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26 de maio de 2008

A proteção do Brasil está nas placas de perigo


por Carolina Fellet


PERIGO! ALTA TENSÃO.
É sob essa máxima que vive a classe média e o grande escalão da sociedade brasileira.
Enquanto a metafísica aprimora o DNA de quem vive à margem da dignidade.
...
Para alguns, parece necessidade primária a marginalidade. Provavelmente – já que a Natureza é sábia – por conta própria, ela submete o DNA desses alguns a mutações, e o filho de um marginal médio já nasce com PhD.
...
Cerca elétrica para eletrocutar
O primeiro gaiato que tentar pular o muro.
Mesmo que seja para catar verduras da horta,
E, principalmente,
Se for para arrombar a porta e acordar as crianças.
-
Já montei um altar dentro de casa;
Nele, sobressaem esperanças materializadas em Agostinhos,
Terezas e Maria de Nazaré.
De dia, o chofer é chofer.
E de noite ele foi promovido a segurança.
Foi uma forma de estampar as esperanças aos transeuntes.

-
Além do João Cabral – o vira-lata que me serve de alarme orgânico,
Estalinhos nos itinerários que levam às entradas da casa.
Provavelmente o ladrão vai se assustar.
-
E se for para furtar umas coisinhas irrisórias,
A índole o fará se borrar de medo de alguém da casa acordar.
E o camarada sairá correndo.

-
Mas, num antídoto ao desejo das pernas,
Um camburão o parará,
E o levará....
Só Deus sabe para onde.

21 de maio de 2008

O Sedentarismo do século vai para...


Por Carolina Fellet
Este é o século do sedentarismo.
Ciganas previram. Vovô – já moribundo – falava. Tornou-se óbvio, haja vista a sina do colesterol – não combatido por polichinelos - que agora persegue as criancinhas que comem hamburgers no recreio do colégio.
Desde o pós-doutor em endocrinologia pela Harvard ao palestrante do centro espírita que fala “pobrema” e muito menas”, todos, enfim, incitam-nos a pensar em exercitar, comer civilizadamente etc.
Saia da frente desse computador!
Faça uma aula experimental de ioga. É grátis.
Caminhe vinte minutos por dia.
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TV na segunda década do século XX + Internet no fim nos anos 80 popularizada = Sedentarismo ocular.
Os olhos se acostumam às cores e às formas veiculadas pelos meios de comunicação mais modernos, o que culmina na desmobilização de músculos oculares e conseqüentemente a prática de ler impressos – que demanda mobilidade desses músculos – fica comprometida e por vezes inviável.
Comece lendo três frases de um periódico.
Daqui a um ano, indubitavelmente, poder-se-á ler O Pequeno Príncipe inteiro.

20 de maio de 2008

Igualdade dos sexos?????????????????????????????????????


Por Carolina Fellet

Não dá para acreditar em igualdade dos sexos porque a própria anatomia deles já denota a tamanha diferença que lhes existe. Um, demasiadamente convexo; o outro, côncavo.
Depois de morta a pretensão de igualar os sexos, há de se matar também a noção da liberação sexual das mulheres. Ou é libertária a necessidade da ingestão de hormônios e suas
repercussões – como enjôos, cefaléias, inchaços, mau-humor, dormências – antes do sexo? Além da paranóia pudica que as mulheres ainda empregam às próprias vulvas, o que só serve para corroborar a não-liberação sexual das fêmeas.
O tabu feminino perante o sexo não sucumbe. Por exemplo, uma noivinha que acabou de se casar não vai mentir dizendo "Sou virgem" (a última virgem de que se tem conhecimento morreu em 1967 sob a violência da ditadura), mas dirá que copulou somente com esse último namorado, que veio a ser seu marido. Uma mosca me contou que essa noivinha fornicava desbragadamente quando jovenzinha.
E as menininhas que aos 10 já estão a par do falo e dos seus tremores? Elas escondem-se até a morte para não assumir suas empreitadas. Depois, caso engravidem, incumbem o ar de ter aconchegado semens com as temperaturas que lhes são ideais. E a mentira vai se alastrando... E junto a ela o PUDOR.
As gerações puseram o pudor em um canteiro localizado em uma área privilegiada para o bom desenvolvimento da espécie. E nunca falta alguém para regá-lo.

16 de maio de 2008

O futuro da Política são os jovens de hoje


Por Carolina Fellet
Se levássemos a máxima que intitula esta matéria a sério, poderíamos afirmar que o futuro já começou, haja vista o lugar ocupado por jovens na Política, representado por nomes como Manoela d´Ávila, 25, deputada federal pelo PC do B, Bruno Siqueira, 33 e Rodrigo Mattos, 29, ambos vereadores de Juiz de Fora pelos partidos PMDB e PSDB, respectivamente.
A psicóloga Fernanda Vieitas – que há 6 anos trabalha com um público cuja faixa etária varia, principalmente, de 12 a 25 anos – acredita que o jovem do fim do século XX e o do século XXI é, e/ou tende a ser, mais politizado devido, primeiramente, à forma veloz e objetiva com que o conhecimento lhe chega, através de tecnologias que transmitem informação, como a Internet, além da necessidade de se manter a par dos fatos para conseguir espaço no mercado de trabalho – o que tem sido mostrado à juventude de uma forma mais empírica, já que o próprio contexto a que ela pertence é repleto de concorrência quanto à capacitação intelectual.
O vereador Rodrigo Mattos, que disputa a reeleição no próximo 5 de outubro, é o membro mais jovem do Legislativo na cidade. Há quem diga que as inclinações políticas do rapaz têm origem no DNA, uma vez que seu pai – atualmente deputado federal pelo PSDB, Custódio Mattos – possui um histórico político antigo, versátil e vasto. No entanto, o interesse de Rodrigo pela área o acompanha desde a infância, o que o faz acreditar que se trata de uma predisposição - e não influência do pai - para atuar no setor.
Em seu primeiro e atual mandato, o vereador já elaborou várias leis, dentre as quais a Lei do Sinal Sonoro para Deficientes Visuais, cujo objetivo é garantir a essas pessoas mais dignidade como cidadãos.
Grande parte da inspiração para a criação de seus projetos vem da observação atenta das carências da sociedade, além da lida com políticos mais experientes, que garante a Mattos aprendizagem prática e
maturidade para o cumprimento do próprio trabalho.
O estudante da sétima série do Ensino Fundamental, Gabriel Casagrande, 13, recebe incentivos da escola para se entrosar com assuntos que se referem à Política: “a gente faz trabalhos que exigem um conhecimento de Política e as próprias provas sem têm perguntas sobre os passos do Governo”.
A universitária Elena Bastos, 23, embora não goste muito do tema, tenta manter-se informada dos governos do país e do mundo, para não fazer feio perante as pessoas com as quais convive e para não ficar alienada: “já que tenho oportunidade de me informar, não fazê-lo seria negar o meu progresso. Então, por mais que eu ache Política chato, eu me mantenho atenta a ela”.
Interar-se das movimentações da democracia faz os jovens exercerem melhor a cidadania e se prepararem melhor para a profissão que escolherem – já que todas elas envolvem as práticas que são comuns na Política, como: lidar com hierarquia, praticar a ética, levar em conta a repercussão dos próprios atos e, se necessário, ponderá-los.

