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9 de fevereiro de 2012

A aspirina

por carolina fellet

Tomar uma aspirina. Quase nada me faz sentir tão derrotada quanto praticar esse ato.
Estou acostumada à miopia da autossuficiência, do autocontrole. De repente, uma dor chega sorrateiramente e se apossa da minha química. Mantenho-me sob a burra imponência que me é inerente. Mas as horas passam e à medida que avançam, aumentam a carga da dor. Entrego-me. Como o bandido que desiste da fuga e se rende aos policiais. Abro a gaveta. Tiro a cápsula da clausura da cartela de comprimidos e a engulo. Depois disso, atesto-me derrotada.

3 de janeiro de 2012

Ação sem reação

por carolina fellet

A chuva poderia dar uma trégua, o sol, dar as caras nas praias... Em vez disso, eis que uma gripe se apossa do meu corpo. Iniciativa mais inútil!

2 de janeiro de 2012

O marasmo

por Carolina Fellet

Um paulista sai de seu cenário de guerra – aviões congestionando o céu, carros empilhados e redemoinhos de gente tentando um encaixe dentro do metrô – rumo a Juiz de Fora, na Zona da Mata Mineira. Ao chegar a este destino, observa os habitantes do local e se deprime com a falta de perspectiva inerente ao povoado. Passa quinze dias entregue ao marasmo e propulsionado pelo ócio inevitável. E volta para a selva de pedras feliz da vida. Enfrenta filas, brinda à solidão e pede uma pizza.

10 de outubro de 2011

Conversa de saguão de hotel

por carolina fellet

Nossos avós eram mais atenciosos com a letra L
MaLvado, iguaL e áLcool.
Falavam em compasso Bossa Nova
E choravam ao som de Frank Sinatra.

Os avós de 2050 terão aprendido a andar através de teleaula do Youtube
Comido maçã que não escurece depois de descascada
E conhecido o orgasmo pelo mouse.

À parte disso,
Uma constatação:
Para os sentidos, inventaram todas as artes
Aos ouvidos, música,
Aos olhos, literatura e imagens
Aos narizes, fragrâncias
Ao tato, texturas e mãos dadas
Ao paladar, angu?

Bem-vinda, alta gastronomia.
Minha língua também é um vasto território a ser explorado!

Portanto, ela pode se contentar com um bifinho de segunda-feira,
mas também decodificar um Fernando Pessoa da culinária.

1 de setembro de 2011

Higiene pessoal

Às 7h30 o despertador toca. Camilinha se levanta e antes de dar início ao dia de trabalho:
retira o aparelho-móvel da boca, escova os dentes, lava o rosto, faz xixi e se limpa, regula a temperatura da água do chuveiro, toma um banho rápido, se enxuga, passa desodorante, perfume e hidratante, veste a roupa, desembaraça o cabelo e o seca com o secador.
A higiene humana cansa!!!! Aff.

13 de agosto de 2011

Bullying: da escola para a vida toda

lide

Magricela, baleia, espinhento, quatro olhos, cabelo Bombril. Nem Gisele Bündchen escapou de apelidos pejorativos durante a época de escola, sendo muitas vezes chamada de Olívia Palito, somaliana e saracura. Dependendo da frequência com que são ditos e da intenção de quem os pronuncia, esses chamamentos podem representar o Bullying, cujas consequências tendem a assombrar para sempre a vida de suas vítimas.

10 de agosto de 2011

O veredicto

Hoje fiquei oca de valores kardecistas.
Maninha voltou da viagem e trouxe para mim 44 presentes.
Fiquei super-radiante.

18 de julho de 2011

Sobre o bem sempre vencer

Fui assistir ao mais atual filme do Harry Potter com meu afilhado e, embora não tenha me interessado pelo enredo e entendido bulhufas do longa, a mensagem que me ficou foi de que o bem sempre vence o mal. Não só nesse vídeo, mas em quase todas as produções em audiovisual voltadas ao público infantil, há sempre essa ideia da prevalência do bem. Talvez haja uma intenção subliminar nisso: a de civilizar um público que será proprietário do futuro. É preciso que as crianças se tornem adultos éticos, versados em valores pautados na bondade e na justeza. Porém, a vida não funciona assim. Muitos maus indivíduos têm salários de R$100 mil, andam de carrões, comem camarão segunda-feira e morrem com requinte de caixão com vista panorâmica.

