Total de visualizações de página

16 de julho de 2010

por carolina fellet

Quando se deseja conquistar alguém, talvez por um automatismo embutido no inconsciente, a pessoa apela a um dos próprios predicados e tenta mostrá-lo ao pretenso-parceiro. Os dotados de corpos bonitos apelam a roupas que os realçam. Quem é inteligente investe na lábia. Os vulgares correm para o trópico da própria vulgaridade e ficam lá até pintar a melhor oportunidade voluptuosa. E os sem-jeito permanecem à espera de um amor trazido pela metafísica.

por carolina fellet

Ir para a balada implica o exercício simultâneo dessa multimídia viva que são os cinco sentidos.

por carolina fellet

Como a vegetação está sempre sujeita ao ânimo do tempo – seja para florescer ou murchar completamente – o âmago das pessoas vive em função do ambiente onde elas vivem.

15 de julho de 2010

A língua do "igualzim"

por carolina fellet

Conseguir contabilizar o número de ideias que trafegam pela nossa mente diariamente demanda muita concentração. No ônibus, em casa, no trabalho, na faculdade... Sempre somos uma rodovia demasiadamente movimentada por informações e respectivas reações a elas. Na hora de trazer à luz um dos tantos pensamentos que compõem a nossa psique, muita gente se embaralha. Afinal, não é fácil escolher o melhor assunto para explorar num diálogo, principalmente se ele for inesperado. Por isso, vejo gentes e gentes, na tentativa de equacionar as ideias e introduzir um assunto, dizer: “igualzim (leia-se “igualzinho)”. “Igualzim, saí com o Nenzim pra beber uma cerveja e acabei atrasando pro serviço de manhã”.

Tem também o recurso do “tipo assim”, do “ô, véi”... Todos com a mesma intenção: a de afunilar os tantos e tantos pensamentos que invadem mentes e mentes diariamente, para trazê-los ao conhecimento de outrem. .

por carolina fellet

Se as palavras fossem materializadas a partir de um órgão do corpo, Janete já teria enfartado esse órgão há tempos.

12 de julho de 2010

Choque de gerações

por carolina fellet

As duas filhas – sossegadas com o predicado “abastado” que lhes engloba a família – só pensam em ter um amor.

E a mãe, superpreocupada, concentra toda a sua atenção na queda da Bolsa de Valores.

10 de julho de 2010

por carolina fellet

Não quero saber de amigos ou afins desovando seus recalques em mim. Se eu lido bem com minha hortinha de frustrações, por que é que o outro não pode consegui-lo?

por carolina

Os 25 anos estão se aproximando. Como conseguinte, um afastamento da vida rumo à cova. Processada essa lógica, uma campanha de empolgação me ganha: seja feliz!

por carolina fellet

A existência – essa coisa que não é minha, e sim, manufaturada a partir de mão de obra clandestina – me impele profundamente. Nessa temporada aqui na Vida, a coisa de que mais tenho medo é ter minha integridade física ameaçada.

9 de julho de 2010

por carolina fellet

Ser careca é mais estado de espírito que falta de cabelo.
Tem homem que fica calvo e incorpora como derrota a calvície. Daí, à medida que as pessoas olham para ele, toda a química do fracasso paira no ar.

8 de julho de 2010

por carolina fellet

Em casa foi sempre SIM.
Diante do primeiro NÃO entoado pelo mundo, o subconsciente foi civilizado pelo trauma.
E hoje meu comportamento é todo configurado sob os graus desse impacto.

2 de julho de 2010

por carolina fellet

Muita gente tem vindo para a vida sem a promessa dos sisos no DNA. Há tecidos que não precisam do ferro quente para ficar lisos. o GPS esnobou o cérebro dos taxistas. Ainda que as manicures representem o meio de comunicação mais eficaz, a internet transmite os fatos em tempo real.
O mundo está mais prático. Mas um costume já carequinha e banguelinha se arrasta e se prolifera rumo à consciência das pessoas: a busca por um refúgio.
Há quem acredite que a recompensa a todo cotidiano duro esteja num bom beijo de língua que eleva a voltagem da libido. Então, vassalo dessa crença, esse alguém está sempre atrás de uma presa. Tem os que tentam se acertar com a família - outorgada pelo Divino e muitas vezes tão encalacrada entre si. Há os que se inclinam à caridade e, por fim, os descrentes de tudo,que vislumbram o próprio porto seguro no inanimado.

30 de junho de 2010

O soco

por carolina fellet

Ana Cecília fora configurada – por Sula, sua mãe, – para agir com diplomacia sempre. Contrariar a expectativa de um interlocutor qualquer era uma infração gravíssima dentro da constituição da família.
Com isso, a menina cresceu regida pela obrigatoriedade de ser infinitamente supereducada perante as circunstâncias – o que lhe ameaçou o alcance dos sentidos.
Até os vinte e poucos anos, recebia as pessoas e as situações que lhe interceptavam a vida sem tecer-lhes críticas nem lhes apresentar resistência. Porém, à medida que paulatinamente foi violando a dimensão do mundo adulto, numa mera inclinação à própria natureza psicológica, agiu conforme um palanque que empresta o megafone às impressões que lhe trafegam. Adeus ensinamento de dona Sula. Abaixo a diplomacia.
...
Já bastante aconchegada às medidas da estação “adulto”, nas férias de 2008, Ana Cecília – neste momento com 28 anos – preparava-se para um baile de formatura de um amigo muito querido.
Marcou cabelo e maquiagem no salão, comprou um bolero de pele de coelho para compor o vestido de gala e proteger-se do frio de julho. Encheu-se de boas expectativas, inclusive a de conhecer um rapaz cheio de predicados, já que estava solteira fazia cinco meses.
A maratona de ir para salão fazer cabelo e maquiagem aliada ao período pré-menstrual culminou em enxaqueca.
Apesar de ter ojeriza a remédios e seus efeitos colaterais, Ana Cecília se rendeu à possibilidade de serenidade (biônica) trazida pela Neosaldina®. E seguiu rumo ao tão esperado baile.
Os movimentos de pescoço seguidos por uma pausa vindos de alguns rapazes em direção a ela fizeram-na sentir-se bonita. E olhares lubrificados com desdém oriundos de meia dúzia de mulheres fizeram-na sentir-se ainda mais bonita.
Porém, essa zona de conforto durou apenas os 45 do primeiro tempo.
A moça estava enraizada na pista de dança – através de movimentos ritmados conforme a música – quando, subitamente, um careca superbaixinho – não alcançava o busto de Ana – e superestranho a abordou e, na frequência da azaração, balbuciou-lhe dez palavras elogiosas.
Para uma mulher bonita, embonecada, regada a perfume importado, a abordagem teve o efeito de um soco. O careca estranho se equiparou a Ana Cecília, já que ficou confortável para cantá-la. Em contrapartida, ela sentiu-se a estranheza em carne e osso.
Imediatamente, correu para o banheiro do local, procurou um espelho para tentar achar onde estava o erro contido na própria estampa.