Uma alternativa aos jovens que cobiçam a carreira política
O Curso de Formação Política, que nasceu da parceria entre alunos do doutorado de Ciência Política da universidade de São Paulo (USP), o Instituto do Legislativo Paulista (ILP) e outras organizações privadas e públicas, apresenta a proposta de capacitar a sociedade para que ela possa fazer opções sobre os rumos da Nação em que está inserida.
O conteúdo das aulas é dividido em temas, as abordagens são didáticas e inteligíveis e o curso pode ser ministrado em escolas, empresas, organizações sociais e órgãos públicos.
Aos jovens que estão caminhando ao encontro da Política, essa alternativa pode lhes apresentar um saldo positivo.

Chique


Por CARolina FELlet


O DNA do chique possui o GRAU DE CIVILIDADE em doses extraordinárias.

6 de maio de 2008

O futuro das árvores genealógicas


Por Carolina Fellet


O amor remetido a seu querido filho,
Irmão,
Parente bem quisto,
De repente,
Desemboca num amor por um coração bandido
De uma desnamorada que transformará o carinho – antes enobrecido –
Em frutinhas que já nascem mortas.

3 de maio de 2008

O caso Isabella Nardoni


Por Carolina Fellet


Por mais que os contemporâneos do caso tenham ficado entorpecidos com tamanha crueldade, o futuro enxergará o crime com muito mais feiúra. As mentes imaginativas dar-lhe-ão detalhezinhos hediondos que serão ruminados demoradamente.

25 de abril de 2008

Pílula

Por Carolina Fellet
A produção em série de drágeas atingiu a antes invencível fertilidade das fêmeas. A corrente de vidas latentes transitava livremente pelas entranhas das mulheres, até que um círculo de origem biônica interveio nessa liberdade e tornou-se um ser maquiavelicamente temido.
As promessas de vida vulgar conformaram-se com a atual condição – diferentemente de outrora, em que uma avidez por SER sob carne e osso imperava. Agora a população do claustro feminino por lá fica. Enquanto os prazeres sexuais entram e saem, entram e saem, entram e saem num movimento frenético.

12 de abril de 2008

Arte de falar

Por Carolina Fellet
Poliu o repertório de instrumentos para pronunciar-se àquele rapaz que – há muito – a paquerava.
...
Processar o som em palavras, e ainda dar entonação coerente ao que se quer dizer, demanda maestria.

23 de março de 2008

Preços


Por Carolina Fellet
Nicete, embora graduada pela USP, mestre pela Unicamp e doutora por outra universidade pública de renome, de cujo nome o autor não se recorda agora, é analfabeta funcional em relação àqueles assuntos que não lhe interessam.
Os preços são o estopim de seu desentendimento: inflação, por quê? Preços sobem porque o salário mínimo sobe e, a fim de se conseguir manter um empregado e tudo que precede um produto, é preciso elevar os números que sucedem os cifrões? Ou são os tributos que aumentam à medida que os salários aumentam e, portanto, para arcar com as despesas em nome do Estado-Tio-Patinhas, é preciso aumentar os zeros à direita dos preços?
Preços. Desvalorização de moeda. Hierarquia de números.
A matemática é extremamente hermética.

18 de março de 2008

Rodovia brasileira


Por Carolina Fellet
O casório foi marcado com um ano de antecedência e a informação, pulverizada rápida e eficazmente para que a família – radicada aqui e acolá – se animasse a ir. Pretensão materializada: a família se movimentou e compareceu ao casamento. Cidade linda. Noiva linda. Mega-produção. Músicas muito bem selecionadas. Gente bonita e muito bem vestida. O namorado que nunca a acompanhara em eventos fora da cidade resolveu dar o ar da graça.
Como a bela vida acaba em morte,
Conforme o canto lírico se silencia,
Já que o amor cessa,
A única objeção à data haveria de existir:
A estrada brasileira, acneica, empapuçada de crateras.
A única forma de transitar sobre ela é abusando de habilidades de rã.
Rãmóvel.

11 de março de 2008

Tratamento de desintoxicação


Preciso me desintoxicar.
Afastar-me desse antro de fofocas,
Para meu fígado não supurar.

Um tiro para o alto?
Um varal com telencéfalos mesquinhos estendidos?
Sua pobreza material é apenas um reflexo de sua maldade imbecil.
Preciso me desintoxicar.


Essa sua voz é ferramenta que pulveriza assuntozinhos desprezíveis.
Por que sua indústria cerebral não processa melhor o que deve ser dito?
Maldita!
A fofoca é o câncer sem aparência.Decadente!

Preciso me desintoxicar.


por Carolina Fellet



As Regras


Por mais que haja correntes feministas,
Ascensão das mulheres na sociedade,
Liberação sexual e o orgasmo das vaginas,
A sangria transgride o Tempo e resiste –
Ortodoxa e irredutível.

A guerra das regras rejeita os deuses do prazer.
Porque teme a fatalidade de uma gravidez.
Se as regras não vêm,
Imediatamente:
Piscina de insensatez.

Que visão será essa,
Que nos surge munida de líquido,
De vermelho, de odor?
E ainda de dor.
Da dor de tantas meninas menarcas
E de tantas senhoras menopausas.

A menstruação é o prenúncio da proliferação humana,
De um promissor genocídio ao contrário:
Em vez de moribundos e mutilados,
População aos cachos,
Aos trapos,
À mercê.


