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18 de setembro de 2010
Natureza humana
Nelson Rodrigues
17 de setembro de 2010
Não às partituras
“A” é geografia de som.
Assim como a clave de sol
E toda a partitura o são.
Bom mesmo é musicar a vida
A partir das batidas do coração.
9 de setembro de 2010
Pensamento do dia
por carolina fellet
Quem se atenta à metafísica, por mais que se ocupe com alguma burocraciazinha deste mundo material, jamais se priva de vislumbrar um pouco da eternidade
3 de setembro de 2010
Vidinha de alma
por carolina fellet
Insisto em escrever sobre a vida das almas. É que tem muita gente que insiste em anestesiar esta temporada orgânica e se arremessar a outra dimensão. Poxa! Vidinha de alma deve ser muito chata. Sem região erógena... E sem brigadeiro.
31 de agosto de 2010
Curiosidades do mundo Pós-Moderno
Ex
Sobre a dependência química
26 de agosto de 2010
24 de agosto de 2010
21 de agosto de 2010
Homens: são todos iguais?
por carolina fellet
Decepção amorosa é tão fatal quanto o despontar de um par de seios – para as mocinhas. Linda ou feia, gorda ou magra, inteligente ou burra, animada ou depressiva, ela sempre aparece em determinado momento da vida de qualquer menina.
Àquelas que empreendem muita expectativa no parceiro, a primeira frustração amorosa pode ser letal. Porque em vez de o tempo seguir seu status natural e aliviar a dor da perda – ou de traição e maltrato – ele parece potencializá-la. Consequentemente, liquida a saúde (ou a própria vida) de quem esteve sob suas rédeas.
Assim que me estreei na seção da paquera, estive sujeita a seus louros e a suas intempéries, inevitavelmente. E o que pude ponderar disso é que os conflitos se enraizavam em mim com muito mais facilidade que as glórias.
Por anos a fio, ficava imersa nas águas paradas da tristeza; sem vislumbrar melhora e novas perspectivas. Encarava o desleixo masculino como consequência de uma falha única e exclusivamente minha.
Porém, como na Natureza, as pessoas variam de estação: amadurecem, atentam-se a outros sentidos, mudam de gosto, desenvolvem expectativas diferentes.
Comigo não foi diferente.
Meu âmago conseguiu – com os destroços das minhas relações malsucedidas – me transportar à razão.
Hoje racionalizo meus fracassos, principalmente os amorosos, e penso: tudo de extraordinário que o outro possui é mais uma projeção nossa em relação a ele, e menos uma verdade autossuficiente.
Em suma: os homens são, sim, todos iguais. Os “melhores” são apenas o produto de nosso investimento altruísta neles – bonzinho, bonitinho, trabalhadorzinho...
12 de agosto de 2010
Tatuagem e piercing: novas perspectivas
por Carolina Fellet
Quando a pauta desta matéria foi pensada, sua principal intenção era associar as intervenções estéticas em questão ao fetichismo. Afinal, o próprio habitat das tattoos e dos piercings – a pele – é cheio de regiões erógenas.
No entanto, o foco pretendido cedeu espaço a outras interpretações a essas alterações estéticas.
....
Existem muitos registros que relacionam as primeiras tatuagens, feitas entre 4000 e
Na segunda metade do século XIX, o Governo inglês utilizou a tatuagem como forma de identificação de criminosos. Posteriormente, no Brasil, a partir de 1960, os estabelecimentos em que as tatuagens eram feitas situavam-se nas imediações dos portos, onde funcionava também a zona boêmia. Não tardou para que as prostitutas se rendessem aos adereços cravados na própria pele. Por esses motivos, principalmente, é que a tatuagem, por muito tempo, esteve associada à marginalidade.
Atualmente, alterações no corpo são cada vez mais comuns; ora para homogeneizar as pessoas – quase todos querem estar magros e não medem consequências para chegar às medidas desejadas –, ora para diferenciá-las, através de cortes e tintura de cabelo, de tatuagens e perfurações.
O estudante, DJ e pretenso funcionário público Rafael Kegele Lignani, 23 anos, fez seu primeiro piercing aos 18, assim que saiu do colégio ortodoxo onde estudava. “Piercing dentro daquela escola era sinônimo de problemas homéricos”. A primeira tatuagem ele fez por volta dos 20 anos.
Hoje em dia, as perfurações e tattoos de Lignani formam uma família: são dois alargadores – um em cada orelha; um piercing na sobrancelha e outro no queixo. Além de três tatuagens: uma no ombro e mais duas – uma em cada panturrilha.
O porquê dessas intervenções estéticas o jovem atribui, genericamente, ao charme que lhes é natural, mas faz algumas restrições: “uma tatuagem de uma índia ou a de um rosto mal-executado não podem ser incluídas nessa categoria de intervenções extremamente charmosas”.
Com a jornalista Vivian Oliveira Ribeiro,
No seu atual balanço de perfurações e desenhos, encontram-se três tatuagens e três piercings. Cada um deles representa para ela um gesto de vaidade.
Também jornalista, Roberta Barreto, 24, colocou o primeiro piercing muito precocemente; aos 13 anos. O motivo? Um pacto com as colegas da época – que também se submeteram a perfurações – cujo lema era não se afastarem umas das outras.
