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22 de fevereiro de 2008


O Cosmo ficou imensamente pequeno.
A ponto de me chegar às mãos sob a forma de um palm top.
Navego. Sem as náuseas das grandes embarcações.
Conheço o Mundo.
O Velho.
O Novo.
Em nesgas de segundos.
Volto sem suar.
Deito.
Durmo.

Esqueço tudo.
O Mundo banalizou.
Prostituição abundante, democrática.
E todo mundo hibernado em consultórios que tratam a cabeça.
A misantropia,

A solidão.

19 de fevereiro de 2008

Automóvel


O que mais a enerva são os morros. E o relevo da cidade é justamente montanhoso. Dirigir é estado de espírito. Não é a defensiva, não são as aulas de sinais, não é o contato inexpressivo com um psicólogo medíocre que examina a psicologia alheia através de desenhozinhos imbecis.
A grande metáfora-contemporânea à Vida é o automóvel. Neste, é preciso ser mutante conforme a delinqüência alheia, conforme as palavras de baixo calão, conforme um ônibus fazendo-lhe um ângulo reto.
Dirige, portanto vive conscientemente, com as pernas e a psique em cada momento de cada vez.

16 de fevereiro de 2008

Memória Seletiva


O professor pediu aos alunos que lessem, decodificassem e lhe entregassem – sob forma de resenha – o conteúdo de um livro sobre fotografias de um pesquisador de Harvard.
Danuza tem uma inteligência emocional e egocêntrica. Portanto, qualquer abordagem que permeie a sociedade dos sentimentos, dos conflitos psicológicos e psicodélicos lhe desperta interesse. Outras inclinações jornalísticas, literárias, no entanto, não lhe são muito bem vindas.
São quarenta e seis páginas, em que uma linguagem formal, aliada a um tema típico de quem se interessa pelas grandes causas do Universo, se organiza como incipientes civilizações rígidas e tensas diante de um novo conceito de se viver. Repelente textual. Não há o que consumir.
Os pares de olhos, quando chegam a qualquer lugar, investigam – aproveitando as habilidades laterais e longitudinais do globo ocular – as belezas, as misérias, as volúpias, as censuras, os pudores e experimentam aquilo de que gostaram. Rejeitam o repugnante.
O cérebro – furtivamente – evacua toda a sabedoria didática, sem interesses intrínsecos. Joga-a ao Nada. Coitada da boca aberta de quem estiver à mercê. Sabedorias descartáveis estão às soltas.

14 de fevereiro de 2008

Lanche





São treze cômodos generosos a casa.
Nice ficou órfã de pai e de mãe aos vinte anos, e lhes herdara a fazenda onde ainda mora com quatro empregados. Desenvolveu, quase que por insistência do Destino, uma afeição às flores, à aprendizagem de idiomas, ao exercício do Budismo e à gastronomia. Se não fosse isso, a vida estaria à mercê das sabotagens do tempo, que são o próprio tempo. O que é o Tempo, senão, o crime perfeito das rugas, das podridões, da volúpia, da impotência?
Nice deu à luz uma habilidade típica dos poetas ou de quem exercita alguma arte: ela pensa a sombra de tudo que possui uma existência evidente. Há umas semanas, ela arriscou preparar uma iguaria que aprendera em um livro requintado de receitas, pôs-se à bancada da cozinha – sozinha – e comia.
Enquanto, no diálogo, o pensamento do interlocutor e o do emissor desenvolvem um acordo mútuo, a solidão se perde no caos das próprias vozes.
O pacote de biscoito está aberto. Dentro de pouco tempo, as bolachas estarão totalmente murchas. Daí,surgirão os físicos para explicar por que acontece isso. Batizarão os fenômenos metafísicos de substância X, que é formada a partir de substância Y e ficarão sisudos por burocratizar o inexorável.
Os fantasmas se estendem ao saco de biscoito, às dúvidas de Nice e à incapacidade de dizer de quem ousa escrever qualquer bobagem, desenhar qualquer bobagem.

12 de fevereiro de 2008

Se ele entende a maldade como maldade


Pedro Paulo estava defecando no banheiro.
Seus dois irmãos – Verônica e Leonardo – conversam na sala de televisão.
Sua mãe, ainda que não se lhe saiba o destino neste exato momento, compreende. O kit de sobrevivência de dona Maria Carmem, em vez de Oxigênio, valores recomendáveis de pressão e de temperatura, é o compreender intransitivo. Ela compreende. Ainda que seja bandido, banido, desvalido, esteta. Não importa sua causa. Ela compreende.
Quanto conforto, não?
Pedro Paulo foi traído por sua mulher. Faz dois anos que eles se casaram e ele a ama muito. O perdão para ele é natural. Não demanda, sequer, muitos esforços. A maior dificuldade é resistir às verdades dos seus congêneres.
Hierarquia é papo furado.
Pedir conselho para a mesma espécie, principalmente se ela é contemporânea ao que hesita, não tem muita significância. Estamos todos sob as mesmas experiências, sob a mesma receita divina, afinal.
Pedro Paulo aproveita dos momentos de claustro para dar chance, meio involuntariamente, às catarses. A um homem contemporizado à velocidade do século XXI, quinze minutos de banho, dez minutos de evacuação impelem à reflexão.
Decidiu. Irá perdoar Ana Flávia, a esposa.
Agora produz, em sua alquimia intrínseca, os antídotos à censura – velada ou evidente – que emana das pessoas que se entrosam com o extrínseco, que se identificam com automóveis, com o talhe de Armani. E fazem fofoca demasiadamente.
Pedro Paulo não está muito aquém do atraso dos que envenenam as circunstâncias. As pessoas. Porque sua linfa muda de química perante a maldade do outro. A freqüência coincide. Se ele interpreta a maldade como maldade, é porque a bondade anda esquálida.

11 de fevereiro de 2008

Ramiro Milhões



Ramiro talvez seja o indivíduo mais rico da Zona da Mata mineira. Nos registros econômicos da família, consta que seu avô – Marco Paulo – fabricava, através de uma receitinha caseira – notas de altos valores da moeda da época.
Com o dinheiro – transformista fez impérios, de cujos gozos desfrutam toda a descendência viva. Ramiro, o herdeiro mais jovem de Marco Paulo, aquele radicado em Minas há quinze anos, é um cara cosmopolita. Ser cosmopolita em cidadezinha provinciana repercute em reação. Como tudo. Conforme a existência precede a essência. Os carros lustrados, pintados à modernidade são mordomos do poder. O poder se enfurna em áreas inadequadas. Quando se o percebe, ele alfabetiza a variedade do âmago da espécie humana. A conduta dos sentimentos baseia-se – precipitadamente – no carro, na cútis, no músculo, na fragrância importada, no endereço, no círculo social. E, de repente, engasga-se no próprio equívoco. E sucumbe à primeira oportunidade de se entorpecer e de se alienar.