Mortos vivos que não sabem o que lhes espera.
E cujas escolhas nunca se deslocam das próprias quimeras
.

4 de março de 2008

FIDEL CASTRO


Uma reflexão histórico-desembasada

Premeditado. Na mais mórbida literalidade.
Folha de script:
Cena 1: bom moço.

Discurso: voto direto.
Quem o manteria, durante esse tempo enésimo, no poder?
Existem tantas justificativas para combater essa coisa perene;
A mais primitiva seria que a Natureza dos sentidos se desgasta.
Portanto,
Cara nova, atos novos, progresso, mudança.

Cena 2: inveja.
O sentimento daquilo que não transcende a condição de bactéria.
A inveja come inveja, digere inveja, dorme inveja.

Lua-de-mel nos USA.
Por que a ojeriza tamanha?
É preferível o imperialismo que reluz cores, farturas
A um imperialismo mesquinho,
Com ração racionada.

Discursos à Sherazade.
Pretenso ópio do povo.

Agora aparece a sala suja,
De um carnaval póstumo e com fantasias sumárias.
Quantos mortos?
Quantas bocas secas?
Contabilizando os feitos de um Hitler um pouco dissimulado:
Genocídio, sadismo, esquizofrenia.

E os professores de história vão pra ilha.
Meros turistas.
Dão veredictos a partir de uma observação alienadamente empírica.
Cuba é maravilha. Todo mundo toma sorvete.

3 de março de 2008

Forminha de Gelo


por Carolina Fellet
Vamos cortejar a dúvida.
É da dúvida que me mantenho, que me fertilizo, que sobrevivo. O ceticismo gera boas químicas à Vida. Não o Ceticismo dos indiferentes, dos burramente indiferentes, mas o dos que vivem em função da busca, da salvação – ainda que fugaz – das intempéries do Cerne.
Senti-me muito respaldada com a última palestra a que assisti no centro espírita que freqüento. A palestrante, com oratória e lucidez formidáveis, falou em sinopses, peptídeos, comunicação do mundo externo com o interno e, enfim, que a Terra perde sua energia com pessoas que se inclinam ao mal, que conjugam os sentimentos de baixo escalão.
Por que o respaldo?
Sempre tendi ao Cosmo inteiro se comprometendo com a atividade metabólica de decompor um pneu num rio australiano. O meu mal pode advir desse trabalho árduo do mundo metafísico.
As atitudes vão se encadeando.
A água escorre e contemporiza às medidas estabelecidas.
Conforme a metáfora bruta da forma de gelo.

25 de fevereiro de 2008

Civilização das formigas


Lancharam.
Oficialmente, era a última refeição do dia: mesa posta, chaleira borbulhando, pão esfumaçando, pão-de-ló inteiro, guardanapo. Talheres contados.
No entanto, conforme o grau de civilidade, há sempre a gordinha que se excede, espera a casa se aquietar e, a passos de gato, penetra a geladeira. Empanturra-se. Convoca a equipe do Grande Metabolismo para lhe atuar. E o Mundo sempre se farta da esperança de que a qualquer momento irá descansar.
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Sobre a pia, um amontoado de vasilhas – ressaca da última refeição.
Pares de pires, pratos, talheres, pocinhas de água espalhadas pelo granito. Uma xícara com destroços de café com açúcar. De repente, uma fileira de formigas recém-civilizadas que encontram, subitamente, um hábitat. Elas são de tom acaju. E exploram a superfície encontrada. Deleitam-se. Todavia, temem os adventos da Evolução. Elas estão atônitas perante um movimento humano que lhes está próximo. A mulher gorda – com a docilidade que rebaixa e até perdoa a feiúra – apaga as luzes da cozinha e deixa as formigas viverem o êxtase da descoberta.

22 de fevereiro de 2008


O Cosmo ficou imensamente pequeno.
A ponto de me chegar às mãos sob a forma de um palm top.
Navego. Sem as náuseas das grandes embarcações.
Conheço o Mundo.
O Velho.
O Novo.
Em nesgas de segundos.
Volto sem suar.
Deito.
Durmo.

Esqueço tudo.
O Mundo banalizou.
Prostituição abundante, democrática.
E todo mundo hibernado em consultórios que tratam a cabeça.
A misantropia,

A solidão.

19 de fevereiro de 2008

Automóvel


O que mais a enerva são os morros. E o relevo da cidade é justamente montanhoso. Dirigir é estado de espírito. Não é a defensiva, não são as aulas de sinais, não é o contato inexpressivo com um psicólogo medíocre que examina a psicologia alheia através de desenhozinhos imbecis.
A grande metáfora-contemporânea à Vida é o automóvel. Neste, é preciso ser mutante conforme a delinqüência alheia, conforme as palavras de baixo calão, conforme um ônibus fazendo-lhe um ângulo reto.
Dirige, portanto vive conscientemente, com as pernas e a psique em cada momento de cada vez.

16 de fevereiro de 2008

Memória Seletiva


O professor pediu aos alunos que lessem, decodificassem e lhe entregassem – sob forma de resenha – o conteúdo de um livro sobre fotografias de um pesquisador de Harvard.
Danuza tem uma inteligência emocional e egocêntrica. Portanto, qualquer abordagem que permeie a sociedade dos sentimentos, dos conflitos psicológicos e psicodélicos lhe desperta interesse. Outras inclinações jornalísticas, literárias, no entanto, não lhe são muito bem vindas.
São quarenta e seis páginas, em que uma linguagem formal, aliada a um tema típico de quem se interessa pelas grandes causas do Universo, se organiza como incipientes civilizações rígidas e tensas diante de um novo conceito de se viver. Repelente textual. Não há o que consumir.
Os pares de olhos, quando chegam a qualquer lugar, investigam – aproveitando as habilidades laterais e longitudinais do globo ocular – as belezas, as misérias, as volúpias, as censuras, os pudores e experimentam aquilo de que gostaram. Rejeitam o repugnante.
O cérebro – furtivamente – evacua toda a sabedoria didática, sem interesses intrínsecos. Joga-a ao Nada. Coitada da boca aberta de quem estiver à mercê. Sabedorias descartáveis estão às soltas.