Aos 21 anos, Roberta tatuou no pé a frase “Papai, obrigada!”, em homenagem a seu falecido e saudoso pai. Hoje, ela já tem uma pequena coleção de alterações feitas na própria pele.
Para ela, tatuagem é muito mais que modismo e ato de vaidade. “Não creio que haja tantas pessoas que marcam o corpo apenas para parecer moderno”.
O que diz o especialista
Segundo o tatuador Hugo de Oliveira Lemos, 24, tatuar é “traduzir a ideia de uma pessoa para um desenho no corpo”, o que ele classifica como expressão artística. O significado dado a esta cabe ao tatuado, que, em muitos casos, escolhe o desenho a ser feito no próprio corpo sob influência da mídia – em especial da televisão – e da situação por que está passando.
Quem não se lembra da tatuagem que a atriz Deborah Secco fez em homenagem ao namorado da época Falcão? Depois de aparecer no Fantástico falando sobre o gesto de amor, muitas “deboras” fizeram tattoos com os nomes de seus amados em diferentes partes do corpo.
De acordo com Hugo, os preços das tatuagens variam. Levam-se em conta o tamanho, o local, o material usado. O preço mínimo cobrado por um profissional que utiliza produtos de qualidade é em torno de R$60,00.
E você, já decidiu a parte do corpo que vai abrigar sua tattoo?
10 de agosto de 2010
Piriguetes
Sobre falar ao telefone
por carolina fellet
Meu trauma de falar ao telefone talvez seja explicado pelo naipe de gente – sem civilidade e sem objetividade – que trafega na linha.
No fim das contas, esse pessoal serve de antídoto para minhas inseguranças.
6 de agosto de 2010
por carolina fellet
Com a agressividade de um bandido sob o efeito da cocaína, o rapaz perguntou à mocinha, na balada: “tem namorado”? E ela lhe respondeu, hesitante: “t-tenho; te-nho sim”. E o homem insistiu: “tá falando sério ou tá me dichavando”? Quase que ela perguntou se ele queria só o cordão ou levaria os anéis também.
4 de agosto de 2010
3 de agosto de 2010
O ipê
por carolina fellet
Sabe aqueles dias em que, numa súbita reflexão sobre a vida, a gente diagnostica um vazio total; nada de perspectivas? E sair da inércia é tão arriscado que é preferível permanecer onde está, porque qualquer movimento pode ser letal?
Transitar pela casa de um lado a outro apenas cumprindo a natureza humana. Essa é a ação que se espera dos melancólicos, os quais se dividem em dois grupos: os melancólicos-burros e os melancólicos-inteligentes.
Os primeiros se matam precocemente; sem antes cogitar a possibilidade – positiva ou negativa – de vida pós-túmulo. Já os últimos aproveitam dos recursos de que dispõem desde o nascimento para transformar as percepções em algum feito.
Rejane é uma melancólica-inteligente.
Por isso, em um de seus acessos de melancolia, ela foi para a sacada de sua casa para observar – entre transeuntes e automóveis – o ânimo da natureza. Olhou primeiro o céu, depois uns arbustos que formavam uma cerca natural em toda a extensão da rua. Por fim, seu campo visual foi invadido por um ipê amarelo e recém-nascido num quadrado de terra em meio à calçada para pedestres.
A imposição daquela vida ali no meio-fio transportou Rejane a 360º de horizonte.
...
Nunca mais ela se esqueceu do ipê de sua rua.
2 de agosto de 2010
Sobre a vingança
por carolina fellet
Não arrisco minhas delicadas mãozinhas em empreitadas de vingança. Porém, quando a Natureza resolve fazê-lo em meu nome, fico-lhe muito grata.
30 de julho de 2010
Os excessos da natureza surgem sob variados fôlegos: através do ar, do mar, da chuva, do sol...
............
As duas irmãs foram para o restaurante – como compensação à ida a uma colação de grau – e fizeram o pedido.
O ínterim da espera foi nutrido pela incontinência verbal-volumétrica de uma jovem senhora que lhes estava sentada atrás.
A mulher conseguia conectar a temática “células-tronco” à natureza extraordinária das salamandras siberianas. Como acontece nessas pesquisas virtuais, em que as pessoas acessam o Google® buscando o horóscopo do dia e acabam se inteirando do novo técnico da seleção brasileira.
Além da variedade de assuntos, a jovem senhora contava seus casos num volume digno de quebrar taças.
Parece que existe uma relação entre falar muito e falar alto. Assim como quem tem incontinência fecal e acaba deixando escapulir um pouco de xixi em cada incontrolável evacuada.
27 de julho de 2010
Pode parecer mórbido
Estava dentro do carro, na avenida principal da cidade, quando um cego foi incorporado pelo meu campo visual. Ele vinha vindo ladeado por três pessoas que lhe davam suporte.
Assim que o vi, tive a reação que todo mundo tem: compaixão. Afinal, a minha cruz – comparada à dele – é de ouro 18 quilates.
Porém, à medida que o engarrafamento inquietava minhas ideias, vislumbrei algumas regalias que só os deficientes possuem.
Assento preferencial, direito a uma fatiazinha de orçamento público, carinho – ou pelo menos respeito – quase unânime das pessoas.
Enquanto quem vem à luz com “tudo nos trinques” é obrigado a exercer as virtudes de que fora incumbido pela Natureza. Tarefa difícil.