9 de fevereiro de 2008

Sujeito Oculto


Mayara namorou Marcos por quase três anos. Agora – sábado, dez e meia da noite – ela está sem banho, com os cabelos oleosos, sobre o colchão da cama do quarto de princesa que lhe foi feito sob medida e gosto. Ela chora muito. Desde pequena. Vai à escola e chora. Almoça e se atenta ao noticiário e chora. Perscruta a vida dos próximos e dos distantes e chora.
Curiosa que é, quis, cedo, descobrir por que aquela sensibilidade toda a escolhera. Teorias espíritas. Horóscopos. Destino. Acaso. Pensou possibilidades. Desbotou-se. Provavelmente, o ter sido materializada àquela época justifica a cruz de uma sensibilidade enorme e perene.
Aos dezessete anos – numa era Pós – Moderna, em que, quanto antes se antecipar nos conhecimentos empíricos melhor – ela experimentou o beijo. Apresentou-lhe inúmeras objeções, mas como os costumes se travestem, por vezes, de natureza, ela insistiu beijar. Beijou poucos. Mas a mil por hora. Alguns foram descartáveis como a duração de um copo plástico em festinha de criança que começa às 18h30 e termina às 21h30. Outros a acompanharam por algumas semanas, por algumas sessões informais de conhecimento mútuo da psicologia prática.
Marcos a decepcionou. Divertiu-a. Excitou-a. Trouxe-lhe presentinhos impregnados de metáforas e declarações. Transformou cada canto por onde passou com ela em vida. Como o Deus materializando o Nada em qualquer coisa. Marcos foi magia. No entanto, metástase de descaso.
Fatal.
Hedonismo é nocivo. As seqüelas vêm à tona.
Marcos não mais pertence às citações, às perguntas casuais que chegam a Mayara, às fotografias acopladas a quadros de ímã. Todavia, está subliminar em tudo que a moça diz. E em tudo que ela faz. Na inércia. Na dinâmica.
As memórias são sempre contemporâneas. Nunca se tornam obsoletas.

7 de fevereiro de 2008

Juiz de Fora, 07 de fevereiro de 2008


O poeta-mor afirmou que para escrever dor é preciso fingi-la, desde que já se a tenha sentido antes. No entanto, esperar que a dor se torne póstuma para expressá-la é como se a colocássemos em uma conserva e a degustássemos diariamente. Intoxicação por dor. Morte por dor.

6 de fevereiro de 2008

Imperativo


Faze. Respira. Anda. Come. Dorme.
Não te excedas.
Evita doces, álcool, tabaco.
Gosta de uma música bem suave.
Ama a fração serena do corpo que regozijas,
Abstém das interferências com o amante.
Goza pelos canais eróticos da manifestação da matéria.
Goza pelos poros.
Pensa as memórias das volúpias e das palavras que te salvam.
Esquece a insipidez e a praticidade fria que transportam tantos humanos.
Engravida de vida todos os dias.
Hiberna com o Tempo e lhe agradece pelo teu milagre diário,
Pela habilidade de transformar o ar em kit de sobrevivência.
Depois disso,
Morre tranqüilo.

29 de janeiro de 2008

Certidão do Tempo


Em timbre consistente, indubitável:
Eu reconheço o Tempo como legítimo devido ao cumprimento exímio de suas atividades: ele se lembra do ciclo das garotinhas, da menopausa da vovozinha, da careca do baleiro, do menino banguelo, da decomposição da manga que sucumbiu à gravidade.
O Tempo é o funcionário-padrão, a utopia que não contemporiza às cobiças mesquinhas da Humanidade: enriquecer conforme um trabalho à revolução industrial pela visão de Chaplin e torcer a cara para o próprio passado, desfilando um carro recém emplacado.
Os soberbos são os mais medíocres porque desconhecem e/ou ignoram a submissão inquestionável ao tempo. Os soberbos religiosos elegem um horário a devotar a um Deus bonzinho, que mora em uma geografia remota, e fazem-Lhe pequenos cultos semanais que, depois de concluídos, cedem espaço a algumas pretensões psicológicas mais terráqueas e mais modernas. A devoção nunca cessa, por mais que se lhe tente escapar. A devoção tem muitas casas, um patrimônio incalcelável. Está na cobiça, na carência. Na imensa ignorância de não reconhecê-la o tempo todo.

25 de janeiro de 2008


O cérebro é bitolado.
Quando alguém se refere a você –
Cara bem instruído –
Com um português equivocado,
Ah, quanta gargalhada.

MicofRiba.
Vendem-se terninhos de micofriba.
Ao táxi, após a corrida, a cliente, ao taxista:
Obrigada, moço.
E este:
De nado.
Imediatamente,
Gargalhada.

Ao voltar a casa, a moça, à tia:
Adivinha de que eu vim pra cá?
A tia:
De táxi.
A menina:
Não, de nado.

O cérebro é bitolado.

Noradrenalina


Brasília, 25 de janeiro de 2008
Toda época transporta mazelas, haja vista os registros históricos de doenças que disseminaram povos e povos e de guerras que mutilaram gentes e comprometeram o conceito de nação.
O século XXI tem sido a presa das doenças psicológicas e, conforme concluem os patologistas, a maioria das doenças é psicossomática. É o preço de se evoluir e transcender a velha idéia tão defendida pela limitada Ciência, que perscruta e afirma apenas as manifestações palpáveis dessa Terra.
A aparição dessas moléstias cerebrais instiga as pessoas a buscar um sentido extraordinário à vida, a descobrir, quase de forma obrigatória, o Deus.

24 de janeiro de 2008

Toda Idade


Aquela mulher que me passou pelos sentidos há pouco,
O luxo do empresário que porta um Mercedes no trânsito de Brasília,
A armadilha à moda de detetive querendo pegar adúltero,
O fruto podre que sucumbe ao sopro da Gravidade.
Toda idade morre.
Morre-se a cada idade.
Já se nasce para morrer.
O cemitério está crivado de subsistência.
O cemitério sobrevive da decadência da Humanidade.
Toda idade morre ao nosso alcance,
Ou bem distante da nossa imaginação.

21 de janeiro de 2008

Planeta Terra

A Terra é uma criança.
Ou o todo perecível do Mundo, que carrega um pseudo viver inesgotável. Ela gira, gira, gira e ainda faz círculos primorosos com a própria tontura. Rotação. Translação.
A nossa casa é de boneca. Somos regidos por um grande brinquedo - bêbado e aventureiro de nascença. A Terra é uma criança.

18 de janeiro de 2008

Complexo de Cinderela


Depois de ter tido manifestações curiosas – durante a infância – perante as muitas encarnações da Vida, crescido com muitas objeções a vários paradigmas inexoráveis e sucumbido a uma graduação tradicional, a de odontologia, Margarida abriu um comércio de produtos sofisticados para casa e especialmente para toucador.
Exerceu, menos por vocação e mais pela ganância quase natural de que os homens se tornaram reféns com o correr dos tempos, das carecas incipientes e das banguelices dos impúberes, o status de dentista. Enriqueceu. E agora vive para sustentar simples e exclusivamente o prazer. Lida com gente elitizada financeira e intelectualmente. Veste-se bem à beça. Faz tratamentos estéticos. Come em restaurantes que ainda zelam pela privacidade de cada mesa. Namora. Dirige tranqüilamente, em qualquer tipo de itinerário. Aborda a própria vida como se tivesse – cada episódio – um acabamento primoroso. Articula, com delicadeza do tear da aranha, palavra por palavra.
O histórico de Margarida, cada aparição dela – pela manhã, ao entardecer, nos eventos sociais do alto escalão – contemporizaria com sucesso ao extraordinário e, portanto, às mídias. Margarida é uma utopia encarnada. É o personagem ideal para os romances vendáveis.
Ao divã, durante a catarse, diagnostica-se um estado de nervo mantido por tarjas-pretas. Margarida sempre se esforçou com o canteiro exímio da reputação dela, sempre quis um efeito plástico impecável. Impecável é tudo que se desconhece. Se se foi materializado, pecou-se. Viver é a celebração-mor do pecado.

16 de janeiro de 2008

Diluição

O grande mal é quando a dieta dos sentidos sucumbe à insipidez.
Mal-viver.
Desprazer.
Os olhos vêem o óbvio
Os olhos desvêem.