14 de fevereiro de 2008

Lanche





São treze cômodos generosos a casa.
Nice ficou órfã de pai e de mãe aos vinte anos, e lhes herdara a fazenda onde ainda mora com quatro empregados. Desenvolveu, quase que por insistência do Destino, uma afeição às flores, à aprendizagem de idiomas, ao exercício do Budismo e à gastronomia. Se não fosse isso, a vida estaria à mercê das sabotagens do tempo, que são o próprio tempo. O que é o Tempo, senão, o crime perfeito das rugas, das podridões, da volúpia, da impotência?
Nice deu à luz uma habilidade típica dos poetas ou de quem exercita alguma arte: ela pensa a sombra de tudo que possui uma existência evidente. Há umas semanas, ela arriscou preparar uma iguaria que aprendera em um livro requintado de receitas, pôs-se à bancada da cozinha – sozinha – e comia.
Enquanto, no diálogo, o pensamento do interlocutor e o do emissor desenvolvem um acordo mútuo, a solidão se perde no caos das próprias vozes.
O pacote de biscoito está aberto. Dentro de pouco tempo, as bolachas estarão totalmente murchas. Daí,surgirão os físicos para explicar por que acontece isso. Batizarão os fenômenos metafísicos de substância X, que é formada a partir de substância Y e ficarão sisudos por burocratizar o inexorável.
Os fantasmas se estendem ao saco de biscoito, às dúvidas de Nice e à incapacidade de dizer de quem ousa escrever qualquer bobagem, desenhar qualquer bobagem.

12 de fevereiro de 2008

Se ele entende a maldade como maldade


Pedro Paulo estava defecando no banheiro.
Seus dois irmãos – Verônica e Leonardo – conversam na sala de televisão.
Sua mãe, ainda que não se lhe saiba o destino neste exato momento, compreende. O kit de sobrevivência de dona Maria Carmem, em vez de Oxigênio, valores recomendáveis de pressão e de temperatura, é o compreender intransitivo. Ela compreende. Ainda que seja bandido, banido, desvalido, esteta. Não importa sua causa. Ela compreende.
Quanto conforto, não?
Pedro Paulo foi traído por sua mulher. Faz dois anos que eles se casaram e ele a ama muito. O perdão para ele é natural. Não demanda, sequer, muitos esforços. A maior dificuldade é resistir às verdades dos seus congêneres.
Hierarquia é papo furado.
Pedir conselho para a mesma espécie, principalmente se ela é contemporânea ao que hesita, não tem muita significância. Estamos todos sob as mesmas experiências, sob a mesma receita divina, afinal.
Pedro Paulo aproveita dos momentos de claustro para dar chance, meio involuntariamente, às catarses. A um homem contemporizado à velocidade do século XXI, quinze minutos de banho, dez minutos de evacuação impelem à reflexão.
Decidiu. Irá perdoar Ana Flávia, a esposa.
Agora produz, em sua alquimia intrínseca, os antídotos à censura – velada ou evidente – que emana das pessoas que se entrosam com o extrínseco, que se identificam com automóveis, com o talhe de Armani. E fazem fofoca demasiadamente.
Pedro Paulo não está muito aquém do atraso dos que envenenam as circunstâncias. As pessoas. Porque sua linfa muda de química perante a maldade do outro. A freqüência coincide. Se ele interpreta a maldade como maldade, é porque a bondade anda esquálida.

11 de fevereiro de 2008

Ramiro Milhões



Ramiro talvez seja o indivíduo mais rico da Zona da Mata mineira. Nos registros econômicos da família, consta que seu avô – Marco Paulo – fabricava, através de uma receitinha caseira – notas de altos valores da moeda da época.
Com o dinheiro – transformista fez impérios, de cujos gozos desfrutam toda a descendência viva. Ramiro, o herdeiro mais jovem de Marco Paulo, aquele radicado em Minas há quinze anos, é um cara cosmopolita. Ser cosmopolita em cidadezinha provinciana repercute em reação. Como tudo. Conforme a existência precede a essência. Os carros lustrados, pintados à modernidade são mordomos do poder. O poder se enfurna em áreas inadequadas. Quando se o percebe, ele alfabetiza a variedade do âmago da espécie humana. A conduta dos sentimentos baseia-se – precipitadamente – no carro, na cútis, no músculo, na fragrância importada, no endereço, no círculo social. E, de repente, engasga-se no próprio equívoco. E sucumbe à primeira oportunidade de se entorpecer e de se alienar.

9 de fevereiro de 2008

Sujeito Oculto


Mayara namorou Marcos por quase três anos. Agora – sábado, dez e meia da noite – ela está sem banho, com os cabelos oleosos, sobre o colchão da cama do quarto de princesa que lhe foi feito sob medida e gosto. Ela chora muito. Desde pequena. Vai à escola e chora. Almoça e se atenta ao noticiário e chora. Perscruta a vida dos próximos e dos distantes e chora.
Curiosa que é, quis, cedo, descobrir por que aquela sensibilidade toda a escolhera. Teorias espíritas. Horóscopos. Destino. Acaso. Pensou possibilidades. Desbotou-se. Provavelmente, o ter sido materializada àquela época justifica a cruz de uma sensibilidade enorme e perene.
Aos dezessete anos – numa era Pós – Moderna, em que, quanto antes se antecipar nos conhecimentos empíricos melhor – ela experimentou o beijo. Apresentou-lhe inúmeras objeções, mas como os costumes se travestem, por vezes, de natureza, ela insistiu beijar. Beijou poucos. Mas a mil por hora. Alguns foram descartáveis como a duração de um copo plástico em festinha de criança que começa às 18h30 e termina às 21h30. Outros a acompanharam por algumas semanas, por algumas sessões informais de conhecimento mútuo da psicologia prática.
Marcos a decepcionou. Divertiu-a. Excitou-a. Trouxe-lhe presentinhos impregnados de metáforas e declarações. Transformou cada canto por onde passou com ela em vida. Como o Deus materializando o Nada em qualquer coisa. Marcos foi magia. No entanto, metástase de descaso.
Fatal.
Hedonismo é nocivo. As seqüelas vêm à tona.
Marcos não mais pertence às citações, às perguntas casuais que chegam a Mayara, às fotografias acopladas a quadros de ímã. Todavia, está subliminar em tudo que a moça diz. E em tudo que ela faz. Na inércia. Na dinâmica.
As memórias são sempre contemporâneas. Nunca se tornam obsoletas.