Presídio
por carolina fellet
Penitenciária subestima essa multimídia orgânica que são os sentidos. Para exercer a visão, paredes de concreto. Para o olfato, a falta de higiene dos sanitários. Para o paladar, comida insípida ou azeda. Para ouvir e tatear: o Nada.
Quem está preso deixa de exercer o status humano.
Os países baixos da tia Janete
por carolina fellet
O bicho humano, além de ser cíclico diante das determinações da natureza, o é também perante os hábitos adquiridos.
Tem mulheres que cismam com um corte de cabelo e o usam por anos a fio, até se lhe cansarem um dia e mudarem o alvo da paranoia. Aí, elegem uma roupa, um sapato ou uma bijuteria para ser uma extensão delas próprias.
Entre o público masculino, existe sempre a preocupação de conquistar o mulheril. Consequentemente, a tática para consegui-lo é superdesejada por ele. A que for mais persuasiva será a eleita. Caso seja perfume importado... Dá-lhe tina de perfume importado.
Tia Janete é um exemplo clássico de que somos todos cíclicos. Lá pelos 20 e poucos, após ter violado o território do sexo, ela passou a escolher os parceiros de transa a partir de um critério étnico-sazonal: no verão, copulava com descendentes de italiano; no inverno, com japoneses radicados no Brasil há mais de cinco anos. Nas outras estações, optava por brasileiros mesmo, mas de diferentes estados do país.
Pode-se afirmar que a região pélvica – ouvi dizer que existem neurônios espalhados por todo o corpo humano – de tia Janete tem muita bagagem cultural.
23 de julho de 2010
19 de julho de 2010
17 de julho de 2010
18 de julho
16 de julho de 2010
por carolina fellet
Quando se deseja conquistar alguém, talvez por um automatismo embutido no inconsciente, a pessoa apela a um dos próprios predicados e tenta mostrá-lo ao pretenso-parceiro. Os dotados de corpos bonitos apelam a roupas que os realçam. Quem é inteligente investe na lábia. Os vulgares correm para o trópico da própria vulgaridade e ficam lá até pintar a melhor oportunidade voluptuosa. E os sem-jeito permanecem à espera de um amor trazido pela metafísica.
15 de julho de 2010
A língua do "igualzim"
por carolina fellet
Conseguir contabilizar o número de ideias que trafegam pela nossa mente diariamente demanda muita concentração. No ônibus, em casa, no trabalho, na faculdade... Sempre somos uma rodovia demasiadamente movimentada por informações e respectivas reações a elas. Na hora de trazer à luz um dos tantos pensamentos que compõem a nossa psique, muita gente se embaralha. Afinal, não é fácil escolher o melhor assunto para explorar num diálogo, principalmente se ele for inesperado. Por isso, vejo gentes e gentes, na tentativa de equacionar as ideias e introduzir um assunto, dizer: “igualzim (leia-se “igualzinho)”. “Igualzim, saí com o Nenzim pra beber uma cerveja e acabei atrasando pro serviço de manhã”.
Tem também o recurso do “tipo assim”, do “ô, véi”... Todos com a mesma intenção: a de afunilar os tantos e tantos pensamentos que invadem mentes e mentes diariamente, para trazê-los ao conhecimento de outrem. .
12 de julho de 2010
Choque de gerações
E a mãe, superpreocupada, concentra toda a sua atenção na queda da Bolsa de Valores.
10 de julho de 2010
9 de julho de 2010
8 de julho de 2010
2 de julho de 2010
Muita gente tem vindo para a vida sem a promessa dos sisos no DNA. Há tecidos que não precisam do ferro quente para ficar lisos. o GPS esnobou o cérebro dos taxistas. Ainda que as manicures representem o meio de comunicação mais eficaz, a internet transmite os fatos em tempo real.
O mundo está mais prático. Mas um costume já carequinha e banguelinha se arrasta e se prolifera rumo à consciência das pessoas: a busca por um refúgio.
Há quem acredite que a recompensa a todo cotidiano duro esteja num bom beijo de língua que eleva a voltagem da libido. Então, vassalo dessa crença, esse alguém está sempre atrás de uma presa. Tem os que tentam se acertar com a família - outorgada pelo Divino e muitas vezes tão encalacrada entre si. Há os que se inclinam à caridade e, por fim, os descrentes de tudo,que vislumbram o próprio porto seguro no inanimado.
30 de junho de 2010
O soco
Ana Cecília fora configurada – por Sula, sua mãe, – para agir com diplomacia sempre. Contrariar a expectativa de um interlocutor qualquer era uma infração gravíssima dentro da constituição da família.
Com isso, a menina cresceu regida pela obrigatoriedade de ser infinitamente supereducada perante as circunstâncias – o que lhe ameaçou o alcance dos sentidos.
Até os vinte e poucos anos, recebia as pessoas e as situações que lhe interceptavam a vida sem tecer-lhes críticas nem lhes apresentar resistência. Porém, à medida que paulatinamente foi violando a dimensão do mundo adulto, numa mera inclinação à própria natureza psicológica, agiu conforme um palanque que empresta o megafone às impressões que lhe trafegam. Adeus ensinamento de dona Sula. Abaixo a diplomacia.
...