27 de junho de 2010

por carolina fellet

Loiras vivem em função de sua loirice. Então, os homens as escolhem, porque o atalho para se lhes chegar é simples.

25 de junho de 2010

por carolina fellet

Devo ter cara de embaixada. Só pode!
Gente vem falando francês comigo. E inglês. E até sânscrito.

23 de junho de 2010

Profissão

por carolina fellet

A importância da profissão na vida de uma pessoa vai muito além de subsistência. O efeito moral - positivo - é o maior triunfo de quem tem um emprego.

A derrota

por carolina fellet

Ninguém está preparado para a derrota. Principalmente em se tratando de território amoroso. A natureza selvagem e inerente a qualquer um de nós fica completamente ameaçada.

20 de junho de 2010

por carolina fellet

Eu era uma marginal em potencial antes de me render ao esporte.

17 de junho de 2010

Para o F.M.

por carolina fellet

Querido F.M.,

Já tem uns 12 anos que você transita pelas áreas mais privilegiadas da minha memória. Ou seria da minha vontade? Sei que o englobei para mim involuntariamente talvez. Assim como meu sentido acata a propaganda da Coca-Cola®. No emaranhado de compromissos, sentimentos, ímpetos, correntezas contrárias à vontade do meu cerne, existe um espaço que o aconchega, ainda que eu não faça opções.
Depois desse tempo todo de sentimento unilateral e platônico, como no videogame, consegui sair da dimensão da perspectiva e trazê-lo para bem perto de mim; para dentro da minha boca e dos meus desejos, neste momento, repercutidos em eletricidade no corpo.
E ai foram dois encontros surpreendentes. O primeiro menos que o segundo. E uma pane aconteceu no desenrolar dessa história que mal teve fôlego para começar. Você se esquivou das minhas vistas, embora esteja inteiriço e incrustado nas minhas moléculas. Não resisti e lhe enviei uma mensagem. E um silêncio turbulento me veio como resposta. Isso não tem tanta importância. Eu confesso-lhe que gosto de me enfurnar em áreas de natureza desconhecida. E um namoro de quatro anos me deixou muito amortecida para vários impactos dessa vida.

15 de junho de 2010

Copa do Mundo: sentimento universal

por carolina fellet

Quem gosta da profissão é assim: canaliza o suco das experiências ao próprio ofício. É praxe um empresário vislumbrar lucro em tudo; um professor de português corrigir – ainda que mentalmente – os erros ortográficos das placas de trânsito.
Com um pretenso-escritor não é diferente. Tudo lhe serve de matéria-prima para um texto promissor. Conversa fiada, situação embaraçosa, primeiro encontro, corrupção, o grotesco e, obviamente, o auê trazido pela Copa.
Sob um efeito manada, ignorante do porquê, embora volúvel como a água, fico superempolgada com a seleção brasileira nessa época. Empreendo minha adrenalina, minha expectativa e concentro todos os meus instintos e ímpetos no molejo da bola.
Depois que a partida termina fico pensando: por que é que a vibração com o futebol permanece dentro de mim como uma habilidade nata, ainda que não o seja?

13 de junho de 2010

O que angariei no Dia dos Namorados

por carolina fellet

Se eu estivesse namorando provavelmente não conseguiria perscrutar o que acontece com os enamorados na data que os homenageia. Já que estaria envolvida em comprar presente para o parceiro e em me embonecar para o encontro - sempre promissor - que acontece entre os amantes nesse dia.
A solteirice me possibilitou uma “supervisão” e, por conseguinte, um bom balanço sobre o 12 de junho.
Uma rápida pesquisa no Google me trouxe à luz o porquê da comemoração. É que as vendas caíam muito nessa época do ano e os comerciantes, sempre salivando lucro, inventaram a campanha: “presenteie quem você ama”. Como brasileiro é prolixo para interpretar texto, ele não só presenteou o cônjuge com uma joia ou algo equivalente, como também foi para restaurante e motel. 12 vezes sem juros.
Quantos e quantos ex-namorados não estão pagando contas de um namoro que já é pretérito? Uma arrastação de cadáver danada.
E as portas de restaurante? Abarrotadas de gente megaproduzida e pronta para declarar um amor cheio de tropeço embora, neste momento, travestido da melhor das boas intenções.
Engarrafamento nos motéis. Haverá, com certeza, uma série dissonante de gozos por ali. Namorados que exageram no timbre a fim de corroborar o amor que sentem pelas parceiras. E namoradas com a melhor lingerie. Com a melhor performance e dançando creu na velocidade 100.
Dia dos Namorados é presentear, jantar e transar. Ô vidinha de rato!!!

8 de junho de 2010

por carolina fellet

11 de junho. Última chamada para as solteiras. O embarque para o universo conjugal está prestes a acontecer.
por carolina fellet

Ana Carolina. Até chegar a mim, acho que já acabou o combustível. Afinal, é uma rodovia grande: a-n-a-c-a-r-o-l-i-n-a. Por isso, sou praticamente obrigada a adotar o "Carol", pelo qual tantas cadelinhas de madame também atendem.