7 de fevereiro de 2008

Juiz de Fora, 07 de fevereiro de 2008


O poeta-mor afirmou que para escrever dor é preciso fingi-la, desde que já se a tenha sentido antes. No entanto, esperar que a dor se torne póstuma para expressá-la é como se a colocássemos em uma conserva e a degustássemos diariamente. Intoxicação por dor. Morte por dor.

6 de fevereiro de 2008

Imperativo


Faze. Respira. Anda. Come. Dorme.
Não te excedas.
Evita doces, álcool, tabaco.
Gosta de uma música bem suave.
Ama a fração serena do corpo que regozijas,
Abstém das interferências com o amante.
Goza pelos canais eróticos da manifestação da matéria.
Goza pelos poros.
Pensa as memórias das volúpias e das palavras que te salvam.
Esquece a insipidez e a praticidade fria que transportam tantos humanos.
Engravida de vida todos os dias.
Hiberna com o Tempo e lhe agradece pelo teu milagre diário,
Pela habilidade de transformar o ar em kit de sobrevivência.
Depois disso,
Morre tranqüilo.

29 de janeiro de 2008

Certidão do Tempo


Em timbre consistente, indubitável:
Eu reconheço o Tempo como legítimo devido ao cumprimento exímio de suas atividades: ele se lembra do ciclo das garotinhas, da menopausa da vovozinha, da careca do baleiro, do menino banguelo, da decomposição da manga que sucumbiu à gravidade.
O Tempo é o funcionário-padrão, a utopia que não contemporiza às cobiças mesquinhas da Humanidade: enriquecer conforme um trabalho à revolução industrial pela visão de Chaplin e torcer a cara para o próprio passado, desfilando um carro recém emplacado.
Os soberbos são os mais medíocres porque desconhecem e/ou ignoram a submissão inquestionável ao tempo. Os soberbos religiosos elegem um horário a devotar a um Deus bonzinho, que mora em uma geografia remota, e fazem-Lhe pequenos cultos semanais que, depois de concluídos, cedem espaço a algumas pretensões psicológicas mais terráqueas e mais modernas. A devoção nunca cessa, por mais que se lhe tente escapar. A devoção tem muitas casas, um patrimônio incalcelável. Está na cobiça, na carência. Na imensa ignorância de não reconhecê-la o tempo todo.

25 de janeiro de 2008


O cérebro é bitolado.
Quando alguém se refere a você –
Cara bem instruído –
Com um português equivocado,
Ah, quanta gargalhada.

MicofRiba.
Vendem-se terninhos de micofriba.
Ao táxi, após a corrida, a cliente, ao taxista:
Obrigada, moço.
E este:
De nado.
Imediatamente,
Gargalhada.

Ao voltar a casa, a moça, à tia:
Adivinha de que eu vim pra cá?
A tia:
De táxi.
A menina:
Não, de nado.

O cérebro é bitolado.

Noradrenalina


Brasília, 25 de janeiro de 2008
Toda época transporta mazelas, haja vista os registros históricos de doenças que disseminaram povos e povos e de guerras que mutilaram gentes e comprometeram o conceito de nação.
O século XXI tem sido a presa das doenças psicológicas e, conforme concluem os patologistas, a maioria das doenças é psicossomática. É o preço de se evoluir e transcender a velha idéia tão defendida pela limitada Ciência, que perscruta e afirma apenas as manifestações palpáveis dessa Terra.
A aparição dessas moléstias cerebrais instiga as pessoas a buscar um sentido extraordinário à vida, a descobrir, quase de forma obrigatória, o Deus.

24 de janeiro de 2008

Toda Idade


Aquela mulher que me passou pelos sentidos há pouco,
O luxo do empresário que porta um Mercedes no trânsito de Brasília,
A armadilha à moda de detetive querendo pegar adúltero,
O fruto podre que sucumbe ao sopro da Gravidade.
Toda idade morre.
Morre-se a cada idade.
Já se nasce para morrer.
O cemitério está crivado de subsistência.
O cemitério sobrevive da decadência da Humanidade.
Toda idade morre ao nosso alcance,
Ou bem distante da nossa imaginação.

21 de janeiro de 2008

Planeta Terra

A Terra é uma criança.
Ou o todo perecível do Mundo, que carrega um pseudo viver inesgotável. Ela gira, gira, gira e ainda faz círculos primorosos com a própria tontura. Rotação. Translação.
A nossa casa é de boneca. Somos regidos por um grande brinquedo - bêbado e aventureiro de nascença. A Terra é uma criança.

18 de janeiro de 2008

Complexo de Cinderela


Depois de ter tido manifestações curiosas – durante a infância – perante as muitas encarnações da Vida, crescido com muitas objeções a vários paradigmas inexoráveis e sucumbido a uma graduação tradicional, a de odontologia, Margarida abriu um comércio de produtos sofisticados para casa e especialmente para toucador.
Exerceu, menos por vocação e mais pela ganância quase natural de que os homens se tornaram reféns com o correr dos tempos, das carecas incipientes e das banguelices dos impúberes, o status de dentista. Enriqueceu. E agora vive para sustentar simples e exclusivamente o prazer. Lida com gente elitizada financeira e intelectualmente. Veste-se bem à beça. Faz tratamentos estéticos. Come em restaurantes que ainda zelam pela privacidade de cada mesa. Namora. Dirige tranqüilamente, em qualquer tipo de itinerário. Aborda a própria vida como se tivesse – cada episódio – um acabamento primoroso. Articula, com delicadeza do tear da aranha, palavra por palavra.
O histórico de Margarida, cada aparição dela – pela manhã, ao entardecer, nos eventos sociais do alto escalão – contemporizaria com sucesso ao extraordinário e, portanto, às mídias. Margarida é uma utopia encarnada. É o personagem ideal para os romances vendáveis.
Ao divã, durante a catarse, diagnostica-se um estado de nervo mantido por tarjas-pretas. Margarida sempre se esforçou com o canteiro exímio da reputação dela, sempre quis um efeito plástico impecável. Impecável é tudo que se desconhece. Se se foi materializado, pecou-se. Viver é a celebração-mor do pecado.

16 de janeiro de 2008

Diluição

O grande mal é quando a dieta dos sentidos sucumbe à insipidez.
Mal-viver.
Desprazer.
Os olhos vêem o óbvio
Os olhos desvêem.

Os sentidos desmaterializados do Amor.
Ah, o Amor.
Os sentidos sem carne do amor também sucumbem à insipidez.
Os ossos desintegram também.
Não é preciso carne para a decomposição,
A caveira do amor dilui no Nada.