Já bastante aconchegada às medidas da estação “adulto”, nas férias de 2008, Ana Cecília – neste momento com 28 anos – preparava-se para um baile de formatura de um amigo muito querido.
Marcou cabelo e maquiagem no salão, comprou um bolero de pele de coelho para compor o vestido de gala e proteger-se do frio de julho. Encheu-se de boas expectativas, inclusive a de conhecer um rapaz cheio de predicados, já que estava solteira fazia cinco meses.
A maratona de ir para salão fazer cabelo e maquiagem aliada ao período pré-menstrual culminou em enxaqueca.
Apesar de ter ojeriza a remédios e seus efeitos colaterais, Ana Cecília se rendeu à possibilidade de serenidade (biônica) trazida pela Neosaldina®. E seguiu rumo ao tão esperado baile.
Os movimentos de pescoço seguidos por uma pausa vindos de alguns rapazes em direção a ela fizeram-na sentir-se bonita. E olhares lubrificados com desdém oriundos de meia dúzia de mulheres fizeram-na sentir-se ainda mais bonita.
Porém, essa zona de conforto durou apenas os 45 do primeiro tempo.
A moça estava enraizada na pista de dança – através de movimentos ritmados conforme a música – quando, subitamente, um careca superbaixinho – não alcançava o busto de Ana – e superestranho a abordou e, na frequência da azaração, balbuciou-lhe dez palavras elogiosas.
Para uma mulher bonita, embonecada, regada a perfume importado, a abordagem teve o efeito de um soco. O careca estranho se equiparou a Ana Cecília, já que ficou confortável para cantá-la. Em contrapartida, ela sentiu-se a estranheza em carne e osso.
Imediatamente, correu para o banheiro do local, procurou um espelho para tentar achar onde estava o erro contido na própria estampa.
27 de junho de 2010
25 de junho de 2010
23 de junho de 2010
Profissão
A importância da profissão na vida de uma pessoa vai muito além de subsistência. O efeito moral - positivo - é o maior triunfo de quem tem um emprego.
A derrota
Ninguém está preparado para a derrota. Principalmente em se tratando de território amoroso. A natureza selvagem e inerente a qualquer um de nós fica completamente ameaçada.
20 de junho de 2010
17 de junho de 2010
Para o F.M.
Querido F.M.,
Já tem uns 12 anos que você transita pelas áreas mais privilegiadas da minha memória. Ou seria da minha vontade? Sei que o englobei para mim involuntariamente talvez. Assim como meu sentido acata a propaganda da Coca-Cola®. No emaranhado de compromissos, sentimentos, ímpetos, correntezas contrárias à vontade do meu cerne, existe um espaço que o aconchega, ainda que eu não faça opções.
Depois desse tempo todo de sentimento unilateral e platônico, como no videogame, consegui sair da dimensão da perspectiva e trazê-lo para bem perto de mim; para dentro da minha boca e dos meus desejos, neste momento, repercutidos em eletricidade no corpo.
E ai foram dois encontros surpreendentes. O primeiro menos que o segundo. E uma pane aconteceu no desenrolar dessa história que mal teve fôlego para começar. Você se esquivou das minhas vistas, embora esteja inteiriço e incrustado nas minhas moléculas. Não resisti e lhe enviei uma mensagem. E um silêncio turbulento me veio como resposta. Isso não tem tanta importância. Eu confesso-lhe que gosto de me enfurnar em áreas de natureza desconhecida. E um namoro de quatro anos me deixou muito amortecida para vários impactos dessa vida.
15 de junho de 2010
Copa do Mundo: sentimento universal
Quem gosta da profissão é assim: canaliza o suco das experiências ao próprio ofício. É praxe um empresário vislumbrar lucro em tudo; um professor de português corrigir – ainda que mentalmente – os erros ortográficos das placas de trânsito.
Com um pretenso-escritor não é diferente. Tudo lhe serve de matéria-prima para um texto promissor. Conversa fiada, situação embaraçosa, primeiro encontro, corrupção, o grotesco e, obviamente, o auê trazido pela Copa.
Sob um efeito manada, ignorante do porquê, embora volúvel como a água, fico superempolgada com a seleção brasileira nessa época. Empreendo minha adrenalina, minha expectativa e concentro todos os meus instintos e ímpetos no molejo da bola.
Depois que a partida termina fico pensando: por que é que a vibração com o futebol permanece dentro de mim como uma habilidade nata, ainda que não o seja?
13 de junho de 2010
O que angariei no Dia dos Namorados
Se eu estivesse namorando provavelmente não conseguiria perscrutar o que acontece com os enamorados na data que os homenageia. Já que estaria envolvida em comprar presente para o parceiro e em me embonecar para o encontro - sempre promissor - que acontece entre os amantes nesse dia.
A solteirice me possibilitou uma “supervisão” e, por conseguinte, um bom balanço sobre o 12 de junho.
Uma rápida pesquisa no Google me trouxe à luz o porquê da comemoração. É que as vendas caíam muito nessa época do ano e os comerciantes, sempre salivando lucro, inventaram a campanha: “presenteie quem você ama”. Como brasileiro é prolixo para interpretar texto, ele não só presenteou o cônjuge com uma joia ou algo equivalente, como também foi para restaurante e motel. 12 vezes sem juros.
Quantos e quantos ex-namorados não estão pagando contas de um namoro que já é pretérito? Uma arrastação de cadáver danada.
