ainda bem que existe a morte. Passam, todas as pessoas, por momentos tão perturbadores. Alguém ilustre disse que a vida não foi feita para dar certo. De fato!
É um Einstein que, ao contrário desta Humanidade, descobriu algo de que, neste instante, somente ele tem ciência. A morte mitifica... Eterniza-se pelas memórias dos sobreviventes.
Perseguido de Deus, desejo-lhe neste instante a serenidade que cobiçamos durante a peregrinação abstrata por que passamos no ínterim da existência; acho tão magnífica a idéia de não ter mais um automóvel a transportar de lá a cá, daqui para lá. Que a essência, que essa alquimia inerente a seus momentos na Terra tornem-se autônomas para irem a qualquer lugar, sem depender dos ventos e de qualquer outra empreitada celestial.

14 de janeiro de 2007

Tributo ao CD ROM

Panqueca. Finíssima. O que transgride a estética típica da massa é o vazio que permite filosofias e imaginações mil e acaba por compor a estampa do utensílio. Fininho, desprezível, cabível em qualquer cantinho onde se guardam as inutilidades que as pessoas cismam arquivar. Assim é o tal. Ele é o tal.
Em inércia, é o sono cheio de recordações e de dinâmicas invisíveis. Não pára. Jamais pára. Está tudo ali intacto, como gavetas exageradamente organizadas de velhinhos já aposentados e de certa forma abandonados pelos agregados. Imagens. Sons. Textos. Nossas inteligências súbitas e fugazes ganham o tempo de uma tartaruga que resiste, enquanto tantas espécies sucumbem a um ventinho inusitado.
Ah! Como me acomodo, tendo-o disponível e a baixos custos. Abstenho-me da memória e credito toda a responsabilidade besta que a vida demanda nele. Minhas intempestivas luzes (ao meio do trânsito, no supermercado, nos funerais, nas situações em que o pudor faz campanhas e vence... ... ... ) peregrinam, com poucos trajes ou completamente nuas a ele. Ele é meu senhor. Salva-me da fraqueza do esquecimento, da inatividade.
Dorme muito. Há um acordo implícito entre a criação humana e a criação divina. Quando aceso, porém, é a extensão de tudo que penso, dos sentimentos contidos em palavras em acústicas em imagens.

5 de janeiro de 2007

Sherazade

Com o pensamento às soltas, sem estar pousado nas maratonas que demanda cada semana, começou, Ícaro, a se entrosar com curiosidades tão irrelevantes quanto filosóficas. Como é que pode a carcaça de um avião nos cegar o céu?! Este agora se reduziu a uma nesga que a janela ("-inha") lhe permite comer; a inutilidade de um tecido fino e pouco desafia o efeito de cores & cores do sol. Nunca entendeu as marcas de biquíni.
E, assim, numa vocação a Sherazade, sobreviveu daqueles pensamentos infindáveis.

3 de janeiro de 2007

Ping-Pong

Saudades precipitadas desta cidade que não me terá amanhã... Saudades do futuro que virá com o carinho da mamãe e do papai.

31 de dezembro de 2006

Desenho Animado

Condena. Protesta. Censura. Depois, é presa das próprias desenvolturas a que chegou para inocular na Humanidade. As próprias arapucas que sempre armou, num vento, cuja direção foi eleita pelo Destino, cercam-na, ferindo todos os sentimentalismos e o vasto ego complicado que lhe veio de nascença. É tudo tão Piu-piu e Frajola.

27 de dezembro de 2006

Brasília

O suor não escorre;
Caso haja um transeunte,
É protesto,
Manifesto,
Anarquia,
Passeata.

Endereço inusitado,
Árvore tropeçando no asfalto,
Português sem tendências.

Primos, gentes diferentes,
Tio, cemitério, tristeza unânime...
Céu repetitivo,
Extensão dos céus das Minas.

Meninas madames,
Rapazes elegantes,
Juventude movida a Diesel.

Só um instante,
Já estou aqui há dias e,
de nada sei,
desconheço os espaços por que já passei.

Sinto as sensações a que minha bússola me induz.
As geografias são pretexto a minhas melancolias...
Na verdade, é tudo tão superficial,
Quanto os maciços investimentos na estética.

19 de dezembro de 2006

Inconsciente, consciente

Sou? Nem pensar! Isolem. Abençoem-me com águas, ainda que irrelevantes, bem intencionadas. Águas-recepcionistas de apartamentos de luxo. Não posso cismar em querer achar que sou. Não sou. Na noite em que as dores no peito me apareceram e eu, enfim, dei um veredicto de que nada, até então, condizia com o que eu esboçava acerca da existência, gerei nitidez, enorme nitidez a minha ignorância enquanto compromisso às escondidas da Vida.
...
Vou com este caminhãozinho velho, com a vida em frete. A alma é tão vigorosa; um vigor nocivo, sabe? O corpo é frígido. Exceto nos momentos de libidos itinerantes. De súbitas e órfãs felicidadezinhas.

18 de dezembro de 2006

Criação

Adoro os seus dilemas. Não sei se compro um laptop grande ou pequeno; meia calabresa e meia presunto e mussarela? Não, uma inteira de frango com catupiry.
Os canteiros do centro da cidade, a esta época de natal, estão parecendo sopas escaldantes.
(de dentro do carro): uma boa noite aos rapazes.

14 de dezembro de 2006

Antônimo

Lísia não tem o poder explícito do Falo, embora possua possante masculinidade em sua dinâmica diária de se mostrar à vida. Carrega a vagina denotativa e a feminilidade e delicadeza e sensibilidade de um clitóris.

