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29 de setembro de 2007

Blitz psicológica


Xampu.
Vinha-lhe à cabeça o liquido semi-livre, cumprindo os itinerários que lhe surgiam. Entretanto, os frascos ortodoxos inibem a quase-liberdade da química dos xampus.
São nossas linfas enclausuradas nos nossos corpos.
Parte do conjunto de inumanos emana do humano.

27 de setembro de 2007

O professor Humbert Humbert


Os bastidores da EXISTÊNCIA materializaram-no numa realidade de poderes econômico, social, estético, intelectual e outros tantos tão ovacionados pelas pessoas. “Desfrute”! Assim o inconsciente lhe sugere existir.
Rogério, advogado e professor de alguma temática que tenha a ver com “jurisdição” (na metáfora de dizer justiça) obedece às baforadas da psiquê, não por disciplina, devoção, mas pelo bel prazer. Usa, portanto, de toda munição de que dispõe para inoculá-la em suas alunas fartas – pela própria idade – de volúpia e de encantamento com homens de boa retórica e de boa apresentação e de riqueza financeira.
Ele conta dos seus bens de uma forma que não eriça inveja nem antipatia aos espectadores que lhe dividem o ambiente, mas tudo que lhe emana é minuciosamente estudado; visa a um efeito sutil e fatal de conquista. “Deleite”.
Advogado. Rico. Poderia dividir a vida com a ociosidade agendada com viagens, estudos, descansos, festas, mas prefere as instituições de ensino: nestas, há carne nova, bustos enrijecidos, cútis impecável, nádegas redondas e consistentes e vulnerabilidade das fêmeas. “Eu quero gozar”... Assim ele disse a uma de suas mais recentes presas.

18 de setembro de 2007

Bossa Nova


O espectro da angústia de se iniciar nos pertencimentos às máximas da Humanidade o acompanhava nas viagens ao Rio de Janeiro. Ia à cidade maravilhosa respaldado pelo conforto de um carro contemporâneo aos lançamentos da indústria automobilística, pelo carinho do motorista vitalício da família e por um repertório imensurável e magnífico de Bossa Nova.
De nascença, Felício angustiava-se. Tudo que lhe ameaçava a natureza intrínseca o prostrava. Ir ao dentista e acompanhar os dias algarismados implicavam a domesticação daquele ser extenso, infindável, transcendente. Infelicidade. Os ricos inventam compromissos mil para se entrosarem com o inatingível tempo. E este lhes vira a face.
Felício superou algumas dicções da angústia; esta, no entanto, sempre o acompanha com diferentes cortes de cabelo, diferentes indumentárias, diferentes maquiagens, diferentes comportamentos postiços. Os percursos melancólicos de Minas ao Rio se esvaíram ou sofreram mutações que hoje equivalem a bobeirinhas de mente desconfortavelmente infantil. O sofrimento careca lhe trouxe resistência para caminhar de encontro ao tempo, às pessoas com suas atitudes inerentes.
A gazeta das idiossincrasias o questiona do amor – ele de fato é amado, ele de fato emana amor; da importância dele perante o Cosmo – será ele mais um mísero experimento de Deus, que não dará certo, haja vista a morte, e que não reverberará em memórias futuras? Felício é um jornalismo investigativo sem respostas. Apenas ecos, ecos e ecos.

8 de setembro de 2007

Vã Filosofia


Após um extenso e cansativo monólogo didático sobre como acontece a gestação nos mamíferos, Neide, professora de Biologia, aponta a um aluno da classe: Waltinho, com base na aula de hoje, você poderia me dizer quando é que um ser humano está pronto para nascer? Enciclopédico, com a memória seletiva condicionada aos parâmetros mais rígidos para ser um intelectual bem sucedido, fez uma perífrase irretocável ao processo ensinado pela mestra. Outras argüições foram feitas; respostas inconsistentes, respostas eloqüentes e uma argumentação memorável.
Tânia, que fora criada à base da liberdade para desenvolver as próprias inteligências, pediu à professora que repetisse a pergunta. Neide, educadamente, cumpriu o pedido. A garota posicionou a voz e concatenou, como num ensaio, as idéias que iria manifestar. Olha, de acordo com meu acervo de informação e percepção, creio que um ser humano está pronto para nascer quando ele se reconhece um ignorante de si mesmo, e mais, um ignorante do Mundo. Enquanto a gente se satisfizer com as cartas que as Ciências nos dão, indubitavelmente, a gente vai deixar de evoluir; a gente vai continuar lustrando as sabedorias raquíticas que compõem os adventos criados pelo Homem. Professora, tenho enorme respeito pela sua profissão, de verdade, mas o homem se mantém como espectador dos movimentos estéticos da vida. Tudo que nos chega pertence ao estopim das manifestações da Vida, e a gente desenvolve uma retórica (acho que a gente já nasce com ela), na qual nós falamos e nós mesmos ouvimos e entramos em um processo de concordância extremamente prático. E, no fim, ótimas noites de sono. Mente leve.
A turma estava entediada. A professora não conseguiu acompanhar a transgressão daquele discurso. O calendário continuou o mesmo. Os céus não se destoaram dos céus mais velhos. Algumas pessoas morreram, mas ninguém deixou de atingir orgasmos por isso. A vida vai se banalizando... Por isso, tantas filosofias vãs.

7 de setembro de 2007

O destino dos Destinos Incertos


Através de uma fórmula desenvolvida por estudiosos da USP, calcula-se, antes dos embarques aéreos, a provável indenização que a empresa teria de pagar aos familiares das vítimas.
A atendente:
- Senhor, infelizmente, não podemos deixá-lo embarcar. O senhor representa uma ameaça ao patrimônio do empreendimento da Vôo Mecânico®.

6 de setembro de 2007

Cargo Vitalício: Rascunho

CLIQUE
As faces destas próximas verdades estão prontas para um espetáculo artístico. Bailarinas simetricamente maquiadas. Verdades tapeadas pelas parafernálias do civilizado. Eu o chamo para lhe dizer verdades, mas a linguagem não reverbera como o som não domesticado de antes. Acabo lhe contando o que meu senso fajuto de perfeição me assopra. Nenhuma Ciência possui técnica de extração de verdade, da verdade de idiossincrasias. Por isso, nossa relação acabou; por uma devoção às mentiras.

30 de agosto de 2007

À base de Caio Fernando Abreu

Já não se atreve ir a livrarias. Porque o diálogo com a balconista é presumidamente anti-poético. Senhora, esta obra por que procura só chega daqui a mais ou menos quinze dias, desde que a senhora faça-nos a encomenda e deixe-nos um sinal, em dinheiro, de, no mínimo, vinte por cento do valor integral do livro.
Uma vez que nunca houve problema em contemporizar, Nilza logo se entusiasmou em comprar mercadorias, inclusive livros, pelos comércios virtuais. No início, recorria a computadores de filhos de amigas, mas não tardou a adquirir a própria mente futurista e aprender como lidar com ela. Em menos de quatro meses, já tinha bastante intimidade com o advento.
O momento de vanguarda que lhe assolava a vida àquele instante fê-la repensar a Literatura com que se habituara: clássicos. De si a si: é preciso transgredir, Nilzinha. Sua solidão, sua solteirice estão cansadas da companhia do Português formal das obras consagradas, ilustres. Aproveite que a hora é de inovação e escolha um livro que condiga com esse momento. Será uma parceria, um traquejo e uma impressão novos. Invista! Não hesitou.
Sob a habilidade das caravelas pós-modernas, rapidamente estabeleceu o download da biografia de um tal Caio Fernando Abreu. Encharcada de uma experiência careca de Poesia, sentiu que o rapaz delatava o mal que punge a condição humana desde sua inauguração. Ah! A Poética vem com o mesmo discurso sempre, mas com dicções singulares. Como eu gosto de enxergar a diferença das dicções.
Chega-lhe o livro, à porta de casa. Os passos idosos, embora espertos. O carteiro sigilosamente impaciente, embora dócil, postiçamente dócil. Altruísmo artificial, mas altruísmo. Nilza dá-lhe uma gorjeta (atitude démodé). O altruísmo é promovido à naturalidade. As outras encomendas são trazidas por ele.
Há todo um ritual pré-leitura. Copo de água ladeando uma luminária excessivamente destra, telefone fora do gancho, reclusão, ajuste na cadeira giratória, para que a coluna não se manifeste em plena viagem intelectual. A senhorinha perscruta a capa do livro com a lupa inerente à mente dela: ao título, desenvolve um estudo que rende páginas de um caderno destinado às próprias transcendências; o desenho... sente-se útil ao vê-lo.
Muito o que pensar. Pouco antes de sucumbir ao sono: quem passa por essa peregrinação da vida deixa um acervo de impressão. É tanta impressão sem consistência, sem saber se é mentira ou verdade. Fico tão impressionada...

24 de agosto de 2007

FASHION DAYS

Entre os dias 30 de setembro e 5 de outubro acontece o Fashion Days em Juiz de Fora. O próprio batismo do evennto é um indicador de vanguarda - Fashion Days - Por que não Dias de Moda? Porque o Português não tem acompanhado a demanda de praticidade do Universo Pós - Moderno. Colonização inglesa já! O velho Portuga anda cansado.
Bastidores, maquiagens, roupas, apetrechos, passarelas, DJ, iluminação, moças magérrimas, sem nenhuma massa extraordinária, e rapazes latinamente estereotipados, com tórax nu e cru?! NÃO! Com tórax nu, sim, mas preparado e temperado por academias de ginástica. Gente bonita e apreciável à mostra.
Movimento estético. Os talhes das roupas inquietam os sentidos dos espectadores dos desfiles. Há quem aposte nos lançamentos: eles irão virar tendência; e os mais reacionários: isso só é usado nesses eventos de moda, nenhuma criatura sairia com esses trajes à rua.
As grifes da cidade tiram suas roupas do anonimato. A indústria cervejeira garante a adrenalina - ainda que postiça - dos convivas. Os flanelinhas vivem dias de Tio Patinhas e os táxis se reúnem e dão efeito de um bando de pássaros que desenham o céu.
A mídia local se abstém da agenda e do comprometimento tradicionais e foca as luzes nesse acontecimento de que, no mínimo, a sociedade juizforana inteira fica sabendo.

16 de agosto de 2007

Ser humano: uma mediação

Não dá para precisar se a vida contemporânea imita as gerações passadas com suas manifestações inerentes, ou se estas é que fazem mímica da essência da condição humana. Caso topássemos ir até o fim da discussão, chegaríamos a uma dúvida-denominador-comum: quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?
A vida surge com suas vanguardas aos corpinhos onde se hospeda. De repente, Luzia descobre a libido; Moisés apaixona-se; Swelen, aos dez anos, perde a mãe e fica órfã. E a vida vai mostrando suas arcadas, vai mostrando suas vanguardas. Como as salas de aula a novas safras de alunos. Como descobrir o alfabeto, a leitura e se inserir, e inserir os sentidos todos juntos na Cultura. Mas a vida é velha. O meu representante incipiente nessa Terra já vivia o que me é novidade.
Esse estopim a que temos contato é uma mediação a uma natureza heterogênea, rica e sem rosto. A vida e sua sombra... Esta sozinha não deve se reconhecer. Ignorância mútua e eterna?