E as portas de restaurante? Abarrotadas de gente megaproduzida e pronta para declarar um amor cheio de tropeço embora, neste momento, travestido da melhor das boas intenções.
Engarrafamento nos motéis. Haverá, com certeza, uma série dissonante de gozos por ali. Namorados que exageram no timbre a fim de corroborar o amor que sentem pelas parceiras. E namoradas com a melhor lingerie. Com a melhor performance e dançando creu na velocidade 100.
Dia dos Namorados é presentear, jantar e transar. Ô vidinha de rato!!!
8 de junho de 2010
Ensaio empírico sobre Brasília
Quem mora adora. Não trai por nada. Podem oferecer a beleza do Rio de Janeiro com a passividade de uma cidadezinha do interior de Minas Gerais a um brasiliense que ele não emigra da própria quadra.
Ir a Brasília pela primeira vez – já se somam 10 anos que o fiz – equivale a desvirginar algumas regiões até então latentes nas vistas. As construções são supergrandiosas, a natureza – salvo nos períodos mais secos – é multicolorida. O céu. Ah! O céu de Brasília. É “traço do Arquiteto”. Parece que o azul está mais próximo da gente; querendo nos tocar; misturar as dimensões; nos transportar à carne do Infinito.
Os shoppings são povoados por atrações que são ovacionadas em todos os cantos do mundo. Tem loja da Louis Vuitton, restaurantes com filiais esparramadas pelos quatro ventos, butiques super-requisitadas.
Em contrapartida, há uma cólera alojada nas moléculas da cidade. O luxo talvez seja seu principal estimulante: carros megaluxuosos, roupas estilosíssimas, botox que desafia gravidade e degradação do Tempo esmagam os cidadãos. E deixam seus interlocutores (leia-se “visitantes”) com a sensação de estarem dialogando com alguém que usa lentes de contato e que, portanto, esquiva-se da própria essência.
Ser cigano na capital federal me parece muito promissor, haja vista a carência da população local no que concerne a valores mais metafísicos como misticismo.
Será que o edital para videntes já saiu por lá? E qual será o salário inicial?
2 de junho de 2010
Arrumar mala
Em criança, o processo de arrumação de mala lhe causava angústia. É que, em sua cabecinha, a vida já havia automatizado. De repente, a vulnerabilidade que a bagagem sugere a amedrontava. Imagine. Castelos da Barbie®, coleguinhas da escola, lugares a que estava acostumada a ir, cheiros, sorvetes caseiros. Tudo ficaria longe de sua percepção; estacionado naquela cidade que ela deixaria rumo a um lugar todo novo onde passaria as férias.
Essa impressão acompanhou Alessandra por muitos e muitos anos. Boa parte da vida dela foi repreendida por esse freio dissonante.
Um dia, já adolescente, na aula de ioga, ela meditou profundamente e conseguiu chegar a uma superconsciência da Vida. Até perceber que não tinha as rédeas da própria existência, nem o domínio do tempo. E acalmou-se, doando-se à gravidade das coisas importantes mesmo.
1 de junho de 2010
Discurso indireto
Muitas e muitas pessoas são tão prolixas para se expressar e agir. Eu me incluo nesse rol...
Dia desses, conversando com um primo, ele me contava que a namorada dele havia lhe dado um terno muito bonito de aniversário. A tônica da questão nem era o cortejo, e sim, a necessidade de a roupa ser submetida a alguns acertos, já que estava larga.
No final de semana passado, a manicure me ligou para mudar o horário da unha. Em vez de simplesmente me perguntar se eu poderia ir às 17h, pormenorizou a confusão em que se encontrava sua agenda.
...
Há dias aguardo o momento oportuno para dizer-lhe tudo o que sinto. Enquanto isso, de centímetro a centímetro, vou me inclinando para o fim.
O primogênito
Não sei por que tantos casais insistem em ter filhos aos cachos, se é sempre o primogênito o maior destinatário do amor deles. O primeiro filho é quem desperta nos pais a química da paternidade; é quem os faz vencerem inseguranças mil.
Doses diferentes de carinho emanadas para os filhos geram muito mal-estar.
Caso o amor seja todo empreendido no primogênito, nada melhor que a mãe recorrer a pílulas, DIU, adesivos de hormônio com efeito contraceptivo. Para poupar o mundo das radiações da carência.
Família... Ah! Família
O ideal seria a permanência em alguns graus da infância. Nesta fase, como quase tudo é novidade, as vistas e percepções em geral não são afiadas para qualificar as situações e experiências. Não se tem a delimitação correta que discerne o bem do mal.
À medida que a consciência perante a vida vai se apurando, os problemas começam a surgir. E a reação a eles, inevitavelmente, vai sendo sintetizada dentro da psique. Nada passa ileso pelo processamento da razão. Nada.
A família de Cristiane vivia pacificamente. Mais pelo silêncio que imperava entre eles do que pelo grau de civilidade que lhes era próprio. A partir de um dia a princípio comum, sob uma luminosidade metafísica, em um dos irmãos de Cristiane, surgiu uma rixa com o pai.
Esta dissonância implicou muitas modificações na ambiência familiar. Nada passa ileso pelo processamento da razão. Além de os defeitos do pai virem à praia da lucidez, outras discordiazinhas foram levantadas pelas irmãs de Cristiane para que a guerra se firmasse contra o primogênito.