Lei da Oferta e da Demanda


Eu não atenderia à demanda daquele amor, daquela volúpia.

2 de janeiro de 2008

Réveillon


Réveillon


Cidade?
Rio de Janeiro!
Atrasaram-se na ceia, vieram convidados extras.
As crianças estavam cansadas à beça, afinal, dormiram sob o calor e a insônia da cidade maravilhosa e acordaram diante dos chamamentos à moda de quartel para irem para a praia.
O tino dos adultos funcionava à base de destilados.
Eunice estava sentindo muita câimbra no corpo. Talvez fosse cardíaca. No entanto, como se não lhe pertencesse o apego imensurável pela existência, prognosticava
: deve ser uma bobagem e se aliviava pensando em todos aqueles camaradas que resistem a tantas overdoses, a tantos excessos.
Tentou estar feliz... Quantas tentativas vãs. Mentalizou bocas promissoras, lascívias promissoras, carnavais de sentidos e transgressões. Cogitou
quanta vanguardaa morte e os olhos se inundaram, mas se contiveram e não cederam às lágrimas.
Observou com filosofia o sentido subliminar dos fogos
.
O repouso é uma alquimia do Cosmo. Depois da vida de carne há uma outra quimera. E ritmou a idéia. Deu-lhe fiéis. Bebeu um pouco do pensamento. Respirou fundo. Acordou. Ilesa. Viva. Agora, sob outra materialização.
O repouso é uma alquimia do Cosmo.

25 de dezembro de 2007

Ho ho ho ho


A família está em movimento sobre o asfalto pouco obstruído da estrada que fora privatizada há um tempinho, felizmente. Jane é a caçula, tem vinte e dois anos. Ela pega o espelhinho que lhe fica na bolsa para qualquer emergência e/ou desconfiança estética. Com o refletor, observa se há carros vindo ao encontro do veículo em que está. Não há. A estrada está vazia. Ela então põe a cabeça para o lado de fora. É sesacional ir de encontro ao vento e, principalmente, olhar as árvores pelas quais se passou há muito pouco tempo atrás, embora elas já sejam pretéritas. É Natal. O inconsciente é imensamente volúvel, porque contemporiza a números de calendário e sofre ou goza conforme o algarismo que fulgura. Fim de ano, as comoções e sentimentalismos rasos são maioria poderosa.
Jane lembra-se da época em que se esperava com avidez pelo parto; o parto de uma Letícia, de uma Nina, de uma Carolina qualquer. No dezembro incipiente a gestação se iniciava e no 25 do mês, à meia noite, o troca-troca de presentes a excedia. Era a felicidade de mãe, da realidade exímia das crianças que se tornam o que desejam de uma hora pra outra.

23 de dezembro de 2007

Ex-namorado


Por que a esperança dos amantes mora na Rua Idéia de que as coisas podem mudar?
Ele é um troglodita, mas depois que casarmos adotará o comportamento de gentleman.
Ele nunca me pagou um copo de água, mas depois que casarmos me dará de presente várias luas de mel na Europa.
Ele é muito eloqüente perante os discursos machistas que decora, um a um.
Ele sempre me faz esperar uma hora, uma hora e meia.
No altar, no entanto, chegará bem cedo.
Ele nunca me faz surpresas,
Embora já tenha preparado um soneto de Camões para recitar no baile do casório.
Ah, ilusão!

Desilusão, desilusão, desilusão.
Lá vem o compasso da desilusão!

12 de dezembro de 2007


VICTORHUGUETES & LOUISVUITTONETES


É como esbanjar um matrimônio de que não fazes parte. Rubricar um nome que não te pertence.

7 de dezembro de 2007

Ótica


Não há como prescindir do verbo rodriguiano. Não, não há mesmo.
De repente, Ana chega ao banco – após o expediente – a fim de sacar uma quantia irrelevante no caixa eletrônico. Ela está desenxabida, com uma tênue dor de cabeça. Saiu sem muita vaidade, totalmente livre de qualquer ranço de cabotinismo; ao contrário, nos últimos dias tem se sentido feia à beça, além de estúpida e repugnante.
Antes que se atentasse a qualquer seta do Inconsciente, o par de olhos a conduziu ao rapaz mais belo (beleza é algo que não existe, embora erice um agrado aos sentidos) que estava à fila.
Como um chá, a linfa feminina simulou volúpias e egos presunçosos.
Depois, pudica, voltou ao amor monogâmico.
Haja tecnologia cerebral para desenraizar o não-civilizado, este cadáver que nos fede por dentro.

6 de dezembro de 2007

Justiça Divina


Estupefata.
A mulher, que sempre pensou extravagâncias e ousou filosofar com a própria autoria, está estupefata. As pessoas insistem em enraizar-se. E isso lhe traz neuroses.
A vida é desembasada. É órfã. O sentido supremo é a Ignorância e, no entanto, o esquema é Rei.
Buáááááááááááá.
Babá.
Creche.
Pré.
A, e, i, o, u.
2+2.
O Brasil é um país com dimensões continentais.
My boyfriend is handsome.
Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, Ana C.
Vestibular. O que você vai ser?
Antes não se era. De que lhe valiam as moléculas? E a metafísica? Seu dente banguelo? O espectro do beijo? A espontaneidade do pênis? A cópula? O prenúncio do clímax?
Ele é engenheiro de produção.
Poética a profissão. Porque contribui para a gênese do Mundo. Das coisas inanimadas. Determina o diâmetro do frasco em que a pasta de dente se asila...
É-se um ínterim de engenheiro de produção.
Depois se cansa. E acaba por se separar da mulher. Arruma alguns casinhos extra-conjugais. As olheiras aumentam e as manias, em mesma proporção.
Nunca foi. Nunca viveu. Enclausurou-se. Asfixiou-se. Agora agoniza... agoniza anos, à espera da Justiça Divina, de que se é integralmente cego.