5 de agosto de 2007

solidão aos cachos

Tantos objetozinhos humanos se delongam na devoção ao amor, ao amor que preenche, que acrescenta, que afasta das maldições inerentes ao universo elaborado pela humanidade, e que nunca cessa respeitar-lhe.
Caso se pensasse, com um pouco mais da serenidade típica do carinho, no valor do amor, muita gente optaria pela solidão a um. Ter de haver devoção a algo, é porque este demanda um empenho unilateral imensurável. Ser devoto das expectativas do amor é um cargo-casta.
O amor é transferir ao outro a própria solidão. É ser generoso com a solidão. Solidão a dois. Antes, as solidões diziam respeito aos problemas intrínsecos do indivíduo; quando este deseja estender sua intempérie a outrem, a solidão caminha com dois pares de pernas, a solidão abstém-se da origem da unicidade e parte de uma fonte dua: solidão a dois.
Acontece também a solidão aos cachos.
Imaculada está quieta, frustrada com a vida, depressiva à beça... Decidi reunir um grupo de afins para fazer uma reunião com música, iguarias e bebidas. O ouvido dela abocanha instantaneamente uma solidão em cacho. O que ela leva ao cômodo da memória que não finda as sínteses de sentimentos e sensações são as solidões das bananas. Tudo é solidão... Ainda que bons sentimentos emanem dos tempos de casais, é a partir da solidão que se reconhece o bem-estar.
Há quem prefira solidão aos cachos,,, Quem se sobrecarregue com o quase-intransponível de cada pessoa.

3 de agosto de 2007

Pen Drive

Já não se tem espaço.
O homem é acostumado a agir sob pressão;
Numa precaução, inventa cérebros biônicos com dimensão de formiguinha.

Um objeto inanimado quebra o galho...
Lustra minha memória,
Em vez de gastá-la.

A tecnologia é um capricho dos homens.

2 de agosto de 2007

Anna Sharp é sensacional

É da rejeição que o bebê vem à luz.
E eu ouso emendar...
É do anonimato de nossas idéias que acontece a gênese do Mundo.

27 de julho de 2007

Solução provisória para a fome

A obesidade mata mais que a fome.
Eu faria uma errata: a obesidade mata a fome, garante energia às 89567958 futuras safras de gentes na África. Quanta fartura! Não posso ver uma Dona Gorda.

25 de julho de 2007

Lhes

Num dos cômodos, todos dormiam. Dormiram mil dias... Levantaram-se num súbito, sob as vanguardas das tecnologias. Estas lhes entraram através de uma seringa, e lhes penetraram os sonhos e as expectativas.

20 de julho de 2007

Feira à mostra

Mais uma vez, o enredo permeia a carência que faz sombra no anonimato.
Uma mulher, faixa etária que transcende os vinte e poucos, um metro e setenta e cinco às custas de um salto de uns dez centímetros, cabelos negros e longos, castigados por uma química dessas ultra-práticas e pós-modernas, seios quase transbordantes, calça jeans bem justa, pouca maquiagem, muita exibição.
Quando meu tino vivia enfurnado nos parâmetros genéricos, eu sequer dava cartas próprias a esse tipo de aparição: assistia a uma mulher trajada com panos de dimensões irrelevantes e, num gesto de concordância às culturazinhas, julgava-a volúvel às predileções machistas e, conseqüentemente, um ser respeitável pelos cordões que têm como pingente os falos. Estes se acendem quando se topam com feiras à mostra.
Fiquei por uns quarenta minutos no mesmo antro da mulher-impulso desta história. Observei-a com devoção a meus instintos, a minhas culturas mecânico-naturais. No cômodo das minhas precipitações, surgiu-me: que magnetismo envolve uma psique a ponto de ela extrapolar sua carência através de um corpo praticamente despido? Carne de açougue não-taxada. Vaidade ordinária. Esse discurso veio-me junto à gramática da piedade... E esta só me vem perante catástrofes alheias. A piedade é minha maior pequenez.
Não me veio uma didática que satisfizesse minhas expectativa sobre o porquê de tantos comportamentos banalizados, embora encharcados de idiossincrasias.

O prazo da unicidade

Abundância da unidade humana.
Daqui a uns tempos, devoto do pacote-praticidade, o Cosmo irá sintetizar o homem aos cachos. Vantagem aos passionais, que recorrem a amigos postiçamente piegas para ir à padaria.
Muita gente; muita gente mesmo. Filas que esperam por profissionais de saúde, por extravasadas na porta das discotecas, filas de banco, de ônibus, etc. Coincidência: todos à mercê do anonimato. Alguns, resignados por nascença, não se incomodam com a condição; outros, todavia, querem a notoriedade, esta “-cida” de todas as carências. Crença.
Há uma cantorinha cheia de atitudes postiças que entrou pro cenário do roque nacional há pouco. Fico atônita, com os sentidos desalinhados, nas vezes em que ela se pronuncia nas mídias e faz questão de enobrecer as maiores banalidades; será que ela quer criar um selo de ouro a todas as obviedades mais maltrapilhas que existem? Será que ela quer outorgar importância ao desimportante? Será que ela foi acometida pela síndrome da onipotência?
Todos queremos tomar frente de vanguardas, todos queremos poder patentear qualquer mísera coisa. Talvez isso seja o estopim de um sentimento inaugurado pela vigília mecanizada pelos meios de comunicação. Num diálogo entre duas pessoas, elas trocam as impressões através de uma oratória impecável, como se estivessem sendo perscrutadas por uma quantidade imensurável de pessoas, ainda individuais.

18 de julho de 2007

Acidente de avião

17 de julho de 2007: Acidente com avião da TAM nas imediações do aeroporto de Congonhas.

Aos que restam, à mercê do Cosmo, não há invenções humanas ou imposições do Fado a que recorrer. Um sentimento genérico ressurge o nazi – fascismo: calemo-nos e fiquemos involuntariamente à espreita da perplexidade – flor danosa, fatalmente inevitável.
São cento e setenta e seis assentos. Desespero unânime, como dá conta de tanta gente? Pânico didático, bem explicadinho, ao encontro da provável última manifestação da fatalidade.
Contemporizar à dinâmica do fim aciona o instinto de sobrevivência, e este em dimensões deturpadas, com filosofias trágico – instantâneas niilistas. Não é hora de poetar; não é hora de filtrar o sentimento conforme os funis da razão, mas como a mídia está dormindo, como a proximidade com as minhas intempéries íntimas é bem mais nítida, tem-se o talento, ou a frieza de metaforizar o contexto.
Ainda há vias para se fazer uma conclusão opinativa:
As tragédias entoam uma mensagem audível a todas as repartições dos nossos preconceitos, das nossas pequenezes, da unicidade do nosso sadismo. A tragédia ameniza nosso estresse com o tosco, faz a gente amar os insípidos com mais altruísmo... A tragédia é uma escola que divulga valores divinos; a tragédia é a igreja na prática.

16 de julho de 2007

Bênção Metafísica
Há muito, neste tempo extenso, mas numa encarnação diminuta, já cogitava minha afinidade pelo inanimado, já que este contemporiza àquilo que a gente lhe atribui. Amor mútuo, fidelidade, monogamia.
Cismo ser algumas mímicas das culturas que são enobrecidas como atributos divinos: você deve relacionar-se, beijar, encher-se de sensações voluptuosas, etc. Sofrer uma melancolia dúbia? Para quê? Prefiro a melancolia solitária da nascença.
A moda vitalícia que me fica à espreita é a nostalgia; e pouco me adianta uma doutrina, cuja pretensão-mor é a do resgate e a do conforto. Fulgura a depressão.
As mãos clandestinas do Cosmo, por mais que me ponham diante de espetaculares e desenvoltas manifestações do civilizado, ou então perante a ratificação das divindades, desembocam no raquitismo das minhas possibilidades enquanto gente.
A vida é uma penitência que, por vezes, surge altruísta com uma nesga de claridade. Minutos de bênção...
NAMORAR
Para muitos, para os falantes mancos da Língua Portuguesa, namorar demanda preposição. Erro de gramática, acerto sentimental. Tudo bem! O que importa é o coração.
A alguns, no entanto, por mais que a intimidade com o Português já lhes rendeu inúmeros orgasmos, o namoro exige complemento. Fulaninho namora CONTRA sicraninho. Porque é tanta rixa, é tudo tão chulo. Fico horrorizada com o comportamento dos humanos unidos. É inumano.
E banal, vazio como este texto.

12 de julho de 2007

Pequeno ensaio desembasado sobre o Amor
O amor é transgressor; não há leis que o regem e, portanto, as psiques do diálogo amoroso ficam dando destinos – labirintos ao sentimento discursado por Camões e cantado por artistas que se prezam. Novelo entre tino e inconsciência, desatino consciente.
Ama, quem é hospedeiro de uma depressão perene, embora, num privilégio casual, contemporiza a momentozinhos banais, arriscados de felicidades. Ama, quem rompe os pudores e os semáforos comportamentais, e permite-se desvirginar; ama, quem vive de extremos, mas no momento do amor pende a somente um lado.
O amor é a covardia de querer abdicar-se de tudo; é o zelo de ser exímio por vaidade; é uma identidade que se preocupa duplamente. O amor abrange a caverna intrínseca de cada um e lhe mostra um acervo vastíssimo de naturezas inerentes à condição humana. O amor é a penitência mais sofrida da humanidade.

6 de julho de 2007

Insipidez

Sobressai esta desintimidade entre o mundo de artifícios que fazem sombra na Natureza e esta própria. Desentendimento crônico. Insatisfação. Falo sem utilidade. Corpo presente.

Seção de Opinião

A comilança de neo-culturas é coisa de personagens de quadrinhos. Certos conservadorismos merecem poltrona de destaque, merecem o físico dos vinte e poucos, mesmo sendo matusalém

Frade

Nosso mar nos trai;
A Natureza é traiçoeira,
Abusa da ignorância dos seus hospedeiros.
Caí em tontura do meu próprio líquido.
Me atormentei,
A ponto de esquecer o tino da minha profissão.

Diriam os kardecistas,
Obsessão.

Comecei me abstraindo da lógica,
Contei degrau por degrau,
E tropecei...
Interpretei o espectro da dramaturgia das telenovelas,
Daí, não lhe prestei atenção,
Me escapou o enredo,
Me escapou a pretensão barata de se satisfazer
Com os frascos de indústria cultural.

Tentei imunizar os sentidos do óbvio,
Da camada cutânea de tudo;
Fui pela sombra,
Em nome da sombra,
Ao encontro da sombra.

Uma gramática alternativa se lançou a mim,
Alguma habilidade psicológica tentou apagar meus arquivos,
Mas me restaram destroços dos velhos tiques.

