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19 de abril de 2011

7 de abril de 2011

24 de março de 2011

Disparo

A metralhadora do Tempo dispara reações dentro de mim:

Diante do rato, asco.

Sob a iminência de encontrar o namorado, lascívia.

Perante o novo emprego, medo.

15 de março de 2011

A vida social é só uma tapeação a alguma movimentação que acontece sob o comando da Eternidade.

11 de março de 2011

Ser adulto

por carolina fellet

Bom de ser adulto

É ver o mundo

Mais próximo de seus graus originais.


Bom de ser adulto

É a chegada à autoconfiança:

Nada de grandes rebuscamentos

Que me tornem mais distante da vida.


Bom de ser adulto

É sinalizar:

Sim

Não

Feio

Bonito

Gosto

Desgosto

Emoção.

4 de março de 2011

O piano

por carolina fellet


Piano impele total atenção.


Se um bolo quente lhe passar pelo olfato,

Ou qualquer outro ato lhe abordar os sentidos,

Você não o perceberá,

Se estiver sobre o teclado de marfim.


Piano é anilina que

Rapidamente

Tinge todo o líquido transparente

Que trafega no interior da sua vida.


Piano é amante,

Confidência,

Luta diária

E o tão sonhado orgasmo.


Não sei que estatura me comporta

Quanto toco Chiquinha

Ou Zequinha.


Nunca as formiguinhas mumificadas das partituras

Chegaram a mim para me picar.


Elas querem mais é que eu as alvoroça,

Para lhes alegrar a vida parasita.

20 de fevereiro de 2011

Questionário

por carolina fellet

Onde é que o Tempo esconde a aquarela com as cores do mundo?

Que maestro chegou à conclusão do som certeiro do latido?

Como as formigas descobriram a barata morta dentro da minha cozinha e por que resolveram fazer-lhe uma procissão fúnebre?

Por que as lagartixas não se assumem lagartixas e se entrosam com o mundo humano?

Por que as baratas têm movimentos tão aleatórios e nos assustam com tamanha imprevisibilidade?

Quem descobriu que o beijo sintetiza porções de libido?

Qual será o barulho que minha audição não alcança?

Por que todo domingo meu corpo produz melancolia?

1 de fevereiro de 2011

Lagartixa

por carolina fellet

Não bastasse a textura molenga da lagartixa, ela desliza sonsamente pelas paredes e superfícies, além de pular como sapo.
No meu corpo: química do asco!

por carolina fellet

Política como profissão?

Prefiro minhas ficções:

Dolores, de Nabokov. Policarpo Quaresma. Madame Bovary.

24 de janeiro de 2011

por carolina fellet

Aquela garota dócil, que estava sempre na iminência de explodir alguma lágrima está sumida do meu íntimo. Química de arrependimento é coisa que não mais transita pelo meu sangue.

18 de janeiro de 2011

por carolina fellet

Ele é desses palhaços de hospital, que desabrocham flor-de-lótus em crianças condenadas por alguma doença.

Na maleta de ‘doutor da bagunça’ carrega artefatos cheios de recursos visuais e os manipula, além de fazer performances com o corpo e com a nesga de alegria – sua companheira de missão.

Mas dentro da variedade do próprio íntimo, é pai de uma melancolia ainda criança; que lhe exige muito.

17 de janeiro de 2011

Todo dia

por carolina fellet

Não podendo escapar do redemoinho da rotina, ela passa a tarde na frente do computador.

Naquela segunda-feira, a visão periférica esquerda fora violada por um movimento incomum.

É que no terreno baldio que lhe fazia fronteira com a vista, havia um senhor pequenininho, com boné e blusa de propaganda de político fazendo a capina.

Ele parecia ter vindo para a vida daquele tamanho, exercendo aquela atividade, tamanha era sua integração com o trabalho.

1 de janeiro de 2011

Pós-ceia

Depois da ceia de réveillon, o pum da garota estava letal.

Afinal, o organismo dela não está acostumado a metabolizar tanta comida.

29 de dezembro de 2010

A alguém especial

A partir das habilidades com que meus pés roçam a vida,

Reconheço texturas, temperaturas, prazer e dor.

Sou cheia de ciência para recepcionar o Mundo,

Embora Ele nunca se revele inteiro a mim.

Já fui toda fruta – bendita descoberta da maçã.

Já fui toda tristeza,

No momento em que o tempo viu-se incumbido

[de instituir em mim a química da decepção.

Já fui enganada por finas lâminas de gelo,

Mas já visitei outra dimensão – sem avião nem nada –

Apenas me submetendo a radiações de inteligência alheia.

Deus às vezes se excede através de trovões letais.

E também se supera (ou supura) por meio de uma sinapse caprichada

Cujo produto chega inteirinho para mim.

Pronto para o consumo imediato.

27 de dezembro de 2010

Por estar mais maciça de tempo do que eu, mamãe às vezes tenta me blindar contra algumas radiações da vida. Mas são inevitáveis os meus percalços.

A fraqueza alheia, por vezes, é o oásis dela.

23 de dezembro de 2010

Família

Família é realmente superimportante para qualquer pessoa, porque quem vem para a Terra sob o formato humano e fica exposto diretamente às radiações da Vida estabelece para si uma aura de incessante amargura.

15 de dezembro de 2010

Enquanto os bichos vivem a rudeza que lhes é imposta, a gente convive com ternura, compaixão, altruísmo.

É um privilégio ter vindo humano para a Vida.

13 de dezembro de 2010

Em vez de Ticiane se embasar na própria fortaleza intrínseca para agir e lidar com as pessoas, ela empreita toda a sua expectativa nas situações. Portanto, a personalidade dela, embora seja de ossos, é submetida ao molejo que somente os cartilaginosos aguentam.

9 de dezembro de 2010

Sobre ter filhos

Ter filhos é intermediar Deus ao novo, o qual é curioso, inquieto e livre para receber comandos e conhecimentos.

Conduzir um serzinho à Vida, portanto, demanda inteligência e cautela.

O que se vê, no entanto, é pai optando pela paternidade como uma obrigação civil, e não devido ao desejo de se envolver integralmente nessa missão. O produto disso são filhos vivendo suas naturezas de um jeito autônomo – como a grama, o vento, o céu – e se encalacrando com os barros das descobertas e seus respectivos tropeços.

Não menosprezando a biologia dos vegetais, eles próprios precisam ser regados de duas a três vezes por semana. Se se trata de ser humano, o comprometimento com este deve ser bem maior, porque além da subsistência ele precisa de carinho. E não dá para ser autodidata em se tratando desse tema.

Viagem para a Disney substitui ensinamento de educação e de bondade? Brinquedo supertecnológico dispensa afeto dos pais? Coração de babá tem o mesmo conteúdo de coração de mãe?

O que você, pretenso pai, tem para contar/ensinar a seu pretenso filho? Vale a pena trazer para a vida alguém de quem você será o guardião?

Tenho muita pena desses que vêm à luz seres humanos e vivem como mato; respeitando apenas a natureza que lhes convém.