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6 de fevereiro de 2014

Interior de Minas

Adoro viajar pelo interior de Minas Gerais. As calopsitas vão cantando Milton Nascimento, Clube da Esquina dentro do ônibus.

20 de janeiro de 2014

Leitura vertical

Leitura costuma ser horizontal. Em Juiz de Fora, porém, é vertical. Meus conterrâneos se leem de cima a baixo nas ruas. [blusa Lacoste, calça Tommy, bolsa Armani e pneuzinho corrigido pelo Pitanguy]
Saldo do dia: torcicolo a cada duas pedrinhas portuguesas

19 de janeiro de 2014

Assalto

Em uma avenida supermovimentada de Juiz de Fora...
(mamãe - volume de voz à la megafone da pamonha): Carolina, segura a bolsa.
(duas transeuntes): nóis né ladrona, não.

20 de novembro de 2013

Juiz de Fora

Falta gentileza no trânsito, bom atendimento no comércio, as pessoas leem sua roupa na rua, ninguém se cumprimenta. Será que o problema da minha aldeia representa o mundo?!Queria me refugiar numa incubadora de rinoceronte.

2 de julho de 2013

1403 fundos


Três posturas ancestrais quase universalizam os homens: deitado, assentado e de pé. Sula, por um instante, põe à prova a própria memória articular. Com as mãos, apoia-se no chão e com os cotovelos apontados para as laterais do corpo, sustenta as pernas penduradas. 
A estampa configurada remete o espectador a uma manobra da natureza; talvez à de uma flor antes de incorporar-se integralmente flor. 
Quem observa a moça é o voyeur do prédio adjacente, cuja fachada faz fronteira com os fundos do dela. O rapaz dispõe de binóculo e de uma avidez por espiar. Espia todos os dias os vizinhos englobados pelo seu campo visual sintético. 
Dessa vez, sem entender a paternidade do acometimento, ficou paralisado pela situação. A posição de Sula o levara à gênese do mundo; a vislumbrar a eternidade da vida e  seu incessante processo de composição e decomposição das coisas. 
Ligou-se à moça, mesmo sem lhe saber as feições e o comportamento. E as outras janelas, resguardando os seus respectivos acidentes domésticos, a partir dali foram alienadas por ele. 
*
No vocabulário da ioga, a posição executada pela garota é designada genericamente por asana. Para os não-iogues, contudo, ela é classificada como um feito ultra-humano. A estes, quem é capaz de realizá-la acessa também o mistério do voo e o desconhecimento que todas as crias do Tempo carregam consigo. 
Os cientistas desvelaram parte desse desconhecimento e o batizaram de Bóson de Higgs ou Partícula de Deus. Será mesmo que a Ciência está mais perto do oculto da vida? Será que o Tempo poderá ser compreendido pelo pixel? 
Que importa a Ciência perante um coração sequestrado pelo amor? Amor instituído involuntariamente por um esboço feminino visto através do binóculo. 
Os representantes mais rudimentares de toda a fauna conseguem perceber a presença de outros animais - inclusive a do homem - quando estes se lhes aproximam. E o humano, estranhamente, de quando em vez, é frígido diante do seu par, não sabendo as aflições, as expectativas e as desilusões alheias. De tempos em tempos, a manufatura humana - uma máquina de raio X, por exemplo, - ultrapassa seu criador e acusa angústias materializadas, sofrimentos implodidos dentro de um corpo. 
Sob uma angústia irreconhecível, João Luiz questiona-se: como serei notado por essa mulher que me trouxe a perspectiva de que somos todos ventríloquos da vida?
Subitamente, interrompendo a divagação do espião, um vendedor de biju surge na rua que separa os prédios do casal - ainda desunido. Com seu chocalho farto de decibéis, o ambulante anuncia o produto. João Luiz sente-se colado a Sula. O som os alinhara. 
*
Assim que amanhece, um helicóptero da Receita Federal decola no Aeroporto da Serrinha para executar a Operação Grifo. Quatro agentes acompanhados de uma câmera supertecnológica irão sobrevoar um condomínio de granjas próximo, a fim de avaliar se os imóveis ali construídos e em construção são compatíveis com o patrimônio declarado no imposto de renda dos proprietários. 
Duas piscinas, três quadras, 800 metros quadrados de área construída. Os músculos oculares da equipe se sobrecarregam com as dimensões e os detalhes a serem analisados. Sorte que a filmadora cumpre seu expediente com demasiada precisão e arquiva toda a construção em suas entranhas artificiais.  
Vencido o observatório, os agentes identificam primariamente o dono do mausoléu: JOÃO LUIZ PAMPLONA, 29 anos. 
*
Mais um arranha-céu está sendo construído na rua que separa o iminente casal e, enquanto o Mundo, em silêncio, dá à luz todos os dias matérias, texturas, cores e formas, erguer um mísero edifício implica muito barulho.
A paisagem sonora da vizinhança foi alterada desde as primeiras estaturas dessa construção. E Sula até prescindiu do despertador, pois toda manhã, pontualmente, um muque de peão fricciona uma lixadeira elétrica sobre o 14º pavimento da obra. 