Tentei me acostumar ao novo,
Como vejo alguns transeuntes bem entrosados
Com as novas tecnologias,
Com as boas novas da medicina estética,
Falando sozinhos,
Submissos aos adventos.
Falando sozinhos,
À mercê do próprio eco.

O ovo não deveria ter se rompido,
Eu preferia os automatismos conformados,
A tanto acervo de novidade.
Acho que sou covarde,
Vou virar frade.

5 de julho de 2007

Escola

Quando pequena, Melissa abstraía com demasia na sala de aula. Os professores olhavam a ela com uma certa preocupação de ela ter dificuldade em concentrar-se; inequívoco: a garota não pousava a atenção sobre o que estava sendo dito. Por instinto, apresentava uma ojeriza a didáticas e a maneiras simplistas de se explicar as coisas; desde as convencionadas às mais transcendentes. E involuntariamente se distraía em outros mundos mudos, embora com oratórias muito mais atraentes.
Em vez de memorizar a representação das coisas e o seu respectivo significado, fazia viagens psicodélicas para culminar no senso comum. Pensava que tudo que havia chegado à obviedade demandou muito estudo, muita filosofia. E, assim, pouco lhe importava a matemática explícita das ciências.
Uma vez, numa aula de redação, a professora pediu aos alunos que fizessem um desenho bem original e o explicassem. Melissa transgrediu o pedido, e esboçou os símbolos que aludem ao feminino e ao masculino. Abaixo da ilustração, escreveu: meu desenho, professora, pode não ser original, mas minha idéia é. E continuou: enquanto todo mundo se satisfaz ao saber que o símbolo tal representa as mulheres e o outro, os homens, eu estabeleci uma relação entre os símbolos e o mundo palpável e quis lhe contar: as meninas devem permanecer virgens para serem respeitadas, endeusadas, canonizadas; por isso, na região da genitália, o bonequinho recebeu um traço que, numa referência a outro símbolo, dá-nos a idéia de proibido. Os homens, no entanto, devem cultivar o falo sempre ereto, rígido, em devoção à masculinidade que lhes cabe. Portanto, dá-lhe ao bonequinho uma seta ascendente.
A inteligência vem do perscrutar individual que algumas raras pessoas têm; elas analisam o espectro das coisas nítidas e inquestionáveis aos comuns.

3 de julho de 2007

Uma pretensa juristinha

Marta Suplicy virou notícia. Esta nasce quando as coisas parecem culminar no óbvio, mas, por um deslize, transgridem um principiozinho qualquer da obviedade e caem na fatalidade das mídias.
Maria Cecília acabou de se tornar bacharel; foi aluna dedicada, esteve sempre muito aquém das faltas permitidas, fez sua monografia baseada no Português machadiano e é discente mais ovacionada pelos professores. Ah, estagiou na defensoria pública e num escritório do cunhado da sobrinha de um juiz famoso na cidade.
Estava em um momento extra-ortodoxo: batia um papo virtual com uma paquera e simultaneamente acessava sites de informação. Em um destes havia a seguinte interação com o nauta: o que você achou da declaração da Ministra sobre o caos nos aeroportos? Mande sua opinião. Sempre muito erudita, não por herança familiar; os pais eram ricos, embora não intelectuais. Erudita por opção, como existem os maltrapilhos por opção. Maria Cecília sabia do histórico de Marta, da época em que ela explorava seu status de sexóloga. E sentiu, sob a declaração “relaxa e goza”, que a ministra do Turismo quis apenas se popularizar no comportamento tão induzido hoje em dia: SEJA PAN!
Os professores de cursinho pregam o PAN: goste de química analítica e ame a gramática francesa; estude muito aos finais de semana e faça sexo com seu namorado; as lanchonetes comercializam o PAN: xis tudo, coma dois e pague um, refil de refrigerante; os pais brigam pelo PAN: corte esse cabelo, produza-se, saia menos, eu não gosto daquele Raoni; não demonstre que você não sabe o que seja jurisdição: seja PAN.
Numa tentativa de vir ao raso, ao povão, Martinha virou Madalena.
A promoção já aconteceu, e os achismos de Mª. Cecília estão mortos, sem cruz, numa gaveta hermeticamente fechada.

Japonês


Japonês sobressai.
Que gen é esse que tá sempre na cara?!
Japonês cruzou com macaco;
Saiu de olho puxado.

30 de junho de 2007

Verônica

Sob um turismo psicodélico, voltou à sua adolescência incipiente. Verônica. Estava ao banho, numa suíte da antiga fazenda de seu avô paterno, homem riquíssimo, embora arraigado a costumes simplistas.
O busto começara a lhe despontar. As gramíneas da puberdade seguiam os mandamentos da Natureza. Uma necessidade de se entrosar com a lascívia, uma paixão não-assumida, a mudança do corte de cabelo, a vaidade, alguns pudores, alguns acnes. Um mal crônico: melancolia.
Delongou-se ao chuveiro. Perscrutou azulejo por azulejo, os detalhes do lavabo, a solidão daquelas acomodações, os vasinhos de flor espalhados pelo interior do banheiro, arranjo por arranjo, capricho, esmero. Pressupunha, a cada ambiente, uma empreitada de um sentimento qualquer; a sombra de uma individualidade selada pelo sofrimento.
O contato entre os mundos animado e inanimado lhe sugeria carência, o estopim de uma carência; um câncer. Talvez a Natureza integrada satisfizesse as desocupações inquietas, todavia com silêncio de convento, e inerentes ao homem.
A inércia hermeticamente fechada por um farelo da civilização induz a vida a movimentar-se. A interpretação por vezes é malfeita, e resolvem mexer-se em ambientes feitos à base de civilização: vão às ruas, às galerias comerciais, ao asfalto, aos clubes, às lanchonetes. O que os alivia é a velocidade de puma com que vão ao encontro do extraordinário. A carência fica esmagada em um cômodo de quinquilharias da entranha. Mais tarde, revela-se; assusta o hospedeiro.
O homem rejeita seus filhos artificiais. Existe um estranhamento entre a vida natural e a vida biônica. O homem é eterno gauche.

29 de junho de 2007

Passeata

Insone, depressivo, desestimulado, cobiçando o próximo aniversário – este lhe era a melhor das expectativas, visto que iluminava a proximidade do fim – inclinou-se aos monstros do pensamento.
Pretendeu pensar aquilo que o deixasse confortável. O que o impulsionou no início foi pensar o bizarro. Elaborou uma cadeia de idéias que comungasse uma onda anti-convenção. A matemática é uma ficção infantil, pouco convincente. As ciências prescindem da grande filosofia que é a nossa não-sabedoria. As religião são presunçosas ao eleger aspecto ao intransponível. O pensamento tem fôlego curto porque está à mercê do limite das palavras e seus sentidos inerentes. As nossas transcendências todas estão impregnadas de tiques culturais. Como o ser humano é volúvel como a água; ele adapta-se praticamente a todas as tendências culturais.
A mulher pudica por devoção às tradições é a mulher vulgarizada por mostrar que também escolhe sua presa. A mulher das roupas impecáveis é a fêmea com chinelas anti-higiênicas que pisa o chão dos espaços públicos. As crianças que passam a fase integralmente na escola dialogam discursos breves, inconsistentes, nada questionadores, emperiquitados por palavras de baixo calão, de grande mau gosto. As pessoas estão falando tão alto. Os garçons são todos impessoais. A lida está mecanizada, enquanto o trabalho é o guia espiritual, o ceticismo do descrente.
O namoro é uma linda conversa dos pequenos lábios com o falo. E a amizade segrega tantos, tudo. A amizade é grande colaboradora de nichos impermeáveis. Os valores são contabilizados, inteligíveis, didáticos.
Quanta inverdade. Somos muito pouco desenvolvidos, enfim. As palavras arquivam grandes sentidos. E a gente insiste em se manifestar instrumentos herdados.

Matusalém

Waltencir, o Cizinho, profissionalizou-se em artes cênicas aos cinqüenta e sete anos, após ter sido carteiro, taquígrafo, office boy, entregador de jornal e tantos outros trampolins típicos de carreiras incipientes de trabalho.
Em 2074, aos 78 anos, graduou-se em Direito e advogou na defensoria pública. Por conta desse rompimento da obviedade, virou notícia, e foi convidado por várias mídias a participar de entrevistas, depoimentos e fotografias.
Numa de suas aparições, desta vez num programa exibido às madrugadas pela televisão, uma doninha solteirona e insone contemporizou ao semblante do senhorzinho, a tudo o que ele dizia, aos trejeitos e à aura que emanava dele. O porquê, deixo por conta da Metafísica, mas o velhinho protegeu, ainda que fugazmente, a espectadora de uma melancolia.
Cizinho tem o queixo protuberante. Diria o doutor Edison Stecca, dentista que sempre disserta sobre as expressões hermético-odontológicas, que o velho é um prognata. Talvez por esse desalinho de mandíbulas, é que a dentadura do senhor matusalém não lhe respeite o comando. O movimento da seqüência retilínea dos dentes postiços fica sempre dissonante da gesticulação inerente às palavras pronunciadas. Em poucas palavras, é uma dança bucal.
Na biografia do homem, indubitavelmente, constaria o jeito manso, sereno como fala. Em pouco, uma revelação: ele é preso às tradições mineiras. Waltencir é mineirinho de São João Nepomuceno.
Como ator, envolve-se sempre com as dramaturgias que têm o tempo como personagem-mor. Há dez mil anos, cinqüenta anos em cinco, etc.
Waltencir parece não sucumbir ao tempo. O corpo denota muito mais idade que a registrada. Deus provavelmente está prorrogando a oportunidade de ele se engajar em outros trampolins; quem sabe pregar a palavra de Cristo no centro da cidade; quem sabe foragir-se da crise venezuelana e tocar flauta no calçadão de Juiz de Fora.

28 de junho de 2007

Presunção de quem dá as cartas

Deus pensou a praticidade da vida.
Os filósofos desbotam a interrogação. Quando chegam ao genérico da Ignorância-Mor, criam uma gramática hermética que flui à beça, embora permaneça incompreensível a muita gente.

Blusa de lã, saia jeans, meia opaca: um dia de esteta

Decidiu se produzir um pouco para sair ao fim da tarde. Sem compromisso. Simplesmente para transgredir a inércia de se passar as férias em Juiz de Fora, Minas. Pé ante pé. Centro comercial. Entra em loja, sai de loja. Arruma pretextos para praticar a sociabilidade. Está, há tempos, à mercê de uma misantropia psicótica.
Foi como se um sangue fênix lhe houvesse penetrado. As pessoas lhe penetraram um olhar diferente, Silvana reluziu singularmente. Sintetizou a si mesma várias persuasões efêmeras de mudar um pouco o foco em que a vida estava concentrada. Mas, envolvida em suas tendências de amadurecer os próprios veredictos, creu que o dia-a-dia de um esteta é extremamente nocivo. Certamente o é.
Pensou a vida, conforme um condicionamento crônico.
E se tudo mudasse, não lhe importaria.
Tentou chegar a uma maneira menos pesada de questionar o Fado. Mas o aceitou e voltou pra casa convencionalmente.

