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16 de maio de 2006

Apêndice

ESTE TEXTO É UMA PEQUENA HOMENAGEM A UMA PESSOA DEMASIADAMENTE ESPECIAL A MINHA VIDA: RODS.

No primeiro dia de aula na faculdade de Jornalismo, os calouros receberam um trote (isto não é nenhuma surpresa; já foi cimentado e eleito estátua pelo vigente). Quem lhes passou o engano foi um rapaz do segundo período, todo empedernido, vaidoso e baforando um sentimento de “sou onipotente diante de vocês, seus embriões ignorantes do regime de uma Universidade”. Ele travestiu-se de professor severo e menosprezou com enorme aspereza cada indivíduo que estava ali temendo o novo, impregnado de expectativas.
O rapaz fez-se de popular, mas, na verdade, é um tanto quanto impermeável ao novo. Foram raras as vezes, por exemplo, que, ao cruzar com os novatos na faculdade, ele os cumprimentou. Ele transitava pelas dependências da escola como um militar que acredita que a seriedade e a severidade são as setas essenciais para se conduzir bem a vida.
Isso tudo se tornou pretexto para piada de Eduardo, Rodolfo e Carolina (amigos que se perceberam afins com uma quantidade de tempo muito pequena de entrosamento).
Ouviam-se comentários do tipo:
-Lá vem aquele antipático!
-Ao “sabe-tudo”.
-Esse menino nunca mais me cumprimentou; ele parecia-me tão amável, tão desprendido, descolado. Vai entender!
O ápice da chacota surgiu quando, num dia comum, como o ar a que o dia-a-dia fica submetido, Rodolfo – o fofoqueiro-mor, o humorista-mor explanou instantaneamente, sem muito contar com as marchas da razão:
-Quem é aquele apêndice?
O apêndice era um garoto cuja metragem não condiz muito bem com a espécie humana. E o “doutor-onipotente” que nos passara o trote era também um desleixo do Cosmos: era altinho, rechonchudo e mal-humorado. Aqueles dois ali, juntos, cutícula do outro, sugeriam gargalhadas colossais a nosso mundinho interiorano.
“Apêndice” tornou-se nosso jargão a tudo que nos é inconveniente, a tudo que desequilibra – ainda que minimamente – dos padrões. Carolina, Eduardo e Rodolfo batizaram um monte de acontecimento mundano de “Apêndice”.
E assim esse trio faz o tempo ser menos entediante... Com suas palhaçadas sem maldade, com o ato de enfiar a cabeça no banal e voltar de lá cheio de novidades.

Agenda

Agenda para marcação de antecipações de céus. Quanta pretensão programar “n” compromissos estando desprevenido aos súbitos pronunciamentos do Cosmos.
A agenda é uma enorme ousadia. É a crença na Vida e a íntegra fidelidade a ela. É empertigar-se perante a existência.

13 de maio de 2006

Inutilidades: anticorpos ao tédio de se existir

Depois de muito perscrutar-se, Anne enveredou a caminhos de masoquismo supremo. Os sentimentos que lhe eram inerentes desempenhavam uma notoriedade exageradamente maior do que o orgânico que, aos poucos, vai se auto devorando. A Vida negando a Vida. Os objetos passaram a ser envoltos por uma aura de sensibilidade – hegemônica. Cada traço vital afetava o túnel de Anne. E as lágrimas disponibilizadas a ela pelo Cosmos eram infindáveis. Todos os dias havia uma circunstância (às vezes banal, às vezes mais consistente) que lhe trazia crua uma tristeza sem pistas. Tristezas consolidando-se na potência e fraqueza que as lágrimas causam.
Procurou tratamentos... Homeopatia, Ioga, Divã, Desabrochando à mamãe, isto, isso, aquilo... Alopatia. Apoiou-se na tão repugnante alopatia. Nos vícios, nas drogas que são essas cocaínas travestidas de tarjas-pretas. Mas está melhor... Tem feito jus ao status de transeunte que lhe fora fadado. Passa. Vê. Diverte-se com um tropeço de uma vida despreparada para a Vida. Acha puro tropeçar, trocar os nomes, esquecer o trivial da lista de compras. Anne está em processo de ressurreição.
Saiu à rua com sua irmã Paula e ambas foram às compras... Ambas obtiveram orgasmos com as compras. Mas o parceiro depois se dilui num outro pensamento qualquer. Vida natural e Vida artificial não têm final feliz. A cópula é muito rápida. A cópula é impessoal demais para surtir ecos. Anne ainda não se entrosou com as máquinas. A espontaneidade com uma secretária eletrônica é-lhe quase inviável. Ela sente-se perante uma rocha frouxa. E esta é a única mão que a impede (Anne) de quedar e culminar no último suspiro do Fatal. O pulso aciona a quinta marcha, o coração ocorre-lhe como sessões exaustivas de sexo.
Talvez, a futilidade incessante salvasse Anne das próprias intempéries. Mas depois de engolir cada vida inanimada, ela cai, ela cai de cara... A face da alma fica mutilada. E a cura de ferimentos do cerne é infinitamente mais lenta que a cura do artesanato. Há muito enxerto disponível no Nada.

10 de maio de 2006

Pós – festa

A gente se entrosou legal no ínterim da festa. O som – ainda que não estivesse dos melhores – embalou minha morada, incrementou minha alma e me satisfez enfim. Satisfação fugaz. Como qualquer coisa boa da vida. Os meninos estavam encobertos pelas suas belezas inerentes e ajeitados com roupas que lhes garantiram um bônus de lindeza. Três a minha espera. A única fêmea. A única feminina. Adoro o Universo dos intitulados paradoxos, mas que são, na verdade, emendas triviais ao “estar-bem”.
Adoro estar com os meninos... Adoro Casas inacabadas por dentro ou casas que emanam propagandas enganosas também.
Dançamos. Muito. Sob um frio natural de não sei quantos graus, mas a gente se abanava de calor. Por que o corpo em movimento infringe o a bandeira levantada pelo frio? Biólogos e cientistas têm milhões de teses em defesa... É que com o movimento dos corpos há a síntese de uma substância que produz um efeito contrário à temperatura ambiente. Isso é chute. Não sei da explicação que eles dão a esse fenômeno. Não me simpatizo com as máximas dos cientistas e biólogos e afins. Cismam entender o mundo. Conseguiram detectar de que é feita a mistura o corpo humano: água, oxigênio, hidrogênio, azoto, carbono, cloro, iodo, enxofre, fósforo. Mas e a água? E a os outros componentes? Eles vêm de onde? (Estou como criança chata: “Mas por quê?”). Batizam os artesanatos concluídos. Vai fazer a mistura de que eles se empombam ao falar. A receita, em seu processo lento, é de espantar... Culmina em uma miscelânea de não sei o quê. No Pós-Moderno poderia ser até nomeada de “arte moderna”. Para mim, no entanto, equivale a um lamaçal mecânico.
Dando uma pequena ré: voltemos à festa!
Uma senhorita, louca devido a monitorias de alopatias misturadas, enveredou a um dos meus amigos. Agarrou-o, beijava-o freneticamente, dançava como fêmea encarapuçando-se de iniciativas (naturalmente concedidas aos homens). Eu infrinjo a Natureza; e como! Foi uma dança voluptuosa... Que emanava libidos e libidos que pegavam fôlego em olhos alheios e se estendiam a todo corpo promovendo uma eletricidade enorme nos observadores da cena.
Isso foi o fato mais relevante da noite.
Mas o melhor da festa foi a pós-festa.
Todos os circos se concentraram no meu mundo interiorano: ri, ri como há muito não fazia.
Primeiro porque meus amigos decidiram estender a extravasada em uma lanchonete... Meus pezinhos, moribundos por conta dos passos de minhas danças desengonçadas e brutas, peregrinaram por boa parte da Avenida Rio Branco e ótima parte da Avenida Independência. Pelo itinerário... Surpresas. As surpresas já estão se tornando previsíveis à minha vida... Quando saio com meus amigos-amores, as surpresas são infalíveis. Ainda que eu possa prevê-las, não sei com que cara elas se apresentarão a mim. E é este o legal disso tudo.
Dessa vez houve duas surpresas.
Uma Kombi vinha relutando com seus trajes maltrapilhos pela Avenida Independência. Em seu interior havia cachos e cachos de bananas e pencas e pencas de crianças. As formas vitais estavam tão juntas que se confundiam. Confundiam-se tanto a ponto de um de meus amigos me perguntar: “Carol, aquilo é uma banana ou um menino?”. Agachei de rir. Ri com todos os pacotes de confete que estavam enclausurados em um dos meus armários internos. Depois, na contramão da nossa peregrinação, vinha vindo um senhor e, o meu amigo (o mesmo que hesitava quanto à identidade do objeto vital que estava dentro da Kombi) com uma musicalidade de seriedade irônica explanou: “Um bom dia para o senhor” e continuou dando passos normalmente, empertigados propositadamente. Eu, vendo a cena, mergulhei em meus confetes...
Foi carnaval! É isso que chamo de carnaval. A verdadeira alegria sem acréscimos de drogas, sexos e excessos. A alegria cósmica a que se pode chegar.

