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26 de novembro de 2010

Panelas

por carolina fellet

Mamãe sempre foi entrosada com a culinária.

Já eu... Tenho ojeriza a panela em cima de trempe ligada.

Sinto-me tão ameaçada como se estivesse diante de uma cobra pronta para inocular em mim seu veneno.

Panela é coisa viva.

19 de novembro de 2010

Natureza humana II

por carolina fellet

É fatal: em determinado momento do dia, ela sente-se cansada da natureza humana que lhe é imposta a todo momento.

11 de novembro de 2010

Querido Conde M.,

por carolina fellet

Não o guardo nas várzeas da minha memória porque as utilizo como depósito do número do meu CPF, do itinerário para a faculdade e dos dias em que faço ioga.

Os resíduos do nosso namoro de mais de quatro anos espalharam-se entre alguns de meus sentimentos mais nobres e transformaram-se em um centímetro que seja do meu progresso enquanto gente.

Obrigada por ter me apresentado à dimensão da volúpia sob a velocidade de quem quer se encantar pelo percurso. Obrigada por ter usado da sua beleza física e sentimental comigo durante o tempo em que estivemos juntos.

Perdão pelos momentos em que agi de acordo com os comandos do egoísmo e, portanto, fui-lhe injusta.

Feliz aniversário.

Agora sem presentes, sem beijinhos, sem amassos, embora com muito carinho.

Carol.

9 de novembro de 2010

O falo

por carolina fellet

O falo é figura importante na vida de qualquer mulher. O problema é seu entorno: o dono dele. Que tem hábitos próprios, timbre de voz, inclinações...

8 de novembro de 2010

Vislumbrando o futuro alheio

por carolina fellet

No perímetro em que ela se aloja na balada; na fila da casa lotérica; no posto de gasolina... Por onde ela passa, há sempre um oriental farejando minha irmã.

Já disse a ela que o futuro lhe reserva um vendedor de caneta-choque.

7 de novembro de 2010

Relações pós-modernas

por carolina fellet

O cara com quem você saía a tratava com delicadeza e gentileza.

De repente, já que o convívio prescinde de cerimônia, ele – o cara com quem você saía – torna-se rude perante o relacionamento.

Como se o mar abstivesse de sua natureza líquida e dinâmica e sucumbisse à biologia das areias.

6 de novembro de 2010

O vírus

por carolina fellet

Numa pretensão, o vírus entrou no meu corpo como um estupro. Amanheci gripada.

...

Depois fiquei pensando:

Os vírus pegam as mulheres que eles quiserem. Afinal, até a Sandy gripa.

Sobre a beleza

por carolina fellet

A beleza das branquelas é sazonal: no inverno ela resplandece.

5 de novembro de 2010

Sobre o processo de domesticação da cria

por carolina fellet

Há quem deixe a própria cria no quintal de casa; à mercê dos quatro ventos.

Quem vem para a vida sob o status humano quer ser gente, ora.

E isso implica o processo de domesticação feito pelos pais.

28 de outubro de 2010

Cargo político

por carolina fellet

Quem se inclina à política deveria ter como característica principal o altruísmo, já que representar o povo é agir em prol dele.

O que se vê, entretanto, é gente fazendo carreira profissional com a política, a qual oferece salários astronômicos em troca de poucos esforços.

Ora, ser vereador, governador, senador, presidente como empreendimento deturpa completamente a função da política – cujos benefícios a seus aliados deveriam ser meramente simbólicos.

27 de outubro de 2010

Sim e Não

por carolina fellet

NÃO às drogas ilícitas.

NÃO ao álcool.

SIM ao efeito colateral do antialérgico.

Para garantir a sonolência de uma noite de sonhos...

26 de outubro de 2010

Visita

por carolina fellet

Encher a casa de visita aos finais de semana é uma alternativa para vencer o tédio e salvar o próprio casamento.

19 de outubro de 2010

A ira

por carolina fellet

O que fazer quando a química do próprio corpo está toda empreendida na ira?

A que deus recorrer?

Roer a unha até o sabugo?

Irada, sou nula.

Somem em mim todas as possibilidades humanas.

14 de outubro de 2010

Independência feminina

por carolina fellet

A Independência das mulheres – se é que foi conseguida – apresenta muitas falhas.

Por um recalque trazido da antiga condição de submissão a homens machistas, mulheres pós-modernas entram para relações conjugais munidas de armas até os dentes.

Se eles querem azul, elas lutam pelo amarelo.

Se eles preferem pedir uma pizza e passar o fim de semana em casa, elas escolhem jantar fora.

Minhas contemporâneas querem levantar a bandeira da própria autonomia a partir do muque obtido com a revolta perante vidas e vidas de opressão – afinal, foram tantas as amélias.

Será que isso funciona?

Educação Física

por carolina fellet

Hoje entendo por que não gostava de Educação Física na escola.

É que nos jogos, geralmente, nossos corpos é que eram o alvo da bola.

E o que é que eu faria com meu instinto de autopreservação?

Nunca consegui superá-lo.

Sustentabilidade

por carolina fellet

Se por conta própria a natureza já se excede – haja vista, nas bancas de supermercado, as frutas, verduras e legumes com tamanhos exagerados –, imagine quando as siliconadas estiverem mortas e seus respectivos silicones precisarem ser degradados?

Prece

por carolina fellet

Que eu consiga contornar situações difíceis. Se não me for possível, que eu caminhe carregando-lhes o peso, a fim de alcançar um músculo rígido que me deixe potente o bastante para resistir à natureza das circunstâncias.

A trapaça

por carolina fellet

A natureza me trapaceou.

Desde que “fiquei mocinha”, aos 11 anos, estou esperando a manifestação dos bustos e quadris.

Já se passaram 14 anos e eu continuo usando sutiã menina-moça.

Anjo da Guarda

por carolina fellet

Dizem que todas as pessoas têm um mentor espiritual – o popular anjo da guarda.

O da dona Silvana é um gourmet, afinal ela só pensa em hamburger, lasanha, canelone.

5 de outubro de 2010

Tipo exportação

por carolina fellet

Papai quer me mandar para os EUA, porque meus irmãos moraram lá e falam um inglês fluente. E eu sou brasileira analfabeta de norte-americano.
A sensação que tenho talvez seja a mesma dos escravos diante da alforria, afinal, fui acostumada a mamãe e papai e irmãos resolvendo tudo para mim.
E se com bom e velho portuga eu me embaraço com as burocracias, imagine em outro país?!
Que agonia!