27 de junho de 2007

É tudo mentira!

O processamento do fato – para que culmine em comunicação – é submetido ao selo do equívoco. Nada é verdade. É tudo postiço. É tudo dentadurinha fajuta.

26 de junho de 2007

Os insones

Quase cinco horas da manhã. João Luis e Marina estão saindo de um Pub alternativo que fica a São João Del Rey, Minas Gerais. O céu quase sucumbe à claridade, mas o comportamento de recolhimento perante a escuridão persiste. Todos dormem. Os prédios emudecidos; as ruas sem sinais, sem leis; o semáforo, facultativo.
Param ao sinal porque um carro enorme passa lentamente à avenida principal. Enquanto estão em inércia, à espera de uma chance para prosseguir, Marina observa uma lâmpada acesa em uma janela de um prédio de classe média baixa.
A última possibilidade que lhe surge à cabeça é a de que a pessoa do cômodo opta por dormir às claras. Marina imagina um insone crônico, desesperado, que está à beira de suicidar. Como praxe, leva a impressão para a casa. Dorme com a impressão. Cogita, de quando em quando, a impressão.
É sofrido à beça não dormir seqüencialmente. A energia de que a máquina humana precisa para permanecer dignamente viva se esvai. A estética se altera demasiadamente. Os problemas e as maravilhas são dispensados pela fraqueza da eletricidade extrema, que mata. Que corrói dolorosamente. Marina não resiste a um processo de psicose altruísta.

25 de junho de 2007

Susto

Com mais e mais abundância, a metafísica se radica nas dimensões de nossos sentidos. Mas ela sempre me assusta. Sempre me parece inédita e digna de uma grafia qualquer acerca de sua origem, de seu porquê, de seu destino. Mas é vão. Nossas destrezas não o permitem.
AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!

Escrever o quê?

O mundo já está no estopim de nosso entendimento. O que posso lhe fazer é tapear um pouquinho esta espera; eriçar sua capacidade para paciência.
Samuca entrou ao carro e revelou odiar esperar; que seja por cinco minutinhos. Ele ODEIA esperar. Indubitavelmente, não atinou à vida, a um sentidozinho, que não os mais convencionais, acerca da existência. A vida, Samuquinha, é uma espera travestida de trabalhos, estudos, pesquisas, ciências, religiões, música, movimento, discursos, etc.
Quem não se enfurna nas possibilidades da paciência, sucumbe: pula de janela, toma veneno, enforca-se, afoga-se. A vida é garantia dos serenos, dos que serenamente aguardam. O grande estranho disso tudo é que aguardam algo de que sequer sabem.
Paciência, Samuca.

23 de junho de 2007

Ph ácido

Em relâmpagos de tempos, a vida explicita performances de frigidez. Pois não se excita diante das informações trazidas pelos sentidos, pelos instintos, pelos sentimentos; diante de qualquer que seja a novidade ou, por que não, diante da velha verdade de trivialidades? As nossas capacidades, e o mérito que a gente traz do BIG BANG ficam todos pousados sobre uma pilha de papéis que nos apontam compromissos.
Compromissos. Deixa eu me apressar. É tão sério. Se a vida burocrática morrer, o que é que fazem com o respectivo cadáver? Existem filosofias à vida das coisas que não as coisas vivas, naturalmente vivas? É tão banalizado o assunto das burocracias, e das necessidades de se combatê-las. Mas a questão é séria. Viva e presente, como a perpetuação desta coisa velha, que me faz sombra e conteúdo e realidade: VIDA.
Tudo de que se fala é vivo. Mesmo a morte. São as novas consciências que a tornam triste e lhe garantem atributos. Mas a lâmpada agora diagrama o quesito bu-ro-cra-ci-a. Qualquer pretensão demanda um ato burocrático. Casa. Cem gramas de peito de peru defumado. Água taxada (gratuidade divina taxada? RISADA). Pães de sal para a fome das quatro da tarde, etc.
A culpa é da mutação do primitivo para o civilizado. A cultura a que fomos adequados, sisudamente, se comporta como divindade e altera nossas águas. Ph ácido.

20 de junho de 2007

Ensaio aos mortos

É bom amar os mortos.
Como é bom, a um brasileiro, amar um camarada lá da Austrália.
As dificuldades das relações surgem geralmente do face a face e do incesto em que culmina a intimidade.
O diagrama da nossa sabedoria não nos põe à frente dos mortos. Portanto, atribuímos a eles o nosso grau de amar e, postiçamente, julgamos que aprendemos a amar, e nos enobrecemos. Por vaidade. Por egocentrismo.

18 de junho de 2007

É só aquecer

O pensamento massificado é uma das raízes da carência.
Quando você se enfurna em uma esteira de correntes intelectuais pré-estabelecidas, veste-se de um pensamento, a cujo parto não assistiu. E se perde nos automatismos com que esse raciocínio lhe surge. E esgoelado, fatigado e atônito, corre atrás de uma freqüência mental dissonante da sua. Diálogo de rixas. Disputa entre dois egos antônimos. Secura da vida interior; morte interior. Cadáver inorgânico. Fim. Vida vegetativa do cerne.

?

Malgrado a individualidade explícita da nossa condição, queremos que nossas cartas reverberem aos cachos. Faz-se sempre necessário um selo de aprovação, uma porta aberta por mão que não as nossas. Nosso estímulo próprio é raquítico à beça; ele não chega ao estopim. Seria legal se o atingisse, para que tomássemos atitudes incomuns, mas ele sucumbe prematuramente.
A forma como meu âmago desemboca neste mundo virtual, de verdades postiças às quais nos agregamos, desperta-me dúvida. Será que é arte? Será que é mediocridade? Será que estou transportando com eficiência o mundo da ignorância ao cubículo da nossa sabedoria? Meu chão é de lamas traiçoeiras. Eu queria que meu eco me satisfizesse. Mas eu confesso depender de outros timbres, de outras dicções.

17 de junho de 2007

Docentes

Durante toda a vida acadêmica, sob um equívoco genérico, tende-se a pensar que o professor é o mais destro dentro de uma sala de aula crivada de alunos. No entanto, muitos pensamentos, que morrem por estar emudecidos, extravasam a capacidade dos mestres.
Seguindo as máximas da estirpe humana, o educador, como qualquer pessoa, é limitado. Se não no assunto que pulveriza a outras pessoas, em algum tema, indubitavelmente. Nenhuma pessoa, enfim, filosofa acerca dos pronunciamentos instantâneos que emana a um e a outro. As pessoas são condicionadas à gramática vigente e, independente de saber a etimologia, os significados intrínsecos das palavras, etc. se expressam. Isso é a prova de que se é muito vulnerável à cultura e muito abstraído do âmago.
O professor vai ao encontro do conteúdo a ser veiculado aos alunos, assimila-o e o contemporiza a didáticas inteligíveis. O processo é feito através da linha de raciocínio individual do profissional, a qual, várias vezes, é intransponível.
Nenhuma criatura possui o domínio supremo do que diz. Por um motivo filosófico: a cultura das formas de expressão é uma adaptação. A verdade indiscutível de tudo pertence à seção da nossa ignorância.

16 de junho de 2007

Juiz de Fora, 16 de junho de 2007

Gazeta Experimental
Acústico do Lobão no Cine-Theatro Central
Dez e cinco da noite. Transgredindo o clichê das aberturas megalômanas e tradicionais de shows, surge ao palco – low profile, clássico e por que não bonito – João Luis Woerdenbag Filho – o Lobão.
A música que abriu o show já alertou o público do comportamento do músico: ele tem uma necessidade – provavelmente nata – de gritar. A letra da canção se embaçou em meio à voz de Lobão e às performances musicais que inquietaram o chão do Cine-Theatro Central.
Pausa para um breve cumprimento ao público. Depois, uma seqüência ininterrupta de músicas. No repertório escolhido, sobressai a dicção dos arranjos e dos acordes e isso acaba por comprometer o talento poético do músico. Talento esse que está bem nítido em “A terrores noturnos minha alma se leva/ É um insight soturno, é o futuro passando”.
Havia umas trezentas pessoas no teatro. Apesar do público pequeno, a adrenalina entre os artistas e a platéia atingiu uma dimensão típica das apresentações superlotadas: a certo momento do show, todos os espectadores ficaram de pé e dançaram conforme a melodia frenética de Lobão.
Os ecos que acompanham todos que estiveram lá na última sexta, 15 de junho, entoam a doçura, a sabedoria, o talento e a eletricidade inerentes à fera do roque.

Cultura

Ivalda não contemporizou a nenhuma culturazinha. Antes de se adaptar à dicção das fêmeas, é uma criatura que se abdica dos pudores e neutraliza a proximidade com os homens e com as pessoas, em geral.
Ivalda não se acomoda às profissões que vigoram. O único talento que possui é o de dar destino às pessoas. Da última vez que o fez, sofreu com o suicídio em que culminou um de seus personagens.

Pesquisa sobre a Alopatia

A alopatia, em regra, é uma mímica toda especial do Acaso.

15 de junho de 2007

Jesus Cristo

Escrevi a biografia de Jesus Cristo, quando tentei lhe explicar a minha verdade. Quanto equívoco! A minha verdade só serve a mim; só me serve de conforto psicológico. Eu estava precipitada. Por isso, cri que lhe devia confessar. Eu te amo, mas não preciso passar um bisturi e esparramar-lhe todas as minhas intimidades.

12 de junho de 2007

Morte prematura

A educação com que cortejas um indivíduo que nunca viras antes é uma habilidade do teu sentimento de superioridade. Tu insistes em omitir tua condição animalesca, mas o teu comportamento classudo tem fôlego curto.

11 de junho de 2007

Cigana Soraya em "Dia dos Namorados"

Namorado convencional: ele vai chegar lhe dedicando um buquê de flores, um cartão com dizeres manjados e, como trecho de salvação, um versinho de Camões.
Namorado desligado: seu manequim é 34 e ele lhe dá uma calça tamanho 42. Não se ofenda! Nem apele a interpretações ultra-psicológicas: pô, ele me acha uma magrela. Ele queria que eu tivesse o quadril largo.
Namorado pseudo-desprendido: há um mês, ele lhe comprou uma lembrança; o papel de presente já está amassado e, para não se delatar um precavido invejável, ele pediu à mãe dele, à sua sogrinha que lhe fizesse um outro embrulho.
Observação: à hora em que ele for entregar-lhe o presente, dirá: eu tive que comprar de última hora. Portanto, fique à vontade se quiser trocar, certo?
Namorado psicótico: pede folga ao chefe, a fim de ter a tarde inteira para escolher o presente. E entra em depressão, ao chegar a casa e verificar que, num equívoco qualquer da vendedora, em vez da blusa branca com listras pretas e espessas em diagonal, veio uma blusa branca com listras pretas e delgadas em diagonal.
Namorado ciumento: apreça sapatos, lingeries, bolsa LV, óculos Armani, mas opta por uma caixa de bombons recheados, extremamente calóricos. Nada pode embelezar a fêmea dele, afinal.
Namorado carnívoro: passa num sexy shop não registrado e, depois de insistentes pedidos de desconto, leva um dado erótico e lhe exige as posições mais cansativas para a hora da cópula. Depois das sessões, sugiro que você faça um check up.
Namorado prestes a ser canonizado: ele lhe dá uma blusa gola alta. Depois, a muito custo, dá-lhe um selinho e fica com as bochechas enrubescidas. Despede-se da sogra e do sogro e ajuda a lavar algumas louças sem proprietários que estavam sobre a pia.