17 de julho de 2011

Ser demitido

Ser demitido é
Broto sem perspectiva de maturar em flor
Beijo seco entre doentes de UTI
Sexo de prostituta
Torta de brigadeiro diet
Rio de Janeiro nublado
Cão domesticado
Leão de circo
Desafeto
Desumano
Inumano.

26 de junho de 2011

24 de junho de 2011

Retrô

Subitamente, as águas da memória me levam à casa da vovó.
Lá, meus olhos são arremessados às cadeiras da varanda. As almofadas são vermelhas e a samambaia-portuguesa está cada vez mais revigorada. Lembro que é domingo e, na segunda-feira, o Civilizado me impele. As perspectivas daquela criança, que é fóssil em mim, me aniquilam a Vida. Enfim, o despertador me obriga a ir para a guerra.

20 de junho de 2011

16 de junho de 2011

Vã comparação

A gente acha que computador é imprevisível como as sinapses. Mas ele é matemático... Marcado como a música "Bebida é água/Comida é pasto/Você tem sede de quê/Você tem fome de quê".

17 de maio de 2011

Memória auditiva

por carolina fellet

A memória do barulho da gaveta se arrastando enquanto abre me leva a espasmos de infância. Tempo irreversível, fossilizado. Vida transformada em química de melancolia.

5 de maio de 2011

Cesar Romero

PRÊMIO LITERÁRIO

O escritor Hernany Tafuri faturou o segundo lugar no "Grande Concurso Cidade do Rio de Janeiro" com o poema "Batalha". Foram inscritos 2.383 trabalhos e 914 classificados. A propósito, sábado agora, na Livraria A Terceira Margem, Hernany, Carolina Fellet e Alexandre Vieira farão o lançamento do livro "Três em contos".

19 de abril de 2011

7 de abril de 2011

24 de março de 2011

Disparo

A metralhadora do Tempo dispara reações dentro de mim:

Diante do rato, asco.

Sob a iminência de encontrar o namorado, lascívia.

Perante o novo emprego, medo.

15 de março de 2011

A vida social é só uma tapeação a alguma movimentação que acontece sob o comando da Eternidade.

11 de março de 2011

Ser adulto

por carolina fellet

Bom de ser adulto

É ver o mundo

Mais próximo de seus graus originais.


Bom de ser adulto

É a chegada à autoconfiança:

Nada de grandes rebuscamentos

Que me tornem mais distante da vida.


Bom de ser adulto

É sinalizar:

Sim

Não

Feio

Bonito

Gosto

Desgosto

Emoção.

4 de março de 2011

O piano

por carolina fellet


Piano impele total atenção.


Se um bolo quente lhe passar pelo olfato,

Ou qualquer outro ato lhe abordar os sentidos,

Você não o perceberá,

Se estiver sobre o teclado de marfim.


Piano é anilina que

Rapidamente

Tinge todo o líquido transparente

Que trafega no interior da sua vida.


Piano é amante,

Confidência,

Luta diária

E o tão sonhado orgasmo.


Não sei que estatura me comporta

Quanto toco Chiquinha

Ou Zequinha.


Nunca as formiguinhas mumificadas das partituras

Chegaram a mim para me picar.


Elas querem mais é que eu as alvoroça,

Para lhes alegrar a vida parasita.

20 de fevereiro de 2011

Questionário

por carolina fellet

Onde é que o Tempo esconde a aquarela com as cores do mundo?

Que maestro chegou à conclusão do som certeiro do latido?

Como as formigas descobriram a barata morta dentro da minha cozinha e por que resolveram fazer-lhe uma procissão fúnebre?

Por que as lagartixas não se assumem lagartixas e se entrosam com o mundo humano?

Por que as baratas têm movimentos tão aleatórios e nos assustam com tamanha imprevisibilidade?

Quem descobriu que o beijo sintetiza porções de libido?

Qual será o barulho que minha audição não alcança?

Por que todo domingo meu corpo produz melancolia?

1 de fevereiro de 2011

Lagartixa

por carolina fellet

Não bastasse a textura molenga da lagartixa, ela desliza sonsamente pelas paredes e superfícies, além de pular como sapo.
No meu corpo: química do asco!

por carolina fellet

Política como profissão?

Prefiro minhas ficções:

Dolores, de Nabokov. Policarpo Quaresma. Madame Bovary.

24 de janeiro de 2011

por carolina fellet

Aquela garota dócil, que estava sempre na iminência de explodir alguma lágrima está sumida do meu íntimo. Química de arrependimento é coisa que não mais transita pelo meu sangue.

18 de janeiro de 2011

por carolina fellet

Ele é desses palhaços de hospital, que desabrocham flor-de-lótus em crianças condenadas por alguma doença.