Ensaio empírico sobre Brasília

por carolina fellet

Quem mora adora. Não trai por nada. Podem oferecer a beleza do Rio de Janeiro com a passividade de uma cidadezinha do interior de Minas Gerais a um brasiliense que ele não emigra da própria quadra.
Ir a Brasília pela primeira vez – já se somam 10 anos que o fiz – equivale a desvirginar algumas regiões até então latentes nas vistas. As construções são supergrandiosas, a natureza – salvo nos períodos mais secos – é multicolorida. O céu. Ah! O céu de Brasília. É “traço do Arquiteto”. Parece que o azul está mais próximo da gente; querendo nos tocar; misturar as dimensões; nos transportar à carne do Infinito.
Os shoppings são povoados por atrações que são ovacionadas em todos os cantos do mundo. Tem loja da Louis Vuitton, restaurantes com filiais esparramadas pelos quatro ventos, butiques super-requisitadas.
Em contrapartida, há uma cólera alojada nas moléculas da cidade. O luxo talvez seja seu principal estimulante: carros megaluxuosos, roupas estilosíssimas, botox que desafia gravidade e degradação do Tempo esmagam os cidadãos. E deixam seus interlocutores (leia-se “visitantes”) com a sensação de estarem dialogando com alguém que usa lentes de contato e que, portanto, esquiva-se da própria essência.
Ser cigano na capital federal me parece muito promissor, haja vista a carência da população local no que concerne a valores mais metafísicos como misticismo.
Será que o edital para videntes já saiu por lá? E qual será o salário inicial?

2 de junho de 2010

Arrumar mala

por carolina fellet

Em criança, o processo de arrumação de mala lhe causava angústia. É que, em sua cabecinha, a vida já havia automatizado. De repente, a vulnerabilidade que a bagagem sugere a amedrontava. Imagine. Castelos da Barbie®, coleguinhas da escola, lugares a que estava acostumada a ir, cheiros, sorvetes caseiros. Tudo ficaria longe de sua percepção; estacionado naquela cidade que ela deixaria rumo a um lugar todo novo onde passaria as férias.
Essa impressão acompanhou Alessandra por muitos e muitos anos. Boa parte da vida dela foi repreendida por esse freio dissonante.
Um dia, já adolescente, na aula de ioga, ela meditou profundamente e conseguiu chegar a uma superconsciência da Vida. Até perceber que não tinha as rédeas da própria existência, nem o domínio do tempo. E acalmou-se, doando-se à gravidade das coisas importantes mesmo.

1 de junho de 2010

Discurso indireto

por carolina fellet

Muitas e muitas pessoas são tão prolixas para se expressar e agir. Eu me incluo nesse rol...
Dia desses, conversando com um primo, ele me contava que a namorada dele havia lhe dado um terno muito bonito de aniversário. A tônica da questão nem era o cortejo, e sim, a necessidade de a roupa ser submetida a alguns acertos, já que estava larga.
No final de semana passado, a manicure me ligou para mudar o horário da unha. Em vez de simplesmente me perguntar se eu poderia ir às 17h, pormenorizou a confusão em que se encontrava sua agenda.
...
Há dias aguardo o momento oportuno para dizer-lhe tudo o que sinto. Enquanto isso, de centímetro a centímetro, vou me inclinando para o fim.

O primogênito

por carolina fellet

Não sei por que tantos casais insistem em ter filhos aos cachos, se é sempre o primogênito o maior destinatário do amor deles. O primeiro filho é quem desperta nos pais a química da paternidade; é quem os faz vencerem inseguranças mil.
Doses diferentes de carinho emanadas para os filhos geram muito mal-estar.
Caso o amor seja todo empreendido no primogênito, nada melhor que a mãe recorrer a pílulas, DIU, adesivos de hormônio com efeito contraceptivo. Para poupar o mundo das radiações da carência.

Família... Ah! Família

por carolina fellet

O ideal seria a permanência em alguns graus da infância. Nesta fase, como quase tudo é novidade, as vistas e percepções em geral não são afiadas para qualificar as situações e experiências. Não se tem a delimitação correta que discerne o bem do mal.
À medida que a consciência perante a vida vai se apurando, os problemas começam a surgir. E a reação a eles, inevitavelmente, vai sendo sintetizada dentro da psique. Nada passa ileso pelo processamento da razão. Nada.
A família de Cristiane vivia pacificamente. Mais pelo silêncio que imperava entre eles do que pelo grau de civilidade que lhes era próprio. A partir de um dia a princípio comum, sob uma luminosidade metafísica, em um dos irmãos de Cristiane, surgiu uma rixa com o pai.
Esta dissonância implicou muitas modificações na ambiência familiar. Nada passa ileso pelo processamento da razão. Além de os defeitos do pai virem à praia da lucidez, outras discordiazinhas foram levantadas pelas irmãs de Cristiane para que a guerra se firmasse contra o primogênito.
Toda a aragem remota da infância agora era um fóssil tão cobiçado e necessário.
por carolina fellet

Dedicar palavras – principalmente escritas – a alguém é como dar-lhe um pedaço do próprio coração. Cheio de correnteza de sentimento, ímpeto e emoção.

30 de maio de 2010

por carolina fellet

Ouvir muitas vezes a mesma música,
Comer brigadeiro todos os dias,
Usar o Cool Water® até para ir ao mercado.

E o sentido já não processa o que lhe é oferecido
Com a expectativa que eu queria.

A empolgação da Ivete fica até esquálida.
A magnitude do chocolate fica até insípida.
E o Cool Water® fica batido igual perfume Avon®.

O bom é racionalizar todas as oferendas aos sentidos,
Para que eles não nos traiam.
por carolina fellet

Primeiro encontro com um paquera. Inconscientemente, a pretensão é alardear os próprios méritos como um cabotino antigo. Porque se deseja que o outro configure a melhor impressão a nosso respeito, e diante dela, posteriormente, à mercê da própria área privativa do pensamento, deseje um reencontro para nos destrinchar um pouco mais.

Olá, muito prazer

por carolina fellet

Apesar de ser falante com os íntimos e até despudorada na escrita, perante situações novas, me classifico como um bicho-da-seda retraído.
Não sei que rebuliço acontece entre minha tríade ID, EGO e SUPEREGO em momentos-estreias. Que características minhas posso colocar ao alcance do outro? Devo contemporizar aos moldes da simpatia, da seriedade, da distância ou da aproximação no diálogo? Mostro meu lado perspicaz ou minha admiração por Chico Xavier?

27 de maio de 2010

por carolina fellet

Agradeço a Deus por ter me trazido à luz sob a forma humana e, por conseguinte, dotada de inteligência para trafegar entre as experiências e as palavras com a maior liberdade.