11 de dezembro de 2006

No elevador

Como um helicóptero de resgate em ação, a sensação do fim aproximava-lhes da cabeça. Oito pessoas. O limite do elevador marcava oito pessoas. Minutos se estendiam à validade de um dia. Foram vinte minutos imensuráveis de sufoco.
Espelho embaçado. Condição psicológica enfurnada na facilidade – então avessa – de se respirar. Pânico. Sistema digestivo comprometido. Calor oriundo de um complexo de neuroses.
A maior questão que lhe vinha à cabeça era: “como ficará minha família após esta asfixia de que morrerei?”. Tudo resultou como os finais felizes das histórias infantis. Acabou indo a um bar, deixando-lhe, em uma das paredes, um dos versinhos que costumava escrever.
Voltou para casa. Lavou-se. Tomou seu estimulante para o sono. Acordou esteticamente ilesa.

10 de dezembro de 2006

Grande Circo

Datas imprevisíveis
Artista: Mariana F.
Entrada franca

Mariana alude as pessoas mais observadoras à ingenuidade com que se apresentavam os mágicos de muito antigamente. Da época em que os avós iam ao circo com o propósito principal de ver truques tão bem feitos que esbarravam nos segmentos da realidade.
A família está dentro de casa, discutindo para que endereço vai se mudar. Todos opinam. Querem fidelidade à casa que viram na foto. Sem uma nesga de diferença. Pedro Paulo faz questão de que seu quarto seja de frente para a rua.
Robson, o patriarca, respeita o empenho dos filhos, mas já não possui tanto empenho com as coisas do Mundo. Há bem pouco, perdera o irmão com quem tinha mais afinidade. À mesa, eles festejam uma cobiça. Fogos de Copacabana. Barulho. Emoção. Empenho. Risos. Ao silenciar o assunto, parece que as pretensões não sairão do status de pretensões. Mas, acaba que tudo acontece. A dimensão dos planos é imensurável. A realidade é fúnebre como uma obra inacabada, embora aproveitada para bandinhas alternativas se apresentarem a preços de bananas no Brasil. Que sonhem, portanto a família de Mariana F.
O assunto segue um nexo. A evolução apresentou ao homem a coesão das coisas. Há, obviamente, as mentes vitimadas pelos distúrbios. Daí, pensam sem seqüência.
Ai. Não me interessa as porcentagens da Ciência, da Medicina. Muito me interessa a poesia que se dissimula em tudo que é permeável aos sentidos.
Mariana F., sem consciência disto, retira de uma cartola implícita, palavras que destoam da expectativa dos seus convivas. O marido fala de economia e ela cita versinhos da época em que fazia a quarta-série. E ri sozinha. Diverte-se como um recém nascido que é o mel purinho de autenticidade.
Conto-lhe casos dentro do carro, ao som dos nossos ídolos da MPB. Ela parece estar concentrada em minha amostra de palavras em esteira. Quando cesso, ela me diz:
- Esse Chico Buarque é mesmo um gênio.
Ela nos ilude como um mágico. Todos os dias, posso ter um circo gratuito à disposição. Exatamente um circo. Itinerante. Espalhafatoso. Performático.
Preciso deixar-lhe um bilhete. Faço-o. Quando volto, na tentativa de um pronunciamento mudo, olho-a e ela sugere ter cumprido o que eu lhe havia pedido. De antemão, sorrio a ela.
Partimos para o diálogo dito. Ela me agradece por eu ter lavado as louças. E eu novamente a olho, encharcada da pureza. Da pureza que bafora dos desatentos e ingênuos.
Nenhum bilhete é urgente. Nenhuma burocracia é urgente. A morte até que é um pouquinho urgente, demanda agilidade, velocidade... Antes que a Natureza inicie seu jantar e nos sobre os ossos daquilo que um dia foi imensa dinâmica, imenso mundo.

7 de dezembro de 2006

Prestes ao Xadrez

Que tranqüilidade elas têm para se enfurnar no hipotético cotidiano de certas pessoas que lidam na sociedade. Num ato obscuro, como bandidos hábeis, fartos de didáticas, Andréa e Alessandra prognosticam, equivocadamente, a lida das pessoas.
Ao invés de manufaturarem as sensações com filosofias, com citações abstratas, batizam as pessoas das alquimias a que a condição humana é submetida. É crime. É inverdade. Suposições de sentidos carentes de vitalidade. Por isso, intromissão na vida alheia. Banditismo. Merece, indubitavelmente, punição.

27 de novembro de 2006

Genialidade. Genitálias

Não temo perdê-lo. As minhas posses são inconsistentes.
Sou distante deste próprio corpo,
Das coisas que meu mundinho foi abocanhando.
Sempre me sinto pingente de mim mesma...
Sou o mundo esfumaçado.

Não temo perdê-lo.
De fato.
As águas se esgotam perante as movimentações da intimidade;
Intimidade que sonega as carências de meus sentimentos.

Maldita intimidade.
Maldito bicho esperto esse homem;
Estica-se em uma vitrine qualquer e sobrevive das ovações alheias.
Sobrevive da reputação.
Reputações são uma plêiade de enormes equívocos.

Quero, quando estiver encharcada de melancolias, conviver com trivialidades.
Nada de túneis entre mim e o outro.
Nada de pistas duplas e penetrações frígidas.
Dividir minha mesquinhez é estender o sofrimento, que se locomove feito o vôo de baratas aptas a fazê-lo, às pessoas.

Não há o que mereça a repercussão das aspas.
Vamos viver o comum.
Aceitar o comum,
Até que o segundo encontro fatal nos venha,
Meu Amor sem nome, sem status, sem orgânico.