Na maleta de ‘doutor da bagunça’ carrega artefatos cheios de recursos visuais e os manipula, além de fazer performances com o corpo e com a nesga de alegria – sua companheira de missão.

Mas dentro da variedade do próprio íntimo, é pai de uma melancolia ainda criança; que lhe exige muito.

17 de janeiro de 2011

Todo dia

por carolina fellet

Não podendo escapar do redemoinho da rotina, ela passa a tarde na frente do computador.

Naquela segunda-feira, a visão periférica esquerda fora violada por um movimento incomum.

É que no terreno baldio que lhe fazia fronteira com a vista, havia um senhor pequenininho, com boné e blusa de propaganda de político fazendo a capina.

Ele parecia ter vindo para a vida daquele tamanho, exercendo aquela atividade, tamanha era sua integração com o trabalho.

1 de janeiro de 2011

Pós-ceia

Depois da ceia de réveillon, o pum da garota estava letal.

Afinal, o organismo dela não está acostumado a metabolizar tanta comida.

29 de dezembro de 2010

A alguém especial

A partir das habilidades com que meus pés roçam a vida,

Reconheço texturas, temperaturas, prazer e dor.

Sou cheia de ciência para recepcionar o Mundo,

Embora Ele nunca se revele inteiro a mim.

Já fui toda fruta – bendita descoberta da maçã.

Já fui toda tristeza,

No momento em que o tempo viu-se incumbido

[de instituir em mim a química da decepção.

Já fui enganada por finas lâminas de gelo,

Mas já visitei outra dimensão – sem avião nem nada –

Apenas me submetendo a radiações de inteligência alheia.

Deus às vezes se excede através de trovões letais.

E também se supera (ou supura) por meio de uma sinapse caprichada

Cujo produto chega inteirinho para mim.

Pronto para o consumo imediato.

27 de dezembro de 2010

Por estar mais maciça de tempo do que eu, mamãe às vezes tenta me blindar contra algumas radiações da vida. Mas são inevitáveis os meus percalços.

A fraqueza alheia, por vezes, é o oásis dela.

23 de dezembro de 2010

Família

Família é realmente superimportante para qualquer pessoa, porque quem vem para a Terra sob o formato humano e fica exposto diretamente às radiações da Vida estabelece para si uma aura de incessante amargura.

15 de dezembro de 2010

Enquanto os bichos vivem a rudeza que lhes é imposta, a gente convive com ternura, compaixão, altruísmo.

É um privilégio ter vindo humano para a Vida.

13 de dezembro de 2010

Em vez de Ticiane se embasar na própria fortaleza intrínseca para agir e lidar com as pessoas, ela empreita toda a sua expectativa nas situações. Portanto, a personalidade dela, embora seja de ossos, é submetida ao molejo que somente os cartilaginosos aguentam.

9 de dezembro de 2010

Sobre ter filhos

Ter filhos é intermediar Deus ao novo, o qual é curioso, inquieto e livre para receber comandos e conhecimentos.

Conduzir um serzinho à Vida, portanto, demanda inteligência e cautela.

O que se vê, no entanto, é pai optando pela paternidade como uma obrigação civil, e não devido ao desejo de se envolver integralmente nessa missão. O produto disso são filhos vivendo suas naturezas de um jeito autônomo – como a grama, o vento, o céu – e se encalacrando com os barros das descobertas e seus respectivos tropeços.

Não menosprezando a biologia dos vegetais, eles próprios precisam ser regados de duas a três vezes por semana. Se se trata de ser humano, o comprometimento com este deve ser bem maior, porque além da subsistência ele precisa de carinho. E não dá para ser autodidata em se tratando desse tema.

Viagem para a Disney substitui ensinamento de educação e de bondade? Brinquedo supertecnológico dispensa afeto dos pais? Coração de babá tem o mesmo conteúdo de coração de mãe?

O que você, pretenso pai, tem para contar/ensinar a seu pretenso filho? Vale a pena trazer para a vida alguém de quem você será o guardião?

Tenho muita pena desses que vêm à luz seres humanos e vivem como mato; respeitando apenas a natureza que lhes convém.

4 de dezembro de 2010

Relatividade

Chega sexta-feira e meu ânimo se altera como a primavera dita mudanças à vegetação.

O Acaso

Cumprindo a própria obrigação, o telefone ressoou. E minha sexta-feira, que até as 16h25 era grama verdinha, perdeu-se no barro.

