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14 de fevereiro de 2012

Fernanda Young


por carolina fellet
Acabar a leitura de um livro da Fernanda Young é como despedir-se daquela paquera não só bonita, mas cheia de alqueires contendo brotos de mistérios. Ficam as reverberações dos beijos e dos diálogos – trampolins a outras dimensões, além de uma saudade enorme. O que era bom naquele tempo presente ganha agora uma proporção de elefante. E a saudade atrelada à melancolia enfarta toda a minha possibilidade de alegria.

13 de fevereiro de 2012

Juízo, minha filha!


por carolina fellet
A tradicional recomendação de todos os pais em todos os tempos – JUÍZO, MINHA FILHA – não cabe a mim. Sou uma filha que não tem saúde para infringir os princípios que compõem o juízo. Cinco minutos de esteira já me levam à falência múltipla dos órgãos.

9 de fevereiro de 2012

A aspirina

por carolina fellet

Tomar uma aspirina. Quase nada me faz sentir tão derrotada quanto praticar esse ato.
Estou acostumada à miopia da autossuficiência, do autocontrole. De repente, uma dor chega sorrateiramente e se apossa da minha química. Mantenho-me sob a burra imponência que me é inerente. Mas as horas passam e à medida que avançam, aumentam a carga da dor. Entrego-me. Como o bandido que desiste da fuga e se rende aos policiais. Abro a gaveta. Tiro a cápsula da clausura da cartela de comprimidos e a engulo. Depois disso, atesto-me derrotada.

3 de janeiro de 2012

Ação sem reação

por carolina fellet

A chuva poderia dar uma trégua, o sol, dar as caras nas praias... Em vez disso, eis que uma gripe se apossa do meu corpo. Iniciativa mais inútil!

2 de janeiro de 2012

O marasmo

por Carolina Fellet

Um paulista sai de seu cenário de guerra – aviões congestionando o céu, carros empilhados e redemoinhos de gente tentando um encaixe dentro do metrô – rumo a Juiz de Fora, na Zona da Mata Mineira. Ao chegar a este destino, observa os habitantes do local e se deprime com a falta de perspectiva inerente ao povoado. Passa quinze dias entregue ao marasmo e propulsionado pelo ócio inevitável. E volta para a selva de pedras feliz da vida. Enfrenta filas, brinda à solidão e pede uma pizza.

10 de outubro de 2011

Conversa de saguão de hotel

por carolina fellet

Nossos avós eram mais atenciosos com a letra L
MaLvado, iguaL e áLcool.
Falavam em compasso Bossa Nova
E choravam ao som de Frank Sinatra.

Os avós de 2050 terão aprendido a andar através de teleaula do Youtube
Comido maçã que não escurece depois de descascada
E conhecido o orgasmo pelo mouse.

À parte disso,
Uma constatação:
Para os sentidos, inventaram todas as artes
Aos ouvidos, música,
Aos olhos, literatura e imagens
Aos narizes, fragrâncias
Ao tato, texturas e mãos dadas
Ao paladar, angu?

Bem-vinda, alta gastronomia.
Minha língua também é um vasto território a ser explorado!

Portanto, ela pode se contentar com um bifinho de segunda-feira,
mas também decodificar um Fernando Pessoa da culinária.

1 de setembro de 2011

Higiene pessoal

Às 7h30 o despertador toca. Camilinha se levanta e antes de dar início ao dia de trabalho:
retira o aparelho-móvel da boca, escova os dentes, lava o rosto, faz xixi e se limpa, regula a temperatura da água do chuveiro, toma um banho rápido, se enxuga, passa desodorante, perfume e hidratante, veste a roupa, desembaraça o cabelo e o seca com o secador.
A higiene humana cansa!!!! Aff.