3 de junho de 2007

O Ciúme

ESTE É DEDICADO ÀS MULHERES
Você está bolando uma programação maravilhosa para extravasar com seu afim no sábado. Neste dia, perante um distúrbio qualquer da Metafísica, você acorda depressiva, frustrada com não se sabe o quê, extremamente introspectiva, enfim.
Passadas algumas horas da sua luz, você coloca suas mazelas dentro de um diagrama e cogita: eu descarto esse conjunto de intempéries, se fulaninho sair comigo e a gente eleger muita luxúria à nossa noite. (Observação: isso tudo é um discurso oriundo do Inconsciente, uma carta posta sobre a mesa da nossa percepção).
Daí, você envia a ele a proposta da saída - via mensagem de celular. Frações e mais frações de hora. De repente, o celular - sob um ataque epilético - anuncia a resposta do convite. Sem muitas delongas, ele afirma estar cansadíssimo.
Instantaneamente, surge o ciúme na sua entranha feminina. A sensação é a de derrota diante de uma disputa, em que sequer se avalia a natureza do (pseudo)ganhador. Este pode ser imaterial; pode representar uma mísera transgressão à rotina. Não existe publicidade alguma que convença o ciumento do equívoco de que, na maioria das vezes, ele se sustenta.
A mente tem uma tendência a se nutrir de ficção, por vezes. A sabedoria que se pode tirar disso é se satisfazer com as mentirinhas que vigoram nossa individualidade. O problema é que somos muito pouco sábios. Acabamos sucumbindo à solidão. Ao cadáver que se mantém ereto.

31 de maio de 2007

Geraldo Beliscão

Outro dia, assistindo ao Programa do Jô, transbordei de rir de um artista de teatro que escreveu uma peça, baseado nas experiências com a própria mãe. Lembrei-me de alguns pronunciamentos da minha mãe que merecem memória; nem que seja uma mísera memória eletrônica.
Acompanhando uma palestra sobre Ética e Educação, um homem cinqüenta por cento careca apresentou-se à mesa. A outra porcentagem era solo para madeixas lisas, de um tom ouro envelhecido. Espontaneamente, como uma criança recém apresentada às coisas da vida, minha mãe deixou escapulir:
- Minha filha, repara bem esse cara. Ele parece um pincel.

26 de maio de 2007

Rosa

A rosa é o estopim de uma vaidade;
É um arremate;
Um pedreiro sem força bruta,
Embora,
Capaz de luzir beleza instantânea
A sentidos que têm fome.

Oração

Sofro pelos velhos que entram pela porta da frente do ônibus e transportam suas mãos calejadas pelo próprio tempo e pela abreviação da velhice a que a miséria os induz. Os velhos pobres chegam às casas e pisam um chão cuja temperatura é extremamente soberba: está sempre gelado. Comem um cardápio tão repetitivo que os sentidos já perderam a dedicação. Dormem aos trapos. Sentem um frio inumano no inverno e lembram-se do país tropical que é o Brasil durante o verão: todas as espécies bem pequenas e aladas surgem-lhes a atormentar. Mosquitada. As diversões. Um câncer maligno me penetra, quando penso na forma como a pobreza extravasa. Não lêem livros, dependem da coreografia dos ventos para conseguir ouvir um funk de baixo calão que vem do Norte, lá do Norte. Saem, somente quando a Prefeitura lhes faz oferendas, às vésperas das eleições. E vivem. E sorriem um sorriso careca. Falam alto dos problemas que estão à parte do próprio baita problema de nascença. E dão continuidade à Vida: um cacho de filhos... Bem contemporâneos eles. Nove meses, nasceu. Quarentena. Próximos nove meses, casulo. Depois, mais um nascimento. E enche e murcha, enche e murcha. Mais um, mais um, mais um.
Sofro pelas madames e pelas promessas a madames que se enclausuram – ainda que em público – por detrás da película preta que apaga quem segue dentro de um carro. Elas são blush, indumentária inédita todos os dias, celulares de memórias infalíveis, celulares pós – graduados na USP, capas de celulares da Victor Hugo e compras e crediário e namorado pilantra, mas gostoso pra caramba. Elas chegam a suas casas e, assustadas com a presença da solidão, pegam a agenda e ligam a todas as amigas que podem render algum papinho inconsistente, ou uma extravasada alopata. O que serão depois de um banho? Sem a casa humana emperiquitada com cordões e maquiagens e roupas caras? Com a face lisa, isenta de qualquer apelo à perfeição? Serão sofridas? Serão suicidas em potencial? Tenho muita pena das madames, das patricinhas, das riquinhas que oram ao consumismo-em-prol-do-bem-estar.

25 de maio de 2007

Sono eterno ou Eterno retorno?

Uma vez, Silvinha atinou à morte. Não como essa forma genérica com que as pessoas abordam-na: seja feliz, amiguinho. A única certeza é a morte. Quem diz isto, geralmente, crê na morte utópica, cujo alcance atinge, no máximo, um conterrâneo. A morte lhes parece uma onda do mar que quebra antes de os pés se molharem.
O que eu quero abordar neste espaço, que antes era um nada e agora já representa uma gosma jorrada por um sentido qualquer, trata dos dogmas (presunçosos à beça) acerca da morte. Eu me agrupo àquele da Igreja Católica, que faz campanha ao sono eterno. Sabe por quê? Porque, imagine, a vida é uma penitência sem opção: se você nasceu, agora viva! Que imperativo. Que ditadura!
O Espiritismo me desconforta. Ele propaga a vida eterna e o eterno retorno. Nesta vida, estou legal. Estou serena. Ladeada por pessoas respeitosas e dignas. Imagine, eu nascendo em um antro de gente estúpida. Não teria sustância a isso. De verdade.
Além de tudo, adoro tirar uns cochilos diante dos tempos ociosos. A idéia do sono eterno, portanto, em muito me agrada.

24 de maio de 2007

Comilança de Cadáveres

Tenho um constrangimento para comer cadáveres. Uma potência inconsciente me alude ao tempo em que aquela vida esteve vida, em atividade.
- Terezinha, o que tem pro almoço hoje?
- Pra você, Tâmara, fiz um franguinho grelhado. Se você quiser, posso cozinhar um macarrão e fazer um molhinho de azeite com ervas finas. Você quer?
- Tá perfeito, Terezinha.
Frango grelhado.
Quando eu tinha meus nove anos, papai me deu três pintinhos. Leonardo, Vicente e Patrick, esses eram os batismos dos bichos. À tarde, assim que eu chegava da escola, eles eram a minha ilusão, o meu veneninho alienante daquela fase na qual a gente crê que as coisas mudam e que tudo sucumbe à perfeição. Quanta ingenuidade.
A metafísica, profissional exímia, no cumprimento de seu trabalho, fê-los crescer. Tâmara enchia-se de pudor perante aquelas patas de galo/galinha esquisitas à beça. Enchia-se de ressalvas àquele bico capaz de ferir. Ela não se lembra do destino dos animaizinhos, embora se lhe esteja intacto na memória um episódio que envolvera os três cocoricós.
Um dia, dona Letícia – a mãe – estava preparando uma refeição à família. De repente, do segundo andar da casa, ouvem-se berros e imediatamente, a doméstica, a Tâmara e o caseiro – todos que estavam na casa – aproximam-se da cozinha, com a pretensão de prestar-lhe socorro.
O socorro poderia ser prestado somente pelo caseiro. Não ouso alterar o fluxo da Natureza e dizer que existe uma mulher destemida, quando se trata de barata. O berro angariou mais adeptos. Agora, variava-se em contralto, soprano e tenor. Alguma das três tem voz grave.
Seu Valdemir assassinou a cascuda. Num despiste mal sucedido, tampou a cadaverzinha no quintal da casa por onde transitavam os três pintos. Tâmara era integralmente atenção. Estava à janela, quando assistiu a um espetáculo que a biologia aborda com tanta leveza: a cadeia alimentar. Vulgo: a porcança.
Um pinto começou a degustar o corpo da barata. Depois vieram os outros dois para participar da comeria. De repente, não há corpo, não há resto. A barata está literalmente desencarnada.
Num tempo depois, sobre a mesa de alguma família tradicional, que elege a refeição como hora sagrada, em que todos devem estar à mesa, o frango estará lá. Saudável. Bronzeado por um forno feito à tecnologia mega-avançada. Num hemograma desse frango, constaria: excesso de proteína. São os ecos da, já desencarnada, barata.

A personagem, que já nasceu aos setenta e cinco de idade

Lísia Galhardo, consciente de seu temperamento, optou por morar sozinha. Tinha lá seus convívios com o pessoal da escola de música – ela toca piano – com as caixas de supermercado, com o dentista, com o médico que lhe servira sempre, com algumas amigas de infância que se mantiveram na cidade. A senhora tinha umas ressalvas com a intimidade. Por isso, esquivou-se da vida de casal, da vida diária, em conjunto com outras pessoas. No entanto, à medida que o tempo foi se lhe insistindo, um velho jargão cuja tônica diz que é impossível viver sozinho, penetrou-lhe, penetrou nos organismos mais profundos daquela existência. Eu preciso fazer alguma coisa que movimente a minha mente. Estou prestes a ser tragada por uma depressão. Deus me livre!
Tinha o piano, antigo, herdado de sua mãe – pianista exímia, fiel dos clássicos de
Bach e Tchaikovsky. Desgastava-se ali. O amor àquilo se lhe transbordava. Mas Lísia precisava sair de casa, observar como a Natureza comportava-se perante as variações climáticas, observar o baralho entre gentes mais velhas e gentes mais novas, observar a moda da juventude, observar a condição humana, enfim.
Abriu o guarda-roupa, cujo design é incrementado por uma espécie de franja, por uma madeira extremamente lapidada, e hesitou diante das tantas roupas que lhe enchiam o armário. Algumas tinham estampas obsoletas, mas, a uma senhora, não soariam dissonantes dos padrões universais da moda. A moda hoje, aliás, é uma miscelânea, uma constituição encadernada com luxo, embora sem conteúdo algum.
A velhice dá um prazo às pessoas de exercer a ciência da perfeição. Lísia, portanto, antes de fazer escolhas, foi à janela ver como estava o tempo e pressupor como ele se desenrolaria ao longo do dia. A velhice costuma ser precavida. Vestiu-se, com a elegância de praxe. Foi ao centrinho, a fim de contracenar com gente de todo naipe.
...