7 de maio de 2006

Orkut

A vida insiste na mesma. Cada um com suas hesitações, excitações, frustrações, alegrias, infelicidades inerentes e segurando firme isso tudo com os instrumentos de que dispõe. E estes são arcaicos, nada tecnológicos, nada eficazes. Demandam potência nos músculos do âmago. E, infelizmente: agüente quem conseguir, salve – se quem puder.
Um transeunte me habita os olhos e eu, por detrás dos vidros do carro, imagino – o com suas inquietudes – cutículas a persegui-lo. E ele não me é nada. Nunca me foi nada. Ele possui grandezas, idéias nobres, talentos especiais. Mas tudo isso fica nos bastidores do grande evento que é o dia-a-dia: uma emenda e tanto.
Penso – lhe a carência. A impermeabilidade à notoriedade. Todos demandamos um minuto de boa repercussão, de má repercussão ou da depurada repercussão simplesmente. Todos demandamos um entrelace com quem pousa, ainda que por míseros momentos, a nossa volta.
Os talentos de escritores, oradores, desenhistas, vendedores, motoristas, dentistas, médicos, advogados,,, ,,, ,,, Não encontram pleno reconhecimento na própria alma. A alma se estende de satisfação quando se tem consciência das habilidades que cada um detém, mas a alma, tão necessitada de mais e mais de não sei o quê, precisa de outras almas espontâneas a reconhecê-la. Um vernissage é o cume da ausência de auto-suficiência. O propósito é que vejam e que se encantem com o bônus de habilidades que aparentemente difere uma pessoa da outra.
Estampar-se, escancarar-se alivia a solidão de ter todo um repertório ajeitado e cedido pelo Cosmos enclausurado numa única razão. Exibir-se é a forma de se viver sob o regime semi-aberto.

Uma virgem sussurrando a um amigo:

- Muito boa sorte; goze até a morte.

6 de maio de 2006

Pálpebras seladas do futuro

Não queria antecipações. Gozo os trajes. Visto-me. Experimento a mesma peça com outra peça. Ensaio oratórias – faço um supletivo de oratória – quero uma musicalidade interessante e falsamente despretensiosa no momento do crime. Crime de predadores. Amanhã desenrolarei meus papéis. Ficarei à mostra. Estampada pela aragem que emana da alma.

5 de maio de 2006

Receita Humana

O livro amarelado e antiqüíssimo
Permanece sob a guarda de mãos clandestinas...
Mas especulo o banquete das epidermes de Deus.

De todo vital ofertado - verdadeiro truque de mágico -
Inclino-me à receita humana,
A esta recepção de Mundo cheia de requinte.

Caso não houvesse o fôlego das consciências,
O Mundo sucumbiria à própria carência:
Haveria monólogos sem ouvintes,
Ecos ensurdecedores.

Benditas receitas humanas
Que gozam do status das frutas,
Dos céus, das fragrâncias...
Que gozam das destrezas da Vida.

A vida humana - com seu bônus de talentos -
Faz mímicas da Vida:
Avião, incenso, obra-prima...
Instrumento musical...
Boneca... Casinha.

Tento captar o truque do mágico
(trabalho incansável este)
Um dia ele ainda me escapa
Suas mãos foragidas.

4 de maio de 2006

Vicissitudes (parte 2)

Depressão. Alma com noventa graus de inclinação a idéias de findar-se propositadamente. Carina era jovem demais para ter agudo o banquete de sentimentos disponíveis à condição humana. Quando era alegre, era a potência de todos os apetrechos que nos remetem à felicidade... Quando era triste, era o coquetel de enfermo e a aura de um hospital emperiquitado por todas as estirpes de doença.
Comunicou à mãe do sofrimento sem remetentes. Chorou. Pensou no “dexistir” de Virginia, de Ana Cristina. Fincava todas as suas esperanças no dessentido do Mundo. Como a narradora é redundante. Ou são as vidas que se coincidem? Ou são os mundos que se correspondem?
A mãe, preocupadíssima com a agressividade que encarapuçou toda a doçura de Carina, levou-a ao médico. Um cacho de remédios... Pazes com o relógio. Hora certa a tudo. Tomar remédio antes de... Depois de... Entre... No final da... No início de...
A menina, temida com as seqüelas das alopatias, optou pelo tratamento com homeopatia. Se houve efeitos, todo o corpo esteve cego, frígido. Lutou... Apelou para religiões... Manteve contatos desesperadores com deuses... ... ... ... ... Passaram-se seis meses e, morando em condomínio de horrores, Carina decidiu apelar para alopatias. Voltou o esquema esboçado e sugerido pelo homeopata. Remédio, remédio, remédio, remédio.
Ela agora está ressuscitando. Parece que voltou a encobrir o Mundo com seus devaneios e incrementar a ignorância com a arte de escrever.

1 de maio de 2006

Aleijo

Pâmela era a terceira filha do casal. O impacto da carapuça de pai e mãe não foi tão grande na época de seu nascimento. Antes dela já havia Marcelo e Tatiana.
Como quase tudo que ganha notoriedade à consciência, Pâmela não representava surpresas. A Vida – tão complexa e ininteligível – dilui-se no povoado do óbvio que prospera em nossa consciência. Até mesmo os exageros do Mundo culminam no comum.
Pâmela era tão comum como o processo diário e incansável do tingimento do céu. E a Vida era-lhe insípida como a beleza de lindas rosas que são belas devido a uma seta outorgada do Fatal.
“Existir o tempo todo”; “ser incessantemente um gerúndio” a esgotava, a maltratava.
A família da menina era acomodada, rica, bonita... ... ... Mas a caçula, desde que tomara consciência da própria existência, hesitava entre as seduções da felicidade e da infelicidade.
Pâmela peregrinava por transcendentes instantes de volúpia... Pâmela repousava sua alma – na íntegra – em horas de desespero.
No último final de semana de junho de 2006, sob a aura do povoado da Tristeza, Pâmela sucumbiu: matou-se com o lençol com que dividira a noite.
A família ficou mutilada. A alma lhes é um aleijo trabalhoso de ser carregado.