Os sentidos desmaterializados do Amor.
Ah, o Amor.
Os sentidos sem carne do amor também sucumbem à insipidez.
Os ossos desintegram também.
Não é preciso carne para a decomposição,
A caveira do amor dilui no Nada.

Lei da Oferta e da Demanda


Eu não atenderia à demanda daquele amor, daquela volúpia.

2 de janeiro de 2008

Réveillon


Réveillon


Cidade?
Rio de Janeiro!
Atrasaram-se na ceia, vieram convidados extras.
As crianças estavam cansadas à beça, afinal, dormiram sob o calor e a insônia da cidade maravilhosa e acordaram diante dos chamamentos à moda de quartel para irem para a praia.
O tino dos adultos funcionava à base de destilados.
Eunice estava sentindo muita câimbra no corpo. Talvez fosse cardíaca. No entanto, como se não lhe pertencesse o apego imensurável pela existência, prognosticava
: deve ser uma bobagem e se aliviava pensando em todos aqueles camaradas que resistem a tantas overdoses, a tantos excessos.
Tentou estar feliz... Quantas tentativas vãs. Mentalizou bocas promissoras, lascívias promissoras, carnavais de sentidos e transgressões. Cogitou
quanta vanguardaa morte e os olhos se inundaram, mas se contiveram e não cederam às lágrimas.
Observou com filosofia o sentido subliminar dos fogos
.
O repouso é uma alquimia do Cosmo. Depois da vida de carne há uma outra quimera. E ritmou a idéia. Deu-lhe fiéis. Bebeu um pouco do pensamento. Respirou fundo. Acordou. Ilesa. Viva. Agora, sob outra materialização.
O repouso é uma alquimia do Cosmo.

25 de dezembro de 2007

Ho ho ho ho


A família está em movimento sobre o asfalto pouco obstruído da estrada que fora privatizada há um tempinho, felizmente. Jane é a caçula, tem vinte e dois anos. Ela pega o espelhinho que lhe fica na bolsa para qualquer emergência e/ou desconfiança estética. Com o refletor, observa se há carros vindo ao encontro do veículo em que está. Não há. A estrada está vazia. Ela então põe a cabeça para o lado de fora. É sesacional ir de encontro ao vento e, principalmente, olhar as árvores pelas quais se passou há muito pouco tempo atrás, embora elas já sejam pretéritas. É Natal. O inconsciente é imensamente volúvel, porque contemporiza a números de calendário e sofre ou goza conforme o algarismo que fulgura. Fim de ano, as comoções e sentimentalismos rasos são maioria poderosa.
Jane lembra-se da época em que se esperava com avidez pelo parto; o parto de uma Letícia, de uma Nina, de uma Carolina qualquer. No dezembro incipiente a gestação se iniciava e no 25 do mês, à meia noite, o troca-troca de presentes a excedia. Era a felicidade de mãe, da realidade exímia das crianças que se tornam o que desejam de uma hora pra outra.

23 de dezembro de 2007

Ex-namorado


Por que a esperança dos amantes mora na Rua Idéia de que as coisas podem mudar?
Ele é um troglodita, mas depois que casarmos adotará o comportamento de gentleman.
Ele nunca me pagou um copo de água, mas depois que casarmos me dará de presente várias luas de mel na Europa.
Ele é muito eloqüente perante os discursos machistas que decora, um a um.
Ele sempre me faz esperar uma hora, uma hora e meia.
No altar, no entanto, chegará bem cedo.
Ele nunca me faz surpresas,
Embora já tenha preparado um soneto de Camões para recitar no baile do casório.
Ah, ilusão!

Desilusão, desilusão, desilusão.
Lá vem o compasso da desilusão!

12 de dezembro de 2007


VICTORHUGUETES & LOUISVUITTONETES


É como esbanjar um matrimônio de que não fazes parte. Rubricar um nome que não te pertence.

7 de dezembro de 2007

Ótica


Não há como prescindir do verbo rodriguiano. Não, não há mesmo.
De repente, Ana chega ao banco – após o expediente – a fim de sacar uma quantia irrelevante no caixa eletrônico. Ela está desenxabida, com uma tênue dor de cabeça. Saiu sem muita vaidade, totalmente livre de qualquer ranço de cabotinismo; ao contrário, nos últimos dias tem se sentido feia à beça, além de estúpida e repugnante.
Antes que se atentasse a qualquer seta do Inconsciente, o par de olhos a conduziu ao rapaz mais belo (beleza é algo que não existe, embora erice um agrado aos sentidos) que estava à fila.
Como um chá, a linfa feminina simulou volúpias e egos presunçosos.
Depois, pudica, voltou ao amor monogâmico.
Haja tecnologia cerebral para desenraizar o não-civilizado, este cadáver que nos fede por dentro.

6 de dezembro de 2007

Justiça Divina


Estupefata.
A mulher, que sempre pensou extravagâncias e ousou filosofar com a própria autoria, está estupefata. As pessoas insistem em enraizar-se. E isso lhe traz neuroses.
A vida é desembasada. É órfã. O sentido supremo é a Ignorância e, no entanto, o esquema é Rei.
Buáááááááááááá.
Babá.
Creche.
Pré.
A, e, i, o, u.
2+2.
O Brasil é um país com dimensões continentais.
My boyfriend is handsome.
Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Ana C.
Vestibular. O que você vai ser?
Antes não se era. De que lhe valiam as moléculas? E a metafísica? Seu dente banguelo? O espectro do beijo? A espontaneidade do pênis? A cópula? O prenúncio do clímax?
Ele é engenheiro de produção.
Poética a profissão. Porque contribui para a gênese do Mundo. Das coisas inanimadas. Determina o diâmetro do frasco em que a pasta de dente se asila...
É-se um ínterim de engenheiro de produção.
Depois se cansa. E acaba por se separar da mulher. Arruma alguns casinhos extra-conjugais. As olheiras aumentam e as manias, em mesma proporção.
Nunca foi. Nunca viveu. Enclausurou-se. Asfixiou-se. Agora agoniza... agoniza anos, à espera da Justiça Divina, de que se é integralmente cego.

3 de dezembro de 2007

Doutô


Saíra de uma cidade mineira embaçada pelas civilizações mais possantes da região para consultar com o doutô. Quem lhe atendeu, no entanto, foi uma doutora. Bonita à beça, todavia, sem o menor traquejo e magra de psicologia.
Mariinha hesitava inclusive perante uma cadeira esculachada, típica das instalações dos serviços públicos brasileiros. Constrangeu-se toda, acomodou-se com as sacolas com que chegara ali e ocupou o menor espaço possível. As extremidades do corpo estavam geladas. Ai, meu Deus, quando me chamarem, o que é que eu vou falar? Mariinha estava diante da situação porque o patrão – dono da fazenda onde ela trabalha e mora – preocupou-se com a saúde da empregada, devido a um desmaio súbito que a acometera.
Com uma goma na boca, uma calça branca demasiado justa e uma blusa branca tomara que cara e um sapato branco com salto em madeira e altitude não-investigável: quem é Maria Arminda Guilherme? Está na sua vez. Antes que se pusesse à cadeira do consultório, a médica: qual que é o seu problema? Àquele instante, indubitavelmente, seria a pressão, elevadíssima, afinal, o nervosismo imperava a senhorinha. Tropeçando no vocabulário – com o qual não tinha muita intimidade – Mariinha disse à doutora:
O Celso ficô afRito quando soube dos meu desmaio.
A médica:
P
eraí, minha senhora, quem é Celso? Por que motivo a senhora desmaiou? Queda de pressão? Emoção? Susto? Eu não sou adivinha, sou profissional da saúde.
Sobrancelha voluntariamente empinada... Fragrância de soberba.
Mariinha:
O patrão lá da fazenda onde eu trabaio ficô sabendo dos meus desmaio. Eu não sei os motivo dos desmaio. Ele falô preu procurá um hospital.
A profissional da saúde usou como instrumento de investigação da condição física da mulher os adventos – já destruídos por maus tratos – da Tecnologia.
Que estúpida atitude a dos médicos em regra, que monossilábicos que são, recorrem a aparelhos inventados pela mesquinhez intelectual a que o Homem está submetido. Uma boa prosa pode detectar as panes no organismo humano.
Operou com cabotinismo as máquinas medidoras de saúde e nada diagnosticou em dona Mariinha.
A senhora está dispensada.
A situação por que passara alterou a química da doninha. Algum trabalho metafísico a tragou e ela não mais voltou à fazenda.