26 de novembro de 2006

Equipamento da Antropologia

O vital mutável está inerte perante esse dia de orgias, curvas e irreverências.
Sábado.
Lira acostumou-se com a marcha dos dias úteis.
Promoveu o fim de semana à santidade.
Salvação.
Hoje, por lamentos orgânicos e prostrações íntimas, optou pela solidão.

Pouco lhe adianta:
A solidão bafora, amiúde, o verbo estendido de tudo que foi existido.
A solidão é um antro de memórias extraordinárias.
A solidão é a certeira nudez da estirpe humana.
A solidão é uma ingênua criança que é tapeada nas rodelas sociais,
Nos parques com ares virgens,
Nos frenéticos discursos sexuais.
Mostra-se, por vezes, ainda que cadavérica,
Lúcida.

Não o ama.
Não saliva amor.
Não é altruísta e, portanto, não carrega o sentimento alheio às próprias dependências.
Não tem muitas coisas a elaborar.
O fluxo de sentimento corta a cútis da mulher.

Sábado.
Produções salvariam um âmago penitente.
A beleza é uma mola imensurável ao bem-estar.
Mas funciona com a potência e com a fugacidade das alopatias.
A solidão, fatalmente, mostra-se, ainda que cadavérica,
Lúcida.

Elabora a forma de exterminar o grande martírio.
Basta-lhe extirpar a consciência.
Basta-lhe a coragem, a covardia dos que – num ato antropológico – mutilam-se por inteiro.

25 de novembro de 2006

Atchim

Num súbito, involuntariamente, os sentidos concentram-se na geração e no parto instantâneos do espirro. ATCHIM. A-a-a-a-a-t-t-t-t... Ameaça que não se consolida em atitude. Às vezes, tudo indica que o espirro está por vir e nada. Como tardes cinzentas que iludem o astro rei; como o amor traiçoeiro; como um homem com estampa máscula e voz demasiadamente aguda.
O espirro caiu no antro da obviedade que abocanhou a vida. Tudo é tão evidente que não é curioso investigar as diversas ramificações do existir. Encharcam a consciência com alterações econômicas, com teorias políticas, com apologias, com objeções, com padrões, com anarquias. Pensar, nas atuais conjunturas, denota laboratório de neuroses. Hesitar perante os bastidores de tudo que fica em vigília das existências – cujas conseqüências são nosso único acesso às vidas – é uma prática que muda nossas águas interioranas. Tudo se aglomera na Cohab dos Mistérios.
O ato de espirrar é um mandamento neonazista, afinal, intempestivamente, torna-se fantoche de uma ação que vem de forma outorgada. Que deus fica por trás desse empreendimento pleno de soberba? Quantos deuses são indiferentes às aptidões alheias.
Todas as coisas que desempenham função de ração aos sentidos e ao sentimentalismo são pretexto à arte. A arte bem lapidada possui considerável quantidade de remetentes na ignorância humana.
A destreza inerente ao espirro compõe a grande alquimia da minha tolice. Eu sou tola de mim mesma. As mais belas paisagens o são. O magnífico vôo de um pássaro o é. Tudo são tolices.

23 de novembro de 2006

Caridade

Finalmente, tenho restos e sobras de tempo. Estou corroída pela própria condição a que o Tempo me submeteu. O dia foi um gerúndio com letras ininteligíveis de um recente aprendiz da linguagem escrita. Confusão. Muita demanda a uma essência inábil a mil e uma burocracias vãs.
O bicho civilizado andou a passos velozes pelo dia todo. Correu feito répteis assustados perante o colosso de um bicho-gente. O meu colosso são os prédios imensuráveis do centro da cidade, as falações que assassinam meu ouvido defeituoso, sapatos altos exalando maus hábitos, sóis dissonantes com a fome da minha cegueira.
As pernas se desgastaram a uma proporção que equivale a dez anos de uma máquina comprada com garantia de troca (em caso de surgimento de desgastes precipitados). Envelheci muito do que a Fatalidade tinha para me envelhecer. Num ato presunçoso e dessabido, ignorei a Natureza.
Nem a rixa inerente ao existir foi respeitada. A consciência, brigando com o frenesi da inconsciência, culminou em desrespeito a ambas. O ritmo continuou, a tentativa de calmaria foi vã e arrisquei-me nos parâmetros da indiferença. Enganei-me. Equívocos acontecem. O organismo, em sua homogeneidade, peregrina – com seus pés possantes – por toda a agonia de quem tenta abdicar-se da própria vida e não consegue. O organismo é um vestibulando despreparado para a potência que se imagina da Morte.
Meus devaneios já estão inaugurando um manicômio próspero de grandes existências intraduzíveis. Espécies inimagináveis pelos grandes sábios cientistas lançam-se a mim; num, ainda que involuntário, gesto de carinho ao Homem, acolho cada novidade viva.

15 de novembro de 2006

Agonizar

Como sempre, ela. Ela, que é o meu regimento, embora seja genérica e insensivelmente tratada como vida. Parece tão simples como a arrumação de uma pessoa que ainda não se percebe, embora se sinta atraída por alguma força sexual.
O interior humano são coletâneas de sentimentos que culminam numa eternidade de águas. Tudo é amor. As águas em que culminam as nossas veias são iguais. Tudo é amor.
As aptidões pelo ontem que ainda era futuro promissor foram medidas a partir dos parâmetros imensuráveis do desejo de um amor utópico. Ontem. Futuro. Hoje. Passado. A vida, tão genérica e reduzida a uma besteirinha paraguaia, quando analisada por uma concentração de psicologias que emanam de uma existência, torna-se casa de costureira altamente requisitada.
Hoje repete a melancolia que arremata as minhas diárias neste planetazinho de sentimentos equivocados por temer o risco.