29 de abril de 2006

Vicissitudes

Ana estava quase certa (“quase certa” depois de não simplesmente descobrir, mas sentir a inconsistência da Vida!) de que qualquer etapa da consciência fica submetida a grandes vicissitudes. Mas naquela fase; naquele incipiente momento de 2006, as vicissitudes estavam se proliferando como as pestes históricas que dizimaram gentes e gentes.
Ana, 20 anos, com muito amor e poucos parceiros-transeuntes que interceptaram sua vida, era um termômetro cujo conteúdo desvairava-se às mais baixas áreas e aos mais altos terrenos. Ana acordava feliz e tirava o dia para o sexo incansável com a alegria impensada de se viver. Ana acordava enxergando o dia, ainda latente, como uma penitência a ser cumprida. Ana pensava em suicídio, pensava em se eternizar nos braços de um amor. Ana não pensava, sentia. Captava a emanação do mundo. E entristecia.
Aqueles passos lentos e ardidos do início de 2006 sopravam-lhe a necessidade de se morrer. De se “inconscientizar” integralmente do mundo. Ana estava à mercê de um sofrimento sem remetente. Sofrimento anônimo e potente, destruidor feito um sopro de gente naquela plantinha que Deus fez para fazer um contato lúdico com as criancinhas.
Por que a Vida insiste em tantas vidas frígidas? Vaidades de manter a estética ereta? E dissimular a morte? Mas a mutilação é íntegra. Não há o que tapear. Ana fincava suas esperanças na Morte. Porque a Vida era-lhe pesada demais. E sua alma tem potência de um etíope.

27 de abril de 2006

As garçonetes que sabotaram meus jardins

Naquele sábado, decidi violentar a insipidez que estava vigente. A idéia de sair para extravasar chegou a mim como o efeito da anilina desvirginando a transparência da água. Abri o guarda-roupa para escolher uma estética que condissesse com meu âmago. Separei uma indumentária toda preta e uma gola branca "estilo década de 30" para fazer cintilar ainda mais a escuridão epidérmica. Respeitando o duo da minha existência, não pude deixar meu cerne à mercê da nudez: vesti-o de coragem. Afinal, demando coragem quando opto por sair sozinha.
Em meio ao carrossel de lugares - os quais se esbanjaram à mente - elegi um bar alternativo da cidade para, junto à noite, me esparramar. Meus incipientes momentos no lugar foram sublinhados por minha vassalagem à música: dancei até ficar anêmica. Subitamente, surgiu um indivíduo que se inclinou a mim. Foi um genuíno repentista. Atiçou, com suas palavras - que vinham de um túnel suave e macio - minha ilusão e minha fascinação. Sucumbi e o beijei. O sindicato da volúpia, instantaneamente, fez império em minha linfa.
Jamais pensei que aquela noite pudesse surtir tanto efeito.
O rapaz que rompeu minha solidão noturna era a pretensão máxima das garçonetes daquele pub. Elas, usando como bengala as próprias aspirações, sabotaram a fluidez de meus jardins intrínsecos. Impediram que eu cultivasse as flores - verbos intempestivos, que delineavam a fé em nova paixão. As mocinhas invalidaram meus instrumentos de jardinagem e carregaram a matéria viva que incumbia meus solos da vida. Fiquei sem jardim; com terras paradas.

25 de abril de 2006

Censura

O corpo todo de Jaqueline a impede de compreender. A censura, como não poderia deixar de ser, é-lhe outorgada.
Jaque está perante um pronunciamento em alemão. E a menina mal se comporta despudorada diante da Língua Portuguesa. Ela tropeça no Português. Ela faz-lhe curativos.
Há tanta inexpressão esparramada entre os mesmos objetos vitais. Por causa de elaborações distintas de vocabulários. O batismo de tudo é tão horizonte sobre mar e, por isso, Jaque sentiu-se ignorante e frustrada.

23 de abril de 2006

Linguagem

Cecília anda absorta. Seus pensamentos não têm como causa uma circunstância qualquer. Seus pensamentos demandam viagens inertes à arqueologia. Cecília reflete acerca dos próprios pensamentos; estes lhe vêm com o motor das palavras. Cecília imagina o ato do pensar segregado das palavras. Quanta estranheza. “Pensar” poderia ser compreendido pelo som? Mas até o som sucumbe: culmina num pensamento codificado por palavras.
Cecília organiza suas tendências de arqueólogo. Delineia a condição do homem apartada da linguagem. Surge-lhe um desespero artificial. Que clausura mórbida seria ficar sob a inexpressão... Sentimentos emaranhados de todas as estirpes de estranheza e a consciência disso seria vida próspera da Perturbação.
Ela imagina o Tempo em que a linguagem era um território inimaginável. Como eram compreendidas as pretensões? Mudez do mutirão de vidas humanas. O homem elaborou uma vida coadjuvante à Vida. Por isso, diagnostica-se o Amor. Ainda que não se lhe saiba a origem.

21 de abril de 2006

O nome dele é José

Agora expandi o número de oferendas a possíveis visitas. Ganhei um passarinho. Ele já veio com - além da casa que lhe é inerente - a casa que as destrezas humanas elegeram como morada dos passarinhos: uma linda e simples gaiola.
Quando vierem à minha casa, apresentá-lo-ei e falarei sobre a condição tão tênue a que aquele montinho de vida está submetido. Começarei falando seu nome: pensei primeiramente em Ary, em Rui, mas, por um súbito do papai - que me sugeriu "José" - fiquei com este. Meu ouvido entrosou-se com a porção exígua de felicidade: casaram-se.
José promete me aliviar nos dias em que descuido e sucumbo à primeira promessa da Tristeza. José é um Messias. José é o progresso nítido do meu templo vivo. Ah, José, você é minha mais nova tentativa. Você, que é uma linda e inconsciente mensagem do Mundo, veio em direção à minha casa. E esta ganhou aura nova com essa responsabilidade de que te incumbiram: a responsabilidade de, de repente, ser vôo, ser o apetite, ser partituras infalíveis.
Seremos felizes José? Estou transferindo a você um pouco dessas minhas bocas - destas que nunca se quietam. Estou tão ignorante como você. Sou tão alienada quanto a sua estética. Somos um mesmo projeto de vida. Só que nossos equipamentos de sobrevivência têm formas diferentes.
Quanto tempo durará sua pena, José?

13 de abril de 2006

Profissão

Um uníssono travado, sem a flexibilidade da espontaneidade. Sensação artificialmente homogeneizada. Ao telefone, Elisa entrevista publicitários com memórias infalíveis: há um ritual diário para aprimorar as memórias; lustram-lhes as dependências... Resposta inicial: exploram-se novos territórios da língua... As próximas respostas são os obsoletos rituais de Igrejas mortas, mas eretas insistindo no mais supérfluo da Vida.
-(Elisa liga para uma agência de publicidade) Alô.
- (Elisa) Por favor, eu queria que você me concedesse duas breves respostas a duas breves perguntas, pode?
- (voz masculina lhe responde ao telefone) Posso sim.
Um grande monólogo aproxima-se, com passos potentes, do ouvido de Elisa. Verbetes que caracterizam uma estirpe de profissionais: “público mais segmentado”, “formatados”, “em nível de”. Indumentárias de gerações passadas; verbetes deste Pós-Moderno. Elisa banha-se com as próprias fontes de águas gélidas... Ser um profissional é um desempenho à parte. Não há o sentimento do “nós” entre a alma e as aptidões.
A menina está desiludida; por mais que saiba que os gritos dos arremates é que culminam em ecos ovacionáveis, encarapuçou-se da consistência dos peregrinos do intrínseco. Mas sucumbiu: viu o mundo cru; e a língua o rejeitou. Mais um arquivo à língua de Elisa.