O coração sumiu com seu maestro e ficou dissonância pura. O paladar recebeu os mandamentos do amargo para processar.

Os sentidos todos se atormentaram dentro da minha casa.

“Só o acaso estende os braços a quem procura abrigo”.

3 de dezembro de 2010

Sobre a solidão

por carolina fellet

Conforme vislumbrara, a vida não lhe estava fácil, porque a solidão – por mais que lhe trouxesse criatividade – a blindava contra desabafos, carícias e o próprio exercício do humano.

Por sorte, mantinha no apartamento onde morava a atmosfera que era dela. Os cômodos, os pertences, as comidas excediam a natureza de impessoalidade inerente a eles: tudo ali era uma extensão de Blima.

Chegar em casa todos os dias sem ter quem a aconchegasse era como se toda a natureza estivesse à mercê do nada; privada do sentido humano para recepcioná-la.

A situação se agravou e a moça solitária apelou a vizinhos e agendas antigas. Nessa busca, angariou alguns pares de ouvidos e de olhos e um pouco de atenção.

Todavia, como os donos desses materiais vitais possuíam aflições também, quase nada puderam fazer por Blima.

...

Um dia, enfurnada no laboratório das próprias químicas, ela atritou dois emplastos do corpo, reconheceu Deus dentro de si e alcançou o Supremo

26 de novembro de 2010

Panelas

por carolina fellet

Mamãe sempre foi entrosada com a culinária.

Já eu... Tenho ojeriza a panela em cima de trempe ligada.

Sinto-me tão ameaçada como se estivesse diante de uma cobra pronta para inocular em mim seu veneno.

Panela é coisa viva.

19 de novembro de 2010

Natureza humana II

por carolina fellet

É fatal: em determinado momento do dia, ela sente-se cansada da natureza humana que lhe é imposta a todo momento.

11 de novembro de 2010

Querido Conde M.,

por carolina fellet

Não o guardo nas várzeas da minha memória porque as utilizo como depósito do número do meu CPF, do itinerário para a faculdade e dos dias em que faço ioga.

Os resíduos do nosso namoro de mais de quatro anos espalharam-se entre alguns de meus sentimentos mais nobres e transformaram-se em um centímetro que seja do meu progresso enquanto gente.

Obrigada por ter me apresentado à dimensão da volúpia sob a velocidade de quem quer se encantar pelo percurso. Obrigada por ter usado da sua beleza física e sentimental comigo durante o tempo em que estivemos juntos.

Perdão pelos momentos em que agi de acordo com os comandos do egoísmo e, portanto, fui-lhe injusta.

Feliz aniversário.

Agora sem presentes, sem beijinhos, sem amassos, embora com muito carinho.

Carol.

9 de novembro de 2010

O falo

por carolina fellet

O falo é figura importante na vida de qualquer mulher. O problema é seu entorno: o dono dele. Que tem hábitos próprios, timbre de voz, inclinações...

8 de novembro de 2010

Vislumbrando o futuro alheio

por carolina fellet

No perímetro em que ela se aloja na balada; na fila da casa lotérica; no posto de gasolina... Por onde ela passa, há sempre um oriental farejando minha irmã.

Já disse a ela que o futuro lhe reserva um vendedor de caneta-choque.

7 de novembro de 2010

Relações pós-modernas

por carolina fellet

O cara com quem você saía a tratava com delicadeza e gentileza.

De repente, já que o convívio prescinde de cerimônia, ele – o cara com quem você saía – torna-se rude perante o relacionamento.

Como se o mar abstivesse de sua natureza líquida e dinâmica e sucumbisse à biologia das areias.

6 de novembro de 2010

O vírus

por carolina fellet

Numa pretensão, o vírus entrou no meu corpo como um estupro. Amanheci gripada.

...

Depois fiquei pensando:

Os vírus pegam as mulheres que eles quiserem. Afinal, até a Sandy gripa.

Sobre a beleza

por carolina fellet

A beleza das branquelas é sazonal: no inverno ela resplandece.

5 de novembro de 2010

Sobre o processo de domesticação da cria

por carolina fellet

Há quem deixe a própria cria no quintal de casa; à mercê dos quatro ventos.

Quem vem para a vida sob o status humano quer ser gente, ora.

E isso implica o processo de domesticação feito pelos pais.

28 de outubro de 2010

Cargo político

por carolina fellet

Quem se inclina à política deveria ter como característica principal o altruísmo, já que representar o povo é agir em prol dele.

O que se vê, entretanto, é gente fazendo carreira profissional com a política, a qual oferece salários astronômicos em troca de poucos esforços.