14 de novembro de 2006

Sala de cirurgia

Abstenha-se, não sei através de que apelos, de toda soberba que envolve sua linfa. Neste instante, é o orgânico o único fluxo de experimentos. Constranja, enclausure sua essência. Senão, ela chegará ao estopim do desespero. Os sentidos todos ficarão em alerta.
Mate sua alma. Reduza-se ao bicho que deveras é, embora se esqueça dele por vezes. Agora, no ínterim da peregrinação temerosa ao açougue entre congêneres. Morra. Que o orgânico viva sem a vigília da existência intrínseca.

7 de novembro de 2006

Um belo chupão

Por Thalita Oliveira
Homenagem ao chupão de maior repercussão que já aconteceu nas imediações do meu pescoço.

Uma denominação um tanto quanto pejorativa a esse ato de amor.Amor ou sacanagem?Eis a questão.
Violenta-se um pescoço.Sim, o pescoço.O chupão poder ser dado em qualquer outra parte do corpo e pode ter a pior marca que não causará tanto rebuliço quanto no pescoço.
Nos brancos, o vermelho.Nos morenos,o roxo.Ninguém escapa ao constrangimento da marquinha indesejável. Pode ser dada a desculpa que for: “É alergia a cordão”, “Fui trocar o perfume,olha só no que deu”, “O gato da minha vizinha me arranhou” e pode até ser que sejam mesmo desculpas verdadeiras(menos a última que é pouco improvável,ou não, se interpretada em outro sentido),mas as piadinhas sempre aparecem tão fortes e insistentemente como o chupão.
Para esconder ou eliminar essa temível marca todos os remédios são aceitos. A blusa de gola é a mais usada,mesmo em um calor de 40°,melhor morrer de insolação do que ser vítima do deboche alheio.Os lencinhos amarrados no pescoço, que um dia estiveram na moda, também aparecem com força total nessa época do ano.Já ouvi falar até em passar o pente no lugar da marca para acelerar o seu desaparecimento.Será?Não custa nada tentar!Tem pessoas que até cultivam e cultuam a marquinha expondo como se fosse um troféu.Vai entender!
Mas sem hipocrisias!Quem nunca teve um chupão que atire a primeira blusa de gola.Acontece sim,nas melhores e piores famílias.E não ficarei dando dicas de como evitar.Ser humano nos permite tudo até mesmo chupar e sermos chupados.Pode ser um absurdo pra sociedade,mas é fascinante para quem recebe.Então usem essa arma do amor ou da sacanagem e boa sorte!

5 de novembro de 2006

Desamor

É como se, ainda que eu não escolhesse o objeto de minha lascívia e de minha necessidade de apego, a vida me induzisse a desejá-la (o). É como se tudo de que tenho conhecimento me tornasse fiel, dependente de um grande desconhecido que me perturba com sua ausência. Sim, quando não se ama, sente-se uma ausência em irreparável vigília. O desamor é o incumbido-mor da melancolia que me abate. Quando, enfim, aproxima-se de mim um indivíduo amável, na mais léxica instância, a consciência faz uma nova leitura da tristeza. Numa demissão de pensamentos e de sensações, prevalece sempre a tristeza. Por quê? Meu incansável e humilde questionário desbotado pela eterna disposição: por que se sentir assim?
Tudo são tolices. Porque, felizmente, a memória reconhece e tatua a existência da morte. Caso pensasse com sustância, não reclamaria do afeto, do desafeto, da frustração amorosa. Meu pensar é penoso. Meu pensar é ignorante; colossalmente ignorante.
Pormenorizar o sofrimento não é sadio. Mas passa; passa como aquele amor perfeito e involuntariamente findado. Num átimo de instantes, acorda-se e o veneno do equívoco aparta-se do corpo, deixando-o permeável à capacidade de amar o novo.
Quero muito destacá-lo. Pô-lo vivo nas limitações de um advento humano. Quero muito estender os sentimentos ao governo da Escrita. Como a pretensão de cada artista com sua penitente arte.

2 de novembro de 2006

Amar

Rejeita minha consciência o elemento natural que atribuem ao amor. O amor parece às gentes um automatismo cósmico. Não deixa de sê-lo. Embora, para atingi-lo, é necessário romper o desconhecimento com que a vida surge.
Antes não o conhecia. Meu conteúdo estava em incansável alerta quanto à própria capacidade de se sustentar. A solteirice é nociva quanto um amor hesitante. Todo amor é hesitante. Aquela se desespera perante a solidão de ser individual, de ser incapaz de se ajeitar com os instrumentos de que o Cosmo nos dispõe. Este outro nos torna carnavalescos ostensivos sem recursos. Carnavalescos frustrados, munidos com oratórias – justificativas.
Sentidos que me são irreparáveis. Desde que o Mundo me é Mundo, sentidos. Ah! Sentidos. A estatura de quem não sucumbe me alude ao amor. O amor é um decalque que, aos pouquinhos, colocam-se por entre nossa composição intrínseca. À medida que se vive, tende-se a crescer, crescer, crescer, crescer... ... ... Crescer, crescer, crescer. Ainda que meramente organicamente. Enxertos sem remetentes se apropriam do nosso despropósito diário. Assim é o esquema de que não se sabe do Amor.
Os sentidos precisam fulgurar, inconscientemente, alguém para que o amor dê as caras a quem lhe procura. Ou a quem não o deseja. Os sentidos possuem a capacidade autônoma de seleção. Elegem. Optam. Estendem-se a um desconhecido. Inicia-se um processo de emperiquitar o enigma com verdades inconsistentes e persuasivas.