Pênis e Vagina

Minha essência condiz com o artesanato feminino. Porque a vagina é discreta, "low profile"... Diferentemente do pênis que é uma eterna criança que demanda a censura de uma cueca com elásticos.

11 de abril de 2006

Seja Breve

Neste Universo apelidado de "Pós Moderno", onde a Natureza Digital traveste-se de Deus, O governo é a Praticidade: seja prático para comer: vá a um "fast-food"; seja prático para saciar a sua libido: não perca tempo com envolvimentos arriscados, masturbe-se com vibradores velozes, de alta tecnologia; seja prático com os amigos, não os convide para sair ao final de semana... Mande-lhes mensagens já prontas e breves: "Eu t amo", "I love u", "Vc e especial".
Não sei o quanto ainda irei suportar. Porque o que vem de dentro para fora demanda veludo, indústria próspera de veludo. E esta nitidez do "fora para dentro" me acaba. Todo o entretenimento desta alma é censurado pelo limite dos meus cômodos. O meu maior desejo é o orgasmo entre a alma e a imensa delicadeza dos céus. Idealizo-me em uma roda repleta de yogues e, subitamente, eu me elevo ao Nada... À genuína e justa habitação do ser.
Neste Universo de máquinas e bônus de gentes é interessantíssimo ser breve ao telefone, nas saudações, nas intimidades, na Vida, enfim: seja um homem-bomba! Toda a dedicação do Grande Mágico é desafiada e abatida pela própria vida. Como diria Drummond: a vida negando a vida.
Não sei se esta é a melhor saída para uma rivalidade tão potente entre corpo e alma.

4 de abril de 2006

Celular

A vida coadjuvante da Vida: tec.no.lo.gi.a
Novos formatos de Chaplin em bolsos, bolsas
Carros, mesas... Nas vitrines à espera do público.

Celulares são mímicas das destrezas humanas
São sentimentos travestidos de natureza digital,
São porções sem fôlego, mas infalíveis, de cérebro,
São partituras decoradas e perfeitas.

Chego a pensar que minha língua está frígida
Mas NÃO!
São as tecnologias inibindo a Vida.

22 de março de 2006

Era uma vez

ESTE É DEDICADO AO TIO WALMINHO

O teatro que o homem faz de Deus é curto: improvisar corações, fôlegos, respirações é imperícia do homem. É viável apenas a uma cena inicial; a uma tapeação fajuta a um espectador desatento. Era para sua fatalidade fazer a coleta e, enquanto sua fatalidade o alienou do mundo, tantas outras fatalidades coincidiram. O mundo é o ápice do meu desentendimento. Tanta falta de sentido resiste: árvores imponentes, viva natureza morta e a grande pretensão do mundo, num súbito, sucumbe: o fôlego do nosso mutirão de sentimento escapa desta casa... E resta-me somente matéria a ser vivida.

Enquanto minha alienação permitir que eu seja, o amarei, Tio.

Jujubas (parte II)

Desta vez a boca audível da nossa amizade usou como palanque um pote de jujubas. A harmonia do "nós" soou nas jujubas.
Os sentimentos pegam impulso em endereço clandestino e ganham emenda neste universo que me é outorgado. Os sentimentos são o sigilo absoluto do mundo individual de uma existência... Meu sentimento ainda não se identificou com as arquiteturas disponíveis. Por isso ele se traveste. Ele se traveste optando por uma das caras de que se dispõe o mundo.

7 de março de 2006

Drogaria

Não sei mais a que recorrer. Meu talento de alquimista tinha uma vida útil minúscula; vida esta que se diluiu à Vida... Deve estar agora encarapuçando outra seta do Fatal. Minhas alopatias foram consumidas em um curto suspiro dos céus... A estante do laboratório está deserta, solitária. Minha genuína correspondente.
Ingeri todas as oferendas de salvação. As bocas já estão amargas. Ficam todas deitadas em enfermarias. E eu as carrego... Que aura febril. Que transporte sacrificado. Ser o Mundo dá um desgaste enorme.

5 de março de 2006

Nietzsche

A materialização de outro par de olhos. Dos olhos capazes de concluir que a radiografia do Universo é integralmente negra à nossa tão impotente sabedoria.

1 de março de 2006

La Fiorentina

Restaurante: mordomo à praia, ao céu, à Natureza... Servo do fôlego incessante do Rio de Janeiro.

28 de fevereiro de 2006

Rio de Janeiro II

Rio de Janeiro: banquete a esta máquina.Céu indecente... Sol despudorado... Movimento da receita humana. Cardápio variado da receita humana: gringo, altos e baixos, crianças e velhos, aleijados festejando o próprio status. Sossego da alma. Vontade de erradicar esta matéria.

24 de fevereiro de 2006

Protagonista do Kama Sutra

Nas vezes em que o vejo, uma balbuciada da alma me diz: "êta protagonista do Kama Sutra". É algum investimento do Inconsciente. Porque sou induzida sempre; até meu corpo é gringo dele mesmo. Aquele rapaz, com uma epiderme sincronizada de boas intenções, não me convence. Há enxertos da Libido na linfa dele... Libido é a bengala do rapaz. E eu comungo muito mais as eletricidades da alma.

21 de fevereiro de 2006

Televisão

Erra-se o ponto sensível do clitóris. Há sim uma emoção, mas sem calafrios, sem a ampliação do cerne. A razão fica na vigília... E o bom deste investimento fica latente em algum canto desta residência.

18 de fevereiro de 2006

Ana Carolina

Esta é uma homenagem que recebi há bem pouco e que, instantaneamente, considerei meu "R.G. poético"
Autor: Hernany Tafuri

Ainda que tenhas
medo da vida,
sabe que o amor
ronda teu quarto
apenas aguardando
o momento exato para
ser percebido.

Ainda que lamentes
sob a clausura gélida
de paredes nuas;
ainda que chores
e mordas os lábios
para que não escape
um grito rouco;
ainda que tua esperança
esteja crua e inerte,
submissa ao tempo que
jorra por teus poros,
ainda assim o amor
ronda-te, clama por
ti, vaga sem rumo mas
sempre retorna
ao teu coração.

Ainda que sejas
destemida poetisa
em versos destacados;
ainda que reflitas
tua grandeza em textos
alopáticos;
ainda que te agigantes
em frases desgarradas,
não podes fugir de um amor
ancestral que alimenta-se
de tudo o que de bom
tens a oferecer.

És parte da natureza,
pois a natureza é parte de ti;
és flor e espinho;
és dia ensolarado e
escura madrugada;
és o que desejas ser
e um pouco mais do
que percebes;
és solo árido sob a
chuva cristalina,
és Ana Carolina
dentre infinitos seres
distintos, e isso já basta.