Entoada a fricção, ela levanta-se quase como um autômato, abre a cortina e a janela e inteira-se aos poucos da hora da vida. Mune-se da parafernália exigida pelo civilizado: relógio, indumentária, fragrância, cabelo penteado, dente escovado e olhar sempre avante e segue para a redação. 
Nesse dia, um adendo à rotina: assim que abre a cortina, percebe um movimento incomum vindo da janela do prédio da frente. O pensamento incipiente: estou sob a ressaca do sono. Ela, então, esfrega os olhos e lê um coração desenhado sobre um papel branco imenso, mas reduzido pela distância. 
Amontoa a mensagem nas ações subsequentes e dá andamento aos compromissos do dia, embora ansiosa pelo seu desfecho. A expectativa alonga as horas. Sula embaralha-se nas ações mais triviais, como se intempestivamente desaprendesse a andar. Todavia, após o percurso de tropeços, eis o momento da volta para casa. 
Já dentro do apartamento, sauda brevemente a mãe e desloca-se feito onça prestes a capturar a presa para o quarto, que é fundos. Antes de abrir a janela do cômodo, tenta antever o movimento do prédio onde mora João. Mas os vidros do quarto dela são canelados e a impedem da espionagem. 
Agora livre do efeito inebriante do sono, decide abrir a janela sem mais suspense. E antes que qualquer outro movimento lhe cative a atenção, mais um cartaz rouba-lhe as vistas. Sobre um extenso papel pardo lê-se o símbolo do Facebook sucedido por João Pamplona. 
Ela não titubeia. Busca o nome na rede social, encontra-o, lhe propõe amizade e rapidamente, sem a cerimônia do mundo físico, entra na habitação cibernética de João. Deslumbra-se com a paisagem humana avistada. Se condisser com a imagem de perfil do Face, ele estará para os homens como o Arpoador está para a arquitetura natural. 
Enquanto entre vira-latas a comunicação é automaticamente legitimada no reconhecimento da espécie que os equipara, entre os humanos, há de se compatibilizar o tempo do emissor com o do receptor; o idioma e as subjetividades. 
João precipita-se e quase entope a interlocutora com informação, e após 24 mil caracteres, consegue ficar a dez centímetros de Sula. A vontade dos dois é de beijar-se. Demoradamente. Pois ambos já instituíram, no canteiro dos respectivos âmagos, uma admiração e uma atração mútuas. Agora, querem colocar no prumo os cabos de eletricidade soltos em seus corpos. Querem desovar seus instintos um no outro. 
Ainda com farelos de constrangimento, João aproxima-se mais de Sula, percorrendo os dez centímetros mais extensos de sua vida. Até que lhe alcança a boca. As duas bocas agora se chupam devagar e involuntariamente impõem goela abaixo a presença ligeira da libido - esta que fica sempre a postos de seus solicitantes.  
Depois de 120 mil caracteres, João estava dentro de Sula exercendo a prática ancestral e universal do sexo, e antes que o instinto se materializasse no gozo, o casal percebeu, com a pouca vigília imunizada contra a libido, a sintonia perfeita os envolvendo, feito os hemisférios reverenciando os dias e as noites. 
Dois meses se passaram
Como era fim de semana, o muque do peão responsável pela variação de estatura do novo arranha-céu estava bem afastado dali e das consciências que o reconheciam apenas peão.
Sula, sem o soar da lixadeira elétrica, fora acordada por outra labareda da vida: o aroma do café preparado por sua mãe Nair. 
Já na cozinha cumprimentou-a, ligou a TV e os ouvidos, imediatamente, foram infringidos pela notícia: 
João Luiz Pamplona, 29 anos, foi encontrado morto com um tiro na nuca e outro no tórax numa estrada vicinal no bairro Alpes, região sudeste da cidade. Peritos que compareceram ao local relataram que o jovem se ajoelhou antes de morrer, aparentemente para implorar pela vida. O crime teria sido encomendado por um homem que lhe devia 12 mil reais. O delegado do 4º Distrito Policial, Arzenclever Toledo, informou que o jovem era proprietário de um imóvel avaliado em 3 milhões e trabalhava com agiotagem. 
A desova de adrenalina dentro do próprio corpo marcaria para sempre a vida de Sula. Se dali a cinquenta anos, alguma doença fosse diagnosticada nela, indubitavelmente, essa descarga seria apontada como uma de suas fontes primárias. 
Um mês depois
João Luiz estava em processo de decomposição e seus escombros, empenhados . O filho em formação no ventre de Sula era o prenúncio da eternidade do jovem na Terra; era a vasta memória do tempo que passa adiante o passado com seus códigos fatais.
Carolina Fellet

12 de março de 2012

Mais uma máxima sobre o amor

por carolina fellet

Deter a dimensão do Rio de Janeiro e confinar-se em uma mísera pocinha d´água composta pela fórmula do objeto amado. Assim é o amor.