28 de outubro de 2006

Ivonete

Não tenho a que recorrer. Fico iludindo minha própria sensação de piedade. Esta não foi feita para viver. O ideal é nascer e, imediatamente, morrer. A piedade existe porque algo de triste existe. Esse sentimento poderia ser um gringo ininteligível a novas safras das criaturas que pertencerão ao nicho de evolução.
Penso que vai haver um jeito. Haverá uma forma de salvar todas as mazelas do mundo e emperiquitá-las com a grande potência da paz intrínseca. Estando em paz com a aura que nos acoberta, o Mundo não pesa. Os sadismos repercutem em entusiasmos das nossas próprias grandezas.
Ivonete. Não havia tido contato com uma capacidade da Fatalidade tão apelativa. Um montinho de vida vem à Terra com o propósito de, involuntariamente, gerar a sensação do trágico-cômico às pessoas. Venho revelar a você a piedade de que tem sofrido meu coração. Meu sentimento se mutila perante sua presença. Você chega-me com uma doçura transbordante que desafia os sigilos escrotos com que a estirpe humana acostumou-se. Sua doçura cavalga com os clichês tão salutares dos sorrisos legítimos, que têm impulso no cerne. Ah, Ivonete, como você é doce.
Não tem noção das regras convencionadas pelo bicho civilizado. Não caiu nas seduções desse mundo que inibe a própria condição. Na hora de fazer os serviços domésticos, levanta uma população de equívocos. A mesa é composta por copos somente. Ao telefone, como um ser incipiente que se assusta com o próprio som, emite sílabas incompreensíveis. Não a entendo. Não imagino que monstrinhos a assolam. Você é o meu mais novo Mistério. O enigma mais tecnológico da morte e da vida Severina é você.
Creditarei forças no inimaginável... Apelarei a ajudas e mais ajudas. Neste próximo conteúdo de tempo, não estaremos mais juntas. No entanto, todos os dias, quando meu pensar se arriscar no impensável, pedir-lho-ei. Pedirei momentos de conforto. Diversão a sua moda. Amor. Amor ao inanimado, por que não?!
Nunca a esquecerei. Jamais. Enquanto o sempre me existir, lembrar-me-ei de você. Fica-lhe a minha boa vontade.

27 de outubro de 2006

Perda. Perdão.

Qualquer intensidade de morte gera um frenesi chocante nas dependências do intrínseco. Adriana, artista por nascença e por investimento, fizera um lindo trabalho a respeito de uma cena que presenciara de longe enquanto freqüentava, por necessidade, o centro urbano. Havia um casal de noivos sob posições cadavéricas a fotografias.
Veio-lhe, como de praxe, um monte de insinuação:ela crê em uma mudança radical de sentido; na transmutação ágil da essência. Ele, incomodado perante a série exaustiva de fotos, propõe-se à tradição, com a confiança de que a eternidade é bem provável. Não há um sentimento forte da fugacidade. Que bom. Legítimas crianças que escolhem e descobrem as ondas do mar.
Infelizmente, tomei nota cedo que os movimentos são previsíveis e atormentadores. Vez por outra é que o mar se mostra mirabolante. Às vezes para anunciar o caos; o irremediável. Às vezes para mostrar uma face fascinante do existir. Mas são vezes históricas.
Por uma distração muitíssimo rápida, Adriana perdera a arte que talhara a uma folha fina de papel de seda. Lamentou-se aguda e velozmente. Agora se perdoou, como alguém que dissolve maus sentimentos e se torna permeável às boas novas do Amor.
Está tudo tão contraditório. Como o peso do status de se existir.

26 de outubro de 2006

Inanição

Os sentidos demandam uma dieta demasiadamente salutar. Senão, sucumbem. Vivem, quantos vejo, enovelados em inanição. Psiquiatras, psicólogos, terapeutas nada resolvem... São congêneres; não há o que se fazer, pois que são enxertados com as falhas inerentes à condição do bicho homem

25 de outubro de 2006

General

ESTE É DEDICADO A UMA VOLÚPIA DE SENTIDOS E DE ORGÂNICOS ILÍCITOS

Ele segue sempre à frente. Vai, empertigado, humano – pejorativamente humano – a assolar as existências mais autênticas a si mesmas. PUDOR. Masoquismo eternamente a dispor da nossa contra - vontade.
O pudor segue a minha frente; com seus instrumentos de corte, faz cirurgias emergenciais em minha própria essência. Tira-me o que me indica o coração. O pudor é uma quimioterapia agressiva que estraçalha trechos saudáveis do âmago.
...
Segunda-feira, fim do expediente escolar, à espera do ônibus. Eis que me surge, ranzinza, frígido e horripilante o pudor. Quando se mostra, fatalmente, é porque alguma regra civil está despencada como um quadro cheio de porte afixado a um prego magérrimo. Pois o pudor se lhe instala. O bom-senso é uma grande presunção que cismamos respeitar. Ele é um artesanato humano que repercute em malefícios ao próprio homem. Devido a tanto pudor, ele enclausurou suas aptidões, enfartou a alma e a matou; agora vive desalmado, com o peso do orgânico e os sofrimentos inerentes a ele. A inteligência é afrodisíaca. Li isso numa volúpia de procuras de alívios ao tédio. Em procura de meu remédio anti - monotonia. Deveras, ela dá um empurrão inicial na libido. Estetas, patetas, canastrões, carnívoros ou sensíveis demais em fora de hora dão aos cachos nessa Terrazinha. Um inteligente, um incumbido de transmutar o Cosmo em uma tecnologia humana é fascinante, apaixonante. Por isso, meus prós estão em um enorme sindicato em nome dele.
Ainda bem que, quando chego aqui, quando me vejo enfurnada nos meus pertences, há Nelson Rodrigues a me aliviar como a mais eficaz alopatia. Lancho, todos os dias antes de dormir, todas as verdades de que minha linfa necessita para se aceitar.

