A metralhadora do Tempo dispara reações dentro de mim:
Diante do rato, asco.
Sob a iminência de encontrar o namorado, lascívia.
Perante o novo emprego, medo.
A metralhadora do Tempo dispara reações dentro de mim:
Diante do rato, asco.
Sob a iminência de encontrar o namorado, lascívia.
Perante o novo emprego, medo.
por carolina fellet
Bom de ser adulto
É ver o mundo
Mais próximo de seus graus originais.
Bom de ser adulto
É a chegada à autoconfiança:
Nada de grandes rebuscamentos
Que me tornem mais distante da vida.
Bom de ser adulto
É sinalizar:
Sim
Não
Feio
Bonito
Gosto
Desgosto
Emoção.
por carolina fellet
Piano impele total atenção.
Ou qualquer outro ato lhe abordar os sentidos,
Você não o perceberá,
Se estiver sobre o teclado de marfim.
Rapidamente
Tinge todo o líquido transparente
Que trafega no interior da sua vida.
Piano é amante,
Confidência,
Luta diária
E o tão sonhado orgasmo.
Não sei que estatura me comporta
Quanto toco Chiquinha
Ou Zequinha.
Nunca as formiguinhas mumificadas das partituras
Chegaram a mim para me picar.
Elas querem mais é que eu as alvoroça,
Para lhes alegrar a vida parasita.
por carolina fellet
Onde é que o Tempo esconde a aquarela com as cores do mundo?
Que maestro chegou à conclusão do som certeiro do latido?
Como as formigas descobriram a barata morta dentro da minha cozinha e por que resolveram fazer-lhe uma procissão fúnebre?
Por que as baratas têm movimentos tão aleatórios e nos assustam com tamanha imprevisibilidade?
Quem descobriu que o beijo sintetiza porções de libido?
Qual será o barulho que minha audição não alcança?
por carolina fellet
Ele é desses palhaços de hospital, que desabrocham flor-de-lótus em crianças condenadas por alguma doença.
Na maleta de ‘doutor da bagunça’ carrega artefatos cheios de recursos visuais e os manipula, além de fazer performances com o corpo e com a nesga de alegria – sua companheira de missão.
Mas dentro da variedade do próprio íntimo, é pai de uma melancolia ainda criança; que lhe exige muito.
Não podendo escapar do redemoinho da rotina, ela passa a tarde na frente do computador.
Naquela segunda-feira, a visão periférica esquerda fora violada por um movimento incomum.
É que no terreno baldio que lhe fazia fronteira com a vista, havia um senhor pequenininho, com boné e blusa de propaganda de político fazendo a capina.
Ele parecia ter vindo para a vida daquele tamanho, exercendo aquela atividade, tamanha era sua integração com o trabalho.
Depois da ceia de réveillon, o pum da garota estava letal.
Afinal, o organismo dela não está acostumado a metabolizar tanta comida.
A partir das habilidades com que meus pés roçam a vida,
Reconheço texturas, temperaturas, prazer e dor.
Embora Ele nunca se revele inteiro a mim.
Já fui toda fruta – bendita descoberta da maçã.
Já fui toda tristeza,
No momento em que o tempo viu-se incumbido
[de instituir em mim a química da decepção.
Já fui enganada por finas lâminas de gelo,
Mas já visitei outra dimensão – sem avião nem nada –
Apenas me submetendo a radiações de inteligência alheia.
Deus às vezes se excede através de trovões letais.
E também se supera (ou supura) por meio de uma sinapse caprichada
Cujo produto chega inteirinho para mim.
Pronto para o consumo imediato.
Ter filhos é intermediar Deus ao novo, o qual é curioso, inquieto e livre para receber comandos e conhecimentos.
Conduzir um serzinho à Vida, portanto, demanda inteligência e cautela.
O que se vê, no entanto, é pai optando pela paternidade como uma obrigação civil, e não devido ao desejo de se envolver integralmente nessa missão. O produto disso são filhos vivendo suas naturezas de um jeito autônomo – como a grama, o vento, o céu – e se encalacrando com os barros das descobertas e seus respectivos tropeços.
Não menosprezando a biologia dos vegetais, eles próprios precisam ser regados de duas a três vezes por semana. Se se trata de ser humano, o comprometimento com este deve ser bem maior, porque além da subsistência ele precisa de carinho. E não dá para ser autodidata em se tratando desse tema.
Viagem para a Disney substitui ensinamento de educação e de bondade? Brinquedo supertecnológico dispensa afeto dos pais? Coração de babá tem o mesmo conteúdo de coração de mãe?
O que você, pretenso pai, tem para contar/ensinar a seu pretenso filho? Vale a pena trazer para a vida alguém de quem você será o guardião?
Tenho muita pena desses que vêm à luz seres humanos e vivem como mato; respeitando apenas a natureza que lhes convém.
Cumprindo a própria obrigação, o telefone ressoou. E minha sexta-feira, que até as 16h25 era grama verdinha, perdeu-se no barro.
O coração sumiu com seu maestro e ficou dissonância pura. O paladar recebeu os mandamentos do amargo para processar.
Os sentidos todos se atormentaram dentro da minha casa.
“Só o acaso estende os braços a quem procura abrigo”.