11 de fevereiro de 2006

Jujuba

Este é para Eduardo, um dos componentes deste meu caldeirão.

Frutinhas mecânicas, conseqüência da destreza humana. Elas entram na boca da gente para promover carnaval à seriedade dos dentes. Toda existência demanda momentos de lazer.

7 de fevereiro de 2006

Sentir a morte

A morte sentida é uma ótima alopatia. Anestesiar-se de "dexistir" cura qualquer mal-estar da alma.

21 de janeiro de 2006

Pressa

Meu tempo é este vigia que fica acordado a rodear minha casa. Oferecendo-lhe cru: meu tempo é a vida útil da consciência. E não adianta eu antecipar céus, porque meu tempo, apesar de me ser, vem quando bem entende.

17 de janeiro de 2006

Deus Homem

Salve o indivíduo que inventou o gravador. Salve o Deus que fez isto. O som desafia a morte. Como a nova geração de abelhas que surge para pôr nos óculos das vidas uma das destrezas de dona Eternidade.

16 de janeiro de 2006

Ingressos Limitados

Garanti meu ingresso ao espetáculo. Quase todos os dias o faço. Quero perscrutar a destreza do mágico. Quem sabe ele me deixa escapar a verdade do truque. Mas vou dormir todos os dias sem saber por quê.

13 de janeiro de 2006

Semana a cumprir

Mais Tempo. Abriu-se o Tempo. Agora a vida me demanda. Concluí uma porção de tempo e agora é necessário ingerir mais tempo. O sabor é redundante. Ou, às vezes, a língua é que está frígida.

Penitência

Estou sem fôlego para a Penitência. Apelei para todo Panteísmo que me é inerente. Mas está tão trabalhoso. Demando fôlego; não agüento subir morros, imagine transportar a Vida.

11 de janeiro de 2006

Fazer xixi

A todo tempo demando esvaziar a moringa. Restaurante. Discoteca. Casa. Quarto. Conheço todos os tipos de banheiro.

10 de janeiro de 2006

Mariana & Carolina

A gente rima. Uma rima implícita, claro. Não há estética a nossa semelhança. Mas a gente rima. Adoro quando você brinca... Adoro quando você é séria... Adoro o modo como você cumpre a penitência.

7 de janeiro de 2006

5 de janeiro de 2006

Marido

Esta palavra soa-me como um acontecimento frígido ao qual deram demasiada importância; soa-me pejorativa: ma-ri-do. Compromisso genital. Coincidências tamanhas que culminam em incesto. Despoesia. Alienação da volúpia. Canteiros de planos com vazio de espécies.

2 de janeiro de 2006

À espera de serviços públicos

Os pronunciamentos deste mundo de tijolos geralmente não me deixam elétrica. Ao contrário, bate-me uma tristeza... Uma ameaça de morte; de silêncio absoluto. Fico vendo os incumbidos da luta material à espera dos prolixos serviços públicos. O Serviço Público é sócio dos deuses do apodrecimento das vidas. Daqui a 10 dias voltarei para pegar novas safras de senhas. Onde será que ficam as hortas de tanta senha. Já era para ter se esgotado a matéria. E os 10 dias? 10 dias é muito. Em 10 dias o Tempo materializa nosso teto, tinge nosso teto, expõe joalherias no teto; transforma a juventude da cereja em velhice precoce; natureza viva, em dez dias, pode vir a ser natureza morta; um bebê - sujeito oculto- torna-se uma pronúncia de Deus; em dez dias, tudo que um dia foi a bengala de um lindo gerúndio se conclui no pretérito. Esperarei com calma, afinal a Vida que se materializou nesta moda não é nenhuma atleta; é um mísero artesanato de mãos antiqüíssimas e estrangeiras; um artesanato que não contemporiza; um artesanato nada camaleão; um artesanato absorto.
FIM

1 de janeiro de 2006

Inteligência

Dar palanque e microfone ao povoado da memória. Talvez sejam os músculos da memória os incumbidos da inteligência. É a esta conclusão que me induzem meus canteiros da razão. Mas acho que a inteligência transcende o bom desempenho dos gravadores... Inteligência é ser Deus; inaugurar-se em todas as artes, talvez.

31 de dezembro de 2005

Novo Tempo

Há mais uma porção latente de Tempo. Tanto sadismo vindo de longe. E eu tenho que desfazer a casa para ele se alojar.

28 de dezembro de 2005

Lavar roupas

Lavar roupas equivale a prazeres artificiais. Há total isenção da alma. E, quando as águas vão mal, não há melhor alopatia.

24 de dezembro de 2005

Natal

Natal: dia de comemorar o Mundo; todo o Panteísmo. Dia das oferendas infindáveis à alma, dia de música de vidro entre os povoados do cerne. Até dona Tristeza dá um jeito nas olheiras. Mas depois... Depois das comemorações canastras, bate-me uma frigidez colossal.

23 de dezembro de 2005

Chaplin

A parte elétrica da casa faz mímicas da libido. Uma energia abraça as áreas habitáveis. Como a eletricidade da volúpia se misturando à linfa. Mais uma vez a vida imitando a Vida.

21 de dezembro de 2005

Saudade

Saudade é prorrogar o velório. Adiar o enterro. Olhar para o defunto e lembrar-se somente das qualidades do passarinho que até então era gente.

19 de dezembro de 2005

Investimento

Quero-o para saciar minha libido
Quero-o para ser a nova poltrona da sala
Quero-o para saídas e leituras...
Para brigar e me fazer sofrer.
Porque terei certeza da eficácia da droga.
Ele será parte da dieta recomendada pela nutricionista.
Tá feita a encomenda.
Quanto lhe devo?

11 de dezembro de 2005

Status

Pretendo gozar do meu status como o passarinho faz. A tranqüilidade de um jardim me causa inveja. Mas sou este gerúndio... Este paradoxo à inércia. Quero saber ter orgasmos perante este movimento vivo.

Frigidez

Fico frígida perante elogios que fazem jus à gramática. Estética é coisa de esteta; de lingüista. Quero idéias maravilhosas materializadas em não sei o quê.

10 de dezembro de 2005

Trabalho Forçado

A matéria tem me dado trabalho. Dias de mal-estar. Dias de vontade de "dexistir"... Mas o valioso é escapar ilesa destes empecilhos.

8 de dezembro de 2005

7 de dezembro de 2005

Brinquedo

A boneca faz mímicas da Vida. E, à medida que o encantamento impúbere surge na criancinha, a boneca vai se fatigando e sucumbe. O homem tenta imitar o fôlego da Vida. Mas o mundo humano equivale a estátuas perfeitas, enormes, bem talhadas e paralíticas.

4 de dezembro de 2005

Ao Lindeza

Uma única receita rendeu duas porções: a minha alma e a alma do Lindeza se equivalem. A noite foi maravilhosa. A matéria e a música em uníssono. A presença aguda do Lindeza promovendo bônus às iguarias da Alma.

3 de dezembro de 2005

Pérolas do joalheiro

Da última vez em que deixei Maurício tomando conta da tartaruga, ela fugiu.

...

Empurrei a Kombi e ela não pegava. Depois, depois de ter dado uma volta no quarteirão, descobri que ela não tinha motor.

1 de dezembro de 2005

( i ) mundo

Enfim resolvi as pendências deste universo paralelo cujas pretensões são atingir a coerência. Mundo de tijolos; tão certo. Tão brega quando se junta à vida. Meia de bolas com camisa xadrez. Mundo da lógica que desmoraliza a truque da vida. Mas me livrei dele. Como um convencional que, subitamente, atenta-se à Vida. UFA!