22 de outubro de 2006

Excursão

Jane percebeu, num estalo de tempo, o quão importante é, como um processo avesso às ondas do mar, enveredar-se ao conteúdo intrínseco de si mesma. Caso a dança dela dependa das musicalidades que se codificam a partir do irmão, da irmã, do grupo de amigos, do pai, da mãe, das pessoas enfim, inevitavelmente, o corpo ficará encharcado de dores crônicas.
Decidiu, obviamente que devido a estímulos cósmicos, sê-la. Explorar as próprias hortas é tão fenomenal como aquela única vez ao ano em que se faz uma viagem prazerosa ladeado por pessoas importantes à vida.
Prováveis fumaças inconvenientes que emanam dele, dela, deles, do complexo de gentes e mais gentes não mais surtirão efeito à consciência de Jane. Assim é que as atuais conjunturas ditam a ela. Mas, sabe-se lá. A essência transfigura-se em uma nesga de intervalos. Hoje está valendo a regra suave de ser a unicidade a que a Natureza induz

20 de outubro de 2006

Vômito

- Boba, mal resolvida, sem personalidade, doença de alma, bem feito, volúvel, pseudo-intelectual, grosseira, você não é mais sensível que ninguém, somos todos iguais, mimada, cala a boca, não estou falando com você, BOBA, eu já fui assim um dia, isso passa.
Lágrimas de um lado, lágrimas de outro. Bom a quem tem pressão baixa. Lágrimas doloridas, autênticas. Não de enterro de desconhecido. Lágrimas. Mais nada é preciso para estabelecer ao dia um pouco de tristeza... A tristeza que é filha de quem possui essência asmática.

19 de outubro de 2006

Mr. Grazinoli

Esta é dedicada a você.
O amor se infla em momentozinhos banalizados pelo civilizado. Não há pretexto, não existem terceiros à espera. Numa miscelânea de súbitas gangorras que o ônibus em dinâmica faz com a gente, nossas essências vão se descobrindo congêneres.
Músicas, artes, inquietações que não se enfileiram em citações frígidas de alguém que cobiça projeções e repercussões. Músicas, artes e inquietações que compõem a química da nossa linfa. Nossas químicas se jorram como uma brincadeira com duas mangueiras face a face.
Encarando a essência. Encarando a verdade? Revelando a monstruosidade de ser gente. Tapeações de nobreza à condição animalesca a que pertencemos. Críticas sem sadismos medíocres. Críticas egocêntricas... Sarcasmozinhos originais.
É assim que tudo começou.

17 de outubro de 2006

Da nascença ao óbito

Receita fresca.
Ainda que tenha sucumbido à obviedade inconsistente de tudo, o bebê atrai gentes do Pantanal. Inconscientemente, a perplexidade que se ajeita mostra suas arcadas. Magnitude.
Velha novidade que espanta. Todo dia me espanto. O Mundo é vivo. A morte faz gambiarras que culminam em vida. A vida é um gato que se faz com a rede elétrica.
O bebê cresce. Evidencia suas próprias percepções. Ingenuamente, denota suas máscaras. Escolhe. Avança a um lado. Opta. Pára. É devoto do animalesco que o assola. Começa a estipular – involuntariamente – a verdade. Carrinhos que andam retos, corretamente; carrinhos que se estraçalham. Faz o dia embasar-se nas performances do carrinho.
Matriculam-no à escola. Certas crianças revelam misantropia. Acostumaram-se à união solitária com as próprias máximas. Num súbito, um antro de verdades diversificadas as repele. Há os que se entrosam rapidamente com seus contemporâneos até então ocultos. É preciso condizer com os paradigmas do civilizado.
Puberdade. A aragem rodriguiana passa a ser a bússola da existência. Até a entrada a uma loja pode processar o constrangimento. Este tem grande quantidade de remetentes na conturbada sexualidade. Todos já beijaram, todos são expert em masturbações alucinantes. Um; apenas um não beijou, não deu rações à sexualidade. Temeu o ato... Encharcou-se de exércitos. E fica envergonhado naturalmente, conforme as baforadas do enorme ditador. A insegurança o aliena da massa exagerada que emana da essência.
Cresce e envereda a uma carreira, habilita-se para dirigir, é impelido à envergadura da compostura. Nesse instante, essas burocracias desempenham o carrinho de outrora.
Atinge à velhice. O grande alucinógeno é “ficar à espera” da novidade – vasta ignorância dos que vivem.