23 de maio de 2007

Tentativa

Tentam falar o amor, escrever o amor, desenhar o amor, cantar o amor. Ele é inviolável! É como o Deus, que é reduzido à Ciência por vezes. Deus é uma carta aprisionada entre os dedos de uma doutrina? Eu prefiro ser devota do Mistério.

22 de maio de 2007

Ócio Inteligente

Caso o pensamento se enfurne em áreas invioláveis, dá-lhe conseqüências.
Este era o slogan da campanha, a partir da qual palestras eram ministradas em diversas universidades, clubes de terceira idade, hotéis de renomes das cidades espalhadas pelo Brasil.
Envolvida com pesquisas acerca das religiões, das doutrinas e de pensamentos que se formaram para se tentar chegar ao porquê da vida e da morte, Lísia Galhardo, herdeira de um patrimônio composto por fazendas, imóveis no exterior e conta bancária imponderável, aos setenta e cinco anos, resolveu, provavelmente devido a ser espectadora de um esboço ainda tímido da morte, dedicar-se à ciência que investiga o Mistério. Com a palavra, Lísia Galhardo...
ESTRÉIA DE UMA PERSONAGEM. Espero que a vida dela dure o suficiente para o romance ter um fôlego grandinho. Senão, que a morte dela faça iluminar novas criaturas e que o enredo se monte a partir disso.

20 de maio de 2007

Psique de cineasta

Domingo é tão parado. É custoso procurar um enredo bacana para agradar ao namorado. No sábado, afinal, já trocamos mensagens românticas, as juras mais antigas, embora resistentes e os bilhetinhos abreviados, conforme as máximas da linguagem virtual. Fizemos uma sinopse da gazeta da nossa semana. Resta-nos inventar. Inventemos, portanto!
Vamos abusar da linguagem... E tentar pormenorizar, dar cartas, investir um pouco de verba na jogatina que tenta acertar o significado mais consistente do amor. Vamos pôr luz somente sobre nossa face ovacionável. Depois, fazer carícias, não simplesmente com o propósito da volúpia, mas como oferenda ao carinho intrínseco que se anunciou em nosso grande fôlego de vida, em nosso coração.

O sentimento de Pena

É como se um Cosmo todo sombrio entrasse em inércia e apenas uma vida dinâmica - a incumbida da nossa pena - ficasse subjugada a esse mundo morto, embora erguido.

18 de maio de 2007

Sobre a Beleza

A beleza é a metafísica que se faz na ótica de quem a vê?
A beleza é a emissão intransponível da coisa bela?
A beleza é um diálogo entre dois gringos.

15 de maio de 2007

Promoção

Todos os dias, Lísia passa por uma guarita, que faz parte do percurso rumo à casa dela. Lá dentro, na hora em que ela passa, sempre fica um homenzinho. O homenzinho. O mesmo, cujo nome ela desconhece. Apenas o saúda:
- Boa noite, moço, tudo bom? (BIS)
- Boa noite, menina. (BIS)
Já automatizou. Não existe expectativa de ele falar algo além de “boa noite, menina” e nem de ela se delongar nas cordialidades. É apenas um ato démodé aos parâmetros deste mundo Pós - Mega – Ultra – Moderninho. É apenas a manutenção da educação.
- Boa noite, moço, tudo bom?
- Boa noite, menina.
O dia fluía, conforme “O Show de Truman”. Maritacas insones acordaram a garota, o vizinho, bem cedo, com moto serra à mão. O céu inerte. Pela fresta da porta, Lísia ouvia a empregada pinçando recados ao telefone. Vendedor de gás batendo à porta. Coragem com exército próspero: levantou-se. O dia se iniciou...
À noite, já imune à necessidade de se pensar para agir, saudou o vigia:
- Boa noite, moço, tudo bom?
- Boa noite, moça.
Acendeu-se o quartinho da novidade. Tudo lhe estava tão óbvio. Como a tendência da humanidade de se adaptar à tirania de ser humanidade. Aquele moça lhe reverberou imediatamente: quer dizer que fui promovida à moça? MENSTRUEI! Ela riu de si, de suas idéias - relâmpago. De suas divagações.

14 de maio de 2007

Tabaco

Minha irmã contribui com 657486516,29864% das emissões de poluentes na Atmosfera.

12 de maio de 2007

Mutação

Vou sozinha à festa. Porque a relação está passando por um processo de substituição. Será que existem criaturas sinônimas? O brechó das fantasias com que vestia meu âmago está em ruínas. Acabaram as fantasias. É preciso reinventar um talhe ao cerne.

Manchete da parte superior da capa de todos os jornais de circulação nacional: A VINDA DO PAPA BENTO XVI AO BRASIL.

Ao Brasil nada, à área mais cinza da Nação: ao estado de São Paulo, cujo ar é devoto de concentrações-poluidoras-trânsito-industriais.
COF, COF, COF.
Lencinho à mão com a dissimulação de acenar aos fiéis. Mas a pretensão-mor é assoar o nariz, afinal Deus lhe envia muita coriza nesse solo brasileiro. Choque cultural, choque ambiental.
O senhorzinho está exausto. Outorgaram-lhe uma agenda extravagante demais: ele incumbe-se de quase céu: está aqui e simultaneamente o Japão o saúda. Bento XVI já é antigo de guerra; é, portanto, a hora de ele curtir uma sesta prolongada. ZZZZZZZZZZZZZZ.
Todas as mídias, todos os habitantes de planetas próximos rumaram a Aparecida. É a fé movendo as pessoas? Não! É a intenção de exibir o novo nos meios de comunicação. Como Bentinho nos será útil: daqui a um ano, haverá o aniversário da primeira visita do Papa ao nosso solo. Os jornais terão momentos católicos engavetados e os exibirão e forçarão uma comoção e mudarão a entonação da voz. Programinhas de humor sem capacidade de criar farão caricatura do sotaque de Joseph Alois. Sósias e sósias dele surgirão.
A TV, principalmente, dá-nos a impressão de que a fé pode ser terceirizada, de que, ao estarmos atentos à palavra cristã, já dissuadimos Deus de todo mal que cometemos. É um bem unânime estar perante o Papa Virtual, diante da missa virtual, diante da hóstia virtual.

Fatalidade

Por que não houve perdão? Por que você se iniciou em cirurgia e viu-se incurável? Por que se matou, menina? A ciência da psique evolui em tempo imensurável, por que não lhe esperou, hein?

11 de maio de 2007

Morte morrida, morte por auto-sugestão

Às criaturas mais comuns, morrer de morte morrida sucumbiu ao trânsito da obviedade. Obviedade esta que, equivocadamente, existe na Natureza toda. A árvore é óbvia, o pássaro restringe todo seu discurso naquela estampa e na destreza de voar e cantar, as frutas são todas óbvias. As genitálias são óbvias. Os excrementos são óbvios. A Terra passa por uma crise de preguiça mental... Terceirizam os pensamentos a todo instante: no jornal, vendem-se monografias, precinho especial neste meio de ano.
Presunçosamente, digo que a morte morrida não culmina em grandes repercussões, porque ela ocorre em série. As coisas que acontecem assim, de praxe, tendem ao clichê, ao costume comum.
Entretanto, àqueles mais curiosos, mais atentos ao verbo da existência, morrer não é tão simples quanto disponibilizar uma fruta que se catou em um pé e destiná-la à capacidade de o sentido sentir. Morrer é o mistério vital, morrer é talvez a ignorância da condição das coisas antes de serem vida. Quem morre sempre é elevado a patamares heróicos. Os mortos sabem, afinal, de uma verdade que nos é hipótese ou que sequer cogitamos.
Pensemos na morte! Na morte morrida, que, em tanto momento, corresponde a uma folha que se quedou, mas ninguém a avistou. Respeitemos todas as criaturas que não resistiram antes de nós. Elas têm segredos divinos, preste atenção!
Agora, existem mortes que equivalem ao estopim de um desespero, de uma caverna toda embaçada, impregnada de agonias. Alguns, perante essa situação, apelam a sessões imensuráveis em um analista; outros, mais radicalmente, matam-se. Já existem manuais de sugestões e até apologias ao suicídio. A ciência pode ser seu próprio assassino, a tecnologia, os mares, as alturas em sociedade com a gravidade. Jovens se matam em devoção a um amor unilateral. Jovens se matam porque têm medo de se meter na vida e lhe ser rejeitado. Adultos se matam por causa da solidão. Matam-se por conta de frustrações-metástases.
O suicídio, em geometrias mais extravagantes que as mortes convencionais (ele fez o óbito!), promove efeito genérico entre as pessoas. Espanto, perplexidade. Equipamento de coragem, desafio em terras gringas. Parece que a vida é inviolável e, no entanto, há os ousados, destemidos que transgridem a emanação cósmica por um ato covarde, desesperador.
A sociedade eleva-se a uma reflexão em uníssono. Calam-se-lhe os assuntos, extirpam-se os compromissos. O mistério do Fim vem ao nosso encontro, fatalmente. É assustador irmos ao encontro do fim, em uma peregrinação voluntária. Pré-disposição à morte. Ou à vida. A uma outra cultura vital.

9 de maio de 2007

Solidão

Existe uma plêiade imperceptível aos sentidos, que nos vem de nascença. A gente deve-lhe todas as nossas frustrações. Ela é a mestra. Os nossos regozijos, só ela sabe o quanto. Por a plêiade não ter esboço, não ser um organismo comum, vivem por aí reclamando de solidão.

6 de maio de 2007

Convidada

Não estou com o atenuante de um grupo, da família, sequer de uma pessoa me ladeando para a aparição. O legal seria se eu chegasse bem cedo ao encontro, oferecesse meus préstimos aos anfitriões, mas não lhes sou tão íntima assim. Transgredir demais o horário é extremamente vexatório, as pessoas se desconcentram de seus assuntos perfeitos, e dos sabores das iguarias e da cócega do álcool e pousam o olhar sobre nós. Vou dar uma meia hora e, aí sim, rumar ao evento. Fui convidada à sociedade das expressões. As pré-estréias são um alfaiate precavido, que costura roupas em muitos talhes diferentes. Ele mune-se de toda a ferramenta trivial para um sucesso promissor. Às vezes, ainda assim, se equivoca. Mas, temendo ou não, topo o acordo. As adrenalinas, afinal, é que aceleram a peregrinação à serenidade.

3 de maio de 2007

Esporte Radical

Não existe veredicto aos sentidos e aos sentimentos, embora, a certos, arrumam-se alguma analogia, correspondência. A tristeza entra por uma fresta deixada pelo relapso dentro desta casa. A tristeza é vitalícia. Entrou e, uma vez pousada sobre organismos do âmago, torna-se imponderável.
Quando o inesperado ou o improvável submete-se à temperatura do nosso corpo, à condição da nossa matéria, enfim, nada do acervo humano é capaz de reconhecê-lo. Apenas o sente. E o sente sem respaldo algum. Arrepia-se ao vácuo, sem paredes a acolher e a confortar. Ser laboratório de sentimento é arriscar-se em aventuras demasiado radicais.