Toda a aragem remota da infância agora era um fóssil tão cobiçado e necessário.
30 de maio de 2010
Ouvir muitas vezes a mesma música,
Comer brigadeiro todos os dias,
Usar o Cool Water® até para ir ao mercado.
E o sentido já não processa o que lhe é oferecido
Com a expectativa que eu queria.
A empolgação da Ivete fica até esquálida.
A magnitude do chocolate fica até insípida.
E o Cool Water® fica batido igual perfume Avon®.
O bom é racionalizar todas as oferendas aos sentidos,
Para que eles não nos traiam.
Primeiro encontro com um paquera. Inconscientemente, a pretensão é alardear os próprios méritos como um cabotino antigo. Porque se deseja que o outro configure a melhor impressão a nosso respeito, e diante dela, posteriormente, à mercê da própria área privativa do pensamento, deseje um reencontro para nos destrinchar um pouco mais.
Olá, muito prazer
Apesar de ser falante com os íntimos e até despudorada na escrita, perante situações novas, me classifico como um bicho-da-seda retraído.
Não sei que rebuliço acontece entre minha tríade ID, EGO e SUPEREGO em momentos-estreias. Que características minhas posso colocar ao alcance do outro? Devo contemporizar aos moldes da simpatia, da seriedade, da distância ou da aproximação no diálogo? Mostro meu lado perspicaz ou minha admiração por Chico Xavier?
27 de maio de 2010
21 de maio de 2010
In memorian
Só adulta fui entender essa expressão.
Quem morre escapa de vez das nossas vistas. Perde a representação nesta dimensão.
A memória de quem fica é que estende a vida do morto.
20 de maio de 2010
Sobre velório
Quão animalesco é o velório.
Aquele corpo estendido.
Uma interseção
Entre este mundo
E a outra dimensão.
E os mosquitos a postos,
Salivando pelo banquete
Que lhes surge.
19 de maio de 2010
18 de maio de 2010
14 de maio de 2010
Sobre o funk
Funk traz para a praia da consciência aquilo que o pudor acoberta durante a temporada pela vida.
Quase ninguém está preparado para assistir a si mesmo sem censura.
Repare você quando vê numa fotografia de revista um órgão interno do corpo humano. Não lhe causa certa repulsa?
Imagine, então, você se vendo nu e cru; com seus fetiches, suas más inclinações e seus ímpetos mais vis?!
Por isso talvez você não goste de funk. Ele tem o dom de lhe trazer você.
Reynaldo Gianecchini
Nunca concordei com a adjetivação “gostoso” para qualificar camaradas com os quais nós, mulheres, nunca tivemos uma experiência mais íntima.
Por mais que o Gianecchini seja superlativamente lindo e sacie minhas vistas – em se tratando de supremacia de beleza a elas –, não me sinto à vontade para batizá-lo de “gostoso”.
Afinal, não lhe provei a eletricidade.
Bem que gostaria!
Inconscientemente, as pessoas acatam o ar que trafega por aí. Com as ideias, parece que a coisa se repete. Porque os escritores, ainda que tenham uma dicção própria, sempre discursam os mesmos assuntos.
13 de maio de 2010
Nunca tive oportunidade de viajar para a Rússia. Desconheço, portanto, salvo através de fotos e da televisão, a geografia do país, uma vez que meus olhos não podem se arremessar até lá.
Para se chegar a um lugar distante, é preciso recorrer a um meio de transporte e a uma batelada de burocracia. Todavia, com o instrumento de que dispomos para viajar nas nossas próprias águas, podemos ir a fundo nesta existência que abriga nosso âmago.
Com essa ferramenta, podemos ponderar os graus de cada sentido, a velocidade dos ímpetos, as regiões compostas pelos vacilos, as terras firmes.
Podemos esparramar toda nossa química sobre a bancada da nossa consciência. E diante de todo líquido ficaremos apavorados com nossa tamanha ignorância.
12 de maio de 2010
Sobre a sensualidade
Estava assistindo a uma cena de “Viver a vida” (novela das 21h transmitida pela Rede Globo entre setembro de 2009 e maio de 2010) em que a personagem Alice, vivida por Maria Luisa Mendonça, estava prestes a transar com Osmar, interpretado por Marcelo Valle. A atriz surgiu sob uma bela lingerie preta às vistas do “affair” na trama.
Concomitantemente a isso, pensei – do lado de cá da televisão – na sensualidade de que tantas e tantas brasileiras são partidárias. Pelas ruas, é praxe o espetáculo de calças superjustas aliadas a blusas tomara que caia e saltos mega-altos.
Não há iguaria melhor para as vistas – principalmente as dos homens – do que um corpo feminino bem talhado e realçado. Porém, romper a privacidade da sensualidade e trazê-la à pele soa antinatural. É como incorporar a tristeza vestindo-se com roupas em tons pastéis.
O interessante da sensualidade é ela ser precedida e também incitada por um certo mistério. Expô-la como mamões frescos à venda na quitanda rompe com o propósito dela. Afinal, lascívia tem muito a ver com sutileza. Com descoberta. Com diálogo sensorial.
Por outro lado, existem tantos homens e mulheres que adotam uma postura tão distanciada do próprio charme que ficam parecendo pedagogos que gostam de fazer cartaz e organizar excursão de adolescente.