3 de dezembro de 2007

Doutô


Saíra de uma cidade mineira embaçada pelas civilizações mais possantes da região para consultar com o doutô. Quem lhe atendeu, no entanto, foi uma doutora. Bonita à beça, todavia, sem o menor traquejo e magra de psicologia.
Mariinha hesitava inclusive perante uma cadeira esculachada, típica das instalações dos serviços públicos brasileiros. Constrangeu-se toda, acomodou-se com as sacolas com que chegara ali e ocupou o menor espaço possível. As extremidades do corpo estavam geladas. Ai, meu Deus, quando me chamarem, o que é que eu vou falar? Mariinha estava diante da situação porque o patrão – dono da fazenda onde ela trabalha e mora – preocupou-se com a saúde da empregada, devido a um desmaio súbito que a acometera.
Com uma goma na boca, uma calça branca demasiado justa e uma blusa branca tomara que cara e um sapato branco com salto em madeira e altitude não-investigável: quem é Maria Arminda Guilherme? Está na sua vez. Antes que se pusesse à cadeira do consultório, a médica: qual que é o seu problema? Àquele instante, indubitavelmente, seria a pressão, elevadíssima, afinal, o nervosismo imperava a senhorinha. Tropeçando no vocabulário – com o qual não tinha muita intimidade – Mariinha disse à doutora:
O Celso ficô afRito quando soube dos meu desmaio.
A médica:
P
eraí, minha senhora, quem é Celso? Por que motivo a senhora desmaiou? Queda de pressão? Emoção? Susto? Eu não sou adivinha, sou profissional da saúde.
Sobrancelha voluntariamente empinada... Fragrância de soberba.
Mariinha:
O patrão lá da fazenda onde eu trabaio ficô sabendo dos meus desmaio. Eu não sei os motivo dos desmaio. Ele falô preu procurá um hospital.
A profissional da saúde usou como instrumento de investigação da condição física da mulher os adventos – já destruídos por maus tratos – da Tecnologia.
Que estúpida atitude a dos médicos em regra, que monossilábicos que são, recorrem a aparelhos inventados pela mesquinhez intelectual a que o Homem está submetido. Uma boa prosa pode detectar as panes no organismo humano.
Operou com cabotinismo as máquinas medidoras de saúde e nada diagnosticou em dona Mariinha.
A senhora está dispensada.
A situação por que passara alterou a química da doninha. Algum trabalho metafísico a tragou e ela não mais voltou à fazenda.



O movimento da Caveira


A irmã mais velha implicava com o namorado da irmã mais nova. Fazia-lhe a caveira do rapaz. De repente, longe de a relação se oficializar e de se estabelecer vitalícia conforme os impérios da cultura neo-moderna, o garoto morre em decorrência de uma apnéia.
No momento incipiente que sucedeu o enterro, a viuvinha referiu-se à irmã:
- A caveira que você prognosticava entusiasmada todos os dias, a carne que – malgrado ereta – nunca lhe valeu e nem viveu, é seu desejo póstumo e a mais nova encarnação. Está feliz? BOA NOITE!
Pranto.
Desejo de “deXistir”.
Os motivos dos instintos mais repugnantes se deleitam com o cadáver – rodovia de ratos e baratas e tatus e outras materializações horrendas.
Pranto………
Noventa anos se passaram.
A decomposição culminou em uma haste, uma serena haste de uma tulipa nascida em Ancara, na Turquia – região originária dessa espécie de planta.

28 de novembro de 2007



O metabolismo do Cosmo


Pneu.
Indumentária.
Até uma arcada dentária,
Para um odontolegista avaliar.

As irmãs voltavam do Rio a Juiz de Fora –
Na Zona da Mata Mineira.
Uma, absorta diante da seqüência de músicas de uma FM;
A outra, perscrutando o que a ladeava...
Desde os cacoetes dos outros passageiros do ônibus,
A mil hipóteses aos destinos deles,
A tudo que habitava as águas da saída da cidade maravilhosa.

Tudo está encarnado.
E em movimento de decomposição.
De quem acaba de nascer, ainda que cresça,
E que tenha idades bem sucedidas,
É tirada uma lasquinha todo dia.

O orgânico esvaiu-se a meu sentido,
Mas as vestes se delongam perante o processo do fim.
A traiçoeira forma viva sucumbe,
E as nossas alquimias duvidosas
E as nossas empreitadas entregues ao provável nos superam.

Os sentimentos, ah! os sentimentos.
Cismam cada um ter o seu,
Sob as modas que lhes convêm.
Mas as expressões são uníssonas,
O Homem são cachos idênticos por dentro.

Atenção, passageiros,
Estamos a cinco minutos da rodoviária de Juiz de
Fora.

Nike Shox


Perdão a todos os portadores da doença do consumo, da qual se terá mais conhecimento daqui a um bom tempo, quando as enciclopédias registrarão - com propriedade para fazê-lo – as conseqüências mais mórbidas dessa mazela, mas não posso deixar de comentar, ainda que eu não tenha know how em patologias, o mais novo lançamento da Nike.
NIKE SHOX é o batismo do par de tênis, cujo design me alude a tudo que transcende o Cosmo. Como se não bastasse a estampa do calçado, existe um advento em sua sola: dois, três ou até oito ou até enésimos pares de molas que – a princípio – garantem o amortecimento às caminhadas.
Eis que estava ao calçadão de Juiz de Fora, cidadezinha famosa pelo bumbum da Scheila Carvalho – filha de uma senhorinha muito simpática que vende churros em eventos; dançarina de uma antiga banda de axé e casada com um não importa, o que interessa é que, na cerimônia de casamento, ela - a Scheila - apareceu sobre um grande tabuleiro, como uma cocada preta fresca ou um pão-de-ló esturricado, mantido à força de quatro seres brutos, ou quatro seres humanos com bíceps, tríceps... E famosa também pelo alto índice de suicídio, haja vista os tantos predicados da querida jota éfe.
Recapitulando... O calçadão
Um moreno de um metro e oitenta e três, cabelos negros e grossos, cútis impecável e layout regozijável: tórax muito bem esparramado, pernas tonificadas etc e tal portava um par do Nike Shox, o que lhe garantia mais uns cinco centímetros e, indubitavelmente, muito conforto e exuberância também.
Sabrina hesitou um pouco. Todavia, encorajada pelas próprias circunstâncias por que já passara, aproximou-se do moreno (que provavelmente atende pelo nome de Mauro, não há batismo mais másculo!) e lhe perguntou, com seriedade postiça:
- Quando é que você irá saltar? Afinal, qual seria a proposta de se pisar sobre uma mola, senão a de pegar impulso e ir a uma distância vertical?

23 de novembro de 2007

Menino Moderno


Ao telefone:
Pô, cara, não acredito que tu não conseguiu levar a mulé pra sua casa.
Va-ci-loooou, velho.