21 de maio de 2010

In memorian

por carolina fellet

Só adulta fui entender essa expressão.
Quem morre escapa de vez das nossas vistas. Perde a representação nesta dimensão.


A memória de quem fica é que estende a vida do morto.

20 de maio de 2010

Sobre velório

por carolina fellet

Quão animalesco é o velório.

Aquele corpo estendido.
Uma interseção
Entre este mundo
E a outra dimensão.

E os mosquitos a postos,
Salivando pelo banquete
Que lhes surge.

19 de maio de 2010

por carolina fellet

Salão de cabeleireiro e véspera de prova foram feitos para psicopata. Gente comum – em cujo corpo circulam sangue e temperatura – não suporta essas situações.

18 de maio de 2010

Botox

por carolina fellet

O botox me dá a impressão de um soco que culminou em inchaço febril.
por carolina fellet

Mal começou a novela “Passione” e eu já tenho uma resistência a ela. Apelar para o “portuliano” (mistura de português com italiano) é subestimar a inteligência do telespectador.
por carolina fellet

Quando se tem um amor terno não é necessário estar sempre por perto do contemplado com esse sentimento.
Ver-lhe a janela acesa e saber que dentro daquele cômodo a vida pulsa. Isso basta.

14 de maio de 2010

por carolina fellet

A angústia mostra sua fisionomia àqueles que se privam do percurso e se arremessam a um futuro em que tudo funciona corretamente.

Sobre o funk

por carolina fellet

Funk traz para a praia da consciência aquilo que o pudor acoberta durante a temporada pela vida.
Quase ninguém está preparado para assistir a si mesmo sem censura.
Repare você quando vê numa fotografia de revista um órgão interno do corpo humano. Não lhe causa certa repulsa?
Imagine, então, você se vendo nu e cru; com seus fetiches, suas más inclinações e seus ímpetos mais vis?!
Por isso talvez você não goste de funk. Ele tem o dom de lhe trazer você.

Reynaldo Gianecchini

por carolina fellet

Nunca concordei com a adjetivação “gostoso” para qualificar camaradas com os quais nós, mulheres, nunca tivemos uma experiência mais íntima.
Por mais que o Gianecchini seja superlativamente lindo e sacie minhas vistas – em se tratando de supremacia de beleza a elas –, não me sinto à vontade para batizá-lo de “gostoso”.
Afinal, não lhe provei a eletricidade.
Bem que gostaria!
por carolina fellet

Inconscientemente, as pessoas acatam o ar que trafega por aí. Com as ideias, parece que a coisa se repete. Porque os escritores, ainda que tenham uma dicção própria, sempre discursam os mesmos assuntos.
por carolina fellet

Muita gente que convive comigo me diz que sou um doce.
...
Na área privativa da consciência, fico pensando: não posso me casar com um diabético!

13 de maio de 2010

por carolina fellet

Nunca tive oportunidade de viajar para a Rússia. Desconheço, portanto, salvo através de fotos e da televisão, a geografia do país, uma vez que meus olhos não podem se arremessar até lá.
Para se chegar a um lugar distante, é preciso recorrer a um meio de transporte e a uma batelada de burocracia. Todavia, com o instrumento de que dispomos para viajar nas nossas próprias águas, podemos ir a fundo nesta existência que abriga nosso âmago.
Com essa ferramenta, podemos ponderar os graus de cada sentido, a velocidade dos ímpetos, as regiões compostas pelos vacilos, as terras firmes.
Podemos esparramar toda nossa química sobre a bancada da nossa consciência. E diante de todo líquido ficaremos apavorados com nossa tamanha ignorância.

12 de maio de 2010

Sobre a sensualidade

por carolina fellet

Estava assistindo a uma cena de “Viver a vida” (novela das 21h transmitida pela Rede Globo entre setembro de 2009 e maio de 2010) em que a personagem Alice, vivida por Maria Luisa Mendonça, estava prestes a transar com Osmar, interpretado por Marcelo Valle. A atriz surgiu sob uma bela lingerie preta às vistas do “affair” na trama.
Concomitantemente a isso, pensei – do lado de cá da televisão – na sensualidade de que tantas e tantas brasileiras são partidárias. Pelas ruas, é praxe o espetáculo de calças superjustas aliadas a blusas tomara que caia e saltos mega-altos.
Não há iguaria melhor para as vistas – principalmente as dos homens – do que um corpo feminino bem talhado e realçado. Porém, romper a privacidade da sensualidade e trazê-la à pele soa antinatural. É como incorporar a tristeza vestindo-se com roupas em tons pastéis.
O interessante da sensualidade é ela ser precedida e também incitada por um certo mistério. Expô-la como mamões frescos à venda na quitanda rompe com o propósito dela. Afinal, lascívia tem muito a ver com sutileza. Com descoberta. Com diálogo sensorial.
Por outro lado, existem tantos homens e mulheres que adotam uma postura tão distanciada do próprio charme que ficam parecendo pedagogos que gostam de fazer cartaz e organizar excursão de adolescente.
Assim fica infértil o campo da paquera.

11 de maio de 2010

Suco de meditação

por carolina fellet

Deixe seus pés se molharem,
Mas não se afogue.

Você está somente flutuando nesta vida.
Você não é isto.
Você é metafísica pura.

Miligrama

por carolina fellet

Para quase tudo neste mundo civilizado há uma medida, um parâmetro, um manual. As escolas abordam as mesmas matérias; os cursos superiores oferecem especializações em áreas que existem desde o tempo em que a vovó era solteira; o ponto do brigadeiro ainda é um dos mais difíceis entre a população dos doces; o primeiro beijo, assim como as primeiras vezes, é insosso.
Tanta teoria tenta nos prevenir do mal, do equívoco, da frustração, mas somente a vivência das situações é que sintetiza reações dentro de nós. E à medida que a gente se habitua aos acontecimentos que interceptam nossas vidas é que os anticorpos vão sendo produzidos pela força clandestina que nos acompanha desde sempre.
...
Ontem, com os olhos arremessados no livro “O mundo pós-aniversário”, da americana radicada na Inglaterra, Lionel Shriver, fiquei pensando na vocação unânime que as mulheres têm de amar. E a ferramenta de que elas dispõem para exercer o amor é bastante falha. Haja vista o desejo do gênero feminino de embaçar o mundo e suas implicações, a fim de sobreviver de afeto.