Assim fica infértil o campo da paquera.
11 de maio de 2010
Suco de meditação
Deixe seus pés se molharem,
Mas não se afogue.
Você está somente flutuando nesta vida.
Você não é isto.
Você é metafísica pura.
Miligrama
Para quase tudo neste mundo civilizado há uma medida, um parâmetro, um manual. As escolas abordam as mesmas matérias; os cursos superiores oferecem especializações em áreas que existem desde o tempo em que a vovó era solteira; o ponto do brigadeiro ainda é um dos mais difíceis entre a população dos doces; o primeiro beijo, assim como as primeiras vezes, é insosso.
Tanta teoria tenta nos prevenir do mal, do equívoco, da frustração, mas somente a vivência das situações é que sintetiza reações dentro de nós. E à medida que a gente se habitua aos acontecimentos que interceptam nossas vidas é que os anticorpos vão sendo produzidos pela força clandestina que nos acompanha desde sempre.
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Ontem, com os olhos arremessados no livro “O mundo pós-aniversário”, da americana radicada na Inglaterra, Lionel Shriver, fiquei pensando na vocação unânime que as mulheres têm de amar. E a ferramenta de que elas dispõem para exercer o amor é bastante falha. Haja vista o desejo do gênero feminino de embaçar o mundo e suas implicações, a fim de sobreviver de afeto.
Uma querida chamada Hilda
94 anos. Em abril de 2010, dona Hilda, amiga da vovó – já falecida –, decolou da vida rumo ao território misterioso da morte.
Todas as atitudes das quais me lembro dessa senhora sempre surgiam da pureza – valor tão coagido por tantos outros nesta vida. Frequentemente ela telefonava para minha casa simplesmente para dizer: “filhinha, você reparou como o dia está lindo? O céu está tão azul!”. Na época, eu, adolescente, ficava com os olhos marejados. Hoje, já adulta, me comovo completamente com essa memória.
Nunca presenciei dona Hilda cabisbaixa, desarrumada ou fatigada. Ela sempre estava “nos trinques” para recepcionar a alegria. Apesar de diabética, quando fugia da vigília dos filhos, sucumbia a bombons, a doces caseiros e a qualquer “junk food” que estivesse na mão de uma criancinha.
A senhorinha querida não era de muitas palavras: jamais a ouvi falando mal dos outros; eram raras as vezes em que sua voz sobressaía diante de um encontro entre amigas. Em contrapartida, seu semblante sempre me atraía, haja vista o tamanho daquele carisma.
Querida dona Hilda, você está bastante viva, cheia de viço, imersa nas minhas melhores químicas.
Adoro você. Enquanto me houver consciência.
Carol.
10 de maio de 2010
A soberba dos prazos de validade
Agendas e marcações de prazo de validade em medicamentos, documentos e alimentos ignoram a vulnerabilidade dos fatos. “Daqui a dois anos o senhor retorna para mais uma consulta”, diz a secretária do médico ao paciente.
No ínterim de dois anos, um coração sadio, sob as rédeas de uma equipe clandestina, abandona suas atividades e aposenta-se de vez. Todos os compromissos do dono desse órgão vital, consequentemente, ficam órfãos.
No fundo do frasco do xampu está carimbada a data de validade do produto: 26/07/2014. Até lá, dá para uma careca se fazer e, portanto, dispensar o uso do sabão para as madeixas.
Estipular datas é brincar um pouco de Deus, que antecipa céus e maneja o Acaso.
As tais das células-tronco
Desde que trouxeram à baila a temática das células-tronco, muita esperança foi sintetizada em lares de todo canto do mundo e muita ovação foi destinada a cientistas e cientistas que estão envolvidos no assunto.
Descobrir que determinados ingredientes do corpo podem resgatar a saúde de alguns órgãos – e respectivas funções – desse próprio físico parece algo surreal. A tendência é de atribuir aos pesquisadores do tema um caráter messiânico.
Porém, especialistas em células-tronco se sujeitam a fazer corretamente o traslado do material dessas células-mãe rumo ao destino que as aguarda. Em suma: pesquisadores e cientistas trafegam com todo o Divino que lhes é ofertado de bandeja.
Portanto, não entendo muito o deslumbramento diante do advento em questão. Também não compreendo as pessoas não se embasbacarem diante da imponência de uma árvore, de uma mão, de um céu matematicamente mesclado, de um sol, da capacidade veloz de a chuva se fazer chuva.
Vou ficar sem entender.
9 de maio de 2010
Andar de ônibus é matéria-prima imprescindível para quem gosta de filosofar como uma implosão mental.
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Carina cabe no rol dessas pessoas..
Dia desses, ela observava (perscrutava até) duas senhoras bastante humildes conversando. Ambas alteravam com a maior propriedade o idioma – português – através do qual dialogavam. “eis trocô as lâmpda?”.
Era uma sinfonia toda nova aos ouvidos.
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O ônibus daquelas senhoras chegou e Catarina permaneceu, de longe, lendo os lábios delas. Lábios contorcionistas como os falantes de russo.
6 de maio de 2010
Muito frequentemente, sinto-me fora desta dimensão. Vou para o curso de inglês, para a ioga, para os compromissos, e parece que tudo isso não faz jus à minha natureza.