O movimento da Caveira


A irmã mais velha implicava com o namorado da irmã mais nova. Fazia-lhe a caveira do rapaz. De repente, longe de a relação se oficializar e de se estabelecer vitalícia conforme os impérios da cultura neo-moderna, o garoto morre em decorrência de uma apnéia.
No momento incipiente que sucedeu o enterro, a viuvinha referiu-se à irmã:
- A caveira que você prognosticava entusiasmada todos os dias, a carne que – malgrado ereta – nunca lhe valeu e nem viveu, é seu desejo póstumo e a mais nova encarnação. Está feliz? BOA NOITE!
Pranto.
Desejo de “deXistir”.
Os motivos dos instintos mais repugnantes se deleitam com o cadáver – rodovia de ratos e baratas e tatus e outras materializações horrendas.
Pranto………
Noventa anos se passaram.
A decomposição culminou em uma haste, uma serena haste de uma tulipa nascida em Ancara, na Turquia – região originária dessa espécie de planta.

28 de novembro de 2007



O metabolismo do Cosmo


Pneu.
Indumentária.
Até uma arcada dentária,
Para um odontolegista avaliar.

As irmãs voltavam do Rio a Juiz de Fora –
Na Zona da Mata Mineira.
Uma, absorta diante da seqüência de músicas de uma FM;
A outra, perscrutando o que a ladeava...
Desde os cacoetes dos outros passageiros do ônibus,
A mil hipóteses aos destinos deles,
A tudo que habitava as águas da saída da cidade maravilhosa.

Tudo está encarnado.
E em movimento de decomposição.
De quem acaba de nascer, ainda que cresça,
E que tenha idades bem sucedidas,
É tirada uma lasquinha todo dia.

O orgânico esvaiu-se a meu sentido,
Mas as vestes se delongam perante o processo do fim.
A traiçoeira forma viva sucumbe,
E as nossas alquimias duvidosas
E as nossas empreitadas entregues ao provável nos superam.

Os sentimentos, ah! os sentimentos.
Cismam cada um ter o seu,
Sob as modas que lhes convêm.
Mas as expressões são uníssonas,
O Homem são cachos idênticos por dentro.

Atenção, passageiros,
Estamos a cinco minutos da rodoviária de Juiz de
Fora.

Nike Shox


Perdão a todos os portadores da doença do consumo, da qual se terá mais conhecimento daqui a um bom tempo, quando as enciclopédias registrarão - com propriedade para fazê-lo – as conseqüências mais mórbidas dessa mazela, mas não posso deixar de comentar, ainda que eu não tenha know how em patologias, o mais novo lançamento da Nike.
NIKE SHOX é o batismo do par de tênis, cujo design me alude a tudo que transcende o Cosmo. Como se não bastasse a estampa do calçado, existe um advento em sua sola: dois, três ou até oito ou até enésimos pares de molas que – a princípio – garantem o amortecimento às caminhadas.
Eis que estava ao calçadão de Juiz de Fora, cidadezinha famosa pelo bumbum da Scheila Carvalho – filha de uma senhorinha muito simpática que vende churros em eventos; dançarina de uma antiga banda de axé e casada com um não importa, o que interessa é que, na cerimônia de casamento, ela - a Scheila - apareceu sobre um grande tabuleiro, como uma cocada preta fresca ou um pão-de-ló esturricado, mantido à força de quatro seres brutos, ou quatro seres humanos com bíceps, tríceps... E famosa também pelo alto índice de suicídio, haja vista os tantos predicados da querida jota éfe.
Recapitulando... O calçadão
Um moreno de um metro e oitenta e três, cabelos negros e grossos, cútis impecável e layout regozijável: tórax muito bem esparramado, pernas tonificadas etc e tal portava um par do Nike Shox, o que lhe garantia mais uns cinco centímetros e, indubitavelmente, muito conforto e exuberância também.
Sabrina hesitou um pouco. Todavia, encorajada pelas próprias circunstâncias por que já passara, aproximou-se do moreno (que provavelmente atende pelo nome de Mauro, não há batismo mais másculo!) e lhe perguntou, com seriedade postiça:
- Quando é que você irá saltar? Afinal, qual seria a proposta de se pisar sobre uma mola, senão a de pegar impulso e ir a uma distância vertical?

23 de novembro de 2007

Menino Moderno


Ao telefone:
Pô, cara, não acredito que tu não conseguiu levar a mulé pra sua casa.
Va-ci-loooou, velho.

A poucos segundos do bate-papo,
a mãe do que se lamentava do lado de cá do celular veio buscá-lo.

O garoto entrou no carro, sentou-se, sequer se dirigiu à mãe,
Pousou os olhos numa menina bem magrinha,
Cuja cútis lhe pareceu singular e
Cujos seios durinhos extravasavam o tecido da blusa.
A mocinha parecia esperar por alguma carona
E lhe serviria de estímulos noturnos, virtuais e voluptuosos.

Os valores de Arnaldo – o tal rapaz – jamais cogitaram arriscar-se
Nas culturas de sentimentos - que não os postiços -
Que o incumbiam, falsamente, de Vinicius de Moraes,
E que o faziam sentir amante perfeito, que ama muito

E muitas.

Prateleira de frascos vazios.
Os jovens todos sucumbem às bússolas mais primárias da condição humana:
Cardápios, corpos, corpos, corpos, cardápios e mímica das projeções mais contemporâneas da sociedade
.

18 de novembro de 2007

Seu Salvador

Nestes últimos dias, sem prévias radiografias que acusassem o crescimento do desequilíbrio, a brisa que embaça e que nos é inerente, que não nos deixa enxergar a própria situação se excedeu. Perdi-me de vista, perdi meus sentidos, meus desejos... a gravidade tornou-se um redemoinho de itens de uma lista repugnante.
De-ses-pe-ro.
O meu amor não mais me vale de entorpecente. As leituras voluptuosas não prestam.
Todavia, em uma comunicação que transgride territórios e relógios, reconheci-me em outro. Permiti-me tarjas-pretas e outros venenos antimonotonia. Não consigo ser crua... Talvez se fosse encarnada como um rochedo, quem sabe?
Obrigada, Seu Salvador.

17 de novembro de 2007

Leão

Na relação deles ainda não havia penetração.
Línguas, atividades artesanais, deslizes com a palma das mãos sobre a cútis.
Ainda não havia penetração na relação dos dois.
De um lado, muita inteligência. Inteligência é chique, é vital, é sadio, é medalha, é prática de ioga, é apetite, é lascívia pura.
Do outro lado, leão, que come viva a outra carne e depois se aquieta, com vazies
, sem ecos, sem patrimônio após tantos esforços. E o consumismo desenfreado de comprar vinte e sete peças de roupas na mesma data e estendê-las como a natureza morta sobre a cama. Depois, ir tomar um banho, pôr a mesa, avisar da hora da refeição, assistir ao telejornal, implicar porque não se consegue silenciar e viver o nada. Morrer, morrer um pouco por dentro, uma vez que é assim a fatalidade.