15 de outubro de 2006

Fragrância

Iniciou-se, agorinha, uma estação com novas lâminas de fragrância. Sinto-me nostálgica. Sinto-me melancólica e, até aqui; até este momento, ainda que tenha passado por intempéries desesperadoras, meu orgânico agüentou as mazelas que emanam das intempestivas fragrâncias que me existem.
O redemoinho de vida fada meus tempos e deixa os veredictos a meus domingos. Domingos que massacram qualquer coisa concebida pelo Homem.
Na época em que quase sucumbi à indecência da morte, os domingos me valiam flores, os domingos me faziam de pirata que avista, ao longe, ouros e ouros. Domingos e os agregados da semana. O tempo – presunçosamente em marcha ao homem – era-me o templo de meus sentidos em dinâmica.
Tempo? Genuína guerra unilateral. Guerra com armamentos de soberba. Tempo? Primitivismo a que somos submetidos.
Minhas fragrâncias culminam em minha própria náusea. Queria a destreza de ativar e desativar a vigília dolorida dos sentidos em sindicato com os sentimentos. Hoje estaria tudo em silêncio de funeral noturno. Amanhã, mansamente, levantar-se-iam minhas luzes. Novamente, como uma vida recente, encharcar-me-ia de hesitações perante os tubos de ensaio que compõem o Cosmo.
Cobiço; como cobiço diariamente, o retrocesso de passar a consciência em um processamento de desintoxicação e, finalmente, todos os dias, descobrir a totalidade da ignorância que me assola. Quando se descobre a legítima tolice, o Mundo torna-se tão simples. Tão digerível. Muito menos agudo do que o terremoto de burocracias medíocres que se tem a resolver.
Preciso bloquear minhas lembranças. Preciso nascer, nascer, nascer, nascer e me tornar sabiamente ignorante amiúde.

14 de outubro de 2006

Chazinho de Deus

Bem. Certas criaturas têm um cacho de pudores para se falar em evacuar. Evacuar é, friamente, a lágrima, o repentino aparecimento da chuva, as súbitas coloração, temperatura e liquidez do xixi.
Como Ele está em incessante vigília. Perplexidade perturbadora.
Pequena xícara de chá ao domingo insosso.

10 de outubro de 2006

Alaska

Dá para parar com essa barulhada? Meus nervos não agüentam essa dissonância dos gelos praticando masoquismos de se chocarem de encontro às paredes do copo. Gelo brindando o sadismo dos sentidos da Terra que persiste. Por que a Terra insiste nisto aqui que me torna inquieta? Infeliz, deprimida, sofrida à beça. A ingenuidade dos gelos me irrita. Incumbo-os do meu tédio de ares e ares. Deveria me esquivar dos sentidos humanos. Eremita seria uma boa saída. Mas, certamente, o desespero materializar-se-ia como um chafariz às avessas. De mim mesma, brotariam químicas perturbadoras. Turbilhões e turbilhões de momentos póstumos do efeito da cocaína. Tanque de experimentações. O inanimado torna-se volúpia diante da maestria humana. Tudo pode culminar no orgasmo dos meus sentidos em incansável vigília de Mundo. O inanimado torna-se depressão às criaturas. O inanimado comprime e comprime o processamento da Vida. Intercepto os outros planetas. As habitações me assustam. As mazelas mais graves estão soltas, embora enraizadas em corpos de condições de gente. Focam os primitivismos de essência em casinhos irrelevantes. Os mesmos bichos têm uma intolerância mútua.
A clausura me faz carícias sexuais. A esteira hipotética de luxúrias precisa permanecer pingente nas fantasias. As fantasias é que me cegam e a cegueira é que mantém minhas pernas devotas da gravidade. Abstive-me das bengalas fajutas. Quero uma mata arriscada. O cume da adrenalina malvada.
Ainda bem que as portas são pálpebras que se beijam. Ainda bem que nossos elos outorgados privam-se de entrosamentos estreitados. Fase de misantropia integral. Fragrância que rejeita fragrância.
Vá fazer barulhos com os gelos do Alaska.

8 de outubro de 2006

Estupidez

Tudo que exporta, inevitável e involuntariamente, desce-lhe ardendo pelo côncavo receptivo da alma. O inferno é o outro. O trabalho por que Tâmara optara ou fora despercebidamente induzida a fazê-lo demandava o instantâneo sentimento que se consolida perante a dinâmica dos atos vitais.
É domingo. Os céus, as flores, os ares, as roupas abobadas dos varais, as cirandas urbanas... Tudo parece uma plêiade entrosada. O silêncio. O silêncio é o maestro dessa reunião. A melancolia fica ao fundo, como coadjuvante de um dia que se repete no ínterim dos dias. Domingo.
Tristeza. Pilha de roupas propositadamente a lavar. Movimentos corporais que mexem com a sensação de Nada que existe na cabeça.
Lava as roupas. Os braços doem. A cabeça peregrina ao encontro da serenidade. Esta, intempestivamente, encontra-se com a melancólica musicalidade que envolve a Humanidade.
Fica o duo encostado em um feixe de consciência da mulher. Ela assenta-se à frente do computador. Coloca uma música clássica e, rapidamente, escancara as portas e as janelas de suas casas virtuais, que lhe promovem contatos, convívios, encontros de amores que moram bem longe. Primo do Pantanal. Está quieta e com os sentidos concentrados em plenitudes da música clássica e em escritos que importa de um sábio primo, pelo qual possui um sentimento enorme.
Percebe o vulto de sua irmã – Sarah – a transitar pelo lado de fora da saleta do computador:
- Sarah, venha ver as fotos do casamento.
- Ai, deixa-me ver. Devo ter ficado linda, né?!
No meio deste pequeno baralho, entra à conversa Augusto – irmão das meninas. Com uma grossura de praxe, diz à Tâmara:
- As fotos estão todas tremidas; isso porque você mexeu nas configurações da sua máquina.
Tâmara é muito sensível. As atitudes alheias sempre lhe batem e geram, de imediato, químicas e químicas. Às vezes, amargas, às vezes, plenas e salutares.
O irmão detém uma incomensurável quantidade de evoluções. No entanto, a tônica da deficiência humana – inseparável a qualquer um – bate-lhe em grossura.
A grossura é uma orquestra dissonante que enclausura por horas e horas uma platéia enorme e sofrida.