30 de novembro de 2005

Insônia

Depois de uma noite à mercê; sem papel, entreguei-me às lágrimas. Não havia outra oportunidade. Tive que chorar para atenuar um pouco o câncer da alma; a isenção do corpo e a agudez da alma.
Desisti de lutar com todo músculo da alma em prol do sono; do "off". Escancarei a janela usando a mais alta potência do desespero. O desespero, quando materializado, repercute em estouro, erosão, poluição. Assim arranjo à alma um enfeite vindo do mundo.
Estou no colo do desespero. Minhas carícias saem de suas mãos, Oh!Desespero.
E, de repente, de olho ao infinito, vem vindo um ônibus. E o ônibus é quase um truque que equivale ao inexplicável. Ele vem a desfilar sua grande vitrine de terra chinesa, se inicia perante a inércia de uma das faces do mundo e depois apaga-se como a morte ocultada por manobras humanas diante do ritual do enterro.

26 de novembro de 2005

Esquizofrenia

Minha esquizofrenia não demanda combustível. E acho que a loucura como conseqüência de uma dose de qualquer coisa perde seu mérito. Gosto de ser - eu e meu copo d´água - este letreiro de esquizofrenia

22 de novembro de 2005

Grite, Hospital

O silêncio - uma idéia cimentada por hospitais - contradiz com qualquer tipo de enfermidade: esta sempre equivale a um berro da natureza. Uma manifestação que não se acaba antes de ser percebida. Portanto, a partir de agora, infrinja a placa e grite em hospital. Em respeito à Vida.

TeXtículos

Meus orgasmos são sempre curtíssimos. Mas agudos. Não consigo encher uma folha de pensamentos. Nunca fiz jus ao padrão. E minhas idéias têm a força que se incorpora em formiguinha.

15 de novembro de 2005

Velha Vida, Alma Nova

A vida é velha. Coisa que já ficou invisível, à mercê de teias de aranhas. Não enxergo nada... Fico sem saber qual é a do Mundo. Vidas são inauguradas amiúde. A mesma vidinha que se manobra em um pernilongo é a vidinha que me serve de bengala. Sem esta imposição clandestina, minha equação culmina no Nada. A vida é velha... a vovó já levava na cesta de frutos o mistério do mundo. A engrenagem, que é dona de tudo, não usa o verbo "esbanjar, não explora seu lado cabotino. A vida que me é inerente há vinte anos rompe o acordo com um velho de setenta e quatro (hoje li na "Tribuna de Minas" que um sr. foi assassinado). E por que a força vital é tão tênue? Por que uma contração humana consegue extirpar a dedicação tão obscura do Fado? Temos uma interseção com a miscelânea que se organiza em ovo. E por falar em ovo, lembrei-me da metafísica da Clarice. E lembrar da Clarice é atiçar novidade à alma... E atiçar novidade à alma é demandar atitudes da Velha Vida. Afinal, sou fantoche.

14 de novembro de 2005

Tijolos do Mundo

Não sei o que é que fica incumbido de manter o mundo em dia. Meu corpo demanda matéria para se manter ereto. As frutas estão chegando. Maioridades se fazendo. Bebê desvirginando a epiderme da mamãe. Vento ventando, chuva chovendo. Matérias, enfim, se inaugurando à Vida. O mundo é a conseqüência do que não se sabe.

12 de novembro de 2005

Inconsciência

Sou um pronunciamento de matérias cheias de formas, cores, texturas, espessuras. E assim é o mundo em sua íntegra. Somos a consciência da epiderme de tudo. Somos a conseqüência de um mundo a que não temos acesso. Assim como minha massa inaugura-se a esta existência, a forma inerente à formiguinha o faz. Tudo com que convivemos no ínterim da vida é um desconhecimento total. As vidas são estréias de matérias oriundas de um lugar revestido por um sigilo absoluto. A vida é uma orquestra acontecendo, um tricô autodidata se fazendo, um grande e enigmático instantâneo.
Somos coisas concluídas, ainda que em infindável mutação. Somos um universo dinâmico, rápido, forte e, no entanto, mudo, dissimuladíssimo. E ficamos à mercê. A ignorância já nos elegeu padrões. E assim a gente fica à espera das matérias que se agigantam ao longo da vida... E assim a gente associa as incertezas que constituem o âmago aos acontecimentos mundanos. É assustador ter a vida como a própria bengala e desconhecê-la por inteiro. Somos todos cegos que se conformam com matéria pronta.

9 de novembro de 2005

Sobrenatural

Tudo que fica na vigília da vida é sobrenatural. Bônus de matérias me seguem até o último grito de vida; a alma com sua versatilidade inerente é minha bengala. E dela (da alma)eu nada sei. A vida é utopia pura. Ela vai me seguindo à frente; jamais estou em dia com ela.

8 de novembro de 2005

Matéria Humana

A matéria humana é pretexto para o mundo se pronunciar. O mundo nítido a estes olhos órgãos estrangeiros e o mundo de que não se sabe nada.

6 de novembro de 2005

Flores gringas

Uma flor no ápice do vigor se elege a mim. Vem gringa a me pegar absorta. E, de repente, muda de textura, resseca e, ainda assim, insiste em, pelo menos, manter seu esqueleto ereto.

4 de novembro de 2005

Tudo é instantâneo

A vida é súbita. Não há prévios esqueletos e planos. Não há reserva ao futuro. Tudo é instantâneo. O futuro se resume a um instantâneo da Natureza se manifestando em cernes de gente, em cores de frutos, em confecção de passarinhos.
Enquanto a sociedade se preocupa em fluir de acordo com a bengala da lógica, a vida, a genuína vida - a qual esmagamos perante o dia-a-dia, tem como tônica a ilogicidade.

29 de outubro de 2005

Universo Paralelo

Sou o mundo. Mas o mundo duo. Enquanto meu materialismo coincide com o materialismo de formas, cores, texturas, espessuras, dinâmica, meu impalpável enxerga as abstrações do âmago. Olhos: tenho-os aos montes, em excesso. Olhos estrangeiros, que saem do mundo do Nada e desembocam no mundo do Tudo. "Olhos órgãos". Olhos virgens ao dia-a-dia. As minhas sensações trazem consigo olhos: alguns míopes, alguns hipermétropes, alguns puros e perfeitos.

23 de outubro de 2005

Mundana

Nesse fim de semana me esqueci de meus jardins intrínsecos. Abstive-me das flores de hesitação. Dediquei-me ao corpo. À diversão da carne. À dança mundana. Ao jogo de fêmea que demanda seduzir alguém apaixonante. Pus uma indumentária preta, uma nova epiderme a minha epiderme diária, horária, cansativa e fui à rua, ao som, a gentes de todo tipo. Diverti. Preenchi a plenitude dos solos mais superficiais da essência. E hoje estou mais alma. Estou mais Carolina. Ontem fui uma alegoria qualquer.

21 de outubro de 2005

Rapaz libidinoso

O jardim da saudade se sobrepõe ao jardim da libido. Esta sai do baú de tempos de fundo de caneca. Novas águas equivalem a novos tempos. Novos tempos me sopram a libido e as ervas da saudade entram em uma orquestra perfeita.
Aquele rapaz é libidinoso. E a libido faz bem a minhas terras murchas. A libido faz crescer flores raras, faz colorir meus céus, faz atrair pássaros inéditos.
A libido é matéria de que necessito. Mas depois que meus ventos intrínsecos erradicam o instantâneo da libido, ficam lacunas em minha vigília.
Libido e cerne nunca entram em um acordo.