16 de novembro de 2007


O quantum começou.
Assim, a morte já está bem viva, à espreita.
Nos quintais, nos céus, na apneia, no dedo prestes ao tiro...
Ao tiro suicida.

Ah! Como a morte está bem viva.
E como ela é a grande natureza heterogênea
.

9 de novembro de 2007

Marcha Nupcial

Casamento?
Eu tô fora. Domesticar gente grande demanda uma árdua dedicação.
E o choque de culturas?

Ele adora falar ao telefone, justamente na hora do programa mais bem bolado do GNT. A casa é pequena à beça.
Ele e a família têm o hábito de chegar de e ir a sem avisar.

Na primeira vez em que, involuntariamente, participei desse conchavo anti-etiqueta, Arnaldo – o ex e único-ex (espero não ensandecer novamente!) – acordou e me disse: benzinho,vou te levar a um lugar de que irá gostar bastante. Como quem confia na retórica de um político em audiência pública, lembro-me – até me eriçam os sentidos – de ter ficado demasiadamente empolgada; para onde ele está me levando?para um lugar farto de natureza... A essa hora e pelo que eu acho que ele sabe de mim: para um lugar descampado, só pode.
Algum asfalto pretérito. Algumas vegetações quase inexistentes, haja vista os olhos que a deixaram escapar e tal. Algum gado solitário. Alguns episódios exclusivos ao casal. Enfim, o marido foi acomodando o carro próximo a uma vila. Desceram do carro... ele abriu a portinhola do povoado... andou a distância de três fachadas de casa e bateu campainha. À mesa, primos já proliferados em outras gerações. Um almoço lhes esperava. Gisele, a recém casada, constrangeu-se toda, ofereceu os préstimos à anfitriã e foi tragada por uma catarse. Esta situação não tem nada a ver comigo, detesto encontros invasivos como este, essa senhora deve ter acordado cedíssimo para preparar a comida, eu sequer a conhecia e estou na casa dela, gozando do labor dela, isso não é justo. Uma parte do Inconsciente tentava dissuadi-la. Pretensão vã.
A libido já não vinha com tanta naturalidade. As palavras morriam quando pisavam a superfície da língua. Os agrados correspondiam a gestos altruístas, mas não deu para estender o ato postiço. Comunhão parcial de bens.

17 de outubro de 2007

Anjo


Tantos já a batizaram de anjo. Provavelmente pelo jeito cortês com que ela trata as pessoas. Ela é, sim, um anjo. Um anjo desalado, com os pés enraizados nos prazeres terráqueos.

8 de outubro de 2007

Prefácio: “prático – dizer do velho e vitalício amor”


I
FIM DE ROMACE

Para a parte passional, o fim de romance representa uma mumificação. O corpo do outro fica estendido, a transitar pelos centros urbanos, correndo o risco do fatal tropeço com o amor antigo. À mercê do campo mental e, no entanto, no alcance dos sentimentos, torna-se utópico.



II
NOVO AMOR

Doença de amor só cura com outro
Sair daquele costume e estar à frente de uma nova cultura – sozinho e fértil de expectativas – demanda transgredir os próprios preconceitos, ousar e captar e até adorar uma nova dicção e condicionar-se – como um iogue que sempre contemporiza a qualquer espaço – ao novo corpo, até poder afirmar, com uma duvidosa segurança, “eu amo”.

6 de outubro de 2007

Terapia de Casais


Módulo 1
Uma abstinência pensada é sempre salutar;
Ela deixa saudade, saudade biônica...
E esta revigora as células mortas.

2 de outubro de 2007


Incesto


Toda relação é incestuosa.

Haja vista a forma como todo o Cosmo é encarnado: sob o mesmo mistério, pai do Mundo.

30 de setembro de 2007

Obediência

Decidiu aposentar a cerimônia de mostrar as próprias verdades aos outros. Colocava várias de suas naturezas em uma redoma.
Isso, antes.
...
O motivo que propulsou a mudança: sou um experimento, deixe, portanto, as químicas me fluírem como manda a minha proprietária desconhecida. Mudou por obediência.

29 de setembro de 2007

Blitz psicológica


Xampu.
Vinha-lhe à cabeça o liquido semi-livre, cumprindo os itinerários que lhe surgiam. Entretanto, os frascos ortodoxos inibem a quase-liberdade da química dos xampus.
São nossas linfas enclausuradas nos nossos corpos.
Parte do conjunto de inumanos emana do humano.

27 de setembro de 2007

O professor Humbert Humbert


Os bastidores da EXISTÊNCIA materializaram-no numa realidade de poderes econômico, social, estético, intelectual e outros tantos tão ovacionados pelas pessoas. “Desfrute”! Assim o inconsciente lhe sugere existir.
Rogério, advogado e professor de alguma temática que tenha a ver com “jurisdição” (na metáfora de dizer justiça) obedece às baforadas da psiquê, não por disciplina, devoção, mas pelo bel prazer. Usa, portanto, de toda munição de que dispõe para inoculá-la em suas alunas fartas – pela própria idade – de volúpia e de encantamento com homens de boa retórica e de boa apresentação e de riqueza financeira.
Ele conta dos seus bens de uma forma que não eriça inveja nem antipatia aos espectadores que lhe dividem o ambiente, mas tudo que lhe emana é minuciosamente estudado; visa a um efeito sutil e fatal de conquista. “Deleite”.
Advogado. Rico. Poderia dividir a vida com a ociosidade agendada com viagens, estudos, descansos, festas, mas prefere as instituições de ensino: nestas, há carne nova, bustos enrijecidos, cútis impecável, nádegas redondas e consistentes e vulnerabilidade das fêmeas. “Eu quero gozar”... Assim ele disse a uma de suas mais recentes presas.

18 de setembro de 2007

Bossa Nova


O espectro da angústia de se iniciar nos pertencimentos às máximas da Humanidade o acompanhava nas viagens ao Rio de Janeiro. Ia à cidade maravilhosa respaldado pelo conforto de um carro contemporâneo aos lançamentos da indústria automobilística, pelo carinho do motorista vitalício da família e por um repertório imensurável e magnífico de Bossa Nova.
De nascença, Felício angustiava-se. Tudo que lhe ameaçava a natureza intrínseca o prostrava. Ir ao dentista e acompanhar os dias algarismados implicavam a domesticação daquele ser extenso, infindável, transcendente. Infelicidade. Os ricos inventam compromissos mil para se entrosarem com o inatingível tempo. E este lhes vira a face.
Felício superou algumas dicções da angústia; esta, no entanto, sempre o acompanha com diferentes cortes de cabelo, diferentes indumentárias, diferentes maquiagens, diferentes comportamentos postiços. Os percursos melancólicos de Minas ao Rio se esvaíram ou sofreram mutações que hoje equivalem a bobeirinhas de mente desconfortavelmente infantil. O sofrimento careca lhe trouxe resistência para caminhar de encontro ao tempo, às pessoas com suas atitudes inerentes.
A gazeta das idiossincrasias o questiona do amor – ele de fato é amado, ele de fato emana amor; da importância dele perante o Cosmo – será ele mais um mísero experimento de Deus, que não dará certo, haja vista a morte, e que não reverberará em memórias futuras? Felício é um jornalismo investigativo sem respostas. Apenas ecos, ecos e ecos.