Ora, ser vereador, governador, senador, presidente como empreendimento deturpa completamente a função da política – cujos benefícios a seus aliados deveriam ser meramente simbólicos.

27 de outubro de 2010

Sim e Não

por carolina fellet

NÃO às drogas ilícitas.

NÃO ao álcool.

SIM ao efeito colateral do antialérgico.

Para garantir a sonolência de uma noite de sonhos...

26 de outubro de 2010

Visita

por carolina fellet

Encher a casa de visita aos finais de semana é uma alternativa para vencer o tédio e salvar o próprio casamento.

19 de outubro de 2010

A ira

por carolina fellet

O que fazer quando a química do próprio corpo está toda empreendida na ira?

A que deus recorrer?

Roer a unha até o sabugo?

Irada, sou nula.

Somem em mim todas as possibilidades humanas.

14 de outubro de 2010

Independência feminina

por carolina fellet

A Independência das mulheres – se é que foi conseguida – apresenta muitas falhas.

Por um recalque trazido da antiga condição de submissão a homens machistas, mulheres pós-modernas entram para relações conjugais munidas de armas até os dentes.

Se eles querem azul, elas lutam pelo amarelo.

Se eles preferem pedir uma pizza e passar o fim de semana em casa, elas escolhem jantar fora.

Minhas contemporâneas querem levantar a bandeira da própria autonomia a partir do muque obtido com a revolta perante vidas e vidas de opressão – afinal, foram tantas as amélias.

Será que isso funciona?

Educação Física

por carolina fellet

Hoje entendo por que não gostava de Educação Física na escola.

É que nos jogos, geralmente, nossos corpos é que eram o alvo da bola.

E o que é que eu faria com meu instinto de autopreservação?

Nunca consegui superá-lo.

Sustentabilidade

por carolina fellet

Se por conta própria a natureza já se excede – haja vista, nas bancas de supermercado, as frutas, verduras e legumes com tamanhos exagerados –, imagine quando as siliconadas estiverem mortas e seus respectivos silicones precisarem ser degradados?

Prece

por carolina fellet

Que eu consiga contornar situações difíceis. Se não me for possível, que eu caminhe carregando-lhes o peso, a fim de alcançar um músculo rígido que me deixe potente o bastante para resistir à natureza das circunstâncias.

A trapaça

por carolina fellet

A natureza me trapaceou.

Desde que “fiquei mocinha”, aos 11 anos, estou esperando a manifestação dos bustos e quadris.

Já se passaram 14 anos e eu continuo usando sutiã menina-moça.

Anjo da Guarda

por carolina fellet

Dizem que todas as pessoas têm um mentor espiritual – o popular anjo da guarda.

O da dona Silvana é um gourmet, afinal ela só pensa em hamburger, lasanha, canelone.

5 de outubro de 2010

Tipo exportação

por carolina fellet

Papai quer me mandar para os EUA, porque meus irmãos moraram lá e falam um inglês fluente. E eu sou brasileira analfabeta de norte-americano.
A sensação que tenho talvez seja a mesma dos escravos diante da alforria, afinal, fui acostumada a mamãe e papai e irmãos resolvendo tudo para mim.
E se com bom e velho portuga eu me embaraço com as burocracias, imagine em outro país?!
Que agonia!

O gringo

por carolina fellet

Perante um gringo, há um mistério.
Porque o pensamento dele é processado conforme um código diferente do nosso.

Inteligência: fiel companheira

por carolina fellet

A melancolia, por vezes, é efeito colateral da inteligência. E esta, quem a tem, possui companhia fiel.

3 de outubro de 2010

Casa

por carolina fellet

Casa é gravidade nesta vida. Por mais que percorramos de um lado a outro, queremos sempre regressar-lhe.

No tatame

por carolina fellet

Luta no tatame é uma tentativa de calar Deus.

26 de setembro de 2010

Sobre a tristeza

por carolina fellet

Já que tudo nessa vida é pura especulação...

Será a tristeza o prenúncio de uma felicidade?

18 de setembro de 2010

Toxina botulínica

por carolina fellet

Que pretensão desafiar as manobras certeiras do Tempo com toxina botulínica, tintura de cabelo, viagra, reposição hormonal, cirurgia plástica.
Quem é que pode manter o céu azul? Estacionar a maturação das flores? Interromper o fôlego do mar? “Desnascer” um bebê e “desmorrer” um vovô?