16 de outubro de 2005

A mais fresca insegurança

Mudam-se as estéticas das flores. Mas a engrenagem que as faz é a mesma. Estou à mercê de uma insegurança. Estou perante um jardim versátil, moderno e, ao mesmo tempo, tradicional.

14 de outubro de 2005

Receita Errada

Há quem possua um ingrediente indevido. Às vezes sobressai o mal. Sobressai o monstro. Em todo resto há mesmas vidas sendo setas à nossa condição.

12 de outubro de 2005

Terreno Baldio

Abstenho-me de depilações amiúde. Detesto estabelecer cancelas à velocidade da Natureza. Estou com o terreno cujas gramas são orquestra em incessante atividade. Fiquei nua ao mistério, à estranha existência dos pêlos que não param de se proliferar. Não cansam de existir. Vêm do mundo do Nada e desembocam no mundo do tudo. Os pêlos são da religião das gramas.

Com licença

Meu corpo é um desrespeito. Vão acontecendo bônus de células sem minha permissão. As tristezas, à deriva, reúnem-se em sindicatos. A volúpia rompe águas de lagoa, delineia-se ao vento da vida e se faz inteligível a meu interruptor. Liga-se, enfim, radicando eletricidade ao asilo do corpo.

11 de outubro de 2005

À espera do livro

Estava ansiosa para que meu livro chegasse. Compararam tanto as minhas escritas com as da poeta da década de 70, que eu fiquei aflita, aflitíssima para conhecê-la, apalpá-la, estuprar a minha curiosidade. Demorou. Demorou muito. A avidez foi gritando a mim, expandiu-se, tornou-se uma árvore robusta com direito à mudança de cores e de espessuras. Minha árvore foi assassinada hoje, com a chegada de uma vida travestida de palavras a minha casa.

9 de outubro de 2005

Milagre

Consegui estar. E depois disso vivo um sexo infindável com o delineador dos dias. A vida coincidindo com asfalto, sinais, cimento, uniformes, roupas, maquiagens. Viver é a maior força da tapeação dos dias. E nem se dá importância à existência. Os nossos jardins começam a se manifestar de acordo com as circunstâncias banais do cotidiano.

8 de outubro de 2005

Orgasmos Múltiplos

Viver é estar à mercê das oscilantes intensidades que se inclinam a tudo que compõe a vida. Até a palma da minha mão atinge o clímax quando, entregue a um feixe de água, culmina no que há de mais agradável à pele. O ouvido chega ao ápice quando coincide com os fios sonoros criados por Bach. O paladar transcende quando cutuca a tônica do brigadeiro. Meu olfato vive sua multidão com os ares da cozinha logo cedo, habitada pelo café. A visão chega à plenitude no momento em que um pássaro preto e branco esbanja a vitrine exímia de uma vaidade da Natureza. Viver são orgasmos múltiplos oriundos da fluidez do Tempo.

Segredo

O segredo tem prazo curto. Curtíssimo. O segredo não vive. É segredo por não contribuir à engrenagem da existência. No entanto, no momento em que deixa de ser a inconsciência, ganha todo o palco da existência. A partir do "dessegredo" é que se tem acesso à vida.

7 de outubro de 2005

Uníssono

Por que nasci gente? Que estranha fatalidade da vida: incumbir minha existência da condição humana. Eu queria nascer pássaro, que vive em uníssono. Viver o duo de ser humano é mero martírio.

5 de outubro de 2005

Recepção

Enquanto minha vida morre à noite, diante do estupro do sono, o mundo prepara a recepção a mim, para logo cedo, quando eu retomar a consciência da vida.

3 de outubro de 2005

Dessabedoria

Tenho a cega capacidade de enxergar. A insipidez que culmina no paladar. O surdo dom de ouvir. A inodora fonte do prazer de cheirar. A insensível sensibilidade de tatear. Viver é gozar o tudo de que não se sabe.

1 de outubro de 2005

A Mariana, meu amor

Mariana, que fado pesado para o tempo, hein?! Incumbir-se de você não é atividade fácil. Incumbir-se de você demanda trabalho árduo, diário, horário. Não sei por que você ganhou existência como gente, querida. Você, com essa sua essência evoluída, merecia um patamar superior de vida. O bom é que eu posso degustar da sua companhia, do seu amor, da sua plenitude, da sua perfeição.
Mariana, involuntariamente, meu cerne elegeu você como o grande amor da minha vida, como a evasão para meus momentos de solidão, de depressão, de sofrimento, como a complexidade que me assalta diariamente perguntando: por que brotei nesse lugar habitado por criaturas tão fantásticas?
Marianinha, ser espectador de você é presenciar o céu em dia de estética privilegiada, é ouvir "ária na 4ª corda" e transcender até os bastidores da existência. Estar com você é me esparramar integralmente e aliviar meu coração.
Te amo. O tempo nunca se esquecerá de manter nosso amor casto em dia.

Do seu bichinho-da-seda,
Carol.

30 de setembro de 2005

Ao garoto que é meu avesso

Hoje não estou exata à consciência. Não sei por que delinearam formas aos sentimentos, afinal o curioso da abstração é a abstração. O tempo me consome com misturas indecifráveis, com forças órfãs como a minha existência.
Amei com o sublinhado da libido meramente. E isto culmina em escassez de vida; em erosão, em solidão, em sabotagem à própria alma. Mas, com isso, saciei certas tendências inerentes à vida. Refleti inúmeros fluxos de vida. Avistei outras vidas até então latentes em mim.
Não quero podar jardins alheios. Quero sexo com meus jardins intrínsecos. Quero transcender o tempo como caracol. Redundantemente voltada a mim, à minha descoberta. E depois sairei com pé-sim e pé-não ao mundo.
Só serei o outro quando eu me for.
Decidi.

28 de setembro de 2005

O mesmo pronome

Ele pode ser um novo verbo à minha vida. Uma promessa que atiça certas raridades. Uma experiência que se assemelha a blusas idênticas sobrepostas. Ele é um dia de sol tímido, de chuva rala, de ventos gozando com pudor, sem derrubar vasos de jardim.
Ele é este milagre da existência, mas sem sabê-lo. Ele preocupa-se com a estética e em ser sociável. Mas é a eloqüência de um troglodita. Carrega uma volúpia que jura dela ser isento. Ele é um travesti... Afinal, fala o contrário das palavras originais que lhe vêm à mente.
Ele é a repetição da Natureza. Mas usa da bengala (que nos torna deuses) como instrumento de erosão às flores do inconsciente. Quero um incumbido da Natureza mais dedicado à linfa, mais espectador-ator dos versos que se delineiam espontaneamente à consciência.
Queria um amor - ponte à área de difícil penetrabilidade às ondas do cerne. Um amor que me conduzisse a um crime qualquer. E o fizesse involuntariamente. Queria o sabor mais agudo das manifestações da Natureza. Porque, quando isso se faz é a hora de desvirginar-se de vez. E obter o orgasmo de cada engrenagem viva que se compromete com a Vida.