8 de setembro de 2007

Vã Filosofia


Após um extenso e cansativo monólogo didático sobre como acontece a gestação nos mamíferos, Neide, professora de Biologia, aponta a um aluno da classe: Waltinho, com base na aula de hoje, você poderia me dizer quando é que um ser humano está pronto para nascer? Enciclopédico, com a memória seletiva condicionada aos parâmetros mais rígidos para ser um intelectual bem sucedido, fez uma perífrase irretocável ao processo ensinado pela mestra. Outras argüições foram feitas; respostas inconsistentes, respostas eloqüentes e uma argumentação memorável.
Tânia, que fora criada à base da liberdade para desenvolver as próprias inteligências, pediu à professora que repetisse a pergunta. Neide, educadamente, cumpriu o pedido. A garota posicionou a voz e concatenou, como num ensaio, as idéias que iria manifestar. Olha, de acordo com meu acervo de informação e percepção, creio que um ser humano está pronto para nascer quando ele se reconhece um ignorante de si mesmo, e mais, um ignorante do Mundo. Enquanto a gente se satisfizer com as cartas que as Ciências nos dão, indubitavelmente, a gente vai deixar de evoluir; a gente vai continuar lustrando as sabedorias raquíticas que compõem os adventos criados pelo Homem. Professora, tenho enorme respeito pela sua profissão, de verdade, mas o homem se mantém como espectador dos movimentos estéticos da vida. Tudo que nos chega pertence ao estopim das manifestações da Vida, e a gente desenvolve uma retórica (acho que a gente já nasce com ela), na qual nós falamos e nós mesmos ouvimos e entramos em um processo de concordância extremamente prático. E, no fim, ótimas noites de sono. Mente leve.
A turma estava entediada. A professora não conseguiu acompanhar a transgressão daquele discurso. O calendário continuou o mesmo. Os céus não se destoaram dos céus mais velhos. Algumas pessoas morreram, mas ninguém deixou de atingir orgasmos por isso. A vida vai se banalizando... Por isso, tantas filosofias vãs.

7 de setembro de 2007

O destino dos Destinos Incertos


Através de uma fórmula desenvolvida por estudiosos da USP, calcula-se, antes dos embarques aéreos, a provável indenização que a empresa teria de pagar aos familiares das vítimas.
A atendente:
- Senhor, infelizmente, não podemos deixá-lo embarcar. O senhor representa uma ameaça ao patrimônio do empreendimento da Vôo Mecânico®.

6 de setembro de 2007

Cargo Vitalício: Rascunho

CLIQUE
As faces destas próximas verdades estão prontas para um espetáculo artístico. Bailarinas simetricamente maquiadas. Verdades tapeadas pelas parafernálias do civilizado. Eu o chamo para lhe dizer verdades, mas a linguagem não reverbera como o som não domesticado de antes. Acabo lhe contando o que meu senso fajuto de perfeição me assopra. Nenhuma Ciência possui técnica de extração de verdade, da verdade de idiossincrasias. Por isso, nossa relação acabou; por uma devoção às mentiras.

30 de agosto de 2007

À base de Caio Fernando Abreu

Já não se atreve ir a livrarias. Porque o diálogo com a balconista é presumidamente anti-poético. Senhora, esta obra por que procura só chega daqui a mais ou menos quinze dias, desde que a senhora faça-nos a encomenda e deixe-nos um sinal, em dinheiro, de, no mínimo, vinte por cento do valor integral do livro.
Uma vez que nunca houve problema em contemporizar, Nilza logo se entusiasmou em comprar mercadorias, inclusive livros, pelos comércios virtuais. No início, recorria a computadores de filhos de amigas, mas não tardou a adquirir a própria mente futurista e aprender como lidar com ela. Em menos de quatro meses, já tinha bastante intimidade com o advento.
O momento de vanguarda que lhe assolava a vida àquele instante fê-la repensar a Literatura com que se habituara: clássicos. De si a si: é preciso transgredir, Nilzinha. Sua solidão, sua solteirice estão cansadas da companhia do Português formal das obras consagradas, ilustres. Aproveite que a hora é de inovação e escolha um livro que condiga com esse momento. Será uma parceria, um traquejo e uma impressão novos. Invista! Não hesitou.
Sob a habilidade das caravelas pós-modernas, rapidamente estabeleceu o download da biografia de um tal Caio Fernando Abreu. Encharcada de uma experiência careca de Poesia, sentiu que o rapaz delatava o mal que punge a condição humana desde sua inauguração. Ah! A Poética vem com o mesmo discurso sempre, mas com dicções singulares. Como eu gosto de enxergar a diferença das dicções.
Chega-lhe o livro, à porta de casa. Os passos idosos, embora espertos. O carteiro sigilosamente impaciente, embora dócil, postiçamente dócil. Altruísmo artificial, mas altruísmo. Nilza dá-lhe uma gorjeta (atitude démodé). O altruísmo é promovido à naturalidade. As outras encomendas são trazidas por ele.
Há todo um ritual pré-leitura. Copo de água ladeando uma luminária excessivamente destra, telefone fora do gancho, reclusão, ajuste na cadeira giratória, para que a coluna não se manifeste em plena viagem intelectual. A senhorinha perscruta a capa do livro com a lupa inerente à mente dela: ao título, desenvolve um estudo que rende páginas de um caderno destinado às próprias transcendências; o desenho... sente-se útil ao vê-lo.
Muito o que pensar. Pouco antes de sucumbir ao sono: quem passa por essa peregrinação da vida deixa um acervo de impressão. É tanta impressão sem consistência, sem saber se é mentira ou verdade. Fico tão impressionada...

24 de agosto de 2007

FASHION DAYS

Entre os dias 30 de setembro e 5 de outubro acontece o Fashion Days em Juiz de Fora. O próprio batismo do evennto é um indicador de vanguarda - Fashion Days - Por que não Dias de Moda? Porque o Português não tem acompanhado a demanda de praticidade do Universo Pós - Moderno. Colonização inglesa já! O velho Portuga anda cansado.
Bastidores, maquiagens, roupas, apetrechos, passarelas, DJ, iluminação, moças magérrimas, sem nenhuma massa extraordinária, e rapazes latinamente estereotipados, com tórax nu e cru?! NÃO! Com tórax nu, sim, mas preparado e temperado por academias de ginástica. Gente bonita e apreciável à mostra.
Movimento estético. Os talhes das roupas inquietam os sentidos dos espectadores dos desfiles. Há quem aposte nos lançamentos: eles irão virar tendência; e os mais reacionários: isso só é usado nesses eventos de moda, nenhuma criatura sairia com esses trajes à rua.
As grifes da cidade tiram suas roupas do anonimato. A indústria cervejeira garante a adrenalina - ainda que postiça - dos convivas. Os flanelinhas vivem dias de Tio Patinhas e os táxis se reúnem e dão efeito de um bando de pássaros que desenham o céu.
A mídia local se abstém da agenda e do comprometimento tradicionais e foca as luzes nesse acontecimento de que, no mínimo, a sociedade juizforana inteira fica sabendo.

16 de agosto de 2007

Ser humano: uma mediação

Não dá para precisar se a vida contemporânea imita as gerações passadas com suas manifestações inerentes, ou se estas é que fazem mímica da essência da condição humana. Caso topássemos ir até o fim da discussão, chegaríamos a uma dúvida-denominador-comum: quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?
A vida surge com suas vanguardas aos corpinhos onde se hospeda. De repente, Luzia descobre a libido; Moisés apaixona-se; Swelen, aos dez anos, perde a mãe e fica órfã. E a vida vai mostrando suas arcadas, vai mostrando suas vanguardas. Como as salas de aula a novas safras de alunos. Como descobrir o alfabeto, a leitura e se inserir, e inserir os sentidos todos juntos na Cultura. Mas a vida é velha. O meu representante incipiente nessa Terra já vivia o que me é novidade.
Esse estopim a que temos contato é uma mediação a uma natureza heterogênea, rica e sem rosto. A vida e sua sombra... Esta sozinha não deve se reconhecer. Ignorância mútua e eterna?