1 de maio de 2007

Esfera

Do seu nome, radicado na tela do computador, emanam os quadrinhos que, com ou sem arte, há em torno de nós. As páginas todas se exibem em uma esteira extremamente veloz; não consigo compreender tudo, mas sobressai uma melancolia imensurável. Que é esférica e que fica presente em dois de meus mundos: no meu eu e no meu nós.

Saudade

A saudade escapa de todas as nossas habilidades à compreensão de certas coisas. A tentativa de compreendê-la inicia-se e, à medida que evolui, as bases vão se rompendo até o momento de imprescindível recomeço. Recomecemos, portanto!
A saudade é radical à beça. Ela não aproveita da capacidade do cérebro de idealizar o corpo que se esvaiu. Quero corpo presente, ainda que em silêncio. As viagens virtuais e aladas da psique são desprezadas pela saudade. Ai, desisto dessa eterna adolescente em crise de identidade.

Pane mental

Conquistas, frustrações, afinidades, tédios, arquivo de conhecimentos. Acervo psicológico. Sociedade da mente. Vida útil mais provável: duração da minha própria consciência. Intempestivamente, surgem-me extirpadores de toda minha vida íntima. Morro. Fico oca ou com águas paradas. As águas paradas, de praxe, são imunes às próprias vidas e entregues à marcha de químicas nocivas, de ventos destruidores, de calores danosos.

Psicose

Uma psicose é uma vida patenteada por Deus? Vida essa que a gente, ser humano, não consegue alterar por nada? Vida genérica, dona de si, impenetrável? Representantezinha da mensagem de idiossincrasias do Mundo?

29 de abril de 2007

Gentleman

O terreno por onde transitam os gentlemen é um acervo de grandes despistes.
Houve tantas lutas, rebeliões e sangrias para se teorizar a igualdade dos sexos. O homem se aprimorou no trato com as mulheres, tornou-se mais cortês ou usou e usa de postiços para fazê-lo.
Como é bonito o rapaz que trata a namorada muito bem. Manda-lhe cartões com versos de Shakespeare. Abre-lhe a porta do carro. Dá-lhe presentes fora de datas especiais. Liga-lhe de segunda a segunda. Leva-a a lugares que potencializam o romantismo dos amantes. É lindo! Talvez seja a cobiça mais ferrenha de todas as mulheres heterossexuais.
Mas eu desconfio, e muito, dos garotos que se graduam em Universo Feminino e passam a exercer a função de mãe, melhor amiga, conselheira insubstituível sobre a relação. Pode ser que você esteja à mercê de um cara extremamente possessivo. Pode ser que a cafajestagem dele extrapole os limites das probabilidades e ele use dessa ferramenta como experiência para a própria eficácia para sedução.
Não vamos, no entanto, demolir nossa cidade de castelos. Vamos morar em castelos separados, por que não?! Vamos viver da própria ficção de acreditar em amor-perfeito. Mas jamais se esquecer de que o eu deve preceder o nós. SEMPRE.

28 de abril de 2007

Açougue

É tão inescrupulosa aquela exposição de bovinos – pretéritos nas mega- geladeiras dos açougues. Não há nenhuma conotação religiosa nisso. Apenas um reforço à existência do bom senso.
Pense bem: faz-se uma cova imensurável para o acervo do futuro humano. Já com os bois, expõem-nos em vitrinas enormes e os taxam. Cemitério. Antro de cadáveres. Decomposição prestes a compor uma comilança.

Ficção Mental

As terrinhas que fazem fronteira com meu tino me manipulam com garras de pinça. Às vezes, estou lúcida e concordante perante meus carnavais. A imaginação me coloca diante de fileiras e fileiras de espectadores; daí, sobrevivo das performances. O Mundo parece me enxergar por trás de um grande visor. Ping – pong: o Mundo é o panóptico e eu sou T.O.C..
Meu amante fica a minha espreita. Assiste a minha nudez. Além de a visão alcançar longas distâncias, os outros sentidos o fazem também. Uma consciência biônica faz casa no meu corpo. A liberdade que, de nascença, já é paralítica, fica mais e mais comprometida.
Tento organizar meus pensamentos como as colônias que a Natureza estabelece às abelhas. Pretensão vã. Divago e me perco e enlouqueço.

27 de abril de 2007

A morte de tantos Tios Patinhas

Seu próprio destino o estampa como indivíduo de sorte. Pense bem, você tem status para carregar até a morte e depois reencarnar com regalias e mais regalias. Não sei se esse aparato todo alberga sua felicidade, seu contentamento. Tantas vezes, o tio Patinhas se mata. Mas não creio ser seu caso. Você é tão bonito, tem uma namorada para inquietar sua boca, seu silêncio.

25 de abril de 2007

Beijo

Duas superfícies inicialmente secas vão se ampliando, se ampliando e, de repente, uma está dentro da outra. Neste instante, já transcenderam o estágio umedecido. O beijo é líquido.
Nos bastidores, nos corpos dos indivíduos que compõem a trama do beijo, uma espécie de efeito – anilina radica-lhes uma volúpia; volúpia instantânea, como a proliferação imediata da cor.



**Beijar é uma boa maneira de se iniciar uma pesquisa de campo, de se entender um significado incipiente da Metafísica, de se filosofar acerca da espreita das divindades sobre a Humanidade.

24 de abril de 2007

Autoconfiança

Um poeta ilustre me deu respaldo a dizer muito em poucas linhas.
Eu nunca tive vocação para Sherazade. As tentativas? Todas vãs, inconsistentes.

22 de abril de 2007

,mas o PIB da China estava errado

Acho que essa correção que fizeram ao cineasta-escritor-comentarista Arnaldo Jabor serve de jargão a todos os tecnicistas de plantão, plantão não remunerado.
Se a música é boa, ele diz que não há nenhum traço de música erudita, portanto, não tem qualidade. Se o rapaz é um gato e articulado, comunicativo: ele não é nada mais que isso! Na padaria Mini Pão, o atendimento é péssimo e um tolo ainda me diz: eles são instruídos para um atendimento padrão. Padrão de péssima qualidade, reprovado pelo Inmetro.
O estudante de Jornalismo, em regra, pega todas as teorias e as come, impensando nas prováveis conseqüências. Come todas elas. Por vezes, como a digestão é custosa, ficam – as iguarias – a os perturbar.
Eles se vestem com uma atadura que corresponde, fielmente, às máximas angariadas em cada teoria. E contestam o professor porque Jornalista tem que ser crítico.
- Professor, eu fiquei muito confusa em sua prova porque você igualou o sentido de matéria com o de artigo. Existem várias diferenças entre essas duas expressões e... ... ...
- Cara aluna, pelo estilo da prova, subentendi que você compreenderia a abordagem descompromissada das palavras.
O cara foi inteligente. Ele emendou a forma ensaiada como a garota se pronunciou e, ironicamente engajado, pôs um ponto final no discurso. Conclusão: a menina não tinha outra alternativa em vista, a não ser calar-se.
A todos os tecnicistas uma faixa:
,MAS O PIB DA CHINA ESTAVA ERRADO!

Debutante

Quinze anos de vida dá valsa.
Quinze anos de cão sucumbe.
Quinze anos de foto dá amarelo.
Quinze anos de velhice dá calvo.
Quinze anos de caule dá tronco.
Quinze anos de galinha dá baba-de-moça.

Quinze anos de arcada dá atrito.
Quinze anos de obra dá cidade.
Quinze anos de firma dá tradição.
Quinze anos de dente dá cárie.

Quinze anos de escola dá alienação.
Quinze anos de namoro, incesto.
Quinze anos de crime, serial.Quinze anos de castigo, loucura.

Quinze anos de indústria dá poluição.
Quinze anos de dias dá matemática.
Quinze anos de morte, saudade.

20 de abril de 2007

Metástase Noturna

Hoje só teve noite.
Acho que a Terra não girou;
A natureza ultimamente tem se alterado,
Se abstraído dos compromissos tradicionais.

Na época da vovó,
Os ciclos menstruais eram infalíveis.
De vinte oito e vinte oito dias,
Recepção à sangria.

Os mares não extrapolavam as medidas,
As criancinhas brincavam com seus baldinhos
Na água.
Os Tsunamis não punham o povo
Em liquidificador.

Hoje só teve noite.
Nada usou uma nesga de luz
Para se mostrar.
O tempo parece radical-mega-conservador.
Repete uma ladainha irredutível
Que amedronta as casas humanas,
A vizinhança,
A mãe,
O pai,
Os velhinhos,
Os vitimados pelas fatalidades.

Letra e melodia

Vamos brincar de Deus, Erick?!
Tentar a harmonia entre a metafísica do som,
E a articulação das palavras?

A dissonância não seria má idéia.
Hein?!
Versos sem métrica
Sobrepostos a decassílabos.

Camões e poesias marginais,
Em um varal de cordéis.
Textos prosaicos junto a bulas de remédio,
Caderno de receitas com a Bíblia Sagrada,
Texto hermético ladeado por linguagem visual.

Que tal Zequinha de Abreu e Tchaikovsky?
Mariana Fellet e Erick Vidal?
Seu Antônio, do calçadão
Com a bateria do Vidigal?

Canarinhos e maritacas insones?
Aulas de harmonia desconcertantes?

18 de abril de 2007

O arroz que dança na peneira

A vida acoplada à consciência de si mesma não agüenta a quietude. A ignorância dos grãos é que lhes garante a felicidade. Ah, como eu queria ser algo inanimado!

17 de abril de 2007

Nair Bello in terça-feira, 17 de abril de 2007

Eu não tenho certeza da Vida Eterna,
Eu não afirmo a reencarnação,
Eu vejo a morte,
Eu vejo a vida:
As duas, meio concluídas.
Óbvias em aparência.
Mas obscuras, em se tratando da linfa.

Não sei em que orgânico culminarás,
Não sei se as almas são, de fato, aladas,
Não sei qual é a sombra do processo de decomposição,
Só sei,
Só percebo, melhor, o que meus sentidos ingerem.

Hoje o tempo se esvaiu de tu.
Talvez para dar conta dos trigêmeos
Que estão prestes à vida na favela.
O Tempo te emudeceu.
Mas, as habilidades da Tecnologia te eternizaram.

Ainda que Deus não te eternize,
As novas consciências estão em incessante gênese...
Os novos galhos das velhas árvores saberão de ti.

Mesmo se a alma não for alada,
O Novo sempre te alcançará,
Sempre,
Sempre,
Sempre.
Enquanto houver matéria disponível à condição humana.
NAIR BELLO.