Natureza humana

por carolina fellet

Às vezes peço licença para exercer minha natureza humana. Esvaziar a comporta de xixi, extirpar o mau-hálito com uma boa escovação de dente, tirar o sebo sintetizado pelo próprio corpo.
Outras vezes, procuro o outro, para novamente exercer minha natureza humana.
Quero ver e ser vista. Lustrar meus predicados e atrair atenções, como se eu fosse a gravidade do lugar por onde passar.
Recolho-me em dor. Desabrocho-me em flor, a fim de conquistar aquele rapaz desimpedido. Pura natureza humana. Abre e fecha; ilumina e escurece; entende e desconhece.

Nelson Rodrigues

por carolina fellet

O preconceito com Nelson Rodrigues equipara-se ao preconceito com a própria natureza humana. Afinal, o dramaturgo apenas registrou – através da palavra – as reações (e a tomada ou não de atitude a partir delas) das pessoas perante o corriqueiro. Nada mais.

17 de setembro de 2010

Não às partituras

por carolina fellet

“A” é geografia de som.

Assim como a clave de sol

E toda a partitura o são.


Bom mesmo é musicar a vida

A partir das batidas do coração.

9 de setembro de 2010

Pensamento do dia

por carolina fellet

Quem se atenta à metafísica, por mais que se ocupe com alguma burocraciazinha deste mundo material, jamais se priva de vislumbrar um pouco da eternidade em tudo. Porém, chega uma hora em que aterrissar nesta dimensão, nas zonas erógenas, no valor de cada coisa que ganhou carne e veio para o mundo é fundamental.

3 de setembro de 2010

Vidinha de alma

por carolina fellet

Insisto em escrever sobre a vida das almas. É que tem muita gente que insiste em anestesiar esta temporada orgânica e se arremessar a outra dimensão. Poxa! Vidinha de alma deve ser muito chata. Sem região erógena... E sem brigadeiro.

31 de agosto de 2010

Curiosidades do mundo Pós-Moderno

por carolina fellet

O mundo mudou.
O velho alicate da manicure foi substituído por uma piscina natural repleta de peixinhos que se alimentam de cutícula.
O talentoso cérebro dos taxistas cedeu espaço ao GPS.
Cursinhos de inglês perdem aluno progressivamente. Os estudantes preferem aprender idiomas estrangeiros “in loco”.
A sangria das mulheres estancou. Basta elas tomarem meia-dúzia de cápsulas.
A nova geração nasce sem siso.
Indesejáveis pelos são extirpados com o laser.
Felicidade sintética é vendida nas farmácias.
“Procura-se um amor” permanece vitalício nas manchetes de jornal.
E as manicures continuam sendo o veículo de comunicação mais eficaz.

Ex

por carolina fellet

Dia desses me deu uma vontade de ligar para o ex. Mas, como sempre faço um balanço com as sugestões articuladas pelo meu ID e SUPEREGO antes de tomar qualquer decisão, optei por não lhe telefonar.
Afinal, vai que ele tenha extirpado de toda a linfa a “estação carolina”. E eu estou sem nutrientes básicos para me lhe enraizar de novo.

Sobre a dependência química

por carolina fellet

Não sou usuária de drogas e nem simpatizante – nunca fui!
Porém, percebo que os toxicômanos da minha geração tiravam muito mais proveito dos efeitos dos entorpecentes. Escreviam, compunham melodias e letras de músicas, pintavam quadros...
Hoje, dependentes químicos babam e morrem em festa rave.

26 de agosto de 2010

por carolina fellet

Pessoas se encastelam e deixam a natureza do inanimado dominá-las. Ter riqueza é interagir com as posses; dinamizá-las rumo à Felicidade.

24 de agosto de 2010

por carolina fellet

Todo "new rich" que se preza faz mechas no cabelo. A impressão que dá é de que a pessoa está estampada.
Então, aí vai um conselho para os mechados: não vistam xadrez nem bolinhas.

21 de agosto de 2010

Homens: são todos iguais?

por carolina fellet

Decepção amorosa é tão fatal quanto o despontar de um par de seios – para as mocinhas. Linda ou feia, gorda ou magra, inteligente ou burra, animada ou depressiva, ela sempre aparece em determinado momento da vida de qualquer menina.

Àquelas que empreendem muita expectativa no parceiro, a primeira frustração amorosa pode ser letal. Porque em vez de o tempo seguir seu status natural e aliviar a dor da perda – ou de traição e maltrato – ele parece potencializá-la. Consequentemente, liquida a saúde (ou a própria vida) de quem esteve sob suas rédeas.