5 de agosto de 2007

solidão aos cachos

Tantos objetozinhos humanos se delongam na devoção ao amor, ao amor que preenche, que acrescenta, que afasta das maldições inerentes ao universo elaborado pela humanidade, e que nunca cessa respeitar-lhe.
Caso se pensasse, com um pouco mais da serenidade típica do carinho, no valor do amor, muita gente optaria pela solidão a um. Ter de haver devoção a algo, é porque este demanda um empenho unilateral imensurável. Ser devoto das expectativas do amor é um cargo-casta.
O amor é transferir ao outro a própria solidão. É ser generoso com a solidão. Solidão a dois. Antes, as solidões diziam respeito aos problemas intrínsecos do indivíduo; quando este deseja estender sua intempérie a outrem, a solidão caminha com dois pares de pernas, a solidão abstém-se da origem da unicidade e parte de uma fonte dua: solidão a dois.
Acontece também a solidão aos cachos.
Imaculada está quieta, frustrada com a vida, depressiva à beça... Decidi reunir um grupo de afins para fazer uma reunião com música, iguarias e bebidas. O ouvido dela abocanha instantaneamente uma solidão em cacho. O que ela leva ao cômodo da memória que não finda as sínteses de sentimentos e sensações são as solidões das bananas. Tudo é solidão... Ainda que bons sentimentos emanem dos tempos de casais, é a partir da solidão que se reconhece o bem-estar.
Há quem prefira solidão aos cachos,,, Quem se sobrecarregue com o quase-intransponível de cada pessoa.

3 de agosto de 2007

Pen Drive

Já não se tem espaço.
O homem é acostumado a agir sob pressão;
Numa precaução, inventa cérebros biônicos com dimensão de formiguinha.

Um objeto inanimado quebra o galho...
Lustra minha memória,
Em vez de gastá-la.

A tecnologia é um capricho dos homens.

2 de agosto de 2007

Anna Sharp é sensacional

É da rejeição que o bebê vem à luz.
E eu ouso emendar...
É do anonimato de nossas idéias que acontece a gênese do Mundo.

27 de julho de 2007

Solução provisória para a fome

A obesidade mata mais que a fome.
Eu faria uma errata: a obesidade mata a fome, garante energia às 89567958 futuras safras de gentes na África. Quanta fartura! Não posso ver uma Dona Gorda.

25 de julho de 2007

Lhes

Num dos cômodos, todos dormiam. Dormiram mil dias... Levantaram-se num súbito, sob as vanguardas das tecnologias. Estas lhes entraram através de uma seringa, e lhes penetraram os sonhos e as expectativas.

20 de julho de 2007

Feira à mostra

Mais uma vez, o enredo permeia a carência que faz sombra no anonimato.
Uma mulher, faixa etária que transcende os vinte e poucos, um metro e setenta e cinco às custas de um salto de uns dez centímetros, cabelos negros e longos, castigados por uma química dessas ultra-práticas e pós-modernas, seios quase transbordantes, calça jeans bem justa, pouca maquiagem, muita exibição.
Quando meu tino vivia enfurnado nos parâmetros genéricos, eu sequer dava cartas próprias a esse tipo de aparição: assistia a uma mulher trajada com panos de dimensões irrelevantes e, num gesto de concordância às culturazinhas, julgava-a volúvel às predileções machistas e, conseqüentemente, um ser respeitável pelos cordões que têm como pingente os falos. Estes se acendem quando se topam com feiras à mostra.
Fiquei por uns quarenta minutos no mesmo antro da mulher-impulso desta história. Observei-a com devoção a meus instintos, a minhas culturas mecânico-naturais. No cômodo das minhas precipitações, surgiu-me: que magnetismo envolve uma psique a ponto de ela extrapolar sua carência através de um corpo praticamente despido? Carne de açougue não-taxada. Vaidade ordinária. Esse discurso veio-me junto à gramática da piedade... E esta só me vem perante catástrofes alheias. A piedade é minha maior pequenez.
Não me veio uma didática que satisfizesse minhas expectativa sobre o porquê de tantos comportamentos banalizados, embora encharcados de idiossincrasias.

O prazo da unicidade

Abundância da unidade humana.
Daqui a uns tempos, devoto do pacote-praticidade, o Cosmo irá sintetizar o homem aos cachos. Vantagem aos passionais, que recorrem a amigos postiçamente piegas para ir à padaria.
Muita gente; muita gente mesmo. Filas que esperam por profissionais de saúde, por extravasadas na porta das discotecas, filas de banco, de ônibus, etc. Coincidência: todos à mercê do anonimato. Alguns, resignados por nascença, não se incomodam com a condição; outros, todavia, querem a notoriedade, esta “-cida” de todas as carências. Crença.
Há uma cantorinha cheia de atitudes postiças que entrou pro cenário do roque nacional há pouco. Fico atônita, com os sentidos desalinhados, nas vezes em que ela se pronuncia nas mídias e faz questão de enobrecer as maiores banalidades; será que ela quer criar um selo de ouro a todas as obviedades mais maltrapilhas que existem? Será que ela quer outorgar importância ao desimportante? Será que ela foi acometida pela síndrome da onipotência?
Todos queremos tomar frente de vanguardas, todos queremos poder patentear qualquer mísera coisa. Talvez isso seja o estopim de um sentimento inaugurado pela vigília mecanizada pelos meios de comunicação. Num diálogo entre duas pessoas, elas trocam as impressões através de uma oratória impecável, como se estivessem sendo perscrutadas por uma quantidade imensurável de pessoas, ainda individuais.

18 de julho de 2007

Acidente de avião

17 de julho de 2007: Acidente com avião da TAM nas imediações do aeroporto de Congonhas.

Aos que restam, à mercê do Cosmo, não há invenções humanas ou imposições do Fado a que recorrer. Um sentimento genérico ressurge o nazi – fascismo: calemo-nos e fiquemos involuntariamente à espreita da perplexidade – flor danosa, fatalmente inevitável.
São cento e setenta e seis assentos. Desespero unânime, como dá conta de tanta gente? Pânico didático, bem explicadinho, ao encontro da provável última manifestação da fatalidade.
Contemporizar à dinâmica do fim aciona o instinto de sobrevivência, e este em dimensões deturpadas, com filosofias trágico – instantâneas niilistas. Não é hora de poetar; não é hora de filtrar o sentimento conforme os funis da razão, mas como a mídia está dormindo, como a proximidade com as minhas intempéries íntimas é bem mais nítida, tem-se o talento, ou a frieza de metaforizar o contexto.
Ainda há vias para se fazer uma conclusão opinativa:
As tragédias entoam uma mensagem audível a todas as repartições dos nossos preconceitos, das nossas pequenezes, da unicidade do nosso sadismo. A tragédia ameniza nosso estresse com o tosco, faz a gente amar os insípidos com mais altruísmo... A tragédia é uma escola que divulga valores divinos; a tragédia é a igreja na prática.