Lanternas

Quando, de supetão, atenta-se à ignorância, qualquer recinto, qualquer aura, qualquer circunstância, qualquer estirpe de comportamento podem desencadear-lhe interesse. A consciência e a edição das idéias portam-se serenamente. Os serenos têm o privilégio de sentirem a magnitude que emana de um artesanatozinho de Deus. Mas, são sempre objetos de atuação de cabresto de senhorita Melancolia.
Não importa. Sofridos, incumbidos, penitentes, os serenos – seja naturalmente, seja por vias ilícitas, seja por não sei o quê – têm probabilidades e probabilidades de utilizarem a proposta da razão lapidada da espécie humana.
A eletricidade exacerbada, que assola a maioria das gentes, sopra-lhes com tanta agudez que acaba por lhes espalhar as idéias sobrepostas a chãos, a paredes inaproveitáveis da essência.
A missa foi interessante à Heloisa. Missa soava-lhe como um fascismo ingênuo oriundo de seus pais – criaturas sociáveis e dóceis. Na verdade, ir a missas era ato de prestígio a alguém. Altruísmo purinho. Helô não alcançava este veredicto. O tédio corria rapidamente, ao cume do gráfico da irritabilidade. Desprezava o som que provinha da boca do celibatário. Ir a missas era-lhe um desrespeito à audição: eram dissonâncias e dissonâncias.
Nestes novos tempos, neste artifício avançado de tempos, de tudo se podem colher intenções. A oratória do padre da missa a que fora no sábado é de encantar, de anestesiar os empenhos burocratas e fazer florestas instantâneas em que o vegetal que mais prospera é a reflexão.
De volta a casa, por dentro do carro, vê um cãozinho corcunda a subir sozinho e sofrido em direção a outra área. O acordo dos sentidos, por momentos, fá-la sofrer com demasia. A partir das rações empurradas aos olhos, os sentimentos – despercebidamente informados do sabor – entram num processamento danoso ao corpo, ao cerne, à razão.
Então, a vida é isso mesmo.
O amor nada mais é do que as vãs tentativas de compensar as hipóteses levantadas pelo ego.

6 de outubro de 2006

Soldado

A razão ultra-tecnológica é que me transfere ao primitivismo da prostração. As amebas são felizes. Sim, as amebas são felizes. Simplesmente por não se saberem.
Ser informado do que me rege mutila meu patrimônio de poderes. A informação desce-me secamente pela goela. A ciência de se auto-saber é vã. A ciência de ser é uma casta da Índia.
Queria me emperiquitar com a soberba dos que mandam e desmandam neste mundo burocrata. Faça uma limpeza nos vidros desta dependência; limpe o quarto dos fundos; arrume tudo que estiver em lugar indevido.
As arcadas da prepotência tentam vender-se a mim. Prostituem-se. Inibo a visão e, duramente, entroso-me novamente com as máximas da minha doçura.
O Mundo é um grande dedo elétrico que se aponta a nós. Meus sentidos resultam em farrapos. Sou mendiga da serenidade. Faço emendas à constituição que me induz a isto, àquilo.
A doçura arcaica de tempos da candura original resiste. Como um soldado esteticamente imparcial.

4 de outubro de 2006

Bandeira

Mais um livro surge-me como a trivialidade do ar. Bandeira. Ajeito minhas dependências, de forma que a introdução – elaborada e consolidada por um anônimo – torna-se tão interessante quanto à aura que envolve os escritores célebres. O mundo civilizado inicia-se em um processo de encaixe, a partir do manuseio involuntário dos instrumentos que compõem minha percepção. Fala-se de guerras, das novas químicas políticas, do deslocamento econômico, dos radicalismos da Direita e da Esquerda. Fala-se das calamidades que gerou a tuberculose. Hesitação outorgada entre a vida e a morte; inevitavelmente, genialidade se apossa do objeto orgânico afetado.
Destrinchar a obviedade das coisas é tão complicado quanto dosar perfeitamente a serenidade indicada a cada dia. Modernismo. Farelos de Romantismo empertigado. Amores com novas safras de presente inconsistentes. Por isso, amores!

Nova empreitada no Amor

O Amor.
(clínico geral) - Isso é coisa da sua cabeça. Você precisa colocar os pés no chão.
O Amor.

(irmão mais velho) – Você é muito infantil. Eu já passei por essa fase. A realidade não é assim.
(irmã mais velha) – Cristiane, abra-se comigo. O que você tiver a me dizer será respeitado.
O Amor talvez seja um empecilho que a assola. Aos vinte e cinco, ainda não encontrara um quem que condissesse com a melancólica necessidade de inflar-se com uma alquimia inorgânica inimaginável.
O Amor é um monumento a ser observado de longe. A tentativa de transferi-lo ao cômodo da realidade rejeita os processamentos cósmicos de amar. Corpo a corpo é um investimento oriundo da luxúria. Acaba-se apegando ao egoísmo de sentir o outro em eletricidade nela. Dantesco. Animal. Muito animal. Deus. Deus são todas as articulações vitais.
Ai, o Amor.
O Amor que vai de encontro às tecnologias de ponta, que transcendem a distância e o tempo e dessa forma prosperam. O amor se aguça perante um horizonte infinito com perspectivas inconsistentes.
Decalco alegorias e alegorias ao Amor. Quando chego-lhe bem perto: ai, é cadavérico.