Assim que me estreei na seção da paquera, estive sujeita a seus louros e a suas intempéries, inevitavelmente. E o que pude ponderar disso é que os conflitos se enraizavam em mim com muito mais facilidade que as glórias.

Por anos a fio, ficava imersa nas águas paradas da tristeza; sem vislumbrar melhora e novas perspectivas. Encarava o desleixo masculino como consequência de uma falha única e exclusivamente minha.

Porém, como na Natureza, as pessoas variam de estação: amadurecem, atentam-se a outros sentidos, mudam de gosto, desenvolvem expectativas diferentes.

Comigo não foi diferente.

Meu âmago conseguiu – com os destroços das minhas relações malsucedidas – me transportar à razão.

Hoje racionalizo meus fracassos, principalmente os amorosos, e penso: tudo de extraordinário que o outro possui é mais uma projeção nossa em relação a ele, e menos uma verdade autossuficiente.

Em suma: os homens são, sim, todos iguais. Os “melhores” são apenas o produto de nosso investimento altruísta neles – bonzinho, bonitinho, trabalhadorzinho...

12 de agosto de 2010

Tatuagem e piercing: novas perspectivas

por Carolina Fellet

Quando a pauta desta matéria foi pensada, sua principal intenção era associar as intervenções estéticas em questão ao fetichismo. Afinal, o próprio habitat das tattoos e dos piercings – a pele – é cheio de regiões erógenas.

No entanto, o foco pretendido cedeu espaço a outras interpretações a essas alterações estéticas.

....

Existem muitos registros que relacionam as primeiras tatuagens, feitas entre 4000 e 2000 a.C. no Egito, e os primeiros piercings, utilizados pelos esquimós no Alaska, a, respectivamente, rituais religiosos e demarcação da transição para o mundo adulto.

Na segunda metade do século XIX, o Governo inglês utilizou a tatuagem como forma de identificação de criminosos. Posteriormente, no Brasil, a partir de 1960, os estabelecimentos em que as tatuagens eram feitas situavam-se nas imediações dos portos, onde funcionava também a zona boêmia. Não tardou para que as prostitutas se rendessem aos adereços cravados na própria pele. Por esses motivos, principalmente, é que a tatuagem, por muito tempo, esteve associada à marginalidade.

Atualmente, alterações no corpo são cada vez mais comuns; ora para homogeneizar as pessoas – quase todos querem estar magros e não medem consequências para chegar às medidas desejadas –, ora para diferenciá-las, através de cortes e tintura de cabelo, de tatuagens e perfurações.

O estudante, DJ e pretenso funcionário público Rafael Kegele Lignani, 23 anos, fez seu primeiro piercing aos 18, assim que saiu do colégio ortodoxo onde estudava. “Piercing dentro daquela escola era sinônimo de problemas homéricos”. A primeira tatuagem ele fez por volta dos 20 anos.

Hoje em dia, as perfurações e tattoos de Lignani formam uma família: são dois alargadores – um em cada orelha; um piercing na sobrancelha e outro no queixo. Além de três tatuagens: uma no ombro e mais duas – uma em cada panturrilha.

O porquê dessas intervenções estéticas o jovem atribui, genericamente, ao charme que lhes é natural, mas faz algumas restrições: “uma tatuagem de uma índia ou a de um rosto mal-executado não podem ser incluídas nessa categoria de intervenções extremamente charmosas”.

Com a jornalista Vivian Oliveira Ribeiro, 24, a primeira alteração no próprio corpo aconteceu mais cedo; quando ela tinha 16 anos. “Juntei dinheiro e paguei (um piercing no umbigo). Tudo com o consentimento da minha mãe”. Depois, Vivian fez outros furos nas orelhas e um no nariz. A primeira tatuagem ela fez aos 19, também sob aprovação dos pais.

No seu atual balanço de perfurações e desenhos, encontram-se três tatuagens e três piercings. Cada um deles representa para ela um gesto de vaidade.

Também jornalista, Roberta Barreto, 24, colocou o primeiro piercing muito precocemente; aos 13 anos. O motivo? Um pacto com as colegas da época – que também se submeteram a perfurações – cujo lema era não se afastarem umas das outras.

Aos 21 anos, Roberta tatuou no pé a frase “Papai, obrigada!”, em homenagem a seu falecido e saudoso pai. Hoje, ela já tem uma pequena coleção de alterações feitas na própria pele.

Para ela, tatuagem é muito mais que modismo e ato de vaidade. “Não creio que haja tantas pessoas que marcam o corpo apenas para parecer moderno”.