A poucos segundos do bate-papo,
a mãe do que se lamentava do lado de cá do celular veio buscá-lo.

O garoto entrou no carro, sentou-se, sequer se dirigiu à mãe,
Pousou os olhos numa menina bem magrinha,
Cuja cútis lhe pareceu singular e
Cujos seios durinhos extravasavam o tecido da blusa.
A mocinha parecia esperar por alguma carona
E lhe serviria de estímulos noturnos, virtuais e voluptuosos.

Os valores de Arnaldo – o tal rapaz – jamais cogitaram arriscar-se
Nas culturas de sentimentos - que não os postiços -
Que o incumbiam, falsamente, de Vinicius de Moraes,
E que o faziam sentir amante perfeito, que ama muito

E muitas.

Prateleira de frascos vazios.
Os jovens todos sucumbem às bússolas mais primárias da condição humana:
Cardápios, corpos, corpos, corpos, cardápios e mímica das projeções mais contemporâneas da sociedade
.

18 de novembro de 2007

Seu Salvador

Nestes últimos dias, sem prévias radiografias que acusassem o crescimento do desequilíbrio, a brisa que embaça e que nos é inerente, que não nos deixa enxergar a própria situação se excedeu. Perdi-me de vista, perdi meus sentidos, meus desejos... a gravidade tornou-se um redemoinho de itens de uma lista repugnante.
De-ses-pe-ro.
O meu amor não mais me vale de entorpecente. As leituras voluptuosas não prestam.
Todavia, em uma comunicação que transgride territórios e relógios, reconheci-me em outro. Permiti-me tarjas-pretas e outros venenos antimonotonia. Não consigo ser crua... Talvez se fosse encarnada como um rochedo, quem sabe?
Obrigada, Seu Salvador.

17 de novembro de 2007

Leão

Na relação deles ainda não havia penetração.
Línguas, atividades artesanais, deslizes com a palma das mãos sobre a cútis.
Ainda não havia penetração na relação dos dois.
De um lado, muita inteligência. Inteligência é chique, é vital, é sadio, é medalha, é prática de ioga, é apetite, é lascívia pura.
Do outro lado, leão, que come viva a outra carne e depois se aquieta, com vazies
, sem ecos, sem patrimônio após tantos esforços. E o consumismo desenfreado de comprar vinte e sete peças de roupas na mesma data e estendê-las como a natureza morta sobre a cama. Depois, ir tomar um banho, pôr a mesa, avisar da hora da refeição, assistir ao telejornal, implicar porque não se consegue silenciar e viver o nada. Morrer, morrer um pouco por dentro, uma vez que é assim a fatalidade.

16 de novembro de 2007


O quantum começou.
Assim, a morte já está bem viva, à espreita.
Nos quintais, nos céus, na apneia, no dedo prestes ao tiro...
Ao tiro suicida.

Ah! Como a morte está bem viva.
E como ela é a grande natureza heterogênea
.

9 de novembro de 2007

Marcha Nupcial

Casamento?
Eu tô fora. Domesticar gente grande demanda uma árdua dedicação.
E o choque de culturas?

Ele adora falar ao telefone, justamente na hora do programa mais bem bolado do GNT. A casa é pequena à beça.
Ele e a família têm o hábito de chegar de e ir a sem avisar.

Na primeira vez em que, involuntariamente, participei desse conchavo anti-etiqueta, Arnaldo – o ex e único-ex (espero não ensandecer novamente!) – acordou e me disse: benzinho,vou te levar a um lugar de que irá gostar bastante. Como quem confia na retórica de um político em audiência pública, lembro-me – até me eriçam os sentidos – de ter ficado demasiadamente empolgada; para onde ele está me levando?para um lugar farto de natureza... A essa hora e pelo que eu acho que ele sabe de mim: para um lugar descampado, só pode.
Algum asfalto pretérito. Algumas vegetações quase inexistentes, haja vista os olhos que a deixaram escapar e tal. Algum gado solitário. Alguns episódios exclusivos ao casal. Enfim, o marido foi acomodando o carro próximo a uma vila. Desceram do carro... ele abriu a portinhola do povoado... andou a distância de três fachadas de casa e bateu campainha. À mesa, primos já proliferados em outras gerações. Um almoço lhes esperava. Gisele, a recém casada, constrangeu-se toda, ofereceu os préstimos à anfitriã e foi tragada por uma catarse. Esta situação não tem nada a ver comigo, detesto encontros invasivos como este, essa senhora deve ter acordado cedíssimo para preparar a comida, eu sequer a conhecia e estou na casa dela, gozando do labor dela, isso não é justo. Uma parte do Inconsciente tentava dissuadi-la. Pretensão vã.
A libido já não vinha com tanta naturalidade. As palavras morriam quando pisavam a superfície da língua. Os agrados correspondiam a gestos altruístas, mas não deu para estender o ato postiço. Comunhão parcial de bens.

17 de outubro de 2007

Anjo


Tantos já a batizaram de anjo. Provavelmente pelo jeito cortês com que ela trata as pessoas. Ela é, sim, um anjo. Um anjo desalado, com os pés enraizados nos prazeres terráqueos.

8 de outubro de 2007

Prefácio: “prático – dizer do velho e vitalício amor”


I
FIM DE ROMACE

Para a parte passional, o fim de romance representa uma mumificação. O corpo do outro fica estendido, a transitar pelos centros urbanos, correndo o risco do fatal tropeço com o amor antigo. À mercê do campo mental e, no entanto, no alcance dos sentimentos, torna-se utópico.



II
NOVO AMOR

Doença de amor só cura com outro
Sair daquele costume e estar à frente de uma nova cultura – sozinho e fértil de expectativas – demanda transgredir os próprios preconceitos, ousar e captar e até adorar uma nova dicção e condicionar-se – como um iogue que sempre contemporiza a qualquer espaço – ao novo corpo, até poder afirmar, com uma duvidosa segurança, “eu amo”.

6 de outubro de 2007

Terapia de Casais


Módulo 1
Uma abstinência pensada é sempre salutar;
Ela deixa saudade, saudade biônica...
E esta revigora as células mortas.

2 de outubro de 2007


Incesto


Toda relação é incestuosa.

Haja vista a forma como todo o Cosmo é encarnado: sob o mesmo mistério, pai do Mundo.