Uma querida chamada Hilda

por carolina fellet

94 anos. Em abril de 2010, dona Hilda, amiga da vovó – já falecida –, decolou da vida rumo ao território misterioso da morte.
Todas as atitudes das quais me lembro dessa senhora sempre surgiam da pureza – valor tão coagido por tantos outros nesta vida. Frequentemente ela telefonava para minha casa simplesmente para dizer: “filhinha, você reparou como o dia está lindo? O céu está tão azul!”. Na época, eu, adolescente, ficava com os olhos marejados. Hoje, já adulta, me comovo completamente com essa memória.
Nunca presenciei dona Hilda cabisbaixa, desarrumada ou fatigada. Ela sempre estava “nos trinques” para recepcionar a alegria. Apesar de diabética, quando fugia da vigília dos filhos, sucumbia a bombons, a doces caseiros e a qualquer “junk food” que estivesse na mão de uma criancinha.
A senhorinha querida não era de muitas palavras: jamais a ouvi falando mal dos outros; eram raras as vezes em que sua voz sobressaía diante de um encontro entre amigas. Em contrapartida, seu semblante sempre me atraía, haja vista o tamanho daquele carisma.
Querida dona Hilda, você está bastante viva, cheia de viço, imersa nas minhas melhores químicas.
Adoro você. Enquanto me houver consciência.
Carol.

10 de maio de 2010

A soberba dos prazos de validade

por carolina fellet

Agendas e marcações de prazo de validade em medicamentos, documentos e alimentos ignoram a vulnerabilidade dos fatos. “Daqui a dois anos o senhor retorna para mais uma consulta”, diz a secretária do médico ao paciente.
No ínterim de dois anos, um coração sadio, sob as rédeas de uma equipe clandestina, abandona suas atividades e aposenta-se de vez. Todos os compromissos do dono desse órgão vital, consequentemente, ficam órfãos.
No fundo do frasco do xampu está carimbada a data de validade do produto: 26/07/2014. Até lá, dá para uma careca se fazer e, portanto, dispensar o uso do sabão para as madeixas.
Estipular datas é brincar um pouco de Deus, que antecipa céus e maneja o Acaso.

As tais das células-tronco

por carolina fellet

Desde que trouxeram à baila a temática das células-tronco, muita esperança foi sintetizada em lares de todo canto do mundo e muita ovação foi destinada a cientistas e cientistas que estão envolvidos no assunto.
Descobrir que determinados ingredientes do corpo podem resgatar a saúde de alguns órgãos – e respectivas funções – desse próprio físico parece algo surreal. A tendência é de atribuir aos pesquisadores do tema um caráter messiânico.
Porém, especialistas em células-tronco se sujeitam a fazer corretamente o traslado do material dessas células-mãe rumo ao destino que as aguarda. Em suma: pesquisadores e cientistas trafegam com todo o Divino que lhes é ofertado de bandeja.
Portanto, não entendo muito o deslumbramento diante do advento em questão. Também não compreendo as pessoas não se embasbacarem diante da imponência de uma árvore, de uma mão, de um céu matematicamente mesclado, de um sol, da capacidade veloz de a chuva se fazer chuva.
Vou ficar sem entender.

9 de maio de 2010

por carolina fellet

Andar de ônibus é matéria-prima imprescindível para quem gosta de filosofar como uma implosão mental.
...
Carina cabe no rol dessas pessoas..
Dia desses, ela observava (perscrutava até) duas senhoras bastante humildes conversando. Ambas alteravam com a maior propriedade o idioma – português – através do qual dialogavam. “eis trocô as lâmpda?”.
Era uma sinfonia toda nova aos ouvidos.
...
O ônibus daquelas senhoras chegou e Catarina permaneceu, de longe, lendo os lábios delas. Lábios contorcionistas como os falantes de russo.
por carolina fellet

Numa sessão de auto-observação, a garota encontrou, finalmente, a causa de sua angústia: projeção. O futuro – sempre incerto – era onde ela se aconchegava. Daí, sofrimento fatal.

6 de maio de 2010

por carolina fellet

Muito frequentemente, sinto-me fora desta dimensão. Vou para o curso de inglês, para a ioga, para os compromissos, e parece que tudo isso não faz jus à minha natureza.
A impressão é de que estou dispersa da vida e de que a única gravidade que me prende a ela são minha carne e meus ossinhos.
por carolina fellet

Principalmente nos períodos que antecedem a menstruação, Ana Tereza, 34 anos, agarra-se às mandíbulas da saudade.
Sente falta da época em que ia para o sítio dos avós ladeada pelo cacho de primos, além de frutas, pão com presunto e Coca-Cola®. Lamenta muita coisa do passado, embora a gravidade de seu pesar a projete a um futuro remoto, mas fatal.
Ela fica cogitando a própria consciência nostálgica depois da vida e se remoendo pelos equívocos que cometeu, pelos prazeres que recusou e pelo excesso de pudor.
...
Angústia é filha biológica da projeção.
por carolina fellet

Amiúde, aparecem ótimos humoristas no Programa do Jô. A moda é eles se apresentarem sob o formato “stand up”.
Nessa semana, o talento que preencheu minha memória seletiva foi um gordinho que perscrutou com maestria a psique das mulheres durante o coito.
Ele simulou o tédio no qual o gênero feminino se estaciona no ínterim do ato e, como antídoto a isso, revelou que nós, mulheres, apelamos ao retoque (mental, claro!) do ambiente onde estamos copulando: “uma mão de tinta aqui cairia bem; uma mesa de centro enfeitada com vaso de tulipas salvaria este lugar da impessoalidade”.
Depois dessa representação, que até extravasa o conceito da verossimilhança e penetra o território da realidade, fiquei com pena dos homens!

4 de maio de 2010

O estar de cada coisa

por carolina fellet

Já faz quase oito meses que a solteirice é meu status. Isso implica muita coisa. Desde contar minhas descobertas e experiências durante o romance a minhas amigas - sempre que as encontro - a me aventurar nas possibilidades do final de semana.
O acontecimento que mais pesa nessa minha condição concerne ao celular. Antes, ele tremia todo anunciando a chegada de mensagens e mensagens de carinho, o que entusiasmava toda a população da minha vida interior. Agora, nas raras vezes em que ele vibra, é para destacar: “ a VIVO informa...”. Imediatamente, meu cerne processa a química da decepção.