13 de agosto de 2011

Bullying: da escola para a vida toda

lide

Magricela, baleia, espinhento, quatro olhos, cabelo Bombril. Nem Gisele Bündchen escapou de apelidos pejorativos durante a época de escola, sendo muitas vezes chamada de Olívia Palito, somaliana e saracura. Dependendo da frequência com que são ditos e da intenção de quem os pronuncia, esses chamamentos podem representar o Bullying, cujas consequências tendem a assombrar para sempre a vida de suas vítimas.

10 de agosto de 2011

O veredicto

Hoje fiquei oca de valores kardecistas.
Maninha voltou da viagem e trouxe para mim 44 presentes.
Fiquei super-radiante.

18 de julho de 2011

Sobre o bem sempre vencer

Fui assistir ao mais atual filme do Harry Potter com meu afilhado e, embora não tenha me interessado pelo enredo e entendido bulhufas do longa, a mensagem que me ficou foi de que o bem sempre vence o mal. Não só nesse vídeo, mas em quase todas as produções em audiovisual voltadas ao público infantil, há sempre essa ideia da prevalência do bem. Talvez haja uma intenção subliminar nisso: a de civilizar um público que será proprietário do futuro. É preciso que as crianças se tornem adultos éticos, versados em valores pautados na bondade e na justeza. Porém, a vida não funciona assim. Muitos maus indivíduos têm salários de R$100 mil, andam de carrões, comem camarão segunda-feira e morrem com requinte de caixão com vista panorâmica.

17 de julho de 2011

Ser demitido

Ser demitido é
Broto sem perspectiva de maturar em flor
Beijo seco entre doentes de UTI
Sexo de prostituta
Torta de brigadeiro diet
Rio de Janeiro nublado
Cão domesticado
Leão de circo
Desafeto
Desumano
Inumano.

26 de junho de 2011

24 de junho de 2011

Retrô

Subitamente, as águas da memória me levam à casa da vovó.
Lá, meus olhos são arremessados às cadeiras da varanda. As almofadas são vermelhas e a samambaia-portuguesa está cada vez mais revigorada. Lembro que é domingo e, na segunda-feira, o Civilizado me impele. As perspectivas daquela criança, que é fóssil em mim, me aniquilam a Vida. Enfim, o despertador me obriga a ir para a guerra.

20 de junho de 2011

16 de junho de 2011

Vã comparação

A gente acha que computador é imprevisível como as sinapses. Mas ele é matemático... Marcado como a música "Bebida é água/Comida é pasto/Você tem sede de quê/Você tem fome de quê".

17 de maio de 2011

Memória auditiva

por carolina fellet

A memória do barulho da gaveta se arrastando enquanto abre me leva a espasmos de infância. Tempo irreversível, fossilizado. Vida transformada em química de melancolia.

5 de maio de 2011

Cesar Romero

PRÊMIO LITERÁRIO

O escritor Hernany Tafuri faturou o segundo lugar no "Grande Concurso Cidade do Rio de Janeiro" com o poema "Batalha". Foram inscritos 2.383 trabalhos e 914 classificados. A propósito, sábado agora, na Livraria A Terceira Margem, Hernany, Carolina Fellet e Alexandre Vieira farão o lançamento do livro "Três em contos".

19 de abril de 2011

7 de abril de 2011

24 de março de 2011

Disparo

A metralhadora do Tempo dispara reações dentro de mim:

Diante do rato, asco.

Sob a iminência de encontrar o namorado, lascívia.

Perante o novo emprego, medo.

15 de março de 2011

A vida social é só uma tapeação a alguma movimentação que acontece sob o comando da Eternidade.

11 de março de 2011

Ser adulto

por carolina fellet

Bom de ser adulto

É ver o mundo

Mais próximo de seus graus originais.


Bom de ser adulto

É a chegada à autoconfiança:

Nada de grandes rebuscamentos

Que me tornem mais distante da vida.


Bom de ser adulto

É sinalizar:

Sim

Não

Feio

Bonito

Gosto

Desgosto

Emoção.

4 de março de 2011

O piano

por carolina fellet


Piano impele total atenção.