16 de julho de 2007

Bênção Metafísica
Há muito, neste tempo extenso, mas numa encarnação diminuta, já cogitava minha afinidade pelo inanimado, já que este contemporiza àquilo que a gente lhe atribui. Amor mútuo, fidelidade, monogamia.
Cismo ser algumas mímicas das culturas que são enobrecidas como atributos divinos: você deve relacionar-se, beijar, encher-se de sensações voluptuosas, etc. Sofrer uma melancolia dúbia? Para quê? Prefiro a melancolia solitária da nascença.
A moda vitalícia que me fica à espreita é a nostalgia; e pouco me adianta uma doutrina, cuja pretensão-mor é a do resgate e a do conforto. Fulgura a depressão.
As mãos clandestinas do Cosmo, por mais que me ponham diante de espetaculares e desenvoltas manifestações do civilizado, ou então perante a ratificação das divindades, desembocam no raquitismo das minhas possibilidades enquanto gente.
A vida é uma penitência que, por vezes, surge altruísta com uma nesga de claridade. Minutos de bênção...
NAMORAR
Para muitos, para os falantes mancos da Língua Portuguesa, namorar demanda preposição. Erro de gramática, acerto sentimental. Tudo bem! O que importa é o coração.
A alguns, no entanto, por mais que a intimidade com o Português já lhes rendeu inúmeros orgasmos, o namoro exige complemento. Fulaninho namora CONTRA sicraninho. Porque é tanta rixa, é tudo tão chulo. Fico horrorizada com o comportamento dos humanos unidos. É inumano.
E banal, vazio como este texto.

12 de julho de 2007

Pequeno ensaio desembasado sobre o Amor
O amor é transgressor; não há leis que o regem e, portanto, as psiques do diálogo amoroso ficam dando destinos – labirintos ao sentimento discursado por Camões e cantado por artistas que se prezam. Novelo entre tino e inconsciência, desatino consciente.
Ama, quem é hospedeiro de uma depressão perene, embora, num privilégio casual, contemporiza a momentozinhos banais, arriscados de felicidades. Ama, quem rompe os pudores e os semáforos comportamentais, e permite-se desvirginar; ama, quem vive de extremos, mas no momento do amor pende a somente um lado.
O amor é a covardia de querer abdicar-se de tudo; é o zelo de ser exímio por vaidade; é uma identidade que se preocupa duplamente. O amor abrange a caverna intrínseca de cada um e lhe mostra um acervo vastíssimo de naturezas inerentes à condição humana. O amor é a penitência mais sofrida da humanidade.

6 de julho de 2007

Insipidez

Sobressai esta desintimidade entre o mundo de artifícios que fazem sombra na Natureza e esta própria. Desentendimento crônico. Insatisfação. Falo sem utilidade. Corpo presente.

Seção de Opinião

A comilança de neo-culturas é coisa de personagens de quadrinhos. Certos conservadorismos merecem poltrona de destaque, merecem o físico dos vinte e poucos, mesmo sendo matusalém

Frade

Nosso mar nos trai;
A Natureza é traiçoeira,
Abusa da ignorância dos seus hospedeiros.
Caí em tontura do meu próprio líquido.
Me atormentei,
A ponto de esquecer o tino da minha profissão.

Diriam os kardecistas,
Obsessão.

Comecei me abstraindo da lógica,
Contei degrau por degrau,
E tropecei...
Interpretei o espectro da dramaturgia das telenovelas,
Daí, não lhe prestei atenção,
Me escapou o enredo,
Me escapou a pretensão barata de se satisfazer
Com os frascos de indústria cultural.

Tentei imunizar os sentidos do óbvio,
Da camada cutânea de tudo;
Fui pela sombra,
Em nome da sombra,
Ao encontro da sombra.

Uma gramática alternativa se lançou a mim,
Alguma habilidade psicológica tentou apagar meus arquivos,
Mas me restaram destroços dos velhos tiques.

Tentei me acostumar ao novo,
Como vejo alguns transeuntes bem entrosados
Com as novas tecnologias,
Com as boas novas da medicina estética,
Falando sozinhos,
Submissos aos adventos.
Falando sozinhos,
À mercê do próprio eco.

O ovo não deveria ter se rompido,
Eu preferia os automatismos conformados,
A tanto acervo de novidade.
Acho que sou covarde,
Vou virar frade.

5 de julho de 2007

Escola

Quando pequena, Melissa abstraía com demasia na sala de aula. Os professores olhavam a ela com uma certa preocupação de ela ter dificuldade em concentrar-se; inequívoco: a garota não pousava a atenção sobre o que estava sendo dito. Por instinto, apresentava uma ojeriza a didáticas e a maneiras simplistas de se explicar as coisas; desde as convencionadas às mais transcendentes. E involuntariamente se distraía em outros mundos mudos, embora com oratórias muito mais atraentes.
Em vez de memorizar a representação das coisas e o seu respectivo significado, fazia viagens psicodélicas para culminar no senso comum. Pensava que tudo que havia chegado à obviedade demandou muito estudo, muita filosofia. E, assim, pouco lhe importava a matemática explícita das ciências.
Uma vez, numa aula de redação, a professora pediu aos alunos que fizessem um desenho bem original e o explicassem. Melissa transgrediu o pedido, e esboçou os símbolos que aludem ao feminino e ao masculino. Abaixo da ilustração, escreveu: meu desenho, professora, pode não ser original, mas minha idéia é. E continuou: enquanto todo mundo se satisfaz ao saber que o símbolo tal representa as mulheres e o outro, os homens, eu estabeleci uma relação entre os símbolos e o mundo palpável e quis lhe contar: as meninas devem permanecer virgens para serem respeitadas, endeusadas, canonizadas; por isso, na região da genitália, o bonequinho recebeu um traço que, numa referência a outro símbolo, dá-nos a idéia de proibido. Os homens, no entanto, devem cultivar o falo sempre ereto, rígido, em devoção à masculinidade que lhes cabe. Portanto, dá-lhe ao bonequinho uma seta ascendente.
A inteligência vem do perscrutar individual que algumas raras pessoas têm; elas analisam o espectro das coisas nítidas e inquestionáveis aos comuns.

3 de julho de 2007

Uma pretensa juristinha

Marta Suplicy virou notícia. Esta nasce quando as coisas parecem culminar no óbvio, mas, por um deslize, transgridem um principiozinho qualquer da obviedade e caem na fatalidade das mídias.
Maria Cecília acabou de se tornar bacharel; foi aluna dedicada, esteve sempre muito aquém das faltas permitidas, fez sua monografia baseada no Português machadiano e é discente mais ovacionada pelos professores. Ah, estagiou na defensoria pública e num escritório do cunhado da sobrinha de um juiz famoso na cidade.
Estava em um momento extra-ortodoxo: batia um papo virtual com uma paquera e simultaneamente acessava sites de informação. Em um destes havia a seguinte interação com o nauta: o que você achou da declaração da Ministra sobre o caos nos aeroportos? Mande sua opinião. Sempre muito erudita, não por herança familiar; os pais eram ricos, embora não intelectuais. Erudita por opção, como existem os maltrapilhos por opção. Maria Cecília sabia do histórico de Marta, da época em que ela explorava seu status de sexóloga. E sentiu, sob a declaração “relaxa e goza”, que a ministra do Turismo quis apenas se popularizar no comportamento tão induzido hoje em dia: SEJA PAN!
Os professores de cursinho pregam o PAN: goste de química analítica e ame a gramática francesa; estude muito aos finais de semana e faça sexo com seu namorado; as lanchonetes comercializam o PAN: xis tudo, coma dois e pague um, refil de refrigerante; os pais brigam pelo PAN: corte esse cabelo, produza-se, saia menos, eu não gosto daquele Raoni; não demonstre que você não sabe o que seja jurisdição: seja PAN.
Numa tentativa de vir ao raso, ao povão, Martinha virou Madalena.
A promoção já aconteceu, e os achismos de Mª. Cecília estão mortos, sem cruz, numa gaveta hermeticamente fechada.

Japonês


Japonês sobressai.
Que gen é esse que tá sempre na cara?!
Japonês cruzou com macaco;
Saiu de olho puxado.