Idiomas

por carolina fellet

Existem idiomas que são tão passionais. Pelo que ouço do japonês – língua –, percebo que seus falantes empregam tanto sentimento em cada sílaba que gesticulam.

O vendedor de paçoca

por carolina fellet

Todo excesso do mundo foi concentrado no cara que vende paçoca pelas ruas de Juiz de Fora.

3 de maio de 2010

por carolina fellet

Homem alia-se a uma magra para dar satisfação social. Na hora da sapecada, porém, prefere a fartura de 500g de uma picanha.
por carolina fellet

O incômodo-chefe na visita ao ginecologista, em vez de ser a completa nudez diante das vistas do médico, é ter que falar de si objetivamente, como cada ingrediente da receita exposto na bancada da cozinha antes da mistura. “Estou a fim de transar com meu namorado. Qual a medida devo tomar?”. Quando o problema é gástrico, ou oftalmológico, ou ortopédico, o paciente fica imune a grandes exposições, já que não precisa cogitar muito da sua vida íntima.
... ... ...
Por que é que todo mundo tem a necessidade de se blindar? Que ouro é esse que necessita de esconderijo? Que horas acionar o botão do “isso eu posso falar”? Mesquinharia consigo mesmo sempre deixa a própria piscina cheia de ratos. Depois, no processo de recuperação, só mesmo uma diálise profunda.

2 de maio de 2010

por carolina fellet

Sábado à noite.
As duas são irmãs siamesas por afinidade.
Mal o Tempo se vestiu de sábado, elas já entram no dilema “com que roupa?”.
Nesse dia, porém, resolveram se aquietar em casa.
Uma foi silêncio aparente, embora congestionamento de memórias; a outra, três latas de Skol®.
É que na semana que vem será o casório de uma amiga das duas,e elas querem resguardar as energias.
por carolina fellet

Perante qualquer compromisso – de segunda a segunda, diante de agenda monótona ou de uma bela e frutífera festa de casamento – lá me fareja o acaso.

Enfim 2010

por carolina fellet

Em janeiro, geralmente as pessoas são dispensadas da rotina. E, como não se aguentam nuas e cruas, inventam novos compromissos para preencher as férias. “Resorts”, voos
de asa-delta, praias, montanhas.
Por um mês, há um transe generalizado de si mesmo. A voz interior dos indivíduos cala-se, a fim de dar espaço ao que lhes é extrínseco. Para estender essa letargia, em fevereiro, ainda tem o carnaval.
...
Somente depois da quarta-feira de cinzas é que as pessoas enterram seu silêncio, são reanimadas pelo muque do calendário e voltam a si.
Bem-vindo a 2010.

Eu registro, tu registras, ele registra

por Carolina Fellet
Registrar é moda que supera até o “rebolation”.
Futuros papais abdicam-se da emoção do parto do primogênito, a fim de registrar-lhe a vinda à luz.
Os primeiros passos trôpegos de uma criancinha descartam a reação dos possíveis espectadores e se rendem aos olhos biônicos de uma câmera digital.
Formatura, casamento, “rave”, caminhada ecológica. Tudo foi transferido para uma memória distaaaaaaaante. O presente está inalcançável.
Que futuro prometido será esse?

365 dias de carnaval

por Carolina Fellet

Na fila, uma postura.
Para o ascensorista, bom dia.
Com o namorado, entusiasmo.
Sinalizar a chegada
E despedir-se na saída.

Com o pai, assuntos neutros.
Com os amigos, palavrão.
Refeição no restaurante: talheres.
Pizza em casa se come com a mão.

No Rio, malandragem.
Em Minas, autoproteção.

No final da maratona de cada dia,
Haja ressaca de carnaval.

29 de abril de 2010

por carolina fellet

Arrependimento às vezes vem após uma palavra dita e já diluída pelo tempo e transformada em pó de asfalto.
Imagine diante de uma tatuagem: aquele borrão multicolorido o perseguindo como um pavão sempre aberto.

28 de abril de 2010

Sobre a timidez

por carolina fellet

Tímidos são, a princípio, grandes presunçosos. Eles acham que o mundo está sempre prestando atenção neles. Daí, qualquer tropeço poder ser fatal.

27 de abril de 2010

por carolina fellet

Papai está com suspeita de dengue. Para a confirmação, o médico pediu-lhe um exame de sangue. Hoje cedinho, uma técnica do laboratório veio à minha casa realizar a coleta. Quando olhei a maleta dela cheia de sangue, pensei nos morcegos que rondam meu bairro.

26 de abril de 2010

Fila

por carolina fellet

Fila é um bom lugar para destrinchar o comportamento humano. Uma hora de fila dá para levantar hipóteses a uma futura teoria da psicologia.
.....
Meu campo visual engloba um casal que, pela fisionomia, está se desentendendo. Aciono minha atenção e aproximo os dois de mim, como um pescador com sua rede que fisga peixes no mar. De repente, descubro que o motivo da rixa é banal: ela quer fumar um cigarrinho e ele não quer que ela fume. O rapaz não está se preocupando com os efeitos nocivos do tabagismo, e sim em se firmar macho, vigilante e sobressalente. Por isso, ele toma o cigarro da mão da companheira, joga-o no chão e pisa-lhe reduzindo todas as possibilidades do prazerzinho da amada.
Ambos saem da fila que os levaria à boate carregando consigo uma promessa de discórdia.
Pequenos episódios que trazem à tona farelos de primitivismo.

Noitada e a outra dimensão

por carolina fellet

Muros de rímel,
Gloss,
Blush,
Cool Water®.

Casais se desentendendo.
Consciência tecnologicamente alterada.

Tudo impelido pela gravidade da volúpia.

O vestido mais sexy,
O vocabulário mais malicioso,
O beijo mais molhado.

Outra dimensão.

No regresso,
Perna quebrada,
Cara ralada,
Todo âmago muito machucado.

Segunda-feira.

25 de abril de 2010

por carolina fellet

Quando Francisca fez 17 anos, ganhou de presente um bolo enfeitado por uma foto de seu rosto impressa em papel comestível. A princípio, adorou a ideia. Porém, quando presenciou todo mundo comendo sua imagem, sentiu-se vulgar.