Se um bolo quente lhe passar pelo olfato,

Ou qualquer outro ato lhe abordar os sentidos,

Você não o perceberá,

Se estiver sobre o teclado de marfim.


Piano é anilina que

Rapidamente

Tinge todo o líquido transparente

Que trafega no interior da sua vida.


Piano é amante,

Confidência,

Luta diária

E o tão sonhado orgasmo.


Não sei que estatura me comporta

Quanto toco Chiquinha

Ou Zequinha.


Nunca as formiguinhas mumificadas das partituras

Chegaram a mim para me picar.


Elas querem mais é que eu as alvoroça,

Para lhes alegrar a vida parasita.

20 de fevereiro de 2011

Questionário

por carolina fellet

Onde é que o Tempo esconde a aquarela com as cores do mundo?

Que maestro chegou à conclusão do som certeiro do latido?

Como as formigas descobriram a barata morta dentro da minha cozinha e por que resolveram fazer-lhe uma procissão fúnebre?

Por que as lagartixas não se assumem lagartixas e se entrosam com o mundo humano?

Por que as baratas têm movimentos tão aleatórios e nos assustam com tamanha imprevisibilidade?

Quem descobriu que o beijo sintetiza porções de libido?

Qual será o barulho que minha audição não alcança?

Por que todo domingo meu corpo produz melancolia?

1 de fevereiro de 2011

Lagartixa

por carolina fellet

Não bastasse a textura molenga da lagartixa, ela desliza sonsamente pelas paredes e superfícies, além de pular como sapo.
No meu corpo: química do asco!

por carolina fellet

Política como profissão?

Prefiro minhas ficções:

Dolores, de Nabokov. Policarpo Quaresma. Madame Bovary.

24 de janeiro de 2011

por carolina fellet

Aquela garota dócil, que estava sempre na iminência de explodir alguma lágrima está sumida do meu íntimo. Química de arrependimento é coisa que não mais transita pelo meu sangue.

18 de janeiro de 2011

por carolina fellet

Ele é desses palhaços de hospital, que desabrocham flor-de-lótus em crianças condenadas por alguma doença.

Na maleta de ‘doutor da bagunça’ carrega artefatos cheios de recursos visuais e os manipula, além de fazer performances com o corpo e com a nesga de alegria – sua companheira de missão.

Mas dentro da variedade do próprio íntimo, é pai de uma melancolia ainda criança; que lhe exige muito.

17 de janeiro de 2011

Todo dia

por carolina fellet

Não podendo escapar do redemoinho da rotina, ela passa a tarde na frente do computador.

Naquela segunda-feira, a visão periférica esquerda fora violada por um movimento incomum.

É que no terreno baldio que lhe fazia fronteira com a vista, havia um senhor pequenininho, com boné e blusa de propaganda de político fazendo a capina.

Ele parecia ter vindo para a vida daquele tamanho, exercendo aquela atividade, tamanha era sua integração com o trabalho.

1 de janeiro de 2011

Pós-ceia

Depois da ceia de réveillon, o pum da garota estava letal.

Afinal, o organismo dela não está acostumado a metabolizar tanta comida.

29 de dezembro de 2010

A alguém especial

A partir das habilidades com que meus pés roçam a vida,

Reconheço texturas, temperaturas, prazer e dor.

Sou cheia de ciência para recepcionar o Mundo,

Embora Ele nunca se revele inteiro a mim.

Já fui toda fruta – bendita descoberta da maçã.

Já fui toda tristeza,

No momento em que o tempo viu-se incumbido

[de instituir em mim a química da decepção.

Já fui enganada por finas lâminas de gelo,

Mas já visitei outra dimensão – sem avião nem nada –

Apenas me submetendo a radiações de inteligência alheia.

Deus às vezes se excede através de trovões letais.

E também se supera (ou supura) por meio de uma sinapse caprichada

Cujo produto chega inteirinho para mim.

Pronto para o consumo imediato.