A impressão é de que estou dispersa da vida e de que a única gravidade que me prende a ela são minha carne e meus ossinhos.
Principalmente nos períodos que antecedem a menstruação, Ana Tereza, 34 anos, agarra-se às mandíbulas da saudade.
Sente falta da época em que ia para o sítio dos avós ladeada pelo cacho de primos, além de frutas, pão com presunto e Coca-Cola®. Lamenta muita coisa do passado, embora a gravidade de seu pesar a projete a um futuro remoto, mas fatal.
Ela fica cogitando a própria consciência nostálgica depois da vida e se remoendo pelos equívocos que cometeu, pelos prazeres que recusou e pelo excesso de pudor.
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Angústia é filha biológica da projeção.
Amiúde, aparecem ótimos humoristas no Programa do Jô. A moda é eles se apresentarem sob o formato “stand up”.
Nessa semana, o talento que preencheu minha memória seletiva foi um gordinho que perscrutou com maestria a psique das mulheres durante o coito.
Ele simulou o tédio no qual o gênero feminino se estaciona no ínterim do ato e, como antídoto a isso, revelou que nós, mulheres, apelamos ao retoque (mental, claro!) do ambiente onde estamos copulando: “uma mão de tinta aqui cairia bem; uma mesa de centro enfeitada com vaso de tulipas salvaria este lugar da impessoalidade”.
Depois dessa representação, que até extravasa o conceito da verossimilhança e penetra o território da realidade, fiquei com pena dos homens!
4 de maio de 2010
O estar de cada coisa
Já faz quase oito meses que a solteirice é meu status. Isso implica muita coisa. Desde contar minhas descobertas e experiências durante o romance a minhas amigas - sempre que as encontro - a me aventurar nas possibilidades do final de semana.
O acontecimento que mais pesa nessa minha condição concerne ao celular. Antes, ele tremia todo anunciando a chegada de mensagens e mensagens de carinho, o que entusiasmava toda a população da minha vida interior. Agora, nas raras vezes em que ele vibra, é para destacar: “ a VIVO informa...”. Imediatamente, meu cerne processa a química da decepção.
Idiomas
Existem idiomas que são tão passionais. Pelo que ouço do japonês – língua –, percebo que seus falantes empregam tanto sentimento em cada sílaba que gesticulam.
O vendedor de paçoca
Todo excesso do mundo foi concentrado no cara que vende paçoca pelas ruas de Juiz de Fora.
3 de maio de 2010
O incômodo-chefe na visita ao ginecologista, em vez de ser a completa nudez diante das vistas do médico, é ter que falar de si objetivamente, como cada ingrediente da receita exposto na bancada da cozinha antes da mistura. “Estou a fim de transar com meu namorado. Qual a medida devo tomar?”. Quando o problema é gástrico, ou oftalmológico, ou ortopédico, o paciente fica imune a grandes exposições, já que não precisa cogitar muito da sua vida íntima.
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Por que é que todo mundo tem a necessidade de se blindar? Que ouro é esse que necessita de esconderijo? Que horas acionar o botão do “isso eu posso falar”? Mesquinharia consigo mesmo sempre deixa a própria piscina cheia de ratos. Depois, no processo de recuperação, só mesmo uma diálise profunda.
2 de maio de 2010
Sábado à noite.
As duas são irmãs siamesas por afinidade.
Mal o Tempo se vestiu de sábado, elas já entram no dilema “com que roupa?”.
Nesse dia, porém, resolveram se aquietar em casa.
Uma foi silêncio aparente, embora congestionamento de memórias; a outra, três latas de Skol®.
É que na semana que vem será o casório de uma amiga das duas,e elas querem resguardar as energias.
Enfim 2010
Em janeiro, geralmente as pessoas são dispensadas da rotina. E, como não se aguentam nuas e cruas, inventam novos compromissos para preencher as férias. “Resorts”, voos
de asa-delta, praias, montanhas.
Por um mês, há um transe generalizado de si mesmo. A voz interior dos indivíduos cala-se, a fim de dar espaço ao que lhes é extrínseco. Para estender essa letargia, em fevereiro, ainda tem o carnaval.
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Somente depois da quarta-feira de cinzas é que as pessoas enterram seu silêncio, são reanimadas pelo muque do calendário e voltam a si.
Bem-vindo a 2010.
Eu registro, tu registras, ele registra
Registrar é moda que supera até o “rebolation”.
Futuros papais abdicam-se da emoção do parto do primogênito, a fim de registrar-lhe a vinda à luz.
Os primeiros passos trôpegos de uma criancinha descartam a reação dos possíveis espectadores e se rendem aos olhos biônicos de uma câmera digital.
Formatura, casamento, “rave”, caminhada ecológica. Tudo foi transferido para uma memória distaaaaaaaante. O presente está inalcançável.
Que futuro prometido será esse?
365 dias de carnaval
Na fila, uma postura.
Para o ascensorista, bom dia.
Com o namorado, entusiasmo.
Sinalizar a chegada
E despedir-se na saída.
Com o pai, assuntos neutros.
Com os amigos, palavrão.
Refeição no restaurante: talheres.
Pizza em casa se come com a mão.
No Rio, malandragem.
Em Minas, autoproteção.
No final da maratona de cada dia,
Haja ressaca de carnaval.