22 de abril de 2010

por carolina fellet

É muito agressivo o cheiro da sua evacuada sair do banheiro rumo às narinas de quem está/vive à sua volta.
Queria ter as rédeas dos odores.

Juiz de Fora, 22 de abril de 2010

por carolina fellet

Há dias, principalmente quando a família se reúne durante o feriado ou fim de semana no mesmo ambiente, em que sentimentos e pensamentos ficam latentes. Apenas ímpetos vêm à praia... Todo o resto fica num submarino.

Dupla

por carolina fellet

O grande potencial do abacaxi – seu sabor – só existe porque há um paladar que lhe fica à espera. O azul do céu é a visão de quem o vê. A voz é a exploração de uma área da audição.
A vida vem sempre em dupla.

Salamandra siberiana

por carolina fellet

Diante desta miscelânea de ideias que trafegam na minha consciência, um assunto recém-chegado tem me tomado a atenção. É a salamandra siberiana. Ela vive até sob - 40ºC e, curiosamente, congela-se por um período, deixando todas as suas atividades biológicas em “stand by”. Depois volta à vida como alguém que saiu para comprar pão e em quinze minutos está em casa de novo.
Como é que acontece esse controle? On. Off. Salamandra viva. Salamandra em coma. Salamandra viva. Salamandra em coma.
Embora alguns não percebam, tudo é puro desconhecimento.

21 de abril de 2010

Escrever não seca

por carolina fellet
Desde meus contatos incipientes com as letras, enxerguei nelas um atalho que me levava ao “extrapolar”.
De repente, conseguia extravasar através de cartinhas que escrevia à vovó e a toda família. Oficializaram-me como a escrevente dos “Fellet”. Até hoje sou eu quem assina cartões de aniversário, casamento e comemorações que acontecem no meu antro.
Fugindo desse percurso mais informal da escrita, quis fazer uma rota mais formal, a fim de participar de concursos literários e algumas publicações.
Isso, depois de ter sentido, subitamente, uma forte dor no peito no meio de uma madrugada. Porque, a partir desse episódio, comecei a vislumbrar eternidade na vida; o que me pareceu muito promissor para as letras.
Tudo me parecia incessante. Durante uns cinco anos, destrinchei as frutas, os céus, os sons e a metafísica, enfim.
Passada essa temporada, gradativamente, fui me cansando do tema.
Cheguei a pensar que ele era finito e que, portanto, meu grande prazer de escrever estava ameaçado.
Curiosamente, não tive medo.
Meus escritos ficaram meio ralos durante alguns meses, embora vivos.
Algum tempo se passou desse quase-coma e, involuntariamente, a matéria-prima dos meus textos alterou sua natureza.
Abdiquei-me de assuntos transcendentais – como a flor que abre mão de sê-lo e segue rumo à condição de fruto – e me inclinei ao saldo dos diálogos que mantenho com as pessoas e à observação e ao efeito das circunstâncias que interceptam meu dia a dia.
Escrever não seca!
por carolina fellet

Ojeriza a relações que caem no esquema dos ratos. Hora para telefonar para o amante, hora para ir à casa da sogra, hora para o entretenimento, hora para o beijo de língua, hora para o sexo. Buquê no dia seguinte.
Um pouco de incerteza é imprescindível para que um relacionamento valha a pena. Porque ter sempre uma boca a postos, um abraço o esperando, uma lascívia... Vira rotina. E desta todos se cansam muito rapidamente.
Interessante é: será que ele vai me ligar no sábado? Ligo ou não ligo para chamá-lo para o cinema? Meu beijo foi bom? Acho que a língua poderia ter trabalhado com mais esmero.

18 de abril de 2010

Cólica menstrual

por carolina fellet

É tão transcendental a tal da cólica menstrual.
O corpo que a recepciona segue seu curso e suas obrigações biológicas e, subitamente, é interceptado pela dor da eliminação de um óvulo. Promessa de vida que se vai e nos acena do vaso sanitário.

15 de abril de 2010

por carolina fellet

Pessoas marcantes são atemporais. Se elas nasceram em 1930 ou no século XXI não importa. Elas não se restringem ao tempo em que vivem. Vão além. Vão muito além.
por carolina fellet

Mamãe sempre me ensinou a compreender as pessoas e seus respectivos defeitos. A intenção era me modelar conforme as proporções da bondade.
No percurso dessa minha temporada pela vida, vou encontrando desafetos e intempéries.
De repente, toda a domesticação feita pela mamãe é testada.
Penso e repenso.
Contratempos são importantes para que nos atentemos a nossas próprias reações e descubramos o divino que nos habita.

13 de abril de 2010

por carolina fellet

Sob algumas perspectivas, escola emburrece.
A relação que o aluno desenvolve com o livro, por exemplo, a qual é incitada pelos professores, é falha, uma vez que aquele deve extrair deste citações e citações, a fim, principalmente, de complementar resposta de prova.
Ora! Ficar perscrutando livro para repetir o que lhe está escrito não faz jus à inteligência. Ao contrário, engessa a atividade do pensamento.
O barato da leitura é processar-lhe o conteúdo na tentativa de desenvolver a própria dicção. Seja no pensamento, na fala. Seja na comunicação, enfim.

Biópsia, eletro e afins

por carolina fellet

Para a medicina moderna, a biópsia é como o deus todo-poderoso que decide o destino das almas: foi bonzinho e pagou impostos, vai para o céu; foi mauzinho e não cedeu o assento para o velhinho no ônibus, vai para o inferno.
Se se der um espirro, imediatamente, o doutô lhe falará: “vou recolher esse material e enviá-lo à biópsia”.
Independente de o resultado ser bom ou ruim, o paciente se sente um tanto quanto glamourizado por ter feito esse exame. Dá status dizer aos amigos num evento social: “cara, fiz uma biópsia”. Equivale a dizer “tenho um Chrysler” a uma loira gostosa.
O mesmo acontece com o eletro.
Principalmente se um jovem o fizer. A adrenalina que gira em torno da feitura de um eletro vai além do frisson de se voar de asa-delta.
Caso um playboy queira contar vantagem a um amigo, nada mais eficaz que dizer a este: “manu, fiz um eletro”. Isso é mais potente que revelar ter comido 15 piriguetes no JF Folia.
Por fim, tem o tal do Rivotril® 2mg, né?!
Que convulsão marítima será essa que ninguém consegue conter por conta própria?
É preciso um freio biônico à tristeza e a sentimentos afins.
Antigamente, tristeza era matéria-prima indispensável aos poetas e pensadores.
Hoje ela é reprimida à beça.
Quanto protesto à Natureza.