27 de dezembro de 2010

Por estar mais maciça de tempo do que eu, mamãe às vezes tenta me blindar contra algumas radiações da vida. Mas são inevitáveis os meus percalços.

A fraqueza alheia, por vezes, é o oásis dela.

23 de dezembro de 2010

Família

Família é realmente superimportante para qualquer pessoa, porque quem vem para a Terra sob o formato humano e fica exposto diretamente às radiações da Vida estabelece para si uma aura de incessante amargura.

15 de dezembro de 2010

Enquanto os bichos vivem a rudeza que lhes é imposta, a gente convive com ternura, compaixão, altruísmo.

É um privilégio ter vindo humano para a Vida.

13 de dezembro de 2010

Em vez de Ticiane se embasar na própria fortaleza intrínseca para agir e lidar com as pessoas, ela empreita toda a sua expectativa nas situações. Portanto, a personalidade dela, embora seja de ossos, é submetida ao molejo que somente os cartilaginosos aguentam.

9 de dezembro de 2010

Sobre ter filhos

Ter filhos é intermediar Deus ao novo, o qual é curioso, inquieto e livre para receber comandos e conhecimentos.

Conduzir um serzinho à Vida, portanto, demanda inteligência e cautela.

O que se vê, no entanto, é pai optando pela paternidade como uma obrigação civil, e não devido ao desejo de se envolver integralmente nessa missão. O produto disso são filhos vivendo suas naturezas de um jeito autônomo – como a grama, o vento, o céu – e se encalacrando com os barros das descobertas e seus respectivos tropeços.

Não menosprezando a biologia dos vegetais, eles próprios precisam ser regados de duas a três vezes por semana. Se se trata de ser humano, o comprometimento com este deve ser bem maior, porque além da subsistência ele precisa de carinho. E não dá para ser autodidata em se tratando desse tema.

Viagem para a Disney substitui ensinamento de educação e de bondade? Brinquedo supertecnológico dispensa afeto dos pais? Coração de babá tem o mesmo conteúdo de coração de mãe?

O que você, pretenso pai, tem para contar/ensinar a seu pretenso filho? Vale a pena trazer para a vida alguém de quem você será o guardião?

Tenho muita pena desses que vêm à luz seres humanos e vivem como mato; respeitando apenas a natureza que lhes convém.

4 de dezembro de 2010

Relatividade

Chega sexta-feira e meu ânimo se altera como a primavera dita mudanças à vegetação.

O Acaso

Cumprindo a própria obrigação, o telefone ressoou. E minha sexta-feira, que até as 16h25 era grama verdinha, perdeu-se no barro.

O coração sumiu com seu maestro e ficou dissonância pura. O paladar recebeu os mandamentos do amargo para processar.

Os sentidos todos se atormentaram dentro da minha casa.

“Só o acaso estende os braços a quem procura abrigo”.

3 de dezembro de 2010

Sobre a solidão

por carolina fellet

Conforme vislumbrara, a vida não lhe estava fácil, porque a solidão – por mais que lhe trouxesse criatividade – a blindava contra desabafos, carícias e o próprio exercício do humano.

Por sorte, mantinha no apartamento onde morava a atmosfera que era dela. Os cômodos, os pertences, as comidas excediam a natureza de impessoalidade inerente a eles: tudo ali era uma extensão de Blima.

Chegar em casa todos os dias sem ter quem a aconchegasse era como se toda a natureza estivesse à mercê do nada; privada do sentido humano para recepcioná-la.

A situação se agravou e a moça solitária apelou a vizinhos e agendas antigas. Nessa busca, angariou alguns pares de ouvidos e de olhos e um pouco de atenção.

Todavia, como os donos desses materiais vitais possuíam aflições também, quase nada puderam fazer por Blima.

...

Um dia, enfurnada no laboratório das próprias químicas, ela atritou dois emplastos do corpo, reconheceu Deus dentro de si e alcançou o Supremo