25 de setembro de 2005

Reflexões

A vida é moderna. Ela sempre se apresenta seguindo a mais recente intervenção do Fado.
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O inconsciente é esteta. Ele é exímio na preparação de uma sensação.
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Engravido de vida todo dia.
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A vida insiste em minha vida.
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Tempo é o nome que se dá às mudanças de máscara do mundo.
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Delineio meu inconsciente. É tão exótico desenvolver estética à abstração... à abstração intrínseca da gente.

22 de setembro de 2005

CAROLINA

Carolina rima com menina. E o que é menina? É ter uma vagina? Ou aspirações diferentes das dos meninos? Às vezes nem me lembro do Fado de menina. Fico apenas sendo essa vida assexuada das vidas que me habitam.
A tristeza não se exibe com saias, com paetês na indumentária. A depressão não disfarça olheiras com base, a alegria não pinta as unhas de vermelho. O mau-humor não se segura em um sutiã.
Sou palco à manifestação do mundo, como sr. Zé, Dnª. Zuleide, o cãozinho Xavier, a tartaruga Ruth, a begônia Marli, o passarinho Zeca, O Rio São Francisco, o milho Chico.

21 de setembro de 2005

Inveja

Inveja é inerente à existência. Como a manifestação ousada das sensações. Invejar é colorir o âmago com uma só cor e castrar assim a manifestação da selva colorida e heterogênea que é a vida. Imagino a Floresta Amazônica escondendo o verde, o marrom, o vermelho, o roxo, o azul claro, o rosa e exibindo somente um cinza insípido que não atiça sentimentos humanos. Isso é inveja.
Inveja é estar com a piscina "cheia de ratos". A inveja consome nossa linfa, nossa poesia, nossa oportunidade de estarmos a par do Tempo. Meu "eu" é vencido pelo Império Onipotente da inveja. Mas, eu "desafio o instinto dissonante".

Viva Renato e Cazuza... os quais, com certeza, já se manifestaram em outra forma de existência. Em uma coisa mais valiosa e mais superior que a condição de humano.

19 de setembro de 2005

18 de setembro de 2005

Depois da Festa

Depois da intensidade, da inconsciência estimulada pelas cores, formas e sons mundanos, restam lacunas cinzas, secas. Feito a morte vivendo sem findar. Gozar à noite é válido para a noite. Para o dia já seria muito labor: sol a exibir-se, azul purinho. Felicidade seria demais, seria demanda enorme a disposições pequenas. As almas ficam sem sentidos, ficam fracas como a profundidade dos estetas.

15 de setembro de 2005

Espiões

A vida me espia. É isto. O céu está vivendo inteiramente sobre a vida que me habita. O passarinho passa rapidamente incumbido com essa gigantesca receita que é a vida. O vento surge com sua vida outorgada. A palmeira esbanja seu talhe, seu verde recente e seu amarelo que sucumbiu à força da vida que vive por detrás do sol. O som do raio existindo e as cores menos exploradas pela Natureza se pronunciam. A vida é esse feixe de matéria e de essência de que não se sabe. A vida é a força de um roxo-violeta, de um músculo se manifestando, de uma onda anêmica do mar, de uma tempestade instantânea, de um cochicho das aves, de um contorcionismo de macaco. A Vida. A vida. São em nome de que essas tapeações ao Tempo? Para que ir, resolver e concluir tudo? Não se sabe o resultado da infindável equação de existir. Soma-se tudo e chega-se ao Nada?

14 de setembro de 2005

Carolina e Natureza

Não consigo. Tento, tento, tento. O céu muda de moda, o canto do galo cala, os pés se preparam para a volta. O dia se foi. A noite prepara-se a um novo dia. A menarca assalta a vida da mocinha. A vida se cala e eu não chego a conclusões. Não chego a conclusões. Não-chego-a-conclusões. Nãochegoaconclusões.
A Natureza nunca se finda... tantos vermelhos em rosas, em bicos de passarinhos, em bicos de bustos. Vermelho é força. Como o músculo adquirido em um trabalho árduo. Vermelho... minha tara. O vermelho gritando em maçãs, desfilando em rosas, exuberante em bocas libidinosas. O vermelho anêmico pelo cansaço. O vermelho pálido da derradeira fatia de vida. E vem o amarelo, o VERDE para eu poetar sempre mais e mais. A força da vida que vive em tudo. O suor com sua transparência inerente me habitanto agora... O mundo é o que não se sabe. Sabe-se muito até atingir o patamar de plena sabedoria: a de não saber nada.

13 de setembro de 2005

Quantidade de Vida

Não sei o quanto de vida tem para me ser.
Será que ainda há muita vida querendo me viver?
Quando será que meus ouvidos se cansarão de ouvir?
Meus olhos, de ver?
Quando meus sonhos deixarão de sê-los?
Quando?
Quando a vida não mais me for,
será que outras vidas virão em corpos
Com bustos por se fazer?
Quando a vida não mais me for,
De que virão os incipientes seres?
Virão pretos?
Virão ricos?
Virão em época de trabalho árduo da Natureza?
Virão junto às flores?

12 de setembro de 2005

O Mundo em nossas mãos

Com a caneta grito meu mundo mais íntimo. As eloqüências mudas da alma ganham vida. Como o amarelo que fica até certo ponto latente e depois se manifesta em uma rosa à deriva. Como a acústica dos passarinhos que entra na engrenagem de existir.

Mundar

Viver é mundar.
O som é porque meus ouvidos são
A cor é porque meus olhos são.
Não haveria Bach se não houvesse ouvidos.
Não haveria vermelho se não houvesse minha visão.

Vivo? Não.
Mundo.

O mundo me é.
A cada passo o céu se exibe
A cada ida a volta se aproxima
O Tempo é meu sexo infindável.

O Tempo é a libido, o desespero,
A morte, a solidão, a alegria.
Ojeriza. Tesão. Fugacidade.

10 de setembro de 2005

Nascer

Quis nascer em outrora. Para ter o paladar do "não ser". Só sou porque existe em mim uma tal de consciência. E ser consciente da inconsciência é enlouquecedor.

7 de setembro de 2005

Companhia

Demando companhia
Como a estrela demanda a escuridão para cintilar
Como a maçã demanda o vermelho para ser maçã
Como o som demanda trampolim para ser som.

Demando companhia
Como o desespero precisa de grito,
Quebras,
Entrega,
Desejo de morte.

Demando companhia,
Como a necessidade imposta de um espirro.

Demando companhia,
Como a salvação de um "mais lá que cá".

5 de setembro de 2005

Vivendo

A vida é viva
Como o som pronunciado
E, só então, sendo som.
A vida é viva em orquídeas
No contorcionismo dos passarinhos.

A vida é viva na minha tristeza
Nesta casca que é o máximo que conheço
A vida é viva nas casas com cheiro de bolo
O cheiro é vida
E o senti-lo também.

A vida é tudo que, despudoradamente, gruda na alma
E fica latejando e fazendo rir e fazendo crescer
Os troncos do nosso império.

Nosso império de insistências
Nosso império de paixões unilaterais
Nosso império de libidos e "dessabedoria" de tudo.

2 de setembro de 2005

Saudade

Saudade é um abuso à nossa fatia esteta
É reconhecer rosas tênues em grande quantidade de rosas
A saudade é uma moda forte, de inverno
Amores indo bem são modas de verão
Mas o que precede são panos, panos
E os efeitos são sempre
Estéticas monumentais.

Saudade é adrenalina que gruda
E leva a longas caminhadas
E retorna cheia de seqüelas.

Saudade é alienar-se do Mundo
E desvirginar a metafísica
Que vive como espiã da Vida de tudo.