12 de abril de 2010

por carolina fellet

Sábado à noite todo mundo quer desencalhar. Maluzinha põe o vestido que já veio com a Pombagira da loja e vai para a balada. Duduzinho chega na janela para paquerar as transeuntes. Vovô Reinaldo capricha na escovação da dentadura para sair com a viúva do coronel Silveira.
As virgens suspiram por seus amores platônicos da televisão.
No domingo bate aquela ressaca da sem-vergonhice.

O grau de civilidade

por carolina fellet

Não sou nenhuma expert em se tratando de relação amorosa. Até pela data de minha estreia nela: o primeiro beijo só aconteceu aos 17 anos.
Porém, hoje, à beira dos 25, já posso trazer à luz um item imprescindível a um pretenso parceiro: seu grau de civilidade.
Trogloditas que desejam consumir suas presas com a velocidade de um “fast-food” me repelem profundamente.
Se o ambiente onde vivo e por onde costumo passar fosse povoado por rapazes dessa estirpe meramente, eu iria canalizar meus instintos para a caridade e para pesquisas profundas sobre temas que me interessam.

9 de abril de 2010

por carolina fellet

Onça e sua respectiva braveza
Lesma e sua textura molenga
Bem-te-vi e sua acústica
Eu e minhas naturezas misteriosas.

A quitanda e o divino

por carolina fellet

Desde que meus olhos – não os olhos-órgãos, e sim os superolhos da alma – se afiaram para vislumbrar grandiosidade na vida, passei a achar quitanda uma morada de Deus.
Isso porque ela é um antro de cores, texturas, aromas e formas.
A melancia e sua genética generosa, por exemplo, transportam minha imaginação para a origem da vida.
De onde vêm as cores?
As formas?
E os aromas e texturas?

8 de abril de 2010

Revista do Faustão e a descoberta da decepção

por carolina fellet

Quando eu era criança, sempre que mamãe saía para a rua, ela me trazia um agrado. Docinho de carroça, bloquinho de anotação, bolsinha da Hello Kitty.
Certa vez, o presente veio em um envelope. Imaginei que fosse um papel de carta. Mas mamãe negou que o fosse. Ainda ficou fazendo mistérios com o embrulho.
Minha expectativa já estava quase supurada quando ela me autorizou a abrir o agrado. Subitamente, a quebra de expectativa: era uma revista do Faustão. ... ... ...
Preenchendo um formulário que vinha anexado a ela, concorria-se a um caminhão cheio de eletrodomésticos.
Pergunta:
De que forma um fogão, uma geladeira, uma máquina de lavar roupas poderiam alegrar uma criança?
Naquele dia, senti a química da decepção no meu corpo.
Nunca mais fui a mesma!

Teoria para os carecas

por carolina fellet

Tenho uma teoria para os carecas. Bem sei que, toda vez que se lança um palpite sobre algum tema, fica-se sujeito a uma palma de mão ávida para dar um tapa na cara alheia.
Tudo bem. Ofereço-lhe aqui uma bochecha.
...
Para estar bonito, o cabelo demanda hormônio. Prova disso são alguns anticoncepcionais que não só blindam a mulher contra gravidez, mas também lhe favorecem o viço das madeixas.
Então, se um homem é calvo, muito do hormônio que lhe seria destinado ao cabelo, poderá se concentrar na região pélvica.
Já fico imaginando a parceira desse careca.
Fatigada de tanto copular.

7 de abril de 2010

por carolina fellet

Seriedade é estupidez.
Porque
Cada aurora significa 1 cm
De maior proximidade com a cova.

Legal
É usufruir dos sentidos
Interagindo com o Cosmo
E processando informação.
por carolina fellet

Sou a procuradora da mamãe. Quando ela não está em casa sou eu quem põe a mesa, lava a louça, esquenta o leite e descasca o mamão.
Ô, vida!

6 de abril de 2010

por carolina fellet

Um metro e oitenta centímetros.
Para mulher, é bonitinho na passarela. Como transeunte, porém, fica parecendo girafa foragida do zoológico.

5 de abril de 2010

Opinião

por carolina fellet

Fórmula 1 é o esporte mais sem-propósito que tem. Sob uma velocidade biônica, pilotos disputam quem será o vencedor da corrida. As onças com suas respectivas velocidades merecem respeito, porque correr, no contexto delas, não é antinatural. Já os pilotos...

4 de abril de 2010

por carolina fellet

Meus escritos ganharam sustância a partir do dia em que senti uma enorme dor no peito. Desde então, comecei a vislumbrar eternidade na vida.

3 de abril de 2010

Oftalmologia

por carolina fellet

Por muito tempo achei que o efeito das coisas sobre mim fosse diretamente proporcional a meu empenho com elas. Se eu amasse alguém, portanto, ele me amaria sob a mesma voltagem de sentimento. Porém, cresci e este processo levou consigo um pouco da minha miopia. Bem sei, hoje, que sentimentos não podem ser colocados em equação.
por carolina fellet

Já me embebedei de um único ímpeto. E a ressaca foi exageradamente duradoura.

Sobre a carência

por carolina fellet

A visão por si só se sustenta. Não é preciso que eu recorra a um auxílio externo para que ela enxergue. Com outros órgãos isso também acontece. O coração pulsa por conta própria. O fígado metaboliza o que lhe chega.
No entanto, na seção do invisível, existe uma frota que depende de um combustível extrínseco para sair do nosso corredor de hospital. É a tal da carência.

2 de abril de 2010

por carolina fellet

Tantos vivem em outra dimensão,
Para evitar pecados e enganos dessa Vida.

Abdicam-se dos prazeres,
De pequenos (e necessários) deslizes
Para serem ovacionados na temporada celestial.

Ficar levando vidinha de alma –
Arrasta daqui para lá –
Não me parece muito interessante
Quando ainda se é matéria.

1 de abril de 2010

por carolina fellet

Em se tratando de mulheres, a gravidez é o grande boicote à galinhagem.