O que diz o especialista

Segundo o tatuador Hugo de Oliveira Lemos, 24, tatuar é “traduzir a ideia de uma pessoa para um desenho no corpo”, o que ele classifica como expressão artística. O significado dado a esta cabe ao tatuado, que, em muitos casos, escolhe o desenho a ser feito no próprio corpo sob influência da mídia – em especial da televisão – e da situação por que está passando.

Quem não se lembra da tatuagem que a atriz Deborah Secco fez em homenagem ao namorado da época Falcão? Depois de aparecer no Fantástico falando sobre o gesto de amor, muitas “deboras” fizeram tattoos com os nomes de seus amados em diferentes partes do corpo.

De acordo com Hugo, os preços das tatuagens variam. Levam-se em conta o tamanho, o local, o material usado. O preço mínimo cobrado por um profissional que utiliza produtos de qualidade é em torno de R$60,00.

E você, já decidiu a parte do corpo que vai abrigar sua tattoo?

10 de agosto de 2010

por carolina fellet

Encontro a dois programado para o fim de semana sempre traz uma alegria a mais para os dias úteis. Como o queijinho na pipoca; o caramelo no fundo do pote de sundae e o beijo com sabor de Sete Bello®.

Piriguetes

por carolina fellet

Às vezes sinto inveja das piriguetes, que têm audácia e muita saúde.
Mas cá fico eu com meu fôlego que aguenta cinco minutos de esteira.

Sobre falar ao telefone

por carolina fellet

Meu trauma de falar ao telefone talvez seja explicado pelo naipe de gente – sem civilidade e sem objetividade – que trafega na linha.

No fim das contas, esse pessoal serve de antídoto para minhas inseguranças.

6 de agosto de 2010

por carolina fellet

Com a agressividade de um bandido sob o efeito da cocaína, o rapaz perguntou à mocinha, na balada: “tem namorado”? E ela lhe respondeu, hesitante: “t-tenho; te-nho sim”. E o homem insistiu: “tá falando sério ou tá me dichavando”? Quase que ela perguntou se ele queria só o cordão ou levaria os anéis também.


4 de agosto de 2010

por carolina fellet

Em entrevista ao Jô, o vice-presidente da República, José Alencar, mostrou que tem magnetismo ímpar para contar histórias.

Através de um vocabulário sem rebuscamentos, ele envolve seus casos num fio firme e o entrelaça em quem o estiver ouvindo.

Pura sedução!

por carolina fellet

O problema é quando se empreita ânimo nas coisas mortas. Desespero para comprar a roupa exposta na vitrine. Aflição para pagar a prestação da Hilux.

por carolina fellet

Em pequena, adorava o universo das domésticas. De dia, elas eram formiguinhas com funções acumuladas e, de noite, supernamoradeiras.

por carolina fellet

Como tenho inveja da Hebe Camargo com sua respectiva segurança.

3 de agosto de 2010

O ipê

por carolina fellet

Sabe aqueles dias em que, numa súbita reflexão sobre a vida, a gente diagnostica um vazio total; nada de perspectivas? E sair da inércia é tão arriscado que é preferível permanecer onde está, porque qualquer movimento pode ser letal?

Transitar pela casa de um lado a outro apenas cumprindo a natureza humana. Essa é a ação que se espera dos melancólicos, os quais se dividem em dois grupos: os melancólicos-burros e os melancólicos-inteligentes.

Os primeiros se matam precocemente; sem antes cogitar a possibilidade – positiva ou negativa – de vida pós-túmulo. Já os últimos aproveitam dos recursos de que dispõem desde o nascimento para transformar as percepções em algum feito.

Rejane é uma melancólica-inteligente.

Por isso, em um de seus acessos de melancolia, ela foi para a sacada de sua casa para observar – entre transeuntes e automóveis – o ânimo da natureza. Olhou primeiro o céu, depois uns arbustos que formavam uma cerca natural em toda a extensão da rua. Por fim, seu campo visual foi invadido por um ipê amarelo e recém-nascido num quadrado de terra em meio à calçada para pedestres.

A imposição daquela vida ali no meio-fio transportou Rejane a 360º de horizonte.

...

Nunca mais ela se esqueceu do ipê de sua rua.

2 de agosto de 2010

Sobre a vingança

por carolina fellet

Não arrisco minhas delicadas mãozinhas em empreitadas de vingança. Porém, quando a Natureza resolve fazê-lo em meu nome, fico-lhe muito grata.