Procissão

Vamos fazer nossa p r o c i s s ã o;
Eu não poderia carregar esta cruz sozinha.
Deixei você preocupado, não é?
Seria nobre meu sigilo,
Mas sou plebéia.
Por um simples motivo:
Fui materializada como gente.

Mutante

É!
É verdade!
Papai sempre me recomendou mo-vi-men-to.
E eu achava que ele iria favorecer meu tédio.

Achava mesmo:
Esse troca-troca postiço,
Esses cafés dormidos de lanchonete de alta rotatividade
,
Gente de toda idade –
Com seus discursos estereotipados –
Suas roupas manjadas
E o esmalte degrade,
Conforme a maiorIDADE.

Daí, desvirginando meu radicalismo,
Saí.
Observei a teia de pessoas que saem,
Ao trabalho,
Às compras,
À vadiagem.

Daí,
Concluí:
Tudo demanda mudança.
As fachadas das lojas,
O corte de cabelo,
Um anseio,
Um medo,
As tipografias,
O design dos carros,
As crianças,
A seriedade e a sisudez.

Amor, amor, amor

Não sei se invento,
Se o amo,
Se você é mero vapor da volúpia.
Qual é meu intento?

Por vezes,
Os instintos se embaçam,
São exércitos disfarçados...
Na prontidão de enfrentar a psique.

Esconde-esconde.
Eu sinto, mas não posso?
Eu posso, mas não sinto?
Até onde eu devo me permitir levar?
Pela metafísica?
Pela minha autonomia?

Não existe autonomia na vida!
É tudo nazi-fascismo.
A gravidade é uma conseqüência do Fascismo.
Fascismo das Fatalidades
Que compõem o Mundo,
Em uma valsa presunçosa.

14 de abril de 2007

Atuais conjunturas

O medo é a espera de um veredicto do Futuro. O medo é o desviver em prol de uma fantasia mesquinha que estar por vir.

5 de abril de 2007

Mulherzinha

Uma baforada – relâmpago do inconsciente,
Às vésperas do domingo de Páscoa,
Disse-me, aos gritos:
Tu não és uma mulher convencional.

Algumas máximas do manual de etiqueta
À mesa,
Diante de cerimônias sociais,
Perante relações humanas, enfim,
Subornam os sentidos femininos,
Ou simplesmente e igualmente vitais:
Os dos Homens e os das mulheres: os dos seres.

As mulheres mentem,
Entopem os instintos com uma bola de algodão,
Saem de saias, numa fajuta insinuação.
Basta – lhes um vestido,
Para que se sintam extremamente femininas.

Elas rosnam,
Porque um rapaz fez um comentário autêntico,
Selvagem, embora sincero.
Elas denotam fortaleza,
Mas se esfarelam com perdas conjugais.

Ah! Mulheres.
Minhas congêneres,
Embora aflitas em nome de um exército inventado,
Civilizado,
Postiço.
Vamos voltar à época dos bichos,
Da desordem.

30 de março de 2007

FELIZ ANIVERSÁRIO

Como jargão – sobrevivente de guerra – passo
Com meu – já gasto – cartaz:
À medida que a vida faz-se maciça de vida,
Mais se aproxima da derradeira goela do Fatal.

Feliz aniversário?
Tudo bem! Que essa sua proximidade com a morte
Seja, ao menos, serena, suave.
Feliz aniversário...
Os novos tempos contam com sua contribuição.
Para que se fechem os tempos reservados a você.
Aniversário: já se nasce em morte.
Portanto, gozemos dessa morte-vida incessante

Insight de Amor

Guardei teu primeiro recado.
Para um dia ter me orgulhado:
Eu tive um namorado
Custoso, embora autêntico.

É verdade, bem sei.
Porque desligas o telefone,
Somes,
Reapareces.

Como militar da masculinidade, como os homens, possuis um falo;
Quer espontaneidade maior que a do pênis?
Em felicidade: a antena rígida ascende;
Em frustração: avezinha encolhida a cochilar.

Acredito, sim, no amor, ou melhor dizendo, na afinidade.
Porque o primeiro se equivoca, quando é processado pelo homem.
A afinidade das genitálias, das oratórias, da aura, do esperá-lo sem me entediar é fato.

Por que, então, abster-se da coragem de se entrosar,
A ponto de os sentidos – todos eles – comungarem um mesmo paradigma?
Afinemo-nos sem covardias.

27 de março de 2007

Calendário à brasileirinha

Antes, o Brasil - o Brasil das lojas abertas, dos serviços públicos, do calçadão cheio começava sua atividade em março. O argumento: tudo se ajeita depois do Carnaval. Agora, deram um prazo maior para a ressaca. Um mês inteiro de descanso, de desintoxicação.
A programação da TV inicia-se em abril. O cursinho pré - vestibular, idem.
Os futuros seres humanos herdarão esse calendário à brasileirinha? Viva o ócio do janeiro, do fevereiro e agora do março.

22 de março de 2007

21 de março de 2007

Constituição de 1985

Sou minha maior censura.
Mamãe vem, amontoando palavras pretensiosas, mas travestidas de doçura. As frases são estiletes eficientes que estavam no acervo de nossa intimidade. Rapidamente me recomponho, monto um altar com pequenas oferendas a meu próprio âmago: sou uma nesga de Deus e, conseqüentemente, um farelo da Onipotência.

18 de março de 2007

Vão

Gisela vasculha, numa pretensão de se defender das próprias condições a que a vida a induz, o acervo de possibilidades à origem de cada sofrimentozinho que a rege. Sempre se inclinou ao raciocínio matemático, lógico, exato sobre as coisas.
Desta vez, sofria em nome de um amor inconsistente, desmazelado. Não lhe cabia na psique a própria punição que lhe veio de nascença: uma carência indomesticável. Nenhuma cortesia supriria aquela dor, dor dos incipientes tempos em que se reconhecia como humano. Dor do maquinário outorgado do Mundo.
Dor. A dor morta do dicionário. A dor conotativa. A dor legítima. Mune-se das lupas invisíveis da consciência e sai à busca de endereços; do catálogo que contém todos os dados do motivo de se padecer.
É tudo vão, coitada! A serenidade lhe virá, quando o líquido dos lixos escorrer-lhe do caixão. Só assim!

17 de março de 2007

O outro

O Outro, numa relação (hipoteticamente promissora) de monogamia, dá uma consistência em prováveis hesitações. Nada é certeiro. Portanto, arquivamos outros indivíduos bem quistos em nossos acervos de maridinhos e esposinhas.
(Um filósofo de 2158 disse isso a um Futuro que não me pertencerá. Achei interessante e decidi introduzir esse escrito com este pensamento que segue).
Iramaia, há uns meses que se desviaram das rédeas de minha contabilidade, relaciona-se com Olavo. Este permanece ingênuo perante as metáforas de que tanto ela gosta de falar. Talvez seja um jeito de a moça se proteger da neurastenia do Mundo. Fala doce, cujas ferraduras aludem os outros à sensação mais farejada por qualquer criatura.
Com o carinho de um solitário que faz jogos lúdicos e minuciosos com a existência, ela se aquieta no relacionamento. Ainda que sofra, ainda que sinta a necessidade de um aconchego inumano, prevalece contida, enclausurada em seus próprios pensares. Nada, jamais, poderá servir de ração a minhas aptidões. Fala Iramaia; remetente: inconsciente; destinatário: distinção da consciência.
Iramaia vive em um estoque obscuro, em que seu maquinário não cessa trabalhar. O labor pende de um súbito e fugaz movimento ao tédio cego de possibilidades. Dizem, nessas cirandas que peregrinam pelo calçadão das cidades pequenas, que todas as pessoas, numa fase xis da vida, passam por um período negro. E nesse negrume, não existem estrelas, não existe a lua. O único sentido válido é o que observa a negritude.
O namoro, como todos os naipes do Relacionamento, é uma emenda à vida da garota. Um enxerto que lhe garante, indubitavelmente, tempos voluptuosos, tempos de plenitude dos sentidos e intempéries. Sofrimento. Sofrimento oriundo de temores. Temores todos vãos. Mesmo que a vida se desfaleça, certamente, ter-se-á que a suportar. É tudo outorgado. É tudo força clandestina e soberba como a empáfia dos que negam a Paternidade.

"Não" às drogas?

Como pude deixar que a conduta, esta de que nada sei, embora ache, num ínterim indeterminado, que ela seja o condutor-mor da existência, me levasse ao caos? Ao niilismo total?
Os tarjas-pretas, em muito, me ajudaram. As maçantes sessões de ioga me reergueram. Os antidepressivos, muito paulatinamente, possibilitaram serenidade aos sofrimentos carecas, moribundos, agonizantes. Afastaram-me das drogas... Ou, sucumbi às campanhas de combate ao tabagismo? A vida agora vem crua para o meu lado. Nua, crua, repugnante, por vezes. E o sexo é outorgado. Uma masturbação indelicada, que desvia o propósito principal. E, em vez de prazer, atiça a idéia que deu origem às práticas sádico-masoquistas.

16 de março de 2007

Sr. Onomatopéia. Onomatopéia de quê?

A aula do professor Aurélio é irretocável. Possui, inerente à condição solitária dos indivíduos ilustres por nascença, a capacidade de, sem intervenções, fluir perfeita e prazerosamente. Ainda assim, Juca insiste em levantar o braço rígido e ensaiado como um soldadinho temeroso: ô professor... Entre uma palavra e outra, ele solta um som que não faz parte do repertório dos falantes da Língua Portuguesa aqui no Brasil. Ô profelaksjapfsdmvl. Além dessa proeza, onde couber, ele coloca a palavra esdrúxulo.
Gostaria muitíssimo de entender: que som o Juca imita ao estrear seus discursos com um pretenso, embora pelas metades verbete: prof...

11 de março de 2007

Reincidir

A vida é reincidente.
Nasci com fome,
Com sede,
Engolindo tudo que estava à frente.

E isso tudo persiste.
Já estou velha,
Sobrevivente de guerra;
E a fome insiste, não pára.
A sede não se sacia com minha saliva.
O Mundo me vem, entrão.

9 de março de 2007

Plágio

Alertaram-me a possíveis plágios. Mas, diante de qualquer forma de expressão, fica-se exposto e obviamente sujeito a cópias, copiou?! Colou! Portanto, destemida, continuarei a escrever meus textos, meus escritos, meus desenhos, minhas músicas, meus sentidos, minha vida, enfim.

3 de março de 2007

Bochechas Rubras

Há tanto tempo não escrevo;
Fico até meio sem jeito.
Todos os dias eu estendia meus sentimentos,
Em letras bem talhadas,
Em metáforas que tratavam com fineza minhas ousadias.

Há tanto tempo não escrevo,
Mas jamais se esquece do manual dos beijos.
Não se esquece do Amor velho,
Sobrevivente de guerra.

Deus lembra-se da fórmula das vidas,
Embora, às vezes, por um deslize qualquer,
Seja falível como os médicos tão presunçosos
E, no entanto, raquíticos da legítima sabedoria...
De